Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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4. Erasto Gaertner - Parte 1

A clareza da lanterna ilumina pela fenda da porta um longo e estreito corredor. As paredes com armários altos de ferro e caixas de papelão ocupam maior parte do lugar. Ao forçar um pouco mais a porta, percebo que do outro lado há um entulho de caixas caídas atrapalhando. Me esguio para dentro, dando espaço para Klaus.

Deixo um rastro no pó quando toco em uma das caixas. Um baque aleatório me faz pular do lugar. Klaus fecha a porta por onde viemos.

–– Como vamos voltar...

Antes que eu termine a frase, ele aponta para o fim do corredor, onde se encontra uma outra porta.

–– Não podemos voltar por onde viemos. E aqueles marmanjos? – Diz ele, empurrando os entulhos para bloquear a abertura da porta.

Continuo a caminhar até o final do corredor, ignorando e chutando algumas caixas vazias caídas. Com cautela, forço a porta e ela facilmente abre uma fresta. Um clarão ilumina toda a sala, sinal que temos uma saída. Aumento a fresta e me encontro em um estreito beco da rua oposta.

–– Ai!

Novamente, me viro em um susto. Klaus está sacudindo a mão esquerda e na outra segura uma lata esverdeada.

–– Era uma barata. – Diz, analisando o chão, provavelmente procurando o inseto. – Você tem que ver isso...

Sigo até seu encontro e termino de abrir a caixa na sua frente. Está completamente cheia de enlatados e alimentos não perecíveis. O encaro entusiasmado, ele sorri para mim. Um pote familiar na caixa me chama a atenção. Quando coloco a mão para retirar “Ui!”, sinto pequenas coisas subirem no meu braço. Dou um pulo para trás, batendo no armário traseiro e balançando a estrutura. Klaus me encara assustado e começa a rir. Não podendo conter o constrangimento da situação, começo a rir junto. Mas não apenas por causa disso, mas por vê-lo sorrir depois de tanto tempo.

Quando miro a lanterna para a caixa, vejo pequenas baratas correrem para todos os lados. Olhando direito no pote que quis pegar, confirmo que era o que pensei. Pasta de amendoim. Ao lado vejo algumas geleias de uva e sardinhas enlatadas.

–– Isso... – Começo a refletir quando percebo que estão organizados.

Rapidamente vasculho as outras caixas e percebo um padrão de itens.

–– São cestas. – Digo para Klaus, que segura o pote de pasta de amendoim limpo. Ele faz um gesto para me entregar. – Obrigado... – Meu sorriso grato é correspondido por um igual.

 

***

 

Com uma última passada de dedo, Klaus esvazia o pote de pasta de amendoim, sentado no chão e notavelmente satisfeito. Senti um pouco de enjoo ao dar as primeiras dedadas no meu, então deixei de lado e fiquei analisando o lugar.

Quando minhas esperanças de descobrir algo já estavam acabando, uma marca roxa me chamou a atenção em uma das caixas. Não havia notado antes, mirei a lanterna e comecei a limpar a poeira que cobria:

“34 – FIEP”

–– Que estranho... – Murmuro. Imediatamente Klaus levanta.

–– Descobriu algo? – Parece entusiasmado.

Ao lado havia uma letra O com um respingo da tinta no meio. Desviro todas as outras caixas e limpo os lados até descobrir algo semelhante. Sim, haviam continuações do 28 ao 36, todas com a mesma marca.

–– FIEP... – Repito a palavra várias vezes, sempre soando familiar.

–– Deve ser a distribuidora...

–– Não. – Interrompo-o. – As caixas possuem marcas diferentes. Essa aqui é Comani, aquela outra é da Nestlé, foram loteadas para serem cestas.

A certeza das cestas é certa em minha cabeça, mas o que estão fazendo no estoque de uma mercearia?

–– Encha sua mala, precisamos ir.

 

Ambas as mochilas com o peso aumentado, passamos pela porta dos fundos da mercearia e nos encontramos no beco. Atravessamos todo o caminho em sentido à rua, checo cuidadosamente, ouvindo cada ruído com atenção.

–– Precisamos ser invisíveis. – Digo a ele, agachado logo atrás de mim.

Após sua afirmação com a cabeça, seguimos com ligeiros passos pela Rua Francisco Nunes.

–– Como vamos chegar até Paranaguá? – Pergunta Klaus.

–– Precisamos encontrar uma carona. Primeiro vamos até um hospital e tratar essas feridas.

Olho para o tornozelo dele e não vejo marcas de sangue, provavelmente estancou. O hospital mais próximo é o Erasto Gaertner. Não tenho certeza do que podemos encontrar por lá, mas sair gritando pelas ruas não é uma boa opção.

Cada cruzamento me faz ter esperanças de encontrar ajuda, mas ao mesmo tempo traz medo. Não há polícia, ambulâncias, não há formas de se proteger... não há socorro. Estamos totalmente vulneráveis ao que for ameaça. Conforme descemos a rua, mais pichações cobrem as paredes dos comércios. Mas uma me chama a atenção, é a mesma que observamos na caixa.

–– Você sabe o que significa aquele símbolo? – Faço sinal para que desacelere os passos e aponto para a marca roxa.

–– Sol. – Ele dá uma breve olhada e responde, ofegando.

–– Estava nas caixas também.

–– É... – Balbucia. – Eu sei.

É loucura sair em uma situação dessas, seguir para um lugar onde não imaginamos o que pode nos esperar, mas não posso simplesmente definhar. Klaus parece não compreender a situação, nem eu consigo, mas preciso fazer o que for possível para nos manter vivos. Precisamos achar alguma base, estamos no centro da cidade, eles não podem ter abandonado algo com tamanha proporção populacional. Para onde foram todos?

Cruzando com mais uma rua, avisto uma bandeira laranja cravada no asfalto com tanta força que provavelmente perfurou o chão de forma violenta. O cenário caótico de estruturas demolidas e a sujeira cobrindo maior parte do caminho surge novamente.

–– ...

–– O que foi?

–– Shh! – Me abaixo e concentro a audição. –– SÃO ELES. CORRE, KLAUS!

Agarro Klaus pelo braço e corremos pela rua do cruzamento. As mochilas pesadas atrasam a fuga. Pulamos e desviamos de grandes entulhos, grandes o suficiente para o carro não atravessar. “DEPRESSA, ESTÃO ALI!”. Uma voz familiar ecoa pelos prédios. O motor ronca mais forte, estão vindo pela rua da frente.

–– KLAUS, VAMOS...

––CUIDADO!

–– ...

 

***

 

Minha cabeça lateja, meus olhos entreabertos revelam uma demasiada claridade que os fecham novamente. Algumas vozes ecoam como um pesadelo em minha cabeça, gritos e grunhidos perturbadores que não acabam. Tomando a força em meu corpo novamente, percebo algo introduzido no meu braço direito.

–– Ah, puta merda...

Arranco a agulha, revelando uma grande e dolorida marca roxa que me faz grunhir. Ao sentar na cama, sinto minha cabeça doer de maneira insuportável. Uma tontura me toma por alguns segundos, apoio meus pés descalços no chão gelado e desço. Com os passos fracos, alcanço a cortina que rodeia o meu pequeno quarto e puxo com força. Um grande salão é revelado. Pessoas deitadas em colchões por todos os lados, deduzo que meu braço estava conectado à uma bolsa de soro, pois vejo várias das mesmas. Os gritos só pioram, choros vem de toda parte, estou no inferno?

Um grito absurdamente alto e agoniante se destaca dentre outros, está vindo do quarto ao lado. Com medo, meio trêmulo e curioso, sigo até as cortinas. Quando chego próximo, novamente o grito. Ao puxar a cortina, um arrepio sobe dos meus pés à cabeça. Vejo uma cama com no mínimo seis pessoas em volta. Um homem totalmente ensanguentado e notavelmente acabado está deitado sobre ela. A tontura volta a me tomar. Minhas pernas amolecem.

–– TIREM ELE DAQUI AGORA! – Ouço vagamente, antes que minha audição cesse com um apito ensurdecedor da minha mente.

Antes que eu possa cair, algo me segura por trás. Sinto todo o peso do meu corpo sustentado por baixo dos braços, estou sendo puxado. Quando uma moça loira se movimenta para o lado, percebo em meio a escuridão da minha vista que o homem deitado na cama está com uma das pernas dilacerada.

 

 

“AQUI, AMANDA! ” Quando me dou conta, estou deitado novamente. Tudo em minha volta ainda roda, sinto como se tivesse tomado um porre – ou uma porrada. Uma mulher morena, com as vestes manchadas de vermelho – deduzo que seja sangue - entra na sala com pressa. Ela segue direto para a bolsa pendurada no alto de um apoio, ao lado da minha cama.

–– Uhum... – Murmura

–– Onde estou? – Aproveito o momento para falar, minha voz um pouco débil.

–– Não se preocupe, você está seguro. – Diz, enquanto retira um pacote do bolso. – Uh... parece que judiaram dessa veia. – Ela mira a marca roxa no meu braço.

–– Onde está Klaus? – Pergunto, ao lembrar dele com um flash na cabeça.

–– Primeiro vamos cuidar de você. – Dá a volta na cama, carregando o suporte com a bolsa. – Qual seu nome, querido?

Hesito em perguntar novamente sobre Klaus.

–– É Giovani.

–– Tudo bem, Giovani. Preciso que relaxe seu braço.

Ela pressiona o dedo indicador no meio do meu braço e, quando para, introduz a agulha nele. Uma picada me faz contorcer na cama.

–– A dose acabará em quinze minutos. Voltarei antes disso. – Sua voz é delicada e calmante. Posso dizer que o senso de humor dela é bem diferente no meio de tanta gente gritando.

–– Espere! Eu quero ver meu amigo... hum... Klaus o nome dele...

–– Vocês foram os garotos que chegaram com os meninos... – Murmura. Parece estar falando com ela mesma.

Ela vira para fora da cortina e parece conversar com o rapaz que havia a chamado.

–– Agora descanse. – Com um sorriso, ela desaparece de vista e a cortina volta a se fechar.

Ao forçar meu corpo para levantar, a dor em minha cabeça me faz deitar novamente. Em um suspiro desanimador, acabo relaxando na cama e obedeço às ordens. Gritos e a bagunça ainda ecoam pelo lugar. Olho bem em volta e tudo o que eu vejo é uma mesinha ao meu lado. Me sinto um pouco solitário, mas só consigo pensar onde Klaus está. Não estou lembrado de muita coisa, quando passo a mão na cabeça, além da dor, sinto que está enfaixada.

–– Essa não...

Olho direito para as minhas mãos e percebo que estão limpas, mas minhas vestes ainda estão encardidas. Sem muito o que fazer, fecho os olhos e apoio a cabeça para trás. Concentro minha audição para longe da agonia que me circula e procuro dormir.

Quando tudo começa a cessar em minha mente, um estrondo na cortina me faz acordar com um pulo. Klaus entra, parece estar furioso. Ele ignora quaisquer ferimentos em mim e me surpreende com um abraço apertado.

–– Pensei que não ia mais acordar... – Diz, soluçando por trás do meu ombro.

–– Ei, relaxa. Eu estou bem. – Apoio o braço direito nele, esfregando suas costas.

–– Não vai querer quebrar ele mais ainda, vai? – Uma voz familiar se aproxima.

É a mulher que estava comigo há pouco tempo atrás. Disse que voltaria em quinze minutos. Me surpreendo ao perceber que consegui dormir todo esse tempo em meio aos berros.

–– Desculpa... – Klaus se afasta e finalmente posso o ver por inteiro.

–– Como está a cabeça, Giovani? – Ela pergunta. Percebo que a dor está ligeiramente amena.

–– Um pouco melhor, eu acho. – Digo, esfregando meu cabelo. – O que aconteceu comigo?

–– Você caiu e bateu com a cabeça. – Diz Klaus, ele mira o meu braço esquerdo e segue o olhar até a bolsa.

–– Abriu um corte e levou sete pontos. Teve sorte que encontraram vocês a tempo.

Lembro ligeiramente de estar correndo, mas não exatamente do que. Ela retira a agulha do meu braço e novamente me contorço com a picada.

–– Amanda, precisamos de você urgente! – Uma mulher muito branca e loira espreita pela fresta da cortina, claramente assustada.

–– Klaus, imagino que já conhece o lugar, eu tenho que ir.

–– Pode deixar. – Afirma.

Ela sai apressada da sala, deixando a cortina na abertura em que saiu. Nisso, posso ver que ainda há muitas pessoas em situações deprimentes.

–– Onde estamos? – Pergunto, muito curioso.

–– É o FIEP. Um centro de eventos. Transformaram em um centro de ajuda. Estive conversando com uma garota, a Ana. Disse que haviam patrulhas pela cidade resgatando as pessoas que não conseguiram serem evacuadas da cidade...

–– Espere. Evacuadas? Como assim? – Interrompo-o. Dúvidas atrás da outra surgem em minha cabeça.

–– É complicado... – Ele parece mais confuso que eu. Sempre se enrola quando deve explicar algo. – Já sei! Venha comigo, ela está no refeitório. - Klaus me ajuda a levantar e a calçar minhas imundas botas. Já não sinto tanta dificuldade em me manter firme.

Andamos no meio de um mar de sofrimento. Pessoas chorando ao lado da outra, algumas desacordadas, outras estão cobertas da cabeça aos pés. Tumultos em vários cantos. Em um momento de distração, sinto algo agarrar meu tornozelo. Agarro Klaus no momento do susto e viro para baixo. Uma senhora notavelmente velha, com a pele muito enrugada, me encara profundamente. Sua feição é muito cansada, mal consegue abrir a boca para falar, apenas vejo uma lágrima escorrer pelo seu rosto.

–– Eu sinto muito... – Digo, sem saber exatamente o que fazer. Ela me solta e volta a olhar para o horizonte.

Continuando a andar, desta vez prestando atenção nos lados, meu coração começa a apertar. Quando percebo, ainda estou segurando o braço de Klaus, estou com medo. Ele me guia por todo o caminho até a saída, parece uma eternidade.

Quando chegamos na porta, o ar muda totalmente. Em um longo e largo corredor, se encontra uma porta no final e logo acima “Refeitório” pichado com uma tinta roxa.

–– Você está bem? – Pergunta Klaus.

–– Claro... estou bem. Só fiquei um pouco tonto quando estávamos lá dentro.

Ao longo do caminho, algumas macas estão espalhadas pelos cantos. Na parede esquerda, no meio do corredor, se encontra uma grande porta. Deduzo que seja a de entrada. Ao passar por ela, tenho uma ampla vista do pátio de fora. Vejo alguns carros parados por toda parte e grupos de pessoas conversando, mas minha visão é limitada até o muro do lugar.

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