Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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5. Erasto Gaertner - Parte 2

Conforme nos aproximamos da porta, o zum-zum aumente. Através das vitrines, vejo um tumulto não muito diferente do outro salão, mas notavelmente melhor organizado. Quando entramos, algumas cabeças imediatamente viram em nossa direção, outras continuam concentradas na comida, uns mais vorazes que outros, uma extensa fila que rodeia o salão acaba na bancada onde provavelmente estão entregando os alimentos. Pessoas feridas e enfaixadas, umas sujas, outras nem tanto. Alguns usam as mãos para comer, outras seguram os talheres de forma sofisticada. Klaus me guia entre duas longas mesas que é dividida por dezenas de pessoas. “Pretendo ficar por aqui mesmo...” “...eles dizem que vão voltar para buscar o resto. ” “Não seja ridículo, não tem como voltar no meio dessa bagunça...” “Meu bairro recebeu a bandeira amarela...”. Odeio prestar atenção na conversa alheia, mas a curiosidade fala mais alto.

–– Estão ali. – Klaus me acorda de um transe

Do outro lado da mesa, uma garota com os cabelos castanhos pelo ombro, olhos verdes e um pouco dessuja que os outros.

–– Ana, esse é o Giovani.

Aceno com a cabeça como um gesto de cumprimento, sou retribuído por igual.

–– Esse é o Guilherme, irmão dela.

Ao lado dela, um rapaz magro com a mesma cor dos olhos, cabelo curto e arrepiado e aparentemente alto. Está com o braço esquerdo enfaixado e ensanguentado. Ele me recebe com um sorriso forçado, está perdido em tristeza.

–– Você poderia explicar para ele o que é tudo isso? – Pergunta Klaus, um pouco sem jeito.

–– É claro. – Responde Ana.

“Esse é o centro de eventos da FIEP. Foi transformado em um centro de ajuda para aqueles que não tiveram condições de embarcar nos veículos de evacuação, pessoas que estavam fora das áreas de segurança durante todo o processo. ” Então as caixas vieram daqui... “As patrulhas estão rondando a cidade em busca de alimentos, água, e trazendo aqueles que ficaram para trás. ”

–– Espere um pouco, de onde surgiu tudo isso? Evacuação? Eu não estou entendendo... – Minha mente parece dar um nó e meu coração aperta cada vez mais. Sinto como se estivesse em uma realidade alternativa.

Ana olha para Guilherme assustada, ela me encara de uma maneira preocupante.

“Quatro dias atrás, quando os alarmes anunciaram o fim da evacuação, a cidade foi posta à baixo. De princípio achei que morreríamos pela radiação das bombas, mas depois percebi que nada caiu do céu, elas foram instaladas pela cidade dias antes. Foi tudo planejado...”. Ela faz uma pausa, a feição desanimadora. “Vários relatos sobre homens misteriosos vestindo ternos completamente pretos viralizaram nas redes sociais. Não só em Curitiba, mas em outras cidades próximas. ” Minha mente começa a ecoar barulhos ensurdecedores, gritos e uma sirene... uma maldita sirene.

–– Por que não evacuaram? – Pergunto, logo percebendo o desconforto que causei.

–– Havia somente mais uma vaga no caminhão do exército. Eu e meu irmão fugimos juntos para a nossa mãe... – Responde, não faz contato visual, mas parece reviver o momento com o olhar distante e cabisbaixa.

–– Ela estava grávida. – Murmura Guilherme, impedindo uma lágrima.

–– Eu... eu sinto muito.

–– Ela vai ficar bem. – Diz Ana, firme em suas palavras. – Está segura agora.

Todos voltam ao silêncio. Guilherme termina de comer sua sopa e Ana parece segurar um papel por baixo da mesa. Pela atitude, eu diria que está tentando esconder.

–– Está com fome? – Pergunta Klaus.

–– Não sinto nada por enquanto. – Respondo. Me sinto um pouco enjoado e estranho minha situação. – Onde estão nossas coisas?

Klaus e Ana se encaram por um momento. Ele se contrai de forma suspeita.

–– Eles analisam tudo o que chega aqui. – Ana responde por ele.

–– ELES O QUE?

Parece que chamei a atenção de um público. De repente o zum-zum cessa, me encolho no lugar e logo tudo volta ao normal.

–– Não se preocupe, tudo aqui é dividido com a comunidade. – Klaus tenta me acalmar.

Reviro os olhos e solto um suspiro de preocupação.

–– Onde vamos ficar? – Pergunto.

–– Lá em cima, eu te levo.

–– Nós vamos juntos. – Diz Ana.

 

***

–– E os hospitais? – Pergunto à Ana, enquanto subimos a escada no final do salão refeitório.

–– Parecem interditados. Não da forma que pensamos que está, mas uma das instruções dadas por eles foi para não chegar perto em hipótese alguma.

Cada vez mais curioso.

Chegamos em um corredor com duas portas duplas cada lado. Uma pichada letra A e outra B.

–– Ficamos no bloco B, junto com os dois. – Diz Klaus.

Ao entrar, percebo o silêncio e tranquilidade – tirando o fato que ainda há algumas pessoas ensanguentadas e isso está começando a me assustar. Sinto que recupero minha sanidade aos poucos e junto o sentimento de preocupação. Caminhamos por cobertores espalhados ao chão, alguns dormem completamente enrolados, outros parecem ter se jogado de qualquer jeito e apagado.

–– Onde estão nossas mochilas? – Pergunto, meio perdido por onde olhar.

–– Bem aqui. – Klaus para de repente quando chegamos no centro do salão, ao lado de uma pilastra. Se abaixa e percebo que chegamos. Ele desenrola as duas mochilas de um cobertor lilás e as entregam para mim.

–– Você deixou nossas coisas aqui sozinhas? – Balbucio, nervoso. – Ao menos não levaram nossas roupas.

Klaus parece um pouco magoado se sente culpado. Ana ajuda Guilherme a se deitar no monteado de cobertas ao lado, cobrindo-o cuidadosamente. Suas feições de dor me preocupam.

“Aqui, tome. ” Ela retira de um pote um pequeno comprimido e o faz beber um pouco de água.

–– Por quanto tempo estamos aqui? – Pergunto a Klaus, quando uma dor pontiaguda na cabeça me desperta.

–– Desde manhã. – Responde, enquanto arruma os monteados de cobertores.

–– Como chegamos até aqui?

–– O carro que nos seguia era na verdade a ajuda que precisávamos.

De repente começo a recordar que estava correndo e muito exausto, mas nada por completo em minha cabeça.

–– Vocês poderiam ficar aqui com ele? Preciso buscar água. – Ana vira e mostra a garrafa vazia.

–– Poderia encher a minha também? – Klaus retira uma da bolsa e a entrega.

Ana caminha em direção à porta e desaparece de vista. Me parece que Guilherme está tentando dormir, mas pelas expressões percebo que a dor é desconfortável.

–– Ei. – Fico de joelhos do seu lado. – Me dê o braço. – Com uma parte do cobertor, faço um apoio do seu lado. – Descanse o braço aqui, não deixe em cima do corpo.

–– Obrigado...

–– O que houve com o seu braço? – Pergunto.

–– Quebrado. - Pelo esforço que fez para falar, decido não fazer mais perguntas. Solta um suspiro, fecha os olhos e torna a tentar relaxar.

Klaus encara Guilherme mas percebo pelo olhar que sua cabeça está distante.

–– Sabe que não podemos ficar. Precisamos ir até Paranaguá. – Digo com rispidez, mas ele continua lá.

“Paranaguá não existe mais...”

Uma voz rouca e grossa ecoa atrás de mim.

–– Desculpe? – Viro e me deparo com um senhor de pele morena sentado em um único cobertor avermelhado, aparentemente judiado pelo tempo. Seu olho direito mal abre e está com a perna esquerda enfaixada.

–– São cidades mortas...

Sua voz me arrepia de forma assustadora. Sinto um amargo subir do meu peito à boca.

–– Esteve em Paranaguá? – Sussurro, miro cada lado para ver se alguém observa.

–– Estive em muitos lugares, filho. – Ele ergue as sobrancelhas como se recordasse de um longo e exaustivo passado.

–– O que quer dizer com isso?

–– Fomos todos deixados para morrer...

Isso me arrepia completamente e foi o suficiente para fazer minha mente entrar em pânico. É um pouco difícil deduzir qualquer coisa pelo conhecimento que tenho, mas sinto que o que diz não é bobagem.

–– Está planejando sair da cidade? – Pergunta. Vejo pela primeira vez os seus profundos olhos negros ao me encarar de forma sarcástica. – Eu acho que não é isso o que eles querem.

Me acomodo no lugar com total interesse em ouvir mais.

“Caminhei por longas horas quando nosso caminhão foi atacado no meio da rodovia. Quem pôde se salvar, correu para a mais densa mata. Quem não teve a sorte, foi estripado até a última víscera. ” Com uma pausa, ele esboça um sorriso maligno ao ver minha cara mais espantada que nunca. “Que foi? Acha que isso é o pior? Vão atacar do céu, não terão coragem de descer e exterminar o que sobrou... ”

–– Aqui está. – A voz de Ana retorna e imediatamente alivia minha angústia. – Obrigado por ficarem com ele.

Viro para lhe dar um sorriso e ao voltar, o homem com quem eu conversava está mais adormecido que nunca. O mal-estar retorna mas decido deixa-lo como está.

–– Você está bem? – Pergunta Ana, me encarando de forma séria.

–– Sim, sim. Estou ótimo... – Minto em minhas palavras enquanto tento me recuperar de uma breve tontura.

–– Tome um pouco. – Klaus me oferece a garrafa suada cheia de água gelada. Dou pequenos goles e a deixo pela metade.

 

***

 

Guilherme finalmente adormece. Ao seu lado Ana lê um livro exageradamente encardido. Nesse meio tempo, me debato em uma pilha de dois cobertores - com um cheiro muito forte - tentando me acomodar enquanto Klaus ronca como nunca do meu lado. O salão parece quase totalmente preenchido pelas pessoas, o murmúrio de conversas é constante agora.

–– Como ele consegue? – Ana senta e observa como Klaus dorme, provavelmente após ele ter dado um ronco que ecoou no salão inteiro.

–– Ele nunca se importou com o desconforto das coisas, sempre dá um jeito. – Sorrio ao ver a baba escorrer pelo canto de sua boca.

Observando melhor, vejo algo incomum. Puxo de baixo da sua mão – agora molenga – a antiga foto que lhe entreguei quando estávamos no apartamento. Sua mãe com um sorriso esbelto e os cabelos enrolados em um perfeito coque, Klaus com um sorriso banguela e seu cabelo todo bagunçado. Alcanço sua bolsa para guardar a lembrança e me deparo com a mesma que estive segurando quando chegamos no condomínio. A mancha da minha lágrima na foto me recorda a dor que senti na hora e o desespero de quando acordamos na estação de metrô.

–– Você sabe o que vai acontecer com a gente? – No momento, Ana é a pessoa mais informada que conheço.

–– Rumores dizem que voltarão para buscar aqueles que ficaram. – Na mesma hora me recordo da voz rouca “...não terão coragem de descer e exterminar o que sobrou...”. Acho que a informação me confundiu mais ainda. Procuro não mencionar o que aconteceu horas atrás com o senhor que ainda adormece, mas em posição diferente. – De onde vocês são?

–– Do centro, um condomínio na Nilo Cairo. – Creio que ela esteja se referindo ao local em que morávamos. Recordo dos entulhos jogados pelo nosso pequeno apartamento, um dos prédios totalmente desabado. – E vocês?

–– Morávamos em uma casa no Cristo Rei. – Ana acaricia sorridente os cabelos de Guilherme. Tem um afeto enorme por ele. – Não conseguiram chegar até a área de evacuação?

–– Eu não lembro direito... – Alguns flashes em minha mente me recordam os gritos de Klaus.

–– Klaus contou em poucos detalhes que escaparam de um trem em chamas. – A lembrança se torna nítida e sinto que aos poucos um quebra-cabeça vai sendo completo.

–– O metrô... sim! Acordamos em uma das estações e...

“BLOCO B, HORA DO JANTAR! ”

Uma voz que vem das portas se sobrepõem à bagunça alheia. Automaticamente, pessoas se levantam e seguem desesperadas até a saída, gerando tumulto nos corredores. “Estou faminto...”, “...deixe-me passar...”, “...por favor, eu tenho uma criança! ”.

–– Essas pessoas trabalham aqui? – Pergunto, ao reparar na porta um homem vestindo roupas reforçadas.

–– Não pense que falar com eles resolve algo, não recomendaria isso. – Responde rispidamente, enquanto acorda Guilherme. – São brutos e severos quanto a segurança do lugar.

–– O que... – Klaus acorda confuso e assustado, seus olhos entreabertos tentando entender o que está acontecendo.

–– Venham, precisamos comer. – Diz Ana, ajudando seu irmão a levantar.

 

Depois de conseguirmos finalmente sair do salão, o cheiro da comida penetra em meu nariz. Vai cada vez ficando mais forte até chegarmos ao refeitório com a enorme fila. Uma mulher mais à frente tenta acalmar sua criança no colo, um rapaz com o rosto todo arranhado abraça sua pequena filha enquanto outros conversam entre si e devoram vorazmente a comida pelas extensas mesas. Ao meu lado, passa bruscamente o senhor que dormia à nossa frente, segurando um prato com feijão, arroz e algo com uma aparência nada agradável. Ele não faz nenhum contato visual, apenas segue até um lugar isolado e senta ao chão.

–– Cada bloco tem uma hora separada para almoço e janta...

–– São quantos blocos? – Interrompo a explicação de Ana, prevendo o pior.

–– Por enquanto quatro, até o D. – Ela diz, hesitando nas palavras. – É claro que quem está nos últimos leva a pior pela falta de comida e conforto nos salões, estão localizados no outro prédio. Pessoas de lá com dificuldades em se locomover sofrem nas horas de se alimentar.

–– Eles vão dar um jeito nisso, certo? – Pergunta Klaus, parece ter quase certeza nas palavras.

–– Não sabemos. Já faz quatro dias que está unidade está funcionando. É meio estranho toda essa ajuda, mas espero reencontrar mamãe novamente.

Guilherme afaga os cabelos de Ana que, em pé, bate no seu ombro, e dá um sorriso de orgulho para a irmã.

–– Vocês têm quantos anos? – Não aparentam ser tão velhos quando reparo melhor em suas feições.

–– Ele tem vinte e cinco e eu vinte e um.

Me recordo de alguns anos atrás, quando me mudei com Klaus para a cidade. Eu tinha vinte e ele faria dezoito. Aos finais de semana, Klaus chegava tarde da faculdade, mas nunca sozinho. Cada sexta-feira parecia ser uma garota diferente, uma gemia mais alto que a outra.

Não demoramos para chegar na bancada com pratos prontos, copos com algo que parece ser suco e talheres descartáveis claramente frágeis. Um homem me chama a atenção quando vejo que segura o prato com a mão direita e tenta equilibrar o copo segurando com os dentes. Reparando melhor, vejo que está sem o braço esquerdo. O cheiro da comida misturada com o odor no salão tira um pouco do meu apetite, mas não me vejo no direito de reclamar. Ana ajuda Guilherme segurando o copo dele, enquanto ele leva o prato com a mão boa. Nos sentamos na ponta da mesa mais próxima à escadaria dos dormitórios.

–– O que é isso? – Questiono uma massa marrom no prato, a mesma que não identifiquei no prato do senhor.

–– É carne enlatada. Nunca comeu? – Não diferente de mim, Ana aparenta não estar contente com a comida.

–– Não sou muito chegado à carne. – Digo, revirando os pedaços no prato.

Já está um pouco fria quando começo a comer. Guilherme e Klaus parecem não se importar com o mundo à fora. Pela forma que comem, eu diria que estão fazendo uma competição de quem consegue comer mais rápido a comida nojenta. Ana tem um jeito muito atenciosa com o irmão, é como uma mãe para ele - não estamos fazendo papeis tão diferentes.

 

***

 

Quando um homem extremamente rancoroso anuncia o fim do jantar para o bloco, a lua já aparece sob o céu pálido e algumas luzes de emergência são espalhadas pelo refeitório. Aparentemente, os corredores ficarão um breu total, pois as principais iluminações devem estar na ala hospitalar. Voltando para a cama, o clima continua pesado e nada confortável.

–– Como fazemos para ir ao banheiro? – Pergunto para Klaus, que ajeita seu amontoado de cobertas.

–– Precisa ver se tem algum disponível com um dos guardas lá de baixo, não é Ana? – Ele mira para a garota que revira a mochila em busca de algo.

–– Se quiser ir, é melhor que seja rápido. Logo eles vão bloquear os corredores para o próximo bloco passar. – Diz, tirando uma lanterna comprida da bolsa. ­­–– Leve isto, mas seja rápido.

–– Onde fica? –– Pergunto, enquanto dou umas pancadas na lanterna falha.

–– Segue a escadaria do refeitório, um corredor do lado direito. – Reponde Klaus.

Aparentemente ele já tem um conceito de localização do lugar. É realmente grande e não me impressiono que abrigue tamanha quantidade de gente. Mas ainda me pergunto o que estão ganhando em troca e para quem trabalham. Quem fez toda aquela comida? Quem são os parrudões que ficam às entradas de cada corredor segurando um bastão exageradamente grande? Médicos e enfermeiros em um lugar como este? Caminhando apreensivo pelo corredor escuro dos dois blocos, me deparo com vozes familiares subindo as escadas. “Eles falaram que é mais confortável...”, diz uma voz grossa. “E se tiver algumas gatinhas? ”, ecoa uma voz esganiçada. “Cala a boca, idiota. ”, impossível não reconhecer o sotaque. Surgem de repente os quatro rapazes que rondavam a cidade pela manhã. O magricelo dos cabelos desidratados, o gordo desengonçado com o braço enfaixado, o parrudo francês e o velho intelectual.

–– Ih, olha lá! – Diz o magricelo, apontando em minha direção. – É o carinha da rua.

Não sei o que fazer além de encarar totalmente assustado. Minhas pernas amolecem e sinto minha cabeça formigar.

–– Como está sua cabeça? – Ele pergunta, imediatamente lembro da faixa apertada da qual me acostumei.

–– B-Bem... – Gaguejo, hesitando quando faz menção em segurar meu ombro.

–– Relaxa, está tudo bem. Meu nome é Rodrigo. Esse é João, - aponta à bolinha – esse é o Marcello – o parrudão levanta a mão em um gesto de cumprimento – e esse é o Mário.

O sujeito com a pior cara entre os quatro não faz sequer a sombra de um sorriso, apenas me encara de forma assustadora por de baixo das pálpebras.

–– Se precisar de algo, somos do Bloco A. – Ele diz, mirando à porta dupla do lado esquerdo do corredor. – Até mais!

Os quatro caminham para o bloco e ainda não tenho reações certas. Foi muito estranho encontra-los depois do caso na mercearia. Deveria ser um pouco grato por terem me socorrido na hora em que bati com a cabeça, mas quando penso nisso, já estavam fora de vista.

Sigo pela escadaria e logo vejo do lado direito uma passagem aparentemente não muito grande. Com a lanterna, ilumino duas portas largas que deduzo ser os banheiros. Entro na que possui uma placa com um boneco e me encontro em um longo corredor com portinholas do lado direito e uma bancada que vai até o fim com pias e espelhos. Como costumava a fazer, vou até a última cabine do toalete, observando os outros com portas e algumas privadas quebradas. O cheiro de urina é realmente forte, típico de um banheiro masculino.

Deixo a lanterna em cima do reservatório de água da privada e começo a urinar. O barulho ecoa pelo lugar inteiro, me fazendo hesitar em urinar diretamente na água, mas sim nas laterais. Saindo do box, me encaro em um dos espelhos rachados. Meu rosto manchado da sujeita, o sangue seco na faixa em minha cabeça forma uma longa linha cobrindo pelo menos metade da minha testa. Tento abrir uma das torneiras, mas tudo o que sai é um ruído perturbador do ar no encanamento, deve estar todo fodido.

Ao deixar o breu do lugar, logo ao lado da porta me deparo com um vulto preto. Ao me virar no susto, um dos caras com roupas reforçadas está me encarando de forma nada agradável. Ele não parece querer dizer algo, apenas que eu saia dali o mais rápido possível. Com as pernas bambas, caminho para o refeitório e rapidamente para a escadaria.

O bloco está notavelmente mais silencioso, a maioria está acomodada e calma, o rumorejo passando aos poucos.

–– Anoiteceu rápido. – Digo, quando chego no meu espaço.

Klaus concorda com a cabeça, Ana continua lendo seu livro encardido e Guilherme recebe um cafuné da irmã, parece confortável e satisfeito com a sombra do sorriso no rosto adormecido.

–– Preciso ir ao banheiro. – Ana se levanta em um pulo, deixa o livro de lado e segue até a porta sem olhar para trás.

Até mesmo Guilherme estranha a atitude dela, acordando confuso, mas voltando a dormir quando a garota desaparece de vista.

–– Com sono? – Pergunto a Klaus, soltando um bocejo que o afeta.

–– Um pouco. – Diz, bocejando.

–– Não se preocupe, decidiremos melhor o que fazer amanhã. Vai ficar tudo bem.

–– Eu sei. – Ele fecha os olhos e, com as mais atrás da cabeça, descansa.

Deito-me de barriga para cima, observando o teto de gesso covardemente iluminado pelas duas luzes de emergência no salão.

–– Boa noite.

–– Boa noite, Klaus.

De boa não prevejo nada, mas penso em como estaria nossa situação se eu não tivesse batido com a cabeça. Estávamos indo direto ao Erasto Gaertner, mas pelas informações que Ana deu não seria uma boa ideia. Será que até o fim do dia estaríamos mortos? O som vai abafando lentamente sem eu perceber e adormeço em poucos minutos.

 

***

 

–– ACORDA, GIOVANI! RÁPIDO, KLAUS! TEMOS POUCO TEMPO!

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