Acad - Memórias - Livro I

Uma chuva, insistente e fria, não para de cair. República, tribo e império derramam sangue em busca de onde fugir. A água procura a todos embalar no eterno dormir. A fome logo fará puir. O sagrado império dos imortais com sua mão irá punir. Sua guerra irá se repetir. O último obstáculo deverá possuir. Agleriana precisa sucumbir. Lembre-se, lembre-se, se quiser no escuro cair, mas para sair é preciso das memórias desistir, se conseguir.

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4. 4 – Viriam

“Bestiais no princípio, logo tomaram uma forma diferente. Abandonaram, como quase todos, a paz do caminho severo. O motivo foi o mesmo, usado antes deles, centenas de vezes. Ambição, desejo de criar e exercer o domínio sobre seu corpo e destino. Não tardou para que essa vontade se estendesse para um domínio sobre outros.”

Livro “Os Outrora Homens de Forlum”, de Kastare de Jasmar.

 

Em seu pálido cavalo Vathany, Balnoc viajou por todo o império. Em suas mãos e nas da filha do imperador sempre esteve um fardo pesado. Cada emissário, carta, ordem, selo, assembleia, audiência.

Preparar uma invasão de tamanha escala não é algo simples. Nenhum exército desta magnitude é visto em mais de cem anos. Comida, lâminas, pontes, navios. Milhares de braços e pernas. Afiam, forjam, carregam. As amarras dos barcos devem ser bem-feitas como as políticas.

A mais desagradável das tarefas é a de falar com os mestres de cada clã. Balnoc é hoje senhor de Viriam, clã do lobo branco em fundo negro. Ele não é puro-sangue, mas um humano transformado. Apenas onze vezes, em milênios de história, tal dádiva foi concedida. Um mestiço que lidera um clã de vampiros. Isso é ainda mais raro.

O antigo mestre do clã entregou o cetro da liderança em suas mãos. Trianom deu a permissão para que ele o transformasse em um imortal. Seus serviços prestados salvaram a dinastia Vorghulis. O único general humano, em toda história de Acad, que jamais perdeu uma batalha. O antigo mestre, Fostur Viriam, assim como Trianom, foi para ele como um pai. Bebeu de seus ensinamentos e foi agraciado com sua generosidade. Fostur, velho vampiro, poderoso, fiel a Trianom, desapareceu anos atrás. Balnoc foi marcado como seu herdeiro e o comando do clã passou para suas mãos.

Os puros-sangues respeitam os mestiços, pois são vampiros de tipo raro e poderoso. Permitem toda e qualquer honraria a eles, mas não podem aceitar que se tornem líderes de um clã. Balnoc atravessou desertos áridos e púnicos, mas pela força de seu caráter, pela boa fortuna de suas decisões cativou as presas negras de quase toda a hierarquia de seu clã. Expurgos foram necessários, obviamente. Esta foi a tarefa que Balnoc executou, uma nova vitória para o invicto, mas ganhar o respeito dos outros clãs é impossível.

Os vampiros se reproduzem lentamente e com dificuldade. Seu alto número de hoje se deve aos muitos séculos de gestações de sangue. Cada vampira demora dez anos para gerar vida, que pode ou não ser bem-sucedida ao final. Os últimos séculos foram abençoados com poucos natimortos.

Os vampiros estão velhos. O mais jovem imortal não possui menos que noventa anos. Não existe sangue novo que faça tremer a ordem vigente. Uma paralisia no tempo pode ser notada. Um distanciamento da realidade que avança a cada ano. A maioria está presa ao passado. O futuro não lhes interessa.

Trianom, apesar de detestado pelos demais clãs, é obedecido. Ele é forte, como nenhum outro antes dele. Uma aberração, mesmo entre os poderosos vampiros.

Trianom mudou tudo. Os vampiros jaziam mais mortos do que vivos. Decadentes. O imperador injetou vida, ideias, novos ordenamentos. A civilização imortal prosperou sob seu domínio, alcançou um patamar jamais sonhado, mas o termino da doce aspiração veio. Voltamos ao passado. O mal purgado pelo imperador criou raízes novas e profundas. A decadência da raça dos imortais é severa. Seu distanciamento da realidade corteja o fatal.

Trianom Vorghulis é um vampiro muito antigo. Antes mesmo de forjarmos as bases de sua religião no Continente Sulário, ele já era idolatrado como deus. Seu clã morava longe, em Ilha Nova, a metade norte de uma ínsula no extremo leste. Lá, os povos humanos o veneravam como salvador e filho de deus. Três mil anos adentro na nevoa do passado.

Balnoc segue sua viagem acompanhado por seis vampiros. Todos guerreiros de primeira linha, armados e agraciados como cavaleiros da lua. Traja, assim como os demais vampiros, uma armadura completa. Sua couraça é de um branco opaco, com o símbolo do lobo em cor negra gravada em seu ombro esquerdo. O grosso vidro da viseira de sua armadura é de cor vermelha. Seus homens vestem igual defesa, apenas invertida pelas cores. Onde havia branco, agora é negro, onde havia negro, agora é branco.

Acompanhando a comitiva seguem cinco servos humanos. Calças marrons e blusões verde escuros. Levam cargas leves em suas carroças. Sacolas de couro, alguns baús. Mantimentos para seus mestres.

O sol de meio dia está oculto pelas nuvens da chuva que não cessa. Mesmo assim, a claridade é suficiente para queimar e matar um vampiro. A grande fraqueza desta raça de grandes talentos. Os únicos que vivem para sempre. A única forma de se eliminar um vampiro é a partir de uma morte violenta, mas esta não é fácil de obter. Sua carne regenera em assombrosa velocidade. Nem marca ou cicatriz restará ao final.

Cavalgam sobre a estrada de pedra das terras de Losh. Muito bem-feita. A última vez que precisou de reparos foi há cento e dez anos. Muitos vilarejos e cidades são cortados pela estrada.

Os campos estão vazios, pois as colheitas foram terminadas. Os camponeses desfrutam do descanso e paz depois do árduo trabalho. Nas cidades feitas de pedra, a vida, apesar das chuvas, continua. Os mercados protegidos por tendas estão apinhados. O estandarte do clã Velianto se faz presente. Triangulo branco sobre um fundo amarelo. Rhaznur é o senhor aqui.

Balnoc o deixou por último. Rhaznur é difícil de lidar. Não é uma cobra pegajosa como alguns dos demais, muito pelo contrário. Seu olhar inspira medo. Balnoc não consegue encarar seus olhos por muito tempo. Rígido, justo, cruel. Mas é sua ancestralidade que o deixa distante do mundo, ele é o vampiro mais antigo de que se tem notícia. Ele possui mais de seis mil anos. Não resta nenhum outro vampiro vivo da velha casta. Nem mesmo Trianom pode ser considerado um. O imperador é apenas filho de um.

Muitas guerras consumiram as vidas desses ancestrais. Muitos clãs deixaram de existir. Apenas os mais jovens sobreviveram. A mediocridade de uma parte da elite vampira é história tão antiga como atual. Incontáveis guerras diminuíram e enfraqueceram a raça. Mesmo na era de Trianom, os clãs se revoltaram algumas vezes. Balnoc salvou Sariana Vorghulis de um cerco há mais de quatrocentos anos. O clã responsável por essa revolta não mais existe. Um aviso sombrio e violento para os demais. Até hoje nenhum deles ousou levantar a mão novamente. O Clã Vorlhas pagou o preço. Deixados nus em pátio aberto até o amanhecer. Queimados vivos ao sol.

Rhaznur, como os livros comentam, segue fielmente a linha dos mestres imortais de outrora. Isolado em seu castelo. Saindo uma ou duas vezes por ano, apenas à noite, para receber as honrarias de seu povo e vassalos. Seus soldados humanos podem ser vistos em toda parte, mas sua família, servos pessoais e cavaleiros estão enclausurados com ele no castelo. Alguns saem à noite pelas ruas da vasta capital batizada de Velsathar.

O castelo onde vive é quase tão antigo quanto seu mestre. É o maior do sul, maior até mesmo que Volimiria. Embora não seja uma fortaleza tão poderosa, é muito belo. Construções em mármore cinza e negro, góticas e barrocas ao mesmo tempo. Bela ao melhor estilo macabro. É uma construção vasta, idealizada para criar uma cidade dentro de suas muralhas. Um grande complexo, uma morada proibida, que possa trazer deleite aos imortais em seu isolamento. Fontes, gazebos, bibliotecas, salas de armas, armazéns, lagos termais, florestas, vastos salões de jogos, jardins e teatros.

As estátuas de mármore vermelho estão por toda parte. Cada uma delas com uma placa de bronze aos seus pés. Patriarcas e matriarcas da raça vampira, sua memória é preservada aqui. Livros e registros imortais foram acumulados com zelo pelo mestre do castelo. A notícia de um novo e raro achado faz chover ouro e pedras preciosas como pagamento. Um mundo dentro de outro. O nome deste casulo do sul é Jardim Vermelho.

Um décimo dos trabalhadores da capital é servo do intricado castelo. Mantê-lo em funcionamento é uma tarefa árdua. Na capital moram mais cem mil pessoas. Em Jardim Vermelho moram não mais que cinco mil vampiros.

Balnoc atravessa a cidade de ponta a ponta, na mesma estrada. Apenas ela o levará a seu destino. O fim desta estrada está nas portas do Jardim Vermelho. Chega ao cair da noite. Todos os imortais retiram seus capacetes. Alívio. A clausura da armadura é angustiante. A luz do dia é cruel com os vampiros. Morte ou gaiola. Balnoc mal se lembra de como é andar sob a luz o sol. Memórias que se apagam com tempo.

A brisa fria é trazida pela fina chuva. Os servos comem castanhas e carne seca, conversando alegremente.

– Chazle, vá e nos anuncie. – ordena Balnoc a seu tenente.

O portão do castelo é como seu nome. Vermelho. Completamente liso e polido como uma ombreira de cavaleiro. O tenente bate nele com força, um eco metálico ruge e o portão começa seu espetáculo. Os servos ficam boquiabertos. O portão se desfaz em líquido, como sangue, escorrendo por grades que ficam abaixo de sua estrutura. Mas nenhuma gota de seu vermelho permanece. Nenhuma mancha. Todos atravessam. Então ele volta, como uma chuva que cai ao contrário. Em instantes, ele é um sólido portão novamente.

Entram em um corredor abaixo das muralhas. Este os leva para um salão fechado. Os servos aguardarão aqui. Tochas são mantidas nessa área. Servos do Jardim vem de encontro a eles. Seus cavalos são levados, taças de sangue são oferecidas e vinho verde aos humanos.

Balnoc deixa os servos para trás e segue com seus cavaleiros para dentro do Jardim. Daqui em diante, não existem luzes ou tochas. Os vampiros não precisam disso para ver.

Tudo está como da última vez que veio. Plantas aparadas, pátios limpos. Uma construção ancestral zelosamente mantida com aspecto de nova.

Um imortal vem de encontro a eles. Cabelo branco, olhos totalmente em um forte e escuro amarelo queimado, sem íris ou pupila, deixam claro sua herança. Ele traja um manto amarelo do pescoço até os calcanhares.

– Sejam bem-vindos, mestre Balnoc e irmãos imortais. Meu senhor os aguarda logo à frente, no gazebo.

Balnoc agradece por pelo menos isso. Em embaixada passada, teve de andar quilômetros até o local de encontro. Tempo poupado.

Um gazebo feito de madeira branca da famosa árvore Mantobranco. Em formato de cristal. Piso de mármore cinza. Seu teto está decorado com animais esculpidos em cada uma de suas pontas. Dentro da estrutura, sentados em almofadas altas e negras, o eterno herdeiro, Heleriam, filho mais velho de Rhaznur. Dois mil anos à sombra de seu pai.

Outros três vampiros também estão sentados. Jacrata, sua capitã. Sazlat, sábio e mestre das bibliotecas. Luarzna, mestra do sangue. Todos com seus cabelos brancos e olhos amarelos. Os trajes também foram tocados pela cor do sol. Alguma festividade ou ritual será em breve realizado.

Em pé, como sempre, está Rhaznur. Seus olhos percorrem constantemente o ambiente em que se encontra. Eternamente desconfiado. Ao velho estilo dos sedentos, uma capa negra a cobrir seus ombros. Armadura leve, de um amarelo velho, reside abaixo do escuro tecido.

Os vampiros não envelhecem, mas suas feições se degeneram de acordo com o estado da mente. Sua face é seca, porém longa e nobre. Não é como o jovial rosto de Trianom. Sua face é como a de um homem de trinta e cinco anos, castigado e temperado pelas dificuldades.

Balnoc é um igual, mestre de clã, mas sempre custa a lembrar de que não deve se ajoelhar em sua presença. Quase cometeu esta gafe anteriormente.

Rhaznur não lhe dá tempo para falar:

– Quantos de meus soldados devo enviar para que a punição do imperador não caia sobre meu clã? Diga-me o mínimo, que não me faça parecer mesquinho perante os demais.

Não existe criatura vivente mais direta.

– Boa noite, Rhaznur. – brincou Balnoc.

O velho vampiro apenas o olhou, sem emoção ou expressão, esperando pela resposta.

– Não coloca confiança na nossa vitória? Por que poupar forças? Todos estão marchando para o norte.

– Tolo. Tu e o imperador são tolos. Sempre expandindo as fronteiras para lugares distantes. Não sabes que a sina de todo império é o inevitável colapso e ruína? Cair esmagado pelo peso de seu próprio tamanho.

– O momento de atacar é agora. Eles nunca estiveram tão fracos e nós tão fortes. – replicou Balnoc com força e autoridade em sua voz.

– Antevejo grandes desgraças...

– Você sempre antevê desgraças, em qualquer dia, em qualquer ano. – interrompeu grosseiramente a fala do velho vampiro.

Rhaznur apertou o olho direito em sinal de irritação. Balnoc se arrependeu de tê-lo atiçado. A sombra do velho imortal se tornou longa, o medo faz o sangue do mestiço pulsar rápido. Sua presença se tornou insuportável, angustiante, terrível de contemplar. Forçou-se a permanecer calmo. Por instinto, quase sacou a espada, mas, de súbito, a ameaça cessou.

– Você sabia que os clãs se formaram por uma razão muito especial? – Rhaznur em uma voz calma.

Balnoc não soube a resposta.

– Eles foram fundados para preservar o sangue de cada clã. Uma herança.

– Do que isso importa? – impaciente, Balnoc revida.

– Os clãs possuem suas peculiaridades. Talentos. Mas não apenas isso. Se não fossemos uma raça recheada de arrogância, poderíamos alcançar um novo patamar. Sair desta casca incompleta. A imortalidade sempre nos fez mal. Privados da ânsia pela vida. Trianom tenta escapar disso, mas ele não faz ideia como. Eu lhe avisei, eu lhe instruí, mas seus ouvidos são surdos para a minha voz.

Balnoc tenta disfarçar a total incompreensão com silêncio. O velho continua.

– A nossa habilidade, o talento do clã Velianto é sobreviver. Sempre. Não temos interesse nas terras novas que serão conquistadas, estamos satisfeitos com estas. Então, eu pergunto novamente, quantos soldados devo fornecer para que Trianom não se enfureça?

– Três quintos de suas forças. Vampiros e homens.

Rhaznur olha para seus silenciosos companheiros. Estes se limitam a fazer anotações em seus pequenos livros. O mestre se vira para Balnoc e faz uma reverência.

– Ótimo. Aguardamos-lhe na fronteira norte de Craio dentro de duas semanas. – Balnoc não resistiu. Teve de perguntar. – Se me permitem, qual o motivo das roupas amarelas?

Rhaznur dispensa os demais vampiros e é deixado só com Balnoc. O velho vira as costas e ergue a cabeça para olhar a noite nublada. Em um tom de voz que fez a espinha de Balnoc congelar, ele fala:

– Queremos mudar. Queremos atravessar os portões para um novo salão. Eu descobri a forma de fazê-lo. Nós seremos os primeiros.

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