Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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6. Cidades Mortas

Meus olhos abrem mais rápidos que piscam, só enxergo Ana acordando Klaus e Guilherme enfiando entulhos na mala.

–– Depressa, temos pouco tempo! – Ela sussurra, mas sua voz é intensa.

Klaus, sem entender nada, alcança nossas malas e força o zíper a fechar algumas garrafas que pareciam pular para fora. Apalpo meus dois lados e percebo que todo o trabalho foi feito, não há nada nosso sobrando. Mas, por que?

–– Não façam barulho, os guardas estão distraídos.

Nós quatro andamos em fileira, abaixados, passando por um mar de roncos e engasgos com saliva. A fresta na porta dupla pela qual suponho que Ana passou ainda está aberta. Ela faz sinal de silêncio, observa cuidadosamente os lados e seguimos em frente com o caminho limpo. Faço menção em perguntar o que está havendo, mas calo a boca antes mesmo de abri-la e apenas sigo o seu plano.

Saímos da escadaria direto para a escuridão do refeitório, que agora se parece com um verdadeiro lugar abandonado. Segurando na camisa rasgada de Klaus, sou guiado para um lugar familiar. Entramos no corredor dos banheiros e me vejo de frente para as duas portas novamente, como algumas horas atrás.

–– Por aqui. – Sussurra Ana.

Sou surpreendido por uma terceira porta na parede oposta das outras, uma ainda mais larga. Fico me perguntando como não reparei nela quando estive aqui, mas acho que foi porque minha atenção estava direcionada à uma cara deformada me encarando sinistramente. O banheiro é notavelmente mais espaçoso que o masculino e, pelas cabines largas e algumas barras presas à parede, deduzo que seja para cadeirantes.

No final do lugar, logo abaixo de uma janela entreaberta, há uma cadeira muito bem posicionada.

–– Estamos fugindo? – Exclama Guilherme, mantendo o tom baixo, mas muito nervoso.

–– Não tenho tempo para explicar agora, apenas confiem em mim. – Diz Ana, subindo na cadeira e espiando pela janela. – Guilherme, você consegue...

–– Eu ajudo. – Me intrometo no meio da conversa, prevendo o que precisamos fazer. O braço dele está em péssimas condições e não conseguiria subir sozinho

–– Ótimo. – Ana afirma com a cabeça, ainda séria e ligeiramente pálida. – Eu vou primeiro.  – Klaus faz menção em segurá-la, mas a garota já estava com metade do corpo do outro lado.

–– Você agora, Guilherme. – Sussurro.

Subo na cadeira e observo ela fazendo sinal para nos apressarmos. Agacho e faço um apoio entrelaçando as duas mãos. Ele segura meu ombro com uma mão e percebo que se debruça com a outra na janela. Seu corpo espreme o meu na parece e faço força para que levante o suficiente e passe. Ainda de costas para a parede, ouço um baque pesado seguido de um gemido dolorido.

–– Ele vai ficar bem. – Murmuro. – Vem, Klaus.

Ele pega um embalo, salta na cadeira, passa pela fresta silenciosamente e cai com leveza. Confesso que fiquei impressionado com tal habilidade.

Na minha vez, não sou tão diferente dele. Com o impulso, alcanço direto o apoio na janela e me jogo para fora, caindo em pé e sentindo um forte impacto no tornozelo – foi assim que percebi que o nível do solo é mais baixo que o do banheiro.

–– Certo. Fiquem abaixados e procurem andar nas sombras. – Diz Ana.

Consigo enxergar melhor agora pela luz do luar. Nos encontramos em um extenso campo com um gramado precisamente carpido e manchado de cinzas. Ao fundo, no breu da noite, a cidade totalmente morta, estruturas destruídas e caídas por cima de outras, é uma vista deprimente.

Damos a volta por todo o centro de eventos até finalmente começarmos a descer pelo solo desnivelado até uma grade alta. Percebo um buraco nela, pela qual suponho que deveremos passar. O ar aqui fora é leve, é respirável, mas nada como era antes de tudo acontecer.

–– Esperem aqui. – Ana parece procurar algo no chão perto da grade quando...

“Achei vocês...” Uma voz me arrepia por inteiro como jamais fiquei arrepiado. Minhas pernas bamboleiam de forma que quase me derrubam e sinto um ligeiro formigamento pelo corpo.

–– Ah, você está ai! – A garota dá um suspiro de alívio, me deixando confuso, mas nada me faz sentir melhor.

–– Só vim me despedir. – Um vulto de onde veio a voz emerge da sombra de um arbusto redondo. Um rapaz forte, loiro, usando as roupas reforçadas. Ele segue até Ana, parando na frente dela e a encarando.

–– Eu preciso dela... – Diz ela, um pouco impaciente.

–– Aqui está. – Ele retira do bolso a chave que parecem ser de algum veículo. Começo a sentir um alívio ao ver Ana guardando-a no bolso da curta jaqueta que veste. – Me escute! A rodovia que passa por São José dos Pinhais está interditada pelas estruturas. Não sabemos as condições de Araucária, então eu sugiro que...

A voz dele cessa instantaneamente, e, quando percebo, Ana o surpreende com um profundo e intenso beijo.

–– Você já fez muito por mim, Rômulo. Você não quer...

–– Eu vou ficar bem. Tenho o passe de segurança deles. – Ofegando, ele a interrompe. Ana parece tranquilizada, mas ainda apreensiva.

Olho para o lado e vejo Klaus com o rosto mais amarrado que nunca, seus punhos fechados em um forte aperto. Ela nos guia para fora, direto à calçada da Avenida Comendador Franco. No sentido da saída da metrópole, uma interminável fileira de carros abandonados, enquanto na outra, apenas alguns carros capotados e espalhados no meio da rua.

–– Boa sorte! – Diz o garoto, por trás das grades. Sinto que é a última vez que veremos ele e este lugar.

 

Ana nos guia cada vez mais distante dos muros, sempre que olho para trás as estruturas ficam ainda mais escuras e mortas. Começo a ofegar conforme nossos passos aceleram, sinto que Klaus está do mesmo jeito.

–– Ana, por que...

–– Estamos quase chegando. – Imagino que ela saiba que o próximo que falar algo será para perguntar o que está acontecendo. Exceto Klaus, ele perguntaria quem era o rapaz na grade.

Cruzamos finalmente a avenida, pulando por cima de alguns carros e nos esguiando entre os outros até virarmos em uma rua pela qual segue a interminável fileira de veículos.

Sem identificar exatamente onde estamos, um cheiro podre invade minhas narinas e percebo que eles sentem o mesmo.

–– Mas que merda... – Diz Guilherme, tossindo e aparentemente tampando o nariz.

–– É aqui! – A tosse que vem mais à frente é da Ana, nós paramos de repente no breu, justo quando a fileira corta uma outra rua vazia. – Depressa...

Ouço o barulho da chave e algo soa como se estivesse destrancando. Foi o que pensei, Ana acabou de abrir a porta de um dos carros abandonados.

–– Ana... – Guilherme procura dizer algo, mas, como eu e Klaus, não encontra palavras.

–– Eu explico depois, precisamos sair! – A voz intensa volta, desta vez em um tom mais alto, mas ainda parece procurar não fazer muito barulho.

As portas são automaticamente destrancadas e ela faz sinal para eu ir na frente. Klaus e Guilherme se acomodam atrás e batem as portas, Ana entra no banco do motorista e engata a chave no volante.

No momento em que o carro liga, ela solta um profundo suspiro de alivio e imediatamente apaga os faróis frontais. De ré, estica a cabeça até a janela aberta e observa nossa traseira, ainda tossindo da podridão que não identifico de onde vem. Parece querer sair dali, mas noto que os carros abandonados do outro lado da rua estão atrapalhando. Depois de muita agilidade – e que agilidade - e manobras, finalmente tomamos um rumo pelas ruas desertas.

Em uma avenida consideravelmente longa, Ana dirige de forma lenta, observando cada rua paralela que passamos. Estamos em um ponto caótico da cidade, algumas estruturas permanecem em pé, pela metade, enquanto outras parecem que jamais haviam sido construídas. Levando em consideração a teoria de que as bombas foram armadas secretamente nos lugares mais movimentados ou pobres, imagino tamanha tecnologia para fazê-las em grande quantidade. Seria ainda mais inimaginável se outras metrópoles também estiverem assim. Meu coração aperta e meu estômago revira ao lembrar automaticamente da minha mãe.

É como uma bola de neve, cada lembrança leva a um questionamento ainda maior. Conheci horas atrás um senhor que esteve em Paranaguá no meio desta reviravolta. Alivio em pensar que foram evacuados, mas ao lembrar que não tive a chance de perguntar se algum outro veículo partiu da cidade tirando o que foi atacado, me atormenta ao extremo, e, mais uma vez, sinto um formigamento subir dos meus pés até minha boca.

Algo no caminho nos faz saltar no carro e me acorda de um transe agoniante. O carro de repente para, mas ao contrário do que pensamos, ele não estragou ou algo do tipo:

–– Acho que aqui está bom. – Diz Ana, ofegando, as mãos afagando a cabeça. Nunca vi a garota tão nervosa antes, mesmo que aqui no breu não possamos enxergar direito.

–– Vai finalmente dizer o que está acontecendo? – Guilherme se debruça de repente entre os dois bancos da frente, posso sentir seu rosto muito perto.

Ana toma um profundo suspiro...

“Não tive muito contato com Rômulo quando cheguei, devido às normas que me contou, apenas achei que estaríamos seguros finalmente, como todos pensavam. Os rumores que nos buscariam para uma segunda evacuação foram verdadeiros, mas não da forma que esperávamos. Mantiveram o lugar na melhor qualidade para conquistar a confiança dos que chegavam, mas sinceramente isso já não me cheirava bem...”. Na verdade, o lugar todo não cheirava bem – literalmente.

“No segundo dia após a chegada deles, haviam voluntários arriscando as próprias vidas para buscar alimentos e mantimentos, como remédios e primeiros-socorros. O que ganhariam em toca eu não sei, mas dói pensar que foram usados de tal maneira. ” O silêncio em suas longas pausas é desconfortável e angustiante.

“Os hospitais foram interditados e algumas regras foram impostas no terceiro dia. Nisso, já haviam espalhado pela cidade marcas e a localização do lugar...” O símbolo roxo que vimos nas caixas loteadas. Estavam atraindo as pessoas para o centro.

“No quarto dia, estava uma correria. Havia chegado na madrugada vários grupos de pessoas feridas na ronda das caminhonetes-pretas, levando a ala hospitalar ao desespero. ”

Após mais uma pausa, Ana observa nossa volta impaciente.

“Tendo consciência dos blocos lotados e a falta de suprimentos, eles resolveram dar início à evacuação. Me escondi no banheiro feminino por todo o tempo até começarem a levar o Bloco A para um armazém...”. Ela segura um relógio pelo qual começa a soluçar. “O lugar ficava no oposto dos outros quatro blocos, assim ninguém teria visão. Foi tudo feito de forma silenciosa mesmo enquanto uns cochilavam e outros dormiam. ”

Está prestes a chegar no ponto principal, posso sentir o mesmo desconforto e desespero que sente.

“Um por um, foram assassinados, posto um fim em suas vidas...”

 Ouço os dois atrás darem um salto e suas respirações pesarem mais que já estavam. Ana não contém as lágrimas, posso ouvir seus soluços.

“Pessoas que lutavam parar mudar suas vidas medíocres, crianças com um futuro brilhante, pais que se arriscavam todos os dias para colocar comida na mesa de suas casas...”

Imediatamente a imagem da mulher segurando sua criança no refeitório vem à cabeça, um pai abraçando sua filha confortando-a dos seus medos, um senhor cujo merecia um bom descanso por tudo que passou...

–– MAS PODEMOS VOLTAR E AVISAR OS OUTROS SOBRE...

–– NÃO, KLAUS. NÃO PODEMOS! – Os gritos não foram contidos e com certeza ecoaram em volta do carro. – VOCÊ NÃO ENTENDE, ELES POSSUEM UMA TECNOLOGIA EXTREMAMENTE PERIGOSA. MATARIAM TODOS NÓS SE CHEGASSEMOS PERTO DO MURO.

Os soluços de Klaus abafam os dos outros. Não me surpreendo de todos estarem assim, acabamos de escapar da morte – pela segunda vez.

Aos berros, Ana e Klaus discutem incansavelmente sobre salvar os que ficaram para trás, até um terceiro audível som ecoar pelo resto da rua. Isso provoca o silêncio instantâneo dos dois, até mesmo os meus soluços e os de Guilherme cessaram. Ouvimos novamente o barulho, desta vez, nos fazendo pular nos bancos. Ana solta um grunhido e, rapidamente, cobre a boca. Enquanto chego o mais próximo possível do para-brisa frontal, ela fecha as janelas do carro. Na terceira vez em que ouvimos o que identifico como grunhido, sou jogado contra o meu banco e, no desespero, Ana liga o carro.

No flash em que as luzes frontais produziram, pude ver nos milissegundos o pior dos pesadelos. Na sombra dos carros abandonados, algo mofava ali. Uma mistura de sangue com vísceras, uma aparência extremamente nojenta e perturbadora. Sinto algo subir do meu estômago e não são arrepios. Ana acelera o carro em ré e, num rodopio turbulento, toma estrada para longe. Posso considerar que não fui o único que avistou aquilo.

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