Uma História

O que faria se acordasse no meio do dia com uma ensurdecedora sirene anunciando o fim de uma evacuação e o inicio de uma auto-destruição em massa? A história narrada pelo próprio personagem conta a trajetória com o seu melhor amigo pelo sul do país em busca de suas famílias perdidas.

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2. Abandonado por Deus

Sinto o peso em meus olhos novamente, como se estivesse acordando em uma segunda-feira pela manhã. Mas não estou em minha cama... não sei onde estou. Me sinto completamente sujo. Passo as mãos em meu rosto e sinto uma forte dor, ardor. Não consigo enxergar o que está acontecendo. Afago meus cabelos e sinto um forte podre. Meu controle está voltando aos poucos. Busco algo em minha volta e sinto uma coisa diferente. Klaus? Rapidamente analiso com as mãos e o reconheço por causa do curto-longo-cabelo-jovem-adulto.

–– K-Klaus? – Mesmo esforçando minha voz falha.

Desisto da ideia de tentar acorda-lo e procuro algo para iluminar. De imediato, passo as mãos no bolso da calça e retiro meu celular. Procuro o botão para ligar e desbloqueio, minhas mãos trêmulas quase o derrubam. Está com um rachado enorme na tela. Ligo a lanterna que miseravelmente ilumina e miro em volta.

Meu coração lateja em meu peito, fazendo-o doer. O medo e a ansiedade me tomam.  Devo estar morto? Devo procurar "a Luz"? Nada está sendo um sonho... tudo está sendo real. Estou tão confuso... Passo uma mão no rosto por reflexo do aborrecimento pela má iluminação e sinto a mesma dor-ardida, o que me faz rapidamente tira-la dali e mirar diante à lanterna. Fico observando por um tempo, assustado, analisando as manchas de sujeira e o que parece ser sangue. Início o aplicativo de fotografia e seleciono a câmera frontal. Tiro uma foto com o flash que a tela faz. Abro minha galeria e espero carregar. Os pixels começam a tomar forma, vejo muito vermelho nela. Para minha - não - surpresa, meu rosto está ensanguentado e com diversos míseros estilhaços. Marcas de sangue seco me levam a conclusão que estou há um bom tempo ali. Aponto o celular para Klaus e o vejo no mesmo estado. Suas roupas estão cobertas por sujeira e sangue. Me ajoelho ao seu lado e o chacoalho. Ele se debate por um tempo, parece lutando para voltar. Está gemendo e seu rosto mostra expressões de dor. Logo paro e analiso. Sua perna esquerda está presa por baixo de algumas pedras. Parecem pesadas. Cambaleando, consigo ficar em pé. Largo o celular em um canto, posicionado para nos iluminar e tento tirar ele dali.

–– Aguenta aí, cara... – Murmuro.

Me agacho e, com as duas mãos, dou toda minha força para tirar aquelas pedras. Na medida em que forço, solto grunhidos de dor com a voz ainda falha. Dou pequenas pausas para aliviar o ardor. Em uma tentativa muito forçada, minhas mãos escorregam e meu corpo é lançado para trás. Meu grunhido parece ter sido alto demais, o que acabou o acordando.

–– Ah... AH! AAAAAAAH! – Grita Klaus, conforme desperta.

Corro até ele e acalmo-o.

–– Quando eu levantar a pedra, você tira a perna. – Digo. Ele concorda.

A pedra se desloca um pouco, desequilibrando o monte acima dela. Pequenas e pesadas pedras caem em minha direção. Por sorte consigo escapar e Klaus solta a perna.

–– Levante a calça. – Ordeno. Ainda sonso, ele levanta. – Consegue mexer? – Ele move para cima e para baixo lentamente, franzindo o cenho de dor. Mas não é algo que o impossibilite andar. Talvez tenha apenas prendido um pouco o fluxo sanguíneo.
O que está... o que... acontecendo... – Passa a mão na cabeça, assustado e confuso.
Eu não sei... – Circulo no lugar, tentando achar algo. – Espere aqui.

Com a lanterna do celular posicionada um pouco a minha frente, caminho por todo o perímetro. Esse lugar parece abandonado por um bom tempo. Pedregulhos tomam conta dos caminhos, alguns pilares estão caídos ou rachados. Não parece seguro ficar por muito tempo aqui. O que me chama a atenção são trilhos escondidos por baixo dos entulhos.

–– Precisamos sair logo. Não parece seguro. – Digo a ele. – Consegue ficar em pé?

Ele cambaleia um pouco, dá alguns passos mancando mas parece bem.

–– Ótimo. Qualquer coisa, segure em mim.

Klaus não faz mais que balanços com a cabeça ou expressões muito convincentes. Está apavorado, isso é notável. Ainda com o celular na mão, busco por uma saída – ou entrada. Avisto uma escadaria do outro lado da área. Sigo com ele apoiado em meu ombro.

Chegamos finalmente na escada. Ao dobrar o corredor, não vejo nada além de mais pedregulhos bloqueando a passagem. Frustrado, me agacho em frente aquilo. Pensando em como prosseguir. Tudo o que eu quero é descobrir o que está acontecendo. Fomos sequestrados e largados aqui para morrer?

–– Não se preocupe. Vamos dar um jeito.

Vejo em seus olhos a confiança que sempre teve em mim. Isso me enche de determinação. Tudo indica que estamos em um metrô, penso que haja uma próxima estação seguindo os trilhos. Precisamos nos apressar, o lugar está me apavorando.

–– Vamos seguir os trilhos até a próxima estação, tudo bem? Seja lá quem foi que fez isso com a gente, vai pagar. – Me levanto e caminho em direção a faixa de segurança amarela.

Com um pequeno salto, desço até os trilhos. Observo pelos dois túneis extremamente escuros. Deito no chão e encosto minha orelha direita em um dos trilhos, concentro ao máximo minha audição para ver se algo vem. Ajudo Klaus com a perna machucada, segurando-o ao descer. Com cuidado, caminhamos pelo túnel. A lanterna do celular nos guia por todo o caminho. Sempre dando os mesmos passos na separação entre um dormente e outro. Mantenho ele sempre ao meu lado, segurando com força seu braço já na sétima tropicada.

–– O que é tudo isso? – Pergunta.

–– Eu... eu não sei. – Perco expectativas em qualquer hipótese.

–– Você se lembra de algo?

–– Não... – Desanimo completamente.

–– Nem eu. Estou muito assustado.

–– É... eu também. – Não sou o tipo de pessoa que perde fácil o controle da situação.

–– A gente vai morrer?

Com uma pausa, viro-o para mim pelos ombros.

–– Ei, claro que não. Nós daremos um jeito. – Tento anima-lo com leves chacoalho. Sua feição continua contrária.

 

 

Caminhamos por um bom tempo até que avistamos algo claro muito à frente. Ambos animamos os passos depois de um breve momento sorridente. A luz fica mais nítida conforme caminhamos. No longo e escuro corredor, identifico que é uma estação. Poucos passos depois, sinto algo estranho. O chão em baixo dos meus pés começa a vibrar em tempos aleatórios. Sinto os trilhos tremerem. Com o coração acelerado mais que nunca, seguro Klaus pelo braço e não penso em outra coisa a não ser correr.

–– RÁPIDO, KLAUS!

Cada passo aumenta o de desespero - e os impactos no chão. Chegamos finalmente na estação, mas não baixo a guarda. Ajudo Klaus a subir o mais rápido possível. Logo depois, eu subo. Enquanto ele corre para trás, procuro ver o que está acontecendo. Do outro lado, vejo uma estranha luz aumentando cada vez mais pelos túneis. Quando menos espero, um trem vem em nossa direção. Em um baque muito alto, dou um pulo para trás. O trem parece estar em chamas e totalmente desgovernado. Tropeço meu pé em algo e caio de costas. Algo me agarra por baixo dos braços e me puxa. Klaus. Corremos para o pilar mais próximo e usamos como proteção. Ele fica abaixado, com as duas mãos na cabeça tampando os ouvidos. Está ofegando. Quando os barulhos aparentam não poder ficar mais altos que já estão, tento observar por trás do ombro. Estilhaços me fazem encolher mais ainda. Jogo meu corpo por cima dele tentando o proteger.

Alguns longos segundos se passam e o barulho ensurdecedor cessa. Ainda sinto as estruturas estremecendo. Klaus mantém a posição, apenas ergue a cabeça para mim. Viro meus olhos para ele e assinto. Parece mais dessujo que a outra estação, mas não deixa de se assemelhar. Já não preciso mais da lanterna para enxergar, há luzes vindo das escadarias – o que indica que ainda está dia. Balanço a cabeça para ele, apontando para lá. Sinto meu corpo menos pesado, mas Klaus ainda cambaleia com sua perna. Pelo esforço que fez para me puxar, suas feições de dores estão mais frequentes.

A luz bate finalmente em nossos corpos. Cubro a vista com as mãos, esperando me confortar com a claridade. Em pé na entrada da escadaria, aguardo por Klaus. Fico totalmente imóvel e sem palavras. Sinto o arrepio subir dos meus pés à cabeça e minhas pernas bamboleiam quando tudo fica visível. Procurando manter forças para não cair de joelhos, coloco as mãos na cabeça, boquiaberto. Klaus chega do meu lado, com os passos um pouco acelerados, mas ainda assim atrasado. Ao se deparar com a paisagem, não tem uma reação muito diferente da minha.

–– Ah. Meu. Deus. – Solta um grande suspiro, sua voz quase não sai. – Meudeus, meudeus, meudeus, meudeus...

Por um segundo me pergunto se estou realmente na minha cidade. É difícil descrever o local, mas logo reconheço pelo restaurante que costumei a frequentar quando estava na universidade. O letreiro está pendurado apenas pelo gancho esquerdo, não muito diferente das outras lojas. Vejo estruturas caídas, entulhos cobrindo as calçadas, grandes pedaços de destruição que se assemelham com a mordida de um gigante. Será que um gigante passou por aqui? Olho para toda a avenida e não vejo nada além de destruição em tom sépia. Minha cabeça está sendo assombrada por apenas uma pergunta: Como?

Parados por um tempo no mesmo lugar. Me encosto no pilar do lado direito da entrada e Klaus se mantém sentado no chão. Observamos em silêncio toda a devastação, questionando o que aconteceu ali. Em luto por tudo.

–– O que vamos fazer? – Pergunta ele. Eu claramente não tenho uma resposta para isso. Cheguei a um ponto em que nada mais vem à cabeça.

–– Vamos para casa. – Respondo sem ao menos pensar duas vezes.

–– Mas... E se ela nem existe mais?

–– Não saberemos antes de chegar lá.

Caminhamos agora por uma cidade fantasma. Eu digo literalmente uma cidade fantasma. Os céus turvos pelas fumaças, o desespero cobre qualquer canto. Alguns perímetros parecem mais destruídos que os outros. Vejo-me de relance nos reflexos sujos das lojas luxuosas que agora são apenas lixos. Procuramos em toda parte algum sinal de vida, dando alguns gritos, mas estamos em uma área que parece ter sido visitada pela Dona Morte. Nem mesmo as plantas correspondem ao soprar dos ventos. Por cima do caos, várias frases anarquistas pichadas. Fico mais aliviado em pensar que não estamos sozinhos, mas ainda não imagino uma boa companhia.

Através de destroços, seguimos perdidos. Sozinhos no meio da rua, sem um sinal de vida. Viramos pela Rua Pedro Ivo, caminhamos ao lado do Santuário Nossa Senhora do Guadalupe. A grande imagem da Santa está pichada toda pichada - “Abandonado por Deus”, e uns detalhes sexualmente demoníacos. Avistamos finalmente a parte de trás do condomínio. O que aparenta ser o Bloco 4 está totalmente dizimado, os demais blocos estão em condições horríveis e não parecem nada seguros.

Entramos pela brecha de um dos portões da garagem e seguimos até a porta das escadarias, que parece ter sido brutalmente arrombada. Com um pouco de esforço, tiro-a do caminho. Seguimos por 9 lances de escadas e chegamos no corredor do terceiro andar, mirando diretamente à porta nº17.

Tudo está derrubado, sujo... morto. Nosso pequeno apartamento não escapou do gigante. Ando pelo corredor, desviando de quadros derrubados, atravesso a sala pulando por minhas antigas coleções de álbuns, velhas lembranças. Os móveis estão jogados, as paredes com enormes rachaduras que parecem prestes a cair. Algumas antigas fotos estão espalhadas pelo chão. Me agacho e alcanço uma com que me familiarizei. Minha mãe ao lado esquerdo, com os olhos ligeiramente vermelhos e um largo sorriso. Reconheço o dia ao ver que está segurando uma Rosa um pouco amassada que à presenteei. Tinha cinco anos quando fiz sua primeira homenagem no dia das mães. Impossibilitado de segurar o sentimento emoção, as lagrimas escorrem em meu rosto. Uma delas direto na fotografia, fazendo o papel manchar. Esfrego-a na blusa, mas a marca não sai. Alcanço uma velha foto, rasgada, que parece ser de Klaus. Ouço se aproximando e seco meu rosto na manga da camisa manchada.

–– Você estava chorando. – Diz

–– Eu não... estava... – Digo, falhando em minha tentativa de disfarçar. – Olhe, pegue isso. – Entrego a foto.

Mesmo ele, não consegue segurar as lagrimas. De imediato, elas começam a escorrer por seu rosto, mas nem isso muda sua feição vazia.

Ao me apoiar na janela da varanda, tenho uma ampla vista de toda a cidade destruída. Aquilo me deixa gaguejando. Todo o desespero já se tornou normal. Tão em choque que não tenho mais diferentes emoções. Olho para minhas mãos e estão cobertas de sangue seco. Minhas roupas imundas, assim como eu. Em silêncio, não ouço nada além do que parece ser o som da solidão.

–– Precisamos sair daqui... – Murmuro. Sem perceber, ouço Klaus do meu lado, concordando e observando a mesma paisagem que eu.

–– É...

Meu coração mais uma vez não aguenta ao ver seu rosto totalmente ensanguentado.

–– Limpe-se. Vou pegar alguns panos para o sangue. – Digo.

Cambaleio por destroços no corredor e volto para o quarto. Retiro a televisão caída na frente da cômoda e abro a gaveta de camisetas. Pego as primeiras que vejo, não me importando mais se são novas ou antigas. Todas no final vão servir para algo maior que apenas vestir – eu acho. Sigo até o banheiro, me encaro pelo vidro quebrado do espelho. Se tiver sorte, ainda restou um pouco de água no encanamento. Tampo o ralo e deixo encher a pia. Jogo com cuidado um pouco no rosto, limpando cada ferimento. A água se torna marrom-avermelhada, as manchas na camisa em que me seco fazem parecer um traje de um sanguinário assassino. Dou o espaço para Klaus e procuro outras roupas para vestir. Sento na beira da cama, ainda com o coração na garganta. Meu peito apertado ao ver um irmão naquele estado. Não quero imaginar o que deve ter acontecido com as outras pessoas. Visto uma camisa de manga comprida, bege. Troco minha calça por qualquer bermuda e mantenho minha bota nos pés, amarrando-as novamente. Até a cozinha, procuro por água. O encanamento deve estar todo sujo e parte destruído.

–– Klaus, pode me dar uma força aqui? – Chamo-o. Logo ele aparece na entrada, com a toalha toda suja secando seu rosto. As raízes de seus cabelos umedecidas.

Me abaixo na lateral da geladeira caída e ele entende o que quero dizer. Abaixa do meu lado e posiciona as mãos nela.

–– No três. Um... dois... TRÊS!

Tombamos ela para o outro lado e logo vejo toda comida que tínhamos ali. Alguns iogurtes jogados, umas latas de refrigerante e algumas garrafas de cerveja quebradas – que desperdício. Vasculho ela toda por dentro e por fim acho algumas garrafas de água, que já estão em temperatura ambiente. Klaus me encara – com sua expressão vazia – pela porta da cozinha.

–– O que vamos fazer? – Pergunta. Por um momento, encaro-o totalmente abatido. Mas logo retomo meu posto como irmão mais velho.

–– Troque essa roupa. Vamos para Paranaguá.

 
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