Drama

Tudo pode acontecer na véspera de Natal, principalmente estar em uma cidade desconhecida, sem sinal, em um aeroporto na chuva, lidando com um garoto que diz que Papai Noel usa All Star.
Será que um café pode melhorar as coisas?

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3. O Começo

 

 Ele destrancou a porta, a chuva estava mais forte e eu realmente queria saber se era uma boa ideia sair, talvez eu conseguisse enrolar mais um pouco até a chuva parar. Olhei para o garoto que agora havia tirado o boné da cafeteira, nem havia reparado nele quer dizer ele devia ter uns dezenove ou vinte anos, não era tão grande mas nem minúsculo, e usava o uniforme azul marinho com um crachá de atendente, nada demais porém notei como ele era tinha olhos azuis claros e cabelos castanhos que agora estavam bagunçados. Ele me olhava sereno, não estava com raiva. Ótimo. Eu estava.

- Ok, tudo bem. Acho que começamos errado. - Ele disse por fim olhando em direção a estrada. Parecia um motorista consciente até mesmo parado. - Thomas, Thomas Conigan.

       Ele estendeu as mãos em minha direção. Aquilo era sério?

- Elyssa Suinzy. - Observei se ele estava falando sério. Para que mentiria?

- Bem, Elyssa agora podemos ir? Ou você quer sair correndo?- Ele esboçou um sorriso. Mas eu também sabia jogar.

- Por favor, o quanto mais rápido para não ter que te aturar por mais tempo, Thomas.

      Thomas não disse nada, apenas ligou o motor do carro e partiu. A maior parte da viagem notei a pasaigem, campos e árvores se perdiam em meio a vestidão verde, nem percebi que a chuva havia cessado quando o carro parou.

- Ah não! - Thomas disse em um tom não muito amigável.- Que droga. Tinha que ser logo agora?

- Me diz que você colocou gasolina? - Ele me encarou pensativo, talvez nem lembrava que eu estivesse aqui.

- Se fosse gasolina esse seria o menor de nossos problemas. O motor eu acho que...ele morreu.

- E você sabe consertar, não?- Ele não respondeu só tirou o cinto de segurança. Certo, ele não sabia. Era o que faltava estar no meio de uma estrada deserta com o carro quebrado e um cara que eu não conheço.

       Sai do carro e o observei mexer no motor, o problema era que nem ele sabia qual era. Sentei na berada na estrada esperando algo acontecer que não fosse chuva. Thomas desistiu de tentar o nada e sentou ao meu lado.

- O que foi? - Ele teve coragem de perguntar. 

- O que foi? 

- Ah desculpe se eu não tenho um crachá de mecânico senhorita.

- Que bom que reconhece. - Minhas esperanças de chegar a qualquer lugar tinha se acabado. Me sentia a Alice no pais das maravilhas. - Só me diga que Louise vai perceber que o carro tinha problema e virá nos ajudar.

- Não, ela não virá. - Ele riu..ele estava rindo?

- Qual é a graça?

- Sei lá...você ser a princesa que veio visitar a humilde cidade? - Você sempre é um idiota? 

      Thomas não respondeu apenas pegou uma pedrinha e tentou joga-la do outro lado da pista, seria uma ótima solução se tudo resumisse em saber a distância até o outro lado e não um motor quebrado. Colocar na lista do Papai Noel um motor e esperança.

      Observei a estrada totalmente vazia que diferente da cafeteira não tinha nem uma pessoa além de nós.

- Eu devia ter faltado hoje. - Ele disse ainda tentando a sorte com as pedrinhas.- Agora vou deixar Clara sem presente.

      Ele jogou a pedra com mais força. Thomas estava sendo sincero e nesse caso viajar de última hora no natal para uma cidade pequena não era um problema. Me odiava por ser tão egoísta.

- Você é uma das primeiras pessoas que eu conheço que deixa para comprar o presente de natal nove horas antes. - Ele virou para me observar, estava sorrindo. Começo.

- É o que se pode fazer quando se trabalha na véspera de natal. - Ele me ofereceu uma pedrinha, realmente demoraria para sair dali.

- Quem é Clara?- Não era a melhor pergunta. Thomas esboçou um sorriso.

- Minha sobrinha, ela vem todo o natal com minha irmã meio que passamos a noite com...o restante da família. 

- Seus pais também trabalham no natal?

- An...na verdade minha mãe é pediatra e trabalha na UTI, então natal meio que não é tão importante e meu pai...ele morreu há cinco anos. - Ele jogou as últimas pedrinhas da sua pilha. 

- Ah...eu sinto muito.

- Não, tudo bem. Meio que a vida inteira se acostumando com um natal assim cinco anos não são nada. - Thomas pegou uma pedrinha minha. - E a sua? Veio passar o natal com seus avós, não? Seus pais virão amanhã?

- Ah não, meus pais fazem trabalhos voluntários no natal e na virada de ano então os verei em janeiro, em férias quem sabe.

- Quem sabe? - Ele segurou o riso. Ok, fui dura demais mas precisava seguir com o drama natalino. - Vai estar trabalhando?

- An...na verdade estou de férias meio que Permanentes.

- Você foi demitida? O que fez de errado? Deixou alguém louco ou obrigou alguém a parar o carro para você sair correndo?- Thomas riu, claro que não deixei ninguém louco.

- Não, só fui demitida. 

- Onde você trabalhava? Cafeteira?- Eu sorri.

- Redação de um jornal. 

- Redação?!- Thomas parecia surpreso. 

- É bem, foi só para o fim da faculdade como estágio.

- Faculdade? 

- Você poderia parar? 

- Ah, desculpe, não foi a intenção só que você não aparenta ter...an..

 - Idade? Bem, mas tenho. - Eu sorri e ele parou de jogar as pedrinhas. Nem havia notado que ainda estavamos sentados na beira da estrada deserta.- E você? Já faz muito tempo que está na cafeteira?

- Não, um ano, também é um emprego temporário era para ajudar minha família e pagar o restante da faculdade.

- Faculdade? - Tentei imita-lo mas sem muito sucesso.

- Publicidade. Tenho 21. - 21? Ok, paradoxos da vida.

- Sei...- Peguei meu celular para visualizar as horas, já fazia uma hora que estavados parados.

- Esperando alguma ligação? - Ele observou meu celular. Corrigiu em seguida. - Não acho que tenha sinal em uma estrada.

- Não, nenhuma. Não tenho ninguém que queira ligar. 

- Eu queria ligar...para sair do lado de uma maluca.

      Eu sorri, parecia que eu havia o conhecido antes mas não conseguia saber onde. Olhei para o horizonte, o sol estava se pondo adorava aquela imagem principalmente quando um carro começou a diminuir a velocidade e parar no acostamento.

- Olá. - Disse uma mulher simpática no banco do carona. Utilizava um óculos de sol junto a uma câmera fotográfica pendurada no pescoço. Talvez estivesse vindo de uma viagem do litoral. Ao seu lado estava um homem com um boné um pouco bronzeado. Sim, voltavam da praia. - Está precisando de ajuda querida?

       Então ela olhou Thomas de uma forma diferente. 

- Está acontecendo alguma coisa?

- An...não. Na verdade sim, nosso carro estragou será que poderiam nos dar uma carona até a cidade? 

- O carro estragou? - Ela perguntou ainda observando Thomas. Pensa Elyssa.

- Sim, estávamos indo passar o natal na cidade. - Olhei Thomas ainda pensativo. - Eu e meu...

- Namorado. - Thomas disse rápido mostrando uma aliança no seu dedo. E eu nem havia reparado.

- Por favor, se vocês pudessem fazer esse favor eu e Thomas ficaremos muito agradecidos, não é mesmo Thommy?

- Ah sim, claro. - Ele esboçou um sorriso para mulher que a essa altura acabou acreditando na história, retribuiu o sorriso. 

- Entrem garotos. 

       Entramos no carro após pegar minhas malas, sei que precisaria delas para continuar com a história não sabíamos quando é que apareceria a segunda carona. Thomas parecia confiante, se eu estivesse no lugar da mulher não teria desconfiado em dois jovens perdidos na estrada. Consegui ler os seus lábios quando perguntou "se podia", apesar de eu não ter entendido muito bem concordei, ele acabou segurando a minha mão. 

- E então? Vocês vieram passar o natal na cidade? - A mulher tentou puxar conversa, acabamos chegando a conclusão que o homem não era muito de falar.

- Ah sim, tentamos fugir um pouco da correria da Cidade Grande. - Thomas disse antes mesmo de pensar em algo. Esperei.

- E vocês estão juntos desde quando?- Desde a tarde? Na verdade cinco minutos atrás oficialmente.

- Já faz três anos, não Lyssa? - Ele me puxou para mais perto para que a mulher notasse pelo retrovisor. Esperto.- Nos conhecemos na faculdade.

- É, estudos sobre a síndrome de Estocolmo. Já ouviu falar? - Sorri enquanto Thomas ainda absorvia o que havia dito, eu não estava ajudando.

- Ah sei, já ouvi falar mas nunca tive curiosidade em saber.- Ela ajeitou o cabelo. - Mas então crianças, o que pretendem fazer essa noite? 

- Não sabemos ainda, mas estamos planejando em trocar as diversões dos bares para algo mais caseiro. - Thomas deu um beijo na minha cabeça. Ok, siga o plano. 

- É, algo mais família. - Afirmei.

- Sabe, vocês me lembram meu filho. Ele vivia assim viajando mas no fundo adorava passar um tempo em casa. Mas agora tem de fazer isso por causa do trabalho. 

       Não demorou muito para que chegassemos até a cidade, tiramos as malas do carro e agradecemos a ajuda. Fim da cena, ótimo. Pensei cedo demais. Thomas me abraçou.

- Muito obrigado, senhora...an...não nos apresentamos.

- Ah, é mesmo! Sou Olívia e esse é meu marido Antônio.

- Muito obrigado então senhora Olívia e senhor Antônio. Eu e Elyssa agradecemos. Feliz natal! 

        Eles se despediram e me soltei de Thomas que continha a risada. 

- O que foi?- Perguntei empurrando-o.

- Thommy?

- Ah...precisava ser um pouco mais real. - Eu sorri, mas não tão real. - Lyssa, sério?

- Você gostou não? - Eu ri, ninguém mais me chamava de Lyssa meus pais diziam isso.- Enfim, conseguimos! 

- Claro, conseguimos. - Lembrei do anel por mais esquisito que fosse lembrar ele aparecia nitidamente nos meus pensamentos.- E então, de quem pertence o anel?

      Thomas me observou, sim eu estava falando sério. Sorriu.

- An... Julia. Mas nós terminamos há um ano praticamente.- Ele acrescentou, como se precisasse.

- Guarda o anel de um romance antigo?

- Não, é só parte do meu chaveiro.- Ele riu. E essa era a vida de Elyssa Suinzy.

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