Acad - Memórias - Livro I

Uma chuva, insistente e fria, não para de cair. República, tribo e império derramam sangue em busca de onde fugir. A água procura a todos embalar no eterno dormir. A fome logo fará puir. O sagrado império dos imortais com sua mão irá punir. Sua guerra irá se repetir. O último obstáculo deverá possuir. Agleriana precisa sucumbir. Lembre-se, lembre-se, se quiser no escuro cair, mas para sair é preciso das memórias desistir, se conseguir.

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1. 1 – Sábios e seus estudos

“Expor a verdade aos castigados é abrir-lhes o caminho da rebelião. Muitas eras agora jazem encerradas. Evoluímos para um patamar impensado ou sonhado. O desenvolvimento da alquimia nos dá a possibilidade de enterrar, para sempre, a existência do dominador e do servo.”

Trecho introdutório do livro “Pensamentos do Incidente de Odraram”, de L. Trask

 

Não há mais estradas ao sul de Ponta do Corvo. Somente lama, pedras, musgo, árvores apodrecidas, vento forte e frio. Um pântano de água salgada. Nenhuma terra de valor. Mar a leste, oeste e sul.

Três guias seguem à frente. Orcs de pele azul escura. Dentes afiados e olhos negros. Portam ancestrais facas ornamentadas de grande beleza. Suas roupas de couro foram feitas para estes terrenos, diferente das roupas de tecido dos demais. Os Orcs são, segundo certas línguas do sul, um povo de costumes estranhos. A verdade é que não são mais ou menos violentos que qualquer outro. Em alguns aspectos, são ainda mais civilizados.

Eram, no passado, uma das mais avançadas civilizações de Acad. Cultos e sofisticados. A raça dos homens lhe retirou tudo. Bárbaros e violentos, destruíram e queimaram suas belas cidades à beira do mar Shiat. Seu povo diminuiu, perdeu sua fortuna, literatura e, com ela, boa parte de sua elegância. Isso foi há muito tempo. Mas nem tudo se perdeu, eles mantêm ainda nobres tradições de outrora. Não escravizam os seus e nem a ninguém fora de sua raça. Não se rendem à cobiça. Não praticam a usura. Levam uma vida de orgulhosa simplicidade individual, mas de farta generosidade coletiva. Infelizmente, suas terras de hoje não ajudam e nem suas contendas internas. Estão presos e condenados a ser apenas uma sombra do que foram.

Junto a seus guias, seis cavaleiros de Monteouro, mulheres e homens. Um punho dourado em fundo vermelho, símbolo de sua nação, feito de metal esmaltado preso ao ombro esquerdo. Trajados levemente. Amaduras e armas simples. Outros seis homens, servos, levavam mantimentos e equipamentos em três laraxes, lagartos vermelhos de bico negro do dobro do tamanho de um cavalo. Respiram profundamente através de grandes buracos em suas laterais. Excelentes para levar carga pesada. Abundantes na região. Dóceis apesar do aspecto.

À frente de todos, vinham quatro montados em cavalos de renome. Caríssimos cavalos Vathany. Pálidas criaturas de cabelos translúcidos transparentes e olhos brancos. Não possuem boca, pois se alimentam de luz. Nunca cansam. Nunca dormem. 

Dois homens velhos de pele oliva-avermelhada e cabelos lisos acompanhados de uma jovem mulher negra. Todos com túnicas similares. Vestes verde escuras, grossas e quentes. Detalhes bordados em couro nas mangas e colarinho. Os lábios inferiores são pintados em uma grossa tinta cinza. Seus rostos estão alegres, pois seu destino está próximo.

Uma última viajante acompanha a comitiva. Completamente coberta por armadura negra. Na região dos olhos, um vidro grosso e escuro tapa sua vista. Em seu peito e costas estão duas faixas horizontais feitas em tecido de excelente qualidade. Três estrelas. Uma em fundo negro, outra em vermelho, a última e maior entre as duas cores. Uma vampira do clã Vhulinis.

Pela manhã e tarde, viaja coberta. Ao cair da noite, retira sua casca para mostrar sua pálida pele. Cabelos ruivos trançados em várias faixas. Veias negras saltadas e pulsantes em sua testa. Semblante calmo e desinteressado. Olhos sem pupila ou íris, de branco levemente amarelado. Nas pontas de seus dedos, garras se confundem com uma grosseira pele. Dentes na cor negra, quatro ao todo, se destacam em sua boca. Presas, duas acima e duas abaixo. Seu aspecto é comum na raça dos vampiros, uma estranha variação da raça dos homens.

Os Orcs de boa vontade ofereceram guias, mesmo sem entender o propósito de uma viagem para onde não existe nada. Sua curiosidade é grande por tão estúpida excursão.

A viagem é lenta. A lama não ajuda.

Conversaram sobre tudo que foi possível. Passar o tempo. Mas não resta nenhum assunto, por mais mínimo que seja. Desde o servo até o sábio. Tédio e lama. Dias inúteis.

Após dois meses, um choque. O enfado sofrido lhes recompensou.

Uma pequena ponta de mármore, que não chega a um metro. A imortal olhou com desconfiança. Poderia ser outra empreitada inútil. Mais uma pedra, que nada significa no meio da lama. Como ela deseja estar em outro lugar. Outra missão, tarefa ou dever. Mas não aqui. Dessa vez estava enganada.

Uma catedral, muito antiga, soterrada por séculos de lama, terra e plantas mortas.

 – Não posso acreditar. Minha esperança já havia findado. – disse um velho homem em seu manto verde.

Os cavaleiros abriram um buraco na tampa de pedra. Um vão negro sem luz se abriu. A vampira e os três sábios foram descidos por cordas pelos demais. Cada um deles leva consigo uma lâmpada gorthyes de luz branca. Maravilhosamente útil arte da alquimia. Sua luz é dez vezes mais forte que a de uma tocha. Uma vez acessa, sua pedra interior, pode iluminar durante um ano.

 – O que acharmos aqui deverá ficar fora do conhecimento dos outros clãs. Morrerão se descumprir estas palavras. – a vampira retirou com alivio seu elmo – Vocês conhecem o pacto.

Os três acenam com a cabeça. Já trabalharam assim no passado. Enquanto suas bocas não se abrirem de forma indevida, nada têm a temer.

Quarenta e um metros até chegar ao chão. O lugar enterrado não foi maculado com a sujeira que lhe encobre.  Um pátio enorme se abriu perante luz. O lugar por onde entraram é a mais externa ponta de seu telhado. Um pátio circular grande o bastante para acomodar mais de duzentas pessoas. Muito pó e algumas aranhas de desagradável tamanho. Nada mais a não ser por uma escada e uma grossa porta, de pedra de um tipo desconhecido, a bloquear o que certamente seria uma onda inesgotável de lama. Suas arestas deixam passar um pouco do conteúdo podre do pântano. A antiga entrada.

Comida, cobertores, livros e ferramentas foram descidas pelo topo. Três dos servos foram enviados de volta com os guias para buscar mais mantimentos. Os estudos irão demorar.

Quatro dias passaram. Cada andar analisado com cuidado, mas vazio como o anterior. A exaustão já lhes cobra um preço pesado.

O quinto dia lhes trouxe alguma recompensa. O quadragésimo primeiro salão. Quatorze vezes maior que os anteriores. O último salão.

Suas paredes circulares repletas de escritos. Liturgias, cânticos, orações, parábolas, registros históricos e anátemas. O Dialeto é uma mistura confusa de palavras dos homens e elfos. Muitas outras palavras não são possíveis de decifrar.

No centro do salão, estão rasurados na pedra, em sulcos profundos feitos com violência, os dizeres “Lembrem-se de mim”. Uma única vez tal escrito aparece. 

Dias se passam deixando claros os conteúdos do templo arruinado.

 – Tantos meses para nada. Achamos os resquícios de uma tola religião qualquer. Esquecida por seus próprios fiéis. – a vampira, desolada, suspirou em desalento.

– Minha senhora. – disse a sábia mulher de pele negra e bela – Estes achados são uma grande descoberta. A história e sabedoria de Acad ganharão muito em saber mais sobre estas culturas passadas. Isso entrará como uma grande descoberta nos livros de arqueologia. Este povo é totalmente desconhecido e proveniente de um período muito antigo.

Nada disso foi suficiente para acalmar a imortal. Sua missão ali não visa engrandecer os estudos do passado. Sua missão fracassou, mais uma vez.

Outro mês se foi. Os sábios em sua felicidade por estudar uma nova civilização acabaram por cansar a vampira. Esta voltou à superfície. Nada de útil foi encontrado após pesquisas minuciosas. Os sábios estão imersos nas falsas palavras divinas. Um deles chegou ao ponto de se tornar um patético admirador desta morta religião. Sempre sorrindo e relatando as enfadonhas qualidades do maldito culto.

 – Já passamos tempo demais aqui. – disse aos cavaleiros com sua voz abafada pela armadura – Irei buscá-los e vamos embora. Irei demorar três horas para descer todas as escadas e outras seis para voltar com todos eles. Descansem até meu retorno.

Uma fina chuva começou a cair. Uma neblina surge no horizonte. O tempo esfriou. Olhar o pântano agora nunca foi tão melancólico.

Assim começou sua longa e monótona descida. Algo lhe chamou a atenção. No quarto andar notou algo que não havia antes. Ou foi apenas a distração que lhe bloqueou a visão no passado? “Lembrem-se de mim” escrito três vezes no chão.

A dúvida se dissipou a cada andar. Mais e mais dizeres. No nono andar, oito escritos. No décimo, nove. Como é possível?

Algo está errado. A imortal para por alguns instantes e aciona o talento de sua raça. Cada perna e braço aumenta rapidamente em músculo e potência. Segundos depois, a metamorfose está completa e seu poder elevado. Iniciou uma descida em grande velocidade, cada andar atravessado como que por uma sombra, sem rosto, sem som.

O último andar lhe confirmou o temor. Os sábios sumiram. Não, não todos. Um deles, um dos velhos, jaz morto ao chão. Suas pernas em carne viva e osso. Queimadas como que por óleo quente. Ela empunha seu machado de face dupla. O odor é estranho. 

Nas paredes, os escritos sangram óleo negro, de cheiro podre como um cadáver. Lentamente. “Lembrem-se de mim”.

Ajoelhou-se perante o único corpo. Seu rosto está em paz. Morreu sem dor. Mas como? Em sua mão, uma cópia em papel dos escritos religiosos pelos quais se afeiçoou.

Ela não está só. Alguém mais se encontra em sua presença. Um som. Tão leve. Um sussurro. Quem? O que é dito? Medo. Sua boca treme. Olha mas não consegue encontrar.

Sons de pedra quebrando. Rachaduras nas paredes. Profundas. No teto. Um som forte. Baques profundos. Tum, tum, tum. Os andares entram em colapso. A torre está desmoronando. Ela não teve tempo. Seu fim chegou antes que alcançasse a escada. Soterrada e dilacerada por mil anos de pedra e entulho.

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