Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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3. Pão e Vinho

As mochilas pulam em nossas costas pelos passos acelerados, com alguns suprimentos que encontramos e aleatórias peças de roupas que pegamos com pressa. O pequeno condomínio de cinco andares cada prédio vai ficando para trás conforme caminhamos para além da Rua Conselheiro Laurindo. Mesmo que já acostumados com o choque da situação, a pergunta do que aconteceu assombra meu consciente. O mais provável que me passa pela cabeça é que sofremos algum tipo de atentado. Al Qaeda? Isis? Sinto calafrios ao pensar nisso. Não posso baixar a guarda nem um pouco enquanto estivermos expostos, como agora.

–– Ei! – Com uma corrida, alcanço Klaus que caminha um pouco à frente.

–– Hã? Que? O que houve? – Vira-se em um pulo quando toco seu ombro, acordando de um transe.

–– Calma, está tudo bem. – Digo, mentindo nas palavras. – Você tem ideia do que pode estar acontecendo? – Pergunto olhando para os lados com preocupação.

–– Eu não sei. – Diz, franzindo a testa e abaixando a cabeça com desanimo.

–– Pensa comigo. Lembra quando nosso país foi ameaçado por grupos terroristas há um tempo atrás?

Logo seus olhos arregalam para mim. Sua pele se torna mais pálida que estava e a feição de desespero o toma novamente.

–– Calma! Não temos certeza. Mas é a hipótese mais aceita até agora. – Tento o acalmar. Funciona ao ver que seus olhos piscaram pela primeira vez desde a hora em que o chamei. – O que eu quero dizer é que não podemos baixar a guarda por nada, está me entendendo? – Acena com a cabeça. – Fique por perto, vamos procurar ser invisíveis.

Quando retomamos a caminhada pela longa avenida, fico pensando em como ser invisível para o nada. Desde que saímos do metrô eu não ouço sequer um sinal de vida. Fico imaginando grupos terroristas rondando as ruas para uma limpa, mas de longe poderíamos ouvir o barulho. Me acalma em pensar que as únicas coisas audíveis no momento são nossos monótonos passos e respirações pesadas. Começo a sentir os músculos da minha coxa doerem pelo esforço da caminhada e logo penso onde passaríamos a noite. As estruturas em volta parecem menos danificadas que na região onde observei pela janela do apartamento, mas ainda assim estão cobertas por grossas camadas de poeira. Isso me leva a pensar novamente no tempo que ficamos desacordados. Klaus já pega a primeira garrafa de água em sua mochila e molha devagar a boca. Pela imperceptível quantidade de água que bebeu, percebo que está querendo economizar.

–– Arranjaremos mais, não se preocupe. – Digo. Ele torna a beber mais um pouco, mas não faz contato visual comigo. – Arranjaremos mais comida também. – Isso o desperta.

–– Vamos roubar? – Pergunta, engolindo com dificuldade a água.

–– Não exatamente... - Engulo seco minhas palavras. – Mas...

–– Onde vamos pegar comida? E se tudo estiver estragado ou destruído? – Me interrompe imediatamente, enfurecido, quando percebe em meu tom de voz que realmente teremos que roubar.

–– Fale baixo!!! – Murmuro, segurando seus ombros e o abaixando junto a mim. Olho em volta com preocupação. – Escute, Klaus. Não sabemos o que está acontecendo, nossas ideias não passam de deduções incertas. Se não morrermos por uma bala perdida – digo, fazendo sinal para que olhe em volta – morreremos por desidratação e fome.

Um momento mudo entre nós e Klaus parece aborrecido. Solto um breve suspiro pela bronca que o dei. Preciso fazer com que ele caia na real.

–– Me desculpe... – Murmura, agora com medo de dar um pio.

O envolvo em um abraço e logo viramos sentido leste, caminhando por mais ruas mortas.

***

 

O sol desperta no meio dos altos prédios, iluminando e queimando toda a área que caminhamos. Por trás da minha roupa, meu corpo abafa. Se começarmos a suar, iremos desidratar rápido demais e correr o risco de ficar sem água.

–– G-Giovani... – Klaus para de repente no meio do caminho, com seus olhos arregalados fixos em algo.

–– O que foi? – Viro a cabeça na direção da sua e logo percebo. Ao contrário das outras lojas basicamente intactas nesta área da cidade, uma pequena mercearia chamada Pão e Vinho está com as portas escancaradas para o lado de dentro. – Depressa, por aqui!

Corremos para um pequeno beco que separa dois lotes e nos escondemos, agachados e acostados na parede.

–– Acho que passaram por aqui... – Murmuro ofegante, dando uma espiada por trás do ombro.

–– Demoramos para perceber, devem ter nos vistos... – Diz Klaus, bufando e entrelaçando as mãos no cabelo. – Certeza que devem ter vigias pelos prédios.

Ficamos em silêncio e aproveito o momento para ouvir o ambiente em volta. Ouço nada além da minha pesada respiração. Até que, um pouco distante dali, três audíveis balas de uma arma de fogo são disparadas. Eu e Klaus nos encaramos completamente pálidos.

–– Essa não! O que vamos fazer? – Pergunta, em tom baixo e trêmulo.

Meu corpo amolece na hora, formiga completamente. Mais uma vez, espio para fora do beco, tudo parece limpo e do mesmo jeito desde que começamos a caminhar pela rua. Meus olhos fixam nas portas escancaradas da mercearia, como se fosse a única saída. Não sabemos o que pode nos esperar lá dentro, mas corremos o risco de sermos mortos aqui fora no momento. Um outro tiro é disparado, dessa vez não muito longe. Seguido disso, ouvimos nitidamente um carro derrapando. Isso foi o suficiente para nos tirar do lugar. Aceno com a cabeça para Klaus dando sinal para correr até o estabelecimento abandonado. Sigo atrás dele, de resguarda por onde caminhávamos a cinco minutos atrás. A corrida foi longa demais para o tornozelo dele. Enquanto geme de dor ao lado da portaria escancarada, verifico nas vitrines transparentes o que pode haver dentro. Nada além de pequenas fileiras de prateleiras totalmente vazias e empoeiradas e uma escuridão cega ao fundo. Um outro tiro é disparado.

“Vamos”. Sem produzir voz alguma, apenas faço sinal para entrarmos. Seguro uma das portas, fazendo com que levante o suficiente para ele passar. Em seguida, serpenteio pela pequena fresta que levanto. Uma segunda derrapada ecoa na rua em que estávamos. “Vamos para trás do balcão...”. O balcão, posicionado logo à esquerda da entrada, com o interior amadeirado e vitrines na parte frontal, nos esconde totalmente. Uma brecha na madeira obstruída proporciona uma visão parcial da entrada. As derrapadas ficam cada vez mais frequentes e audíveis, até a hora em que consigo ouvir vozes. Não consigo distinguir quantas são, apenas ouço berros esganiçados ecoarem. “ÉH! ISSO AI! WOHOOOO...” “...CALA A BOCA, INFELIZ! ”. Klaus mantém a mão sobre a boca, tentando controlar a respiração barulhenta. Uma última derrapada é o que se ouve depois que as quatro portas do carro batem na frente da mercearia.

Um sujeito alto, magricelo e com longos cabelos totalmente desidratados para à frente da porta, analisando a situação enquanto um outro – parrudo e com um rostinho nada encantador – segue ao seu lado, metendo a caraça no vidro, tentando enxergar dentro.

–– Parrece que já estiverram aqui. – Diz, dando um murro na vitrine que chacoalhou Klaus do lugar. Percebe-se um sotaque totalmente diferente no parrudão.

–– Vamos embora. – Diz o magricelo, agora com a cara mais enfarruscada que o outro.

–– Ih! Essa era a loja que eu comprava camisinha pra foder aquela baleia do colégio! – Um sujeito gorducho e ainda menor que o parrudo gargalha atrás do magricelo, a voz totalmente esganiçada, dando para identificar de quem foram os gritos.

–– Já chega, idiota. – Resmunga o parrudo em um vozeirão.

–– Hihihi! Só porquê você gostava dela? – O gorducho caçoa, sem medo ou noção de que um tapinha e ele poderia ser desmontado pelo grandão.

–– EU VOU TE QUEBRRAR, SEU MERDA...

Assim que ele faz menção em partir para cima da bolinha, o magricelo se enfia no meio dos dois.

–– Marcelo, fica calmo. Ele já teve o que mereceu. – Diz, na maior tranquilidade possível. O parrudo logo mira a cabeça para a perna do gorducho e vejo também uma faixa velha e ensanguentada. Ao virar-se, percebo as provocações do baixinho ao grandão. Ele aperta os punhos mas segue para o carro.

Ainda há um quarto sujeito, alguém ligeiramente mais velho que os outros caminha devagar pela faixada, um olhar muito sério e arrepiante. É sem dúvidas o mais sinistro e todos. Quando levanta a camisa que está vestindo, percebo uma pequena pistola em sua cintura. Meus olhos arregalam e meu corpo amolece na hora. Tira do bolso uma pequena lanterna, apontando e enfiando a caraça na vitrine – mais enfarruscada que a do parrudo. Desvio o rosto da brecha no momento em que aponta a lanterna para ela. Faço sinal de silêncio para Klaus e recuamos nossos corpos do brilho que atravessa o buraco. No momento em que passa, volto a observar lentamente. Antes mesmo que eu possa enxergar algo fora do lugar, ele mira novamente a lanterna para nós. Sinto o suor escorrer na minha testa.

–– VAMOS EMBORA, CABEÇA! – Grita a voz que aparenta ser do magricelo.

A luz cessa e volto a enxergar pela fresta. Ouço as quatro portas baterem e em uma derrapada muito violenta o carro toma partida para longe. Na medida em que ouvimos o som do carro abafar, nossos corpos relaxam. Klaus já respira com as mãos longe da boca, uma respiração pesada e barulhenta – não diferente da minha. Engatinho até a lateral do balcão para ver se está tudo bem. Ao levantar, faço sinal para que se levante também. Ainda tomando cuidado com o barulho dos passos, caminho por todo lugar. O cheiro de mofo está impregnado no meu nariz.

–– Como eles eram? – Pergunta Klaus, me acordando de um momento de total distração.

–– É... Eles eram... todos eles vestiam roupas parecidas e...

–– Não eram terroristas, eram?

–– Não do jeito que pensávamos.

Explico para Klaus que todos, além do denominado Cabeça, estavam com roupas casuais, porém, pareciam alteradas. Suas camisas estavam cortadas de modo que formassem regatas, as calças com pequenos rasgos colavam em suas pernas, de forma que seus coturnos ficassem por cima. Não lembro de ter reparado direito, mas eles pareciam usar acessórios. Cabeça vestia algo mais dessujo. Poderia dizer que ele acabara de trocar as roupas.

***

 

Ambos trocamos as roupas por algo mais confortável e fresco. Klaus permanece atrás do balcão, fora da vista da rua, enquanto eu termino de vasculhar o lugar antes mesmo de partirmos, na companhia de uma lanterna consideravelmente boa. Um cheiro insuportavelmente podre invade minhas narinas quando dou alguns passos para o interior da mercearia. Tampo o nariz com força, contendo também a boca devido a ânsia de vômito. Por um momento me apoio em um balcão, vazio e completamente empoeirado, pela forte dor de cabeça. Adiante de um comprido freezer que provavelmente está causando todo o cheiro, uma última porta para checar. Da mochila, amarro uma velha camisa atrás da cabeça, cobrindo totalmente o nariz e a boca. Ainda assim o cheiro penetra no tecido, mas amenizo forçando com a mão.

Dou a volta em um corredor onde consigo ver Klaus lá na frente, que está massageando a perna - presumo que seja pela dor. Chego ao fundo da mercearia e encontro uma parede repleta de cartazes promocionais. Pouco à esquerda, encontra-se a porta. A vidraça está totalmente suja e embaçada. Não consigo ver nada dentro a não ser borrões. A maçaneta está praticamente obstruída e prestes a quebrar. Com um giro cuidadoso, empurro a porta, que emperra antes mesmo de abrir uma fresta. Eu poderia simplesmente deixar de lado e seguir caminho com ele, mas algo me faz insistir em terminar de checar o lugar.

“Pssst! ”. No corredor da mesma direção do balcão, faço sinal com a lanterna para atrair a atenção dele. Assim que olha, levanta e segue mancando até os fundos. Ao passar na direção do freezer, tem a mesma reação que eu tive.

–– Muita dor? – Pergunto, referindo a perna.

–– O que quer? – Responde com arrogância, não dando a mínima para minha preocupação.

–– Preciso que me ajude aqui. – Tento esconder uma expressão de aborrecimento, voltando para a porta.

Ele posiciona o ombro direito na porta e eu as duas mãos.

–– Um, dois, três!

Ouvimos a porta arrastar no encontro com o chão e algo pesado no outro lado faz ela voltar poucos centímetros do que abrimos.

–– Merda! – Exclamo. – Vamos de novo. Um, dois... TRÊS!

Solto um alto grunhido, a porta se escancara para o lado de dentro com um baque abafado. O suficiente para passarmos.

–– Minha nossa...

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