The Good Girl

Scarlett Westbrook tinha 20 anos quando foi humilhada publicamente.
Aos 23 anos presenciou a celebração de noivado do seu amor da adolescência.
Aos 24 anos estava numa delegacia prestando depoimento sobre um assassinato.

Graças a uma única pessoa, esses momentos marcaram sua vida: Barbara Faye.

A família Faye amparou a família Westbrook quando esta passava pela pior fase de sua história. Devido a isto Scarlett e Barbara conviveram como melhores amigas, confidentes, irmãs...

Dividiam praticamente tudo, exceto suas personalidades. Nisso elas eram absolutamente opostas. Barbara ignorava todas as regras, Scarlett as seguia metodicamente

Scarlett nunca pensou que as coisas acabariam daquele jeito para Barbara.
Nunca pensou que estaria no velório da amiga.
Muito menos que a boa moça viria a ser, além uma das peças mais importantes da investigação, também a sua principal suspeita.


Conteúdo +18: Pode conter tortura, mutilação, suicídio, violência gratuita/banalização da violência, pena

1Likes
1Comentários
3119Views
AA

5. »fourth«

Dias Atuais

Delegacia Distrital de Marblecoast

Marblecoast

10h45 a.m.

Quarta-Feira

Entrei na sala do delegado enquanto minhas mãos abraçavam-se como se isso fosse impedi-las de fazer algum gesto brusco.

—Tem certeza que consegue fazer esse depoimento agora?- pisquei os olhos encontrando o delegado Barre já sentado atrás de sua mesa apontando para a cadeira na sua frente.

Ele devia estar fazendo isso há um bom tempo.

—Sim, consigo.- foi o que eu me limitei a dizer ao sentar rapidamente na cadeira ligeiramente mais confortável do que as da sala de espera.

—Não precisa ter medo, okay? São só umas perguntas para sondar sua relação com Barbara e juntar mais informações sobre a noite do assassinato.- ele buscava meu olhar, mas eu não conseguia encará-lo.

Convenci a mim mesma que olhar para ele era o melhor a fazer. Passaria mais confiança.

Eu esperava um cara do tipo do guarda Sarot. Aquele do tipo que era fácil deixar impaciente até que ele te mandasse embora ou te prendesse de uma vez. O cara na minha frente não fazia esse tipo.

Ele deveria ter uns 33 anos, no máximo. Sem chance de ser mais velho do que isso.

Parte do cabelo dele caía pela testa e eu achava que a careca sorridente do guarda Sarot, apesar de nada atraente, era muito mais confiável. Antes eu sabia com o que estava lidando.

O delegado Barre parecia esperto, daqueles que só de você respirar já consegue captar suas intenções.

Sua barba era bem feita e alinhada e seus olhos eram profundamente azuis. Não daquele azuis que pareciam ser iluminados, mas aqueles azuis misteriosos que já viram muita coisa que não desejaria ter visto.

Sua sala era aconchegante, mas não para quem estava do meu lado da conversa.

Atrás dele havia uma estante repleta de livros conhecidos e lidos por mim, e também alguns que eu nunca tinha ouvido falar. Na sua mesa tinha apenas um pote para as canetas, um recipiente de café, várias fichas –uma delas com minha foto– e o porta retrato onde ele estava irritando um garoto que se parecia muito com ele.

Demorei mais do que devia analisando a imagem.

—Meu irmão. Foi assassinado há 8 anos.- ele disse com sua voz grave e intimidadora. —Estava comigo no dia que morreu. Tínhamos saído para uma festa e depois de um tempo ele sumiu. Encontraram-no boiando no lago na manhã seguinte. Esfaqueado até a morte e com lesões graves na cabeça.

Tinha certeza que ele contava aquilo para que eu me sentisse familiarizada e disposta a contar sobre o meu caso.

Porém não estava funcionando.

—Já estive nessa mesma cadeira que você, senhorita Westbrook. Já me julgaram e disseram que eu era um suspeito em potencial.- o delegado riu sem humor.—Acredita? Eu estava sendo acusado de matar meu irmão. Quão insano isso soa? Não preciso dizer do pânico e do desconforto que eu passei, mas quero que você se sinta o mais a vontade possível. Eu não tive essa regalia.

Ele encarou as mãos.

Ficamos em silêncio enquanto eu cutucava o canto da minha unha.

—Você foi condenado?- minha voz parecia que não era usada há milênios.

Seu olhar voltou para mim:

—Por pouco eu seria. Uma falsa testemunha depôs contra mim, mas não foi o meu DNA que encontraram na cena do crime.- Barre respirou fundo se recostando na cadeira. —O DNA era do filho dos nossos vizinhos que nem era para estar naquela cidade, muito menos naquela festa. Eu não sabia que ele tinha uma birra antiga com Dylan. O desgraçado só apareceu ali com o propósito de tirar a vida do meu irmão. Tinha 17 anos e um futuro brilhante. Digo isso de ambos.

Ele não olhava para mim agora, olhava para o retrato.

—Eu sinto muito.-foi o que eu consegui dizer depois de alguns segundos.

—Que tal se começarmos por como você e sua família foram parar na casa dos Faye? Conte um pouco da sua história.- respirei fundo. Eu não tinha pensado que ele ficaria falando da vida dele para sempre, tinha?

Concordei com a cabeça, prendi minha franja atrás da orelha e comecei a contar.

Minha mãe e Audra eram a amigas de infância. Ambas de famílias ricas e influentes.

Os Faye eram donos de grandes fábricas de máquinas agrícolas. Os Westbrook eram donos de grandes minas e fontes de petróleo dentro e fora do país.

Quando meu avô morreu deixou tudo sobre o comando de minha mãe que era a mais responsável dos netos.

Ela, com a ajuda do meu pai, conseguiu multiplicar a nossa fortuna em milhões e milhões.

Quando eu nasci, minha mãe dedicou o seu tempo a mim e o comando da empresa passou para o meu pai. Ele era muito dedicado e comprometido e isso acabou desgastando-o fisicamente e mentalmente.

Quando minha irmã nasceu, meu pai decidiu que acompanharia mais nosso crescimento, entretanto já era meio que tarde demais.

Ele já estava muito doente e fraco. Fumava maços e maços de cigarro para aliviar o estresse e só foi diagnosticado quando o seu câncer de pulmão já estava num estado avançado.

Minha mãe ficou arrasada quando ele se foi. Nós, crianças, tínhamos babá e quem cuidasse da gente, porém minha mãe simplesmente não tinha mais forças para administrar aquela empresa que já estava com uma proporção tremenda.

Meu tio, que era viciado em jogos, se aproveitou da situação. Toda a herança que meu avô deixou para ele tinha ido pelo ralo, e minha mãe tinha pena e ajudava. Mal sabia ela que estava ajudando-o a se afundar e afundar nossa família junto.

Então chegou num estágio que a empresa foi parar nas mãos do meu tio, e a partir daí não é difícil imaginar o que aconteceu.

Ele foi apostando – e perdendo– ação por ação da empresa até que a porcentagem que tínhamos não influenciava mais em nada.

Apostou tudo que ele podia e não podia. Até que um dia nos vimos sendo despejados de nossa própria casa que pertencia à nossa família há anos.

Todos os "amigos" sumiram e a única que nos estendeu a mão foi Audra e sua família.

Tratou minha mãe como uma irmã e tratou eu e Persie como filhas, em todos os sentidos.

Barbara que já convivia comigo na escola, ficou ainda mais próxima de mim.

Éramos apresentadas como irmãs.

—E em nenhum momento de, você sabe, rebeldia adolescente ela ou o irmão, –Gunther Faye, não é?–pareciam incomodados com a presença de vocês?-o delegado me analisava atentamente.

—Gunther sempre foi reservado, tímido, na dele. Não conversávamos muito, mas ele tinha carinho por todas nós.-enxuguei minhas mãos suadas na calça jeans.

—E Barbara? Vocês se desentendiam muito?

—Não éramos muito de brigar uma com a outra. Às vezes, ela parecia ter ciúmes da atenção que tínhamos, como toda criança, e então nessas horas eu me colocava no meu lugar. Não queria que ela pensasse que eu queria roubar seu lugar.

Cenas de Barbs rolavam na minha mente quando ela ficava sem falar comigo por dias se ela achasse que o presente que eu ganhava era mais interessante que o dela.

Eu sempre acabava trocando com ela no fim das contas.

—Mas vocês eram bem diferentes, digo, em termos de personalidade, não eram?- Barre tinha o dedo indicador estendido na bochecha, o médio em cima dos lábios e o polegar no queixo.

Estava concentrado em mim. Ficava bonito daquele jeito.

—Era o que as pessoas diziam. Barbie sempre teve uma personalidade forte. Se ela queria, ela teria e faria qualquer coisa para isso. Eu dava conselhos a ela, mas ela não me ouvia, na maioria das vezes. Era namoradeira, gostava de beber e de festas. Muita gente não ia muito com a cara dela, mas fingia ir.-o delegado anotou alguma coisa nas linhas que estavam vazias na minha ficha.

Barbie tinha poucos amigos de verdade. Isso me assustava. Muita gente poderia ter feito aquela atrocidade.

—Eu a acompanhava em todos os lugares, já que seus pais confiavam mais se eu fosse junto com ela. Eu não era o tipo que gostava de algazarra, então talvez se ela andasse comigo passaria a não gostar também. Porém, eu era a única influenciada ali.

—Vocês mentiam para onde iam para os pais dela?-assenti com a cabeça.—E você fazia o que nesses lugares, já que não era o seu estilo?

—Absolutamente nada. Às vezes eu achava um quarto vazio, ou uma varanda. Levava um livro ou meu IPod escondido e esperava o tempo passar. Às vezes ela vinha me fazer companhia por alguns minutos ou me apresentar para alguém, porém quando ficamos mais velhas ela esquecia que eu havia ido com ela. Eu bebia alguma coisa ou conversava com alguém. Então era hora de embora e eu tinha que ficar procurando-a pela festa inteira.

—A escolha da faculdade foi sua?- o modo como ele mudava de assunto era brusco. Devia ser uma técnica para te pegar despreparado.

—Eu sabia o que queria ser desde os meus 5 anos, não vou mentir e dizer que era o que Barbara queria para vida dela. Ela estava acostumada a me ter carregando-a nas costas, e escolher a mesma faculdade que eu facilitaria muito mais as coisas.

—Você não se sentia incomodada? Você a considerava sua irmã, mas ao que parece ela considerava você apenas por conveniência. Porque os pais dela sabiam que você era uma boa influência e que você não a deixaria fazer nada de errado.- parte de mim concordava com o delgado Barre.

Já a outra parte:

—Barbs parecia superficial, mas não duvidei em nenhum momento que ela tivesse alguma consideração por mim. Quer dizer, éramos muito grudadas, eu faria qualquer coisa por ela. Tenho certeza que ela faria o mesmo por mim.- o olhar dele era de pena.

Percebi que eu estava completamente ereta na cadeira, apertando os apoios de braço fortemente. Exaltada.

Eu era patética.

Comecei a me sentir mal de novo e a desejar ter deixado esse depoimento para pelo menos depois do almoço.

(Notas Finais: Hey, obrigada pelas leituras!

Deixem seus comentários e opiniões sobre a história.

Não se esqueçam de votar/favoritar e indicar para os amigos.

Até mais

Xx)

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...