Salva-me

Martells e Boltons formam uma aliança através do casamento de Amyra (a filha mais nova de Príncipe Doran) e Ramsay. A vida ao lado de um dos homens mais cruéis e violentos de Westeros não será fácil, mas ela terá a ajuda de Hemon Forthwind de Deserto Vermelho, um nobre Dornês apaixonado por ela.

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11. Submissa, curvada

Hemon está em pé diante de uma janela decorada com cortinas laranjas, bordadas em dourado. Está sem camisa e seu torso moreno e musculoso brilha um pouco por causa dos resquícios de suor da relação que acabara de ter. Ele mantém o olhar perdido no mar distante e em pequenos barcos que flutuam lá. O ar morno do início da manhã entra pela janela do quarto e bagunça as ondulações marrom-escuras de seu cabelo.

O quarto está impregnado com o perfume da mulher nua deitada em sua cama, enrolada em lençóis de seda verde. É um perfume bom, mas não tão bom quanto o de Amyra, o qual ele ainda tem marcado em sua memória.

A mulher finalmente acorda. O corpo escultural e os cabelos escuros e cacheados, na altura da cintura, combinam perfeitamente com os olhos cor de amêndoa e levemente puxados. Ela vai até Hemon, o abraça por trás e aspira o perfume dele, que também é excelente.

Ele não se move. A mulher é belíssima e a noite foi muito boa, mas nada emocionante demais, apenas mais uma entre todas as outras que ele já teve e que provavelmente ainda terá. Ela sabe disso, apesar de nutrir profundamente em seu coração o desejo de ser pedida em casamento por ele. Todas elas tiveram esse mesmo desejo, mas isso nunca aconteceu.

- Vamos voltar para a cama, meu guerreiro.  – Ela diz com a voz sensual.

- Tenho coisas a fazer. – Ele beija as mãos da mulher, se desvencilha e vai até a bata bordada que o espera jogada ao lado da cama. Se veste com ela e olha a mulher uma última vez. – Tenha um bom dia, meu doce. - Ele sorri para ela. 

- Meu dia seria melhor se eu soubesse que você voltaria mais tarde. – Ela insiste.

- Sabe que não voltarei. – Ele continua sorrindo. – Adeus.

A mulher é deixada para trás e suspira profundamente. Ele nunca mentiu para nenhuma das mulheres com quem se deitou, todas elas sabem que ele é livre e que apenas um nome preenche seu coração. Ainda assim, elas sonham.  

*****

Amyra acorda e desce para o café da manhã. Para seu alívio apenas Walda a espera, Ramsay já havia partido.

- Sabe algo sobre aquele rapaz? – Amyra pergunta preocupada.

- Se refere à Fedor? – Walda pergunta.

- Esse apelido é detestável. Tenho certeza que Ramsay o chama assim apenas para humilhar o pobre rapaz.

- Não sei o verdadeiro nome dele, Amy. Ramsay nunca nos disse e apenas o chama assim. Ele também nunca contraria Ramsay, apenas aceita o apelido. 

- Era de se imaginar. Mas você o viu? Sabe sobre ele?

- Não, me desculpe.

- Vou procura-lo para ver como ele está.

- Não faça isso, Amyra. – O tom de voz de Walda sai temeroso, quase desesperado.

- Porque não? Ele apanhou por minha causa, é meu dever ver como ele está.

- Ramsay mandou que Meistre Wolkan cuidasse dele, não? Está tudo bem agora.

- Não conseguirei descansar enquanto não o vir com meus próprios olhos. Ramsay saiu, não saiu? Então não saberá.

Amyra nem havia tocado em sua comida. Deixa a mesa, coloca a capa preta que virara sua amiga inseparável no frio Nortenho e sai a procura de Theon.

Ramsay a avisou para não procurar por ele, que estava bem e sendo cuidado pelo Meistre do Forte, mas isso apenas serviu para que Amyra ficasse ainda mais preocupada com ele, pois sabe que a palavra de Ramsay não é confiável.

Ela anda por todo o forte, entrando em alguns lugares desconhecidos, mas não o encontra. Não ousa perguntar para ninguém, pois não tardariam em contar a Ramsay que ela o desobedecera e fora atrás de Theon.

Ela vê uma porta pequena e simples e decide abri-la. A porta dá para uma escada estreita e paredes úmidas, que descem para um lugar desconhecido. Ela desce as escadas com medo, o lugar é mal iluminado.

Chega a uma sala ampla. Ao fundo uma cruz em formato de X que ela reconhece imediatamente, é o símbolo da família Bolton. Família essa que ela pertence agora, infelizmente.

Há um homem preso á cruz. Seu corpo está semi-esfolado, mas seus olhos ainda conservam alguma vida e muito pânico. Cheiro forte de sangue e umidade impregnam o lugar e o estômago de Amyra se revira com o cheiro e a visão. Depois ela o vê. Ramsay, em pé diante do homem, ainda o esfolando. O homem ainda está vivo, para horror de Amyra e dele mesmo. Ramsay o esfola e canta ao mesmo tempo, demonstrando total falta de remorso, piedade ou qualquer outro sentimento benigno que seres humanos normais costumam ter.

O último suspiro do homem sai de seus pulmões e Amyra consegue notar o momento exato em que a vida deixa o corpo do pobre coitado. Ela leva as mãos à boca, horrorizada demais para acreditar em tamanha atrocidade.

Antes que Ramsay a veja, ela sai em disparada de volta para fora. Ao chegar, puxa o ar com força, mas seus pulmões parecem não aceitar o ar gelado do Norte. Um ar impregnado de dor e morte.

Ela chora. Chora pelo que acabara de ver, chora por todas as outras atrocidades que sabe que Ramsay comete, chora por toda a dor que ela já sofreu ao lado dele e que provavelmente ainda sofrerá. Se sente mais desamparada e sozinha do que jamais se sentiu, e é assustador lidar com isso. 

*****

Durante o jantar Amyra permanece calada e sem expressão. Ela fita o prato diante de si, mas não consegue tocar nele. Nem mesmo o vinho, uma garrafa Dornesa que Ramsay fizera questão de abrir, lhe apetece.

- Porque está tão calada? – Ramsay pergunta.

- Estou sem fome. – Ela responde sem olhar para Ramsay.

Após o jantar eles vão para o quarto. Amyra se prepara para deitar-se quando Ramsay a impede.

- Porque está com tanta pressa? – Ele pergunta. – Já sei... deve ser o cansaço. Andar pelo forte é cansativo mesmo, esse lugar é enorme.

Ela é pega de surpresa, não imaginava que ele sabia sobre as andanças dela, mas com certeza os empregados contaram, ela pensa.

- Esperava que me contasse, mas vi que não fará, então é melhor que eu toque no assunto. – Ramsay diz.

- O que quer dizer com isso?

- Procurou por Theon hoje, não? – Ramsay se aproxima dela e a olha nos olhos. – Eu pedi que não fizesse isso, fui muito claro com você.

- Quero saber como ele está. Porque o esconde de mim? O que fez com ele?

- Com Fedor? Ora... não fiz nada com ele! Já lhe disse, ele está se recuperando e sendo muito bem cuidado. Eu cuido do que é meu. – Ele enfatiza essa parte, deixando claro que Amyra pertence a ele.

- Se é assim, então tudo está bem. Deixe-me ir para a cama, estou com sono. – Ela tenta ir para a cama, mas ele não deixa. 

- Porque desceu até a masmorra? - Ele aperta o braço de Amyra com força. 

- Como... como é? – Ela tenta disfarçar o medo por ter sido vista por ele, mas falha.

- Não se faça de desentendida, minha doce esposa. Eu a vi, horrorizada, pálida, quase vomitando com o que viu. – Ele ri. – Foi divertido, devo dizer. Ver sua cara de pavor e nojo, correndo para não vomitar e não fazer barulho.

- Ramsay, quero dormir. – Ela tenta sair mais uma vez, em vão.

Ele a puxa pelo braço, apertando ainda mais e a machucando. Ela demonstra a dor em uma careta, mas ele não a solta.

- Para seu próprio bem, Amyra. Não se meta em lugares que não são para você.

- Isso é algum tipo de ameaça? – Apesar do medo, ela o encara com audácia.

- Ameaça? Não, meu amor. Não sou do tipo que ameaça. Sou do tipo que fala uma vez e age na segunda. Sua sorte é que você é minha esposa, caso contrário...

- Caso contrário o que? O que pretende fazer, Ramsay? Me machucar mais? Me matar? – Ela se agita nos braços dele. Seu rosto de torna vermelho e seus olhos brilham de raiva.

- Cuidado...

- Você tenha cuidado! – Ela se solta e o encara de frente.

- Não me desafie, Amyra. Já aguentei muitos de seus acessos de coragem estúpidos, mas não vou mais tolerar isso!

- Você não me desafie! Não está lidando com qualquer mulher. Eu sei o que você faz, eu sei o tipo de pessoa monstruosa que você é.

Ramsay a puxa para si mais uma vez, tapando-lhe a boca com uma de suas mãos. Ele a encosta contra a parede e sobe o vestido dela, deixando suas pernas desnudas. Amyra luta para sair das mãos dele, mas ele dá um soco no estômago dela e ela se curva de dor.

- Martell... A submissa... A que se curva com facilidade... – Ele ri de Amyra, a levanta e a joga na cama.

Ela continua se debatendo enquanto cospe sangue, mas Ramsay se coloca sobre ela e ela não consegue fugir. Ele a violenta mais uma vez, limpando o sangue da boca dela de vez em quando para poder beijá-la.

*****

Amyra vê quando Ramsay deixa o quarto pela manhã, mas nem isso é suficiente para que ela se sinta segura. Ela não havia dormido a noite toda por conta da dor e do sangue que insistia em lhe encher a boca, misturando-se com a saliva.

Ela se lembra da lança que ganhara de Hemon e em como ela seria útil para se defender, mas Ramsay a tomou e escondeu em um lugar desconhecido, assim como fizera com parte de seus livros, joias e vestidos.

Ela havia pedido inúmeras vezes que ele lhe devolvesse a lança e que lhe permitisse voltar a treinar, mas ele se negava a permitir. Não queria que Amyra fosse a mulher forte e independente de antes. Quer que ela fique fraca e dependente, assim é mais fácil controlá-la.

Nesse dia Amyra não tirou a camisola e não saiu do quarto nem mesmo para comer. 

*****

Theon está em uma das jaulas do canil. O lugar é gelado, úmido e está coberto de urina e fezes, não apenas do próprio Theon, mas também do cão que vivia ali. Ele está deitado no canto da jaula, com o rosto virado para a parede em uma tentativa de dormir e, quem sabe, esquecer a dor, o frio e a fome por um momento.

Quando ouve o assovio musicalizado típico de Ramsay, e o barulho de seus passos se aproximando de sua jaula, seu coração dispara e ele se desperta. Se senta com as costas machucadas de encontro à parede fria e espera por seu carrasco.

Ramsay entra segurando uma bandeja com comida e cerveja escura. Ele coloca a bandeja em frente à Theon e sorri para ele.

- Vamos lá, coma. – Ramsay diz paternalmente. – Você precisa se alimentar.

Theon olha para a bandeja e depois para Ramsay, mas não faz sequer um movimento. Aprendera que quando se trata de Ramsay, até mesmo um agrado pode custar caro.

Ramsay toma um gole da cerveja e depois devolve, mostrando que Theon pode comer sem preocupações. Theon avança sobre a bandeja e devora tudo com avidez, pois fora privado de alimentação, além de cuidados para as feridas.

Ramsay o observa por alguns segundos e depois fala.

- Posso confiar em você, certo, Fedor querido?

Theon assente com a cabeça sem parar de comer.

- Ótimo. Então você me dirá a verdade. Quando estava com minha esposa na floresta, é verdade que Myranda os viu?

Theon assentiu mais uma vez, agora diminuindo o ritmo das mordidas, prestando atenção preocupada ao que Ramsay pergunta.

- Certo. Agora me diga... ela tentou mesmo fazer algo contra Amyra?

Theon para de mastigar, mesmo com a boca ainda cheia de comida. Olha para Ramsay desesperado, com medo do que sua resposta pudesse lhe custar. Ramsay percebe o medo no olhar dele e o tranquiliza.

- Quero apenas saber a verdade, Fedor. Sabe que sempre fico sabendo da verdade, então se mentir, eu saberei. Mas quero obter essa informação de você, pois eu confio em você, sabia? Confio muito. – Ramsay fala pausadamente e com muita paciência e delicadeza, como se estivesse se comunicando com uma criança.

Theon solta o pedaço de pernil que estava devorando, olha para o prato e depois para Ramsay. Se aquilo era algum tipo de teste, ou se, após dizer a verdade sobre a amante de seu senhor, ele sofresse represálias, pouco importava. Amyra fora ameaçada e se ele puder ajudá-la, fará sem pensar nas consequências.

- É... É verdade. Ela tentou. – Ele diz com medo.

- O que ela tentou?

- Ela tinha flechas e as apontou para Lady Amyra.

- Talvez ela tivesse apontado para outra coisa, talvez um animal. Talvez houvesse uma árvore ou outra coisa atrapalhando sua visão...

- Não havia nada. – Theon aumenta o tom da voz sem planejar, apenas porque não poderia admitir que Amyra corresse risco de vida e que Myranda fosse perdoada. Ao perceber o atrevimento, porém, ele abaixa a cabeça e volta a ter o tom de voz baixo e submisso. – Não havia nada, Milorde. Myranda sabia onde estava mirando.

Ramsay fica em silêncio, observando Theon, que ainda não havia voltado a comer.

- Volte a comer e quando terminar volte para seu quarto. – Ramsay bate de leve no ombro de Theon. – E não conte a ninguém sobre nossa conversa.

Ele deixa Theon e sai do canil.

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