Acad - Memórias - Livro I

Uma chuva, insistente e fria, não para de cair. República, tribo e império derramam sangue em busca de onde fugir. A água procura a todos embalar no eterno dormir. A fome logo fará puir. O sagrado império dos imortais com sua mão irá punir. Sua guerra irá se repetir. O último obstáculo deverá possuir. Agleriana precisa sucumbir. Lembre-se, lembre-se, se quiser no escuro cair, mas para sair é preciso das memórias desistir, se conseguir.

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3. 3 – Ordem de Alosys

“Costurar um acordo como este foi uma obra cujo mérito deveria ser creditado ao tempo. Este foi o grande maestro. As propostas feitas à Ilha Velha visavam por um fim definitivo ao conflito, porém elas confrontavam costumes, superstições antigas deste povo. Entretanto, como em tudo na vida, a realidade material foi imperiosa e tratou por convencer os membros mais jovens deste povo na direção do tratado de paz. Uma guerra de cento e vinte anos foi encerrada.”

Arquivo dos cristais sonoros “Concelhos e Diplomatas” de Hashnam, o elfo negro.

 

– Esperem aqui. – disse Hashnam, embaixador da Ordem de Alosys, aos seis elfos negros que o acompanhavam, três do sexo masculino e três do feminino.

No escuro corredor por onde passava, sua pele cinza e armadura negra se misturam com as sombras. Em sua ombreira feita de prata, o símbolo de sua ordem, em alto relevo uma foice e cimitarra de cor púrpura, cruzadas em sinal de paz. A escuridão nunca é longa, não na República Agleriana, ultima remanescente de uma civilização evoluída, poderosa e morta. Hoje é uma nação humana, mas em um passado não tão distante esta era conhecida como a Aliança Agleriana, onde incontáveis raças de Acad viviam em união. O novo mundo criado pela revolução brilhou forte nesta cidade.

Pouco a pouco a luz de vitrais ilumina o elfo. A luminescência conduz até um grande salão circular sem mesas ou cadeiras, mas com dez estreitas bancadas em circulo, prontas para receber algum pesado livro. Na sala estavam cinco mulheres humanas, conversando vigorosamente em seu dialeto próprio. Uma delas toma a iniciativa e parte em direção ao recém-chegado. A língua comum é usada por ela com perfeição.

– Hashnam, seja bem-vindo. Seu conselho é muito aguardado. – assim falou Alanany, Cônsul e regente de Agleriana. Há mais de cinco anos no poder, tal fato traria extrema consternação na antiga aliança, onde cargos desta natureza apenas poderiam ser ocupados por um ano. Hoje, isso é prática comum, pois a república só é Agleriana no nome. Talvez ainda haja esperança de recuperar aqui o que foi perdido, mas não muita. A queda foi grande demais. Uma sociedade avançada em sabedoria e engenho. Abundância material. Uma nova consciência. O domínio dos servos. Tudo perdido agora.

A Cônsul trajava um leve manto azul de viva cor, decorado com insígnias consulares. Em seu ombro esquerdo, fora do manto, uma ombreira com o símbolo da república, a estrela branca. Sua arma, sempre à cintura, uma maça dourada.

– Sim, Cônsul, trago muitas palavras e ações comigo. – assim disse ao fazer uma breve reverência. – Serei o mais direto possível, pois creio que os meus pensamentos acompanhem os de vossa eminencia. Trianom Vorghulis acordou, por esta razão a convocação dos exércitos imortais e reinos vassalos foi anunciada. O momento de atacar a república finalmente chegou. Todos os obstáculos foram removidos. Sem Trianom, jamais teriam coragem de atacar a República Agleriana diretamente, sua presença desequilibra a balança. Os vampiros destruíram a liberdade de vários reinos e povos humanos, transformando em pó os esforços de nossa ordem em costurar a paz e forjar uma nova aliança. Décadas de trabalho foram perdidas, juntamente com as vidas que foram ceifadas.

A cada frase de Hashnam, mais pessoas de importância e poder da República adentraram na sala iluminada pelos vitrais. Estas figuras burocráticas e oportunistas em nada lembram os revolucionários que criaram um passado tão glorioso.  Mas mesmo entre eles, ainda restam alguns de valor.

Uma memória ilumina o salão. Cada vitral traz a cena de realizações da antiga Aliança Agleriana. Ao norte, vitrais da união, onde cenas pintadas em arte e luz mostram dezenas de raças unidas em paz e aliança. Ao sul, vitrais da liberdade, livres dos mestres das moedas e servidão, todos trabalhavam, se assim desejassem, apenas em prol da prosperidade e glória de Agleriana. Ao leste, vitrais da sabedoria, livros e conhecimento foram seu maior orgulho e na aliança a todos foi ofertado o dom da leitura e escrita. Ao oeste, vitrais da compaixão, pois todos que fossem doentes ou desamparados iriam encontrar a arte da cura e o acolhimento.

Nada disso existe mais, em especial os vitrais do sul, pois reinos e mestres voltaram a escravizar os servos na busca pela acumulação de fortunas sem sentido. A aliança morreu, mas os vitrais preservam estas ideias. Ideias são imortais. Enquanto forem lembradas, irão viver.

– O ataque virá em breve. – Continuou o elfo negro.

– Nós estamos preparados! Nossos exércitos são poderosos e irão esmagar os demônios de sangue! – falou um importante magistrado da república, interrompendo o elfo negro.

– Vocês irão todos morrer em sessenta dias, a contar da próxima lua cheia, a menos que um milagre ocorra. – morbidamente afirmou Hashnam. A assembleia tomou aparência de um velório, onde os convidados passam a lamentar não um morto, mas uma viva Cônsul. Todos os olhares caíram sobre a orgulhosa Alanany.

– Temos trinta mil soldados, Hashnam. Nossa cidade é uma fortaleza ancestral de grande poder. Você não é conhecido por exagerar ou mentir, mas por que fala imprudentemente acerca da nossa morte? – Alanany conseguiu retirar os olhares de si e transferir todos, menos o de uma mulher de vestes douradas, de volta para Hashnam.

– As profundezas da terra são nossas aliadas, em toda parte os veios correm, por caminhos que ninguém conhece. Nossos companheiros relataram a reunião macabra. Árvores cortadas para a construção de grandes máquinas de guerra, colheitas empacotadas para uma jornada de milhares de bocas. Eles possuem um exército de quinhentos mil vampiros, homens e outros povos marchando em sua direção.

– Mentira! Isso não é possível! – bradou não apenas um, mas vários senhores Aglerianos. – O silêncio mórbido do salão foi substituído pelos murmúrios do medo. Um som angustiante para os ouvidos.

– Eles esvaziaram cada um dos reinos que controlam e mais, pois mercenários pagos foram convocados de regiões distantes. Por fim, dividirão Agleriana, dando assim recompensa para aqueles que buscam satisfazer sua ganância. Mesmo submetidos, os reinos humanos colocariam obstáculo a mais uma guerra sem espólios. A promessa da repartição destas terras uniu com elos de ferro a hoste que marcha das frias terras do sul.

A máscara do terror passou a ser usada por todos da assembleia, menos por Alanany e a mulher de dourado. Muitos choravam, outros correram em loucura para fora da assembleia. As notícias ruins voarão rápido. As palavras proferidas por Hashnam tem peso, pois poucos possuem maior valor. Um arauto dos fatos e nada mais.

– O que são as palavras de poder Hashnam, se não um milagre? – falou em voz retumbante a Sacerdotisa do Sol, Orthana, líder dos conjuradores, outra relíquia deformada pelo tempo, datada da época da aliança.

– As palavras de poder são capazes de grandes realizações, mas as forças reunidas contra a república são grandes demais. Os magos são poucos...

– Nós acharemos uma forma. – Hashnam mais uma vez foi interrompido – Vasculharemos todos os escritos e glifos antigos que estão em nosso poder. Lá reside muito que ainda não sabemos. Textos não lidos, palavras não traduzidas. A antiga Aliança Agleriana desvendou grandes sabedorias que podem virar o rumo dessa guerra. Eu lhe prometo Cônsul, prometo a todos aqui presentes, nós iremos achar uma saída. A cidade não cairá em mãos imortais.

As palavras da sacerdotisa pouco serviram para mudar o espírito da assembleia. Seus olhos febris são as testemunhas da dedicação despejada em árduos trabalhos da mente. A sacerdotisa, embora impetuosa, parece à beira da exaustão.

– Elfo negro, agora estamos cientes de nosso cruel destino. O que propõe? – perguntou a Cônsul.

– Fugir e levar todo o seu povo para o ensolarado norte.

– Não faremos isso. Nós lutaremos, resistiremos e morreremos se for preciso, mas não há caminho para o norte que possamos trilhar. Aqui é a nossa casa, nossa morada por dois mil anos. Não apenas por isso. A sabedoria herdada da Aliança Agleriana está sob nossos cuidados, grafada aqui em pedra e papel. Sem esses conhecimentos, que jamais poderiam ser transportados em totalidade para o norte, a esperança do renascer da antiga aliança estará morta para sempre. Esse seria um mundo onde o viver estaria para sempre amaldiçoado. Mandaremos as crianças, velhos e aqueles que não podem portar armas para o norte. Os que podem lutar ficarão aqui e eu estarei na muralha ao seu lado. Lutaremos para que mais uma geração possa nascer dentro destes muros e talvez esta, uma geração mais sábia que a nossa, possa fazer renascer a glória da revolução.

Mais uma vez o silêncio tomou a assembleia, mas mais uma vez de um tipo diferente, pois orgulho e admiração quebraram a máscara do terror. Alanany é Cônsul de uma república, mas nada se sabe sobre sua origem. O fato é que suas palavras e feitos a todos cativam. Vinda do nada, ela se elevou ao mais alto posto. A melhor líder em décadas. Seus antecessores entregaram a herança de uma cidade arruinada. A restauração de seu domínio evitou a morte de Agleriana e promoveu um limitado renascimento.

– A missão da Ordem de Alosys é ajudar os povos em necessidade. – Falou em voz baixa Hashnam. – Se é assim. – continuou, alterando o tom de voz que antecede um importante pronunciamento – Iremos ajudá-los, traremos o exército dos elfos negros para defender a sua cidade. – Ao falar, ergueu seu braço em direção a uma janela. De sua mão brotou, feita de cor púrpura, uma ave sem olhos, com pálido brilho que voou para fora de assembleia.

– A mensagem logo chegará. A senhora Alosys, líder dos elfos negros, em pessoa virá, pois tem uma dívida a cobrar Trianom. Ele que tenha cuidado, pois poderá sofrer novamente do destino reservado por ela no último confronto. Nossa líder o derrotou uma vez e poderá fazê-lo de novo. 

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