Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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7. O Armazém

Um feixe de claridade me faz remexer onde repouso, coçando os olhos e cobrindo-os da forte luz. Enxergando melhor, identifico um grande salão imundo, depredado e empoeirado. Ao meu lado, Ana parece estar em um sono leve, engatilhada para o que quer que possa acontecer. Atrás, Klaus descansa no ombro direito de Guilherme, o mesmo dorme com a cabeça acostada no banco.

Cauteloso, abro a porta do carro e me esguio silenciosamente para fora. O salão se revela ainda maior quando percebo sua continuidade para trás com algumas caixas de madeira reforçadas e grandes máquinas. À frente, uma grande portaria entreaberta me chama a atenção. Ainda que me controlo em passos leves, eles ecoam pelo lugar. Conforme aproximo, um amontoado de chaminés e altas estruturas surgem embaixo de um sol escaldante.

Estruturas de ferro espalhadas pelo chão, uma longa e larga estrada contornada por armazéns semelhantes, uns mais devastados que outros. Um pouco além, em um amplo pátio, coloridos containers jogados e arrebentados. Sinto o calor me fazer suar pelas costas, a faixa em minha cabeça começa a escorregar. Balbucio em um forte ardor quando a retiro, algo em minha testa engata nela. Quando passo a mão, sinto os pontos no lugar ferido. O sangue secou, mas não sei se posso deixar exposto deste jeito.

Mesmo que eu procure me encontrar nesta localização, não acho nada que possa usar como referência. Um flash daquilo que vi à noite faz novamente um amargo subir pelo estomago e, no desespero, recuo para o armazém.

Retornando ao carro, nada mudou. Apenas ouve-se os roncos de Klaus misturado com o assustador silêncio que vem de fora. Bato levemente a porta e chacoalho Ana.

–– Ei, acorda!

Em um piscar de olhos, sou surpreendido por uma faca no meu pescoço, aparentemente desgastada, mas notavelmente dolorosa. Os olhos avermelhados de Ana penetram os meus com uma sensação de medo terrível.

–– Bom dia. – Com um suspiro de alívio, ela volta para o banco na posição em que estava e torna a esconder a faca na cintura, por baixo da camisa.

–– De onde isso...

Antes que eu possa terminar, ela levanta a roupa revelando um revolver, a faca e uma magra barriga.

–– Não me pergunte como consegui, pelo menos não agora. – Diz, enquanto se espreguiça e amarra o cabelo em um coque. – Já amanheceu.

–– O que é este lugar? – Pergunto, mantendo o tom baixo na voz.

–– Provavelmente um dos poucos armazéns restantes na cidade. – Ela vira para trás e observa os dois dormindo.

Klaus se remexe e coça os olhos, mas não dá sinal que vai acordar tão cedo.

–– Ei, vocês dois! – Com uma voz grave extremamente autoritária, Ana acorda os dois em um pulo.

–– Mas o que? – Murmura Guilherme, bocejando. – O que foi? AI!

Ele acaba de receber uma cotovelada de Klaus no braço machucado.

–– Desculpa. – Boceja Klaus.

Em meio ao desconfortável e confuso silêncio, observamos Ana remexer os bolsos da sua calça. Enquanto não acha o que quer, murmura palavrões e fica cada vez mais nervosa, até que retira um pedaço de papel.

–– Aqui. – Ela me mostra a folha com garranchos. Demoro um pouco para entender.

 

“Amarela – Paraguai

Laranja – Uruguai

Roxa – Argentina

Vermelha – Bolívia”

 

Há um círculo rabiscado no Uruguai.

–– São as bandeiras. – Murmuro. Lembro momentaneamente da conversa que ouvi no refeitório e da grande bandeira laranja na rua.

–– Representam as regiões evacuadas e para onde foram. – Diz Guilherme, se aproximando e tentando entender as letras.

–– Vocês são de Paranaguá, certo? – Pergunta Ana. Confirmo com a cabeça. – Sabem para onde suas famílias foram evacuadas?

Olho para Klaus, assustado e pálido, os olhos vermelhos e caídos. Não acho uma boa ideia contar que um dos caminhões de evacuação foi atacado na estrada.

–– Nós não sabemos. – Digo.

Ana revira os olhos e cai no banco com um suspiro desanimador. Ela torna a guardar o papel no bolso justo, as pernas balançam inquietas.

–– Precisamos de um mapa. – Diz para si mesma, depois de um longo silêncio, olhando para o horizonte por trás da portaria.

–– Onde estamos? – Pergunta Guilherme.

–– Exatamente. – Afirma Ana, nos deixando pensativos. – Estamos em uma grande distribuidora, em uma das entradas da cidade. Se conseguirmos chegar na área administrativa, podemos achar algo útil.

***

 Já estamos separados em grupos de dois, prontos para partir. Eu e Ana checaremos o outro lado do território, na parte administrativa, em busca de mapas. Klaus não aparenta ter gostado da ideia de seguir na busca de mantimentos com Guilherme, não consegue segurar a cara amarrada e a inquietação nos pés.

–– Você sabe manusear uma arma? – Pergunto à Ana, enquanto passamos pela grande portaria.

Seus olhos encontram os meus com severidade por baixo das pálpebras.

–– Papai costumava a nos levar para os seus treinamentos, ele era policial. – Responde, ríspida. Um desconforto emocional toma conta do ambiente. – Ei, não se sinta mal. – Percebe o quão emotivo fiquei. – Ele se foi em um acidente de ônibus, quando eu tinha doze.

–– Lamento. – Digo, cabisbaixo.

Caminhamos por entre destroços, a faixa em minha cabeça torna a escorregar pelo suor em minha testa, o ferimento arde. Ana nota a minha preocupação.

–– Deixe-me ver. – Para de repente e desenrola o pano. – Está ardendo? – Pergunta. Confirmo com um aceno.

Ela se curva e arranca um pedaço da camisa que veste. Tento impedir, mas já a torna um cropped. Enrola o tecido na minha testa, secando o suor e apertando em um forte nó atrás da minha cabeça. Sem dúvidas está mais firme e seco.

Depois de muito andar em silêncio e na resguarda, duas longas cancelas nos chamam a atenção. Identificamos logo ao lado esquerdo dois grandes blocos, estilhaços das longas escuras janelas quebradas deixam as paredes abertas. “Comani”, um letreiro amarelado na parede lateral do prédio, soa familiar. Ana segue na espreita, a arma engatilhada enquanto eu me preparo para o que quer que venha por trás.

Chegando na parede de um dos blocos, saltamos por uma das janelas derribadas.  O cheiro de mofo invade nossas narinas e me dá uma desconfortável dor de cabeça.

–– O que devemos procurar? – Pergunto, o nariz tampado.

–– Talvez uma sala de gerência, até mesmo uma secretaria de planejamento. – Responde, enquanto atrita os dedos nos vários móveis, a quantidade de pó é incrível.

Muitos papéis jogados pelo chão e computadores pendurados pelos cabos na sala que nos encontramos. Prateleiras de ferro dividem o lugar em corredores escuros. Um calafrio me consome ao pensar na condição estrutural do prédio.

–– Vamos nos separar?

–– É melhor ficarmos juntos. – Ana caminha, chutando qualquer obstáculo que esteja na frente.

Por um dos lados, um portal nos dá acesso a um extenso corredor com salas alinhadas e portas estraçalhadas nos dois lados, formando feixes de luz. Mais papéis espalhados pelo chão, poças d’água formam lama com a poeira, mesas, cadeiras e até mesmo grandes vasos de flores bloqueiam parte do caminho. Penso no desespero de quando as sirenes começaram a tocar.

Vasculhamos cada espaço, dos mais obscuros até os malcheirosos, foi na dobra do longo corredor, em uma das últimas salas, que encontramos um pequeno mapa do litoral paranaense, aberto e posicionado em uma das únicas mesas que permaneciam em pé.

–– Perfeito. – Murmura Ana, desempoeirando o pedaço de papel.

–– Acho que ninguém nunca imaginou que isso seria tão útil. – Digo, me aproximando e observando o miserável papel que indica as principais rotas que percorrem de Curitiba até Guaratuba.

Ela apoia o papel em uma mesa com mais iluminação, cuja mesma poliu o pó, traça o dedo em uma das estradas.

–– Estamos exatamente na principal BR em sentido a Paranaguá. Podemos...

–– Não. – Interrompo-a, curto e grosso, mas angustiado e deprimido.

–– O que? Mas, por que? Estamos no caminho já. – Além de confusa, parece extremamente irritada.

Tomo um profundo suspiro e explico cada palavra e momento que passei com o senhor, sua cara assustada me convenceu que acredita.

 

***

 

Em baixo do escaldante sol que, novamente, faz o pano em minha cabeça escorregar, voltamos pelo mesmo caminho até o armazém. Ana, perplexa, passa o trajeto todo com a cabeça abaixada, parece ter esquecido que estamos em um lugar nada seguro.

A fresta da portaria está do mesmo jeito que deixamos. Dentro, acostados ao carro, Klaus e Guilherme nos aguardam bebendo água. Em seus pés, algumas caixas cheias do que eu suponho ser mantimentos. Ana parece sem paciência, logo quando chega no carro, abre o mapa no capô.

–– Vamos pela rodovia que corta Piraquara, descemos pela estrada velha até Morretes e seguimos para o litoral. – Rápida nas palavras, deixa os dois ainda mais confusos.

–– Onde estamos? – Questiona Guilherme, observando o mapa com os olhos miúdos.

–– É o armazém da Comani, eu lembro desse lugar. Sempre passamos por aqui quando subimos de Paranaguá. – Na mesma hora, Klaus percebe que há algo errado. Minha posição sobre não contar o que aconteceu na estrada continua a mesma, apesar da notável inquietação no meu pé. – Por que não seguimos pela estrada? – Olha desconfiado para Ana.

–– A estrada está bloqueada pelos escombros do pedágio. – Responde.

–– Você não tem certeza.

Essa foi a gota d’água para ela.

–– Escute, eu dou as ordens aqui, eu traçarei as rotas e eu os levarei até suas famílias. – A cada palavra, se aproxima brutalmente de Klaus. Ele se encolhe conforme chega mais perto, mas a fúria em seus olhos não deixa de ser nítida.

Ana recua, afagando a cabeça, arrependida. O que eu achava ser arrogância da parte dela, percebo que é na verdade cansaço. Meu coração aperta vê-la na situação, fez tanto por nós e nem mesmo agradeci.

–– O que trouxeram? – Pergunta, apoiada no carro. Seus cabelos cobrem o misterioso rosto pálido.

Nas três caixas médias, enlatados e porcarias como salgadinhos, bolachas e suco em pó. Alguns pacotes de pães forram uma das caixas, um pouco amassados pelo peso dos outros alimentos. Nosso estoque de água não vai durar muito tempo, mas Guilherme calculou o tempo estimado de uma semana para o que temos. Me surpreende tal inteligência, pois bateu com a lógica do consumo.

Tudo coube espaçosamente no porta-malas do duster, o peso arria levemente a traseira do carro.  Ana abre a portaria de correr, iluminando como nunca o lugar. Quando retorna ao carro, estico a mão direita a ela.

–– O que você quer? – Pergunta, analisando meus dedos sujos.

–– Obrigado por tudo. – Sorrio.

Não conseguindo conter, ela sorri e retribui minha gratidão com um abraço.

–– Ainda não é hora.

Com dois tapinhas nas minhas costas, partimos novamente para o carro. As quatro portas batem e o motor dá partida. Ana aquece os motores e nos leva à estrada dos armazéns, passamos pela cancela e saímos diretamente no trevo da rodovia 277, 116.

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