Acad - Memórias - Livro I

Uma chuva, insistente e fria, não para de cair. República, tribo e império derramam sangue em busca de onde fugir. A água procura a todos embalar no eterno dormir. A fome logo fará puir. O sagrado império dos imortais com sua mão irá punir. Sua guerra irá se repetir. O último obstáculo deverá possuir. Agleriana precisa sucumbir. Lembre-se, lembre-se, se quiser no escuro cair, mas para sair é preciso das memórias desistir, se conseguir.

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2. 2 – Vorghulis

“Seguir o eterno é seguir o paraíso em terra. O eterno foi abençoado por Deus acima de todos os outros. Ao eterno foi dado o bracelete, o diadema e a luz. Ao eterno repousa a responsabilidade. Apenas Deus e seus legítimos filhos são eternos.”

Trecho descartado do livro “Os Caminhos de Trianom”. Descarte autorizado pelo conselho central do projeto religioso. Descarte número 238.

 

– Temos Sother e Bargyam. Meriath, Monteouro, Quantum, Belagua, Rivini, Sother e Bargyam... mas não Agleriana pai. – disse Sariana Vorghulis, sacerdotisa mor, com olhar firme e postura impecável, diante de seu pai que acabara de acordar. Por três anos e quinze noites ele dormiu o sono dos imortais.    

– Um dia serão oito reinos e não sete minha amada filha, tenhamos paciência, o tempo está sempre do nosso lado. Sother e Bargyam, nossos novos aliados, como se uniram à nossa sagrada causa? – Trianom falou enquanto caminhava acompanhado por dez asseclas, todos trajados de branco e prata, em intensa atividade, limpando seu senhor com zeloso cuidado de toda a terra e teias de aranha que adquiriu no sagrado repouso. Todos de branco, menos Trianom e Sariana, pois o preto é a cor de sua alta casta, imortais e sagrados vampiros.

– Sother passou para o nosso lado no inicio, há cerca de dois anos. Nossa prata deu apoio à ascensão de uma nova regência. O velho rei está morto, o novo assassinou toda a aristocracia e mestres das moedas opositores, sua bandeira é nossa. Não foi uma revolução, mas boa parte dos mestres opulentos encontrou o fim. O novo rei entregou muitas terras e galpões de artefatos nas mãos dos servos. Um feliz achado. A Guerra do Lago Bargyam, assim ela é chamada hoje, foi longa e desgastante, a Ordem de Alosys e a República Agleriana interferiram, mas as forças deles acabaram e as nossas ainda estavam longe de terminar. Milhares morreram.  Empurramos os Aglerianos de volta para suas terras, mas fracassamos em derrotá-los lá.

– Minha amada filha, sua regência, em meu tempo de ausência, foi sublime. – os asseclas terminaram de vesti-lo com túnica preta marcada de leves detalhes em cor vinho.

Apesar de serem pai e filha, não é possível notar diferença de idade em seus jovens rostos. Sariana, com cabeça raspada repleta de escritos tatuados em vermelho. Traja manto sacerdotal negro com o símbolo Vorghulis no peitoral, a cruz eclipse. Continuou a seguir seu pai, lado a lado, pelo escuro corredor da catedral.

Mil metros de corredor escuro incrustado na montanha e depois mais oitocentos metros de um teto curvo com ricos detalhes em alto relevo. Cinzas paredes de densa pedra talhada. A cada cinquenta passos, uma chama pálida, quase branca, zelosamente mantida acesa pelos homens de branco. Esse é o acesso das tumbas, dentro de Volimiria, a monstruosa fortaleza, covil dos sedentos por sangue, onde os mestres dos homens repousam. Trianom Vorghulis lutou e tombou em uma guerra passada, seus ferimentos foram profundos, mas ele é um Deus, assim dizem os seus fiéis, e deuses são eternos.

– Os mestres de cada clã enviaram presentes em comemoração ao seu retorno, mas nenhum veio hoje. – disse Sariana, parada ante ao umbral da imensa sacada. O ruído de milhares de vozes abafou totalmente sua voz, mas não para os ouvidos de um vampiro.

– Eles esperavam que eu morresse. É admirável que ainda tenham essa esperança após tanto tempo. – o entardecer foi chegando ao fim e a noite tomou o céu – É hora, amada filha. Algo mais? – perguntou Trianom, prestes a entrar na sacada, onde vinte metros abaixo esperavam dez mil homens e mulheres, fiéis de um Deus vivo, imortal e senhor de sete reinos humanos. Clamando em vozes fanáticas e preces silenciosas, em danças ritualísticas ou em autoflagelação por aquele que é o senhor absoluto de dois terços da raça dos homens.

– Sim. – disse Sariana – Monteouro enviou mensagens. Talbarth Lorás está alarmado acerca de algo atípico. Cinco semanas de uma chuva não cessa de cair. Eles dizem não saber por que isso está acontecendo. Um quinto do reino está alagado.

– Não vejo a importância de chuvas atípicas em regiões remotas. – divagou Trianom já quase entrando na sacada iluminada por enormes tochas de chama branca.

– Chuvas caem a mais de quatro semanas em Quantum, Belagua e Rivini. – Sariana começou a andar, apontou com sua mão pálida na direção de uma das finas e altas janelas emolduradas de vermelho. Nuvens negras no leste. Relâmpagos a cobrir o céu. – A chuva, meu pai, marcha também em nossa direção.

 

 

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