Salva-me

Martells e Boltons formam uma aliança através do casamento de Amyra (a filha mais nova de Príncipe Doran) e Ramsay. A vida ao lado de um dos homens mais cruéis e violentos de Westeros não será fácil, mas ela terá a ajuda de Hemon Forthwind de Deserto Vermelho, um nobre Dornês apaixonado por ela.

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15. Não é nada, esqueça isso

No dia seguinte Amyra acorda muito cedo, antes de Ramsay. Seus pulsos doem por conta da pressão que Ramsay exercera sobre eles enquanto os segurava com força e brigava com ela, a respeito de seu reencontro com Hemon. Ela chorou e pediu para ele parar, mas ele não a ouviu, e agora duas grossas pulseiras tentam esconder as marcas. 

Por isso ela queria sair antes que ele a visse. Theon também acordara cedo e a acompanhava em sua caminhada pelos jardins.

– É ainda tão cedo e o sol já ilumina. – Theon diz enquanto sustenta o braço de Amyra no seu. Ele nota as marcas nos pulsos dela e o semblante triste, mas não toca no assunto para não entristecê-la ainda mais. 

– Sim. Essa é uma das coisas que mais sinto falta, sabe? Do sol forte. O Norte é sempre tão escuro e cinza.

Eles param em frente a uma roseira. Amyra retira uma rosa e a esfrega, fazendo um perfume maravilhoso se desprender das pétalas. Theon cheira as pétalas despedaçadas enquanto Amyra lhe conta sobre os perfumes e óleos feitos em Dorne com as inúmeras flores que nascem ali.

Hemon se aproxima e os cumprimenta. Ao ouvir sua voz, ambos se viram para trás, para onde ele está.

– Hemon! – Amyra diz sorridente. – Veio visitar as flores também?

– Na verdade eu queria conversar mais com você, ontem não tivemos tempo. Sabia que estaria aqui. – Hemon responde.

– Você me conhece bem. – Ela diz.

– Amy, vou voltar para meu quarto. – Theon diz. Ele nunca a chama assim com Ramsay por perto, mas quando estão apenas os dois ele pode ser livre para chamá-la como quiser. Ela mesma lhe deu essa liberdade, insistindo que são amigos.

– Não quer aproveitar o resto da manhã? – Amyra pergunta.

– Sabe que Ramsay não ficaria muito feliz de nos ver caminhando por aí juntos. – Theon abaixa a voz e se aproxima de Amyra em uma tentativa de esconder a informação de Hemon, mas não adianta. Ele ouve e acha muito estranho.

– Está bem. – Ela aceita. – Nos vemos depois então.

Theon passa por Hemon que, de braços cruzados atrás das costas, o cumprimenta com um leve manejo de cabeça.

Hemon e Amyra ficam sozinhos no jardim. 

– Seu marido também tem ciúmes do seu amigo? – Hemon pergunta. Amyra sabe que ele quer apenas instigá-la, então nem responde.

Andam lado a lado pelo jardim. Hemon gostaria de oferecer seu braço para que ela se apoiasse durante a caminhada, mas não o faz.

Chegam em um banco embaixo de uma frondosa árvore e se sentam.

– Senti tanta saudade disso tudo, você nem imagina. – Amyra diz. Sua voz sai nostálgica, mas de uma maneira ruim, quase sufocada e dolorosa. 

– Há muita beleza no mundo, mas nada comparado as belezas de nossa terra. 

– É verdade. - Ela sorri e fica em silêncio sem seguida.

– Quer dizer... agora o Norte tem uma beleza Dornesa vivendo lá. – Hemon quebra o silêncio.

– Você não existe! – Ela ri. Por um minuto se esquece da terrível vida que leva ao lado de Ramsay. – Só você para me fazer rir tão facilmente e esquecer dos meus problemas.

– Problemas?

– Modo de dizer. – Ela o olha e percebe, por causa da feição preocupada dele, que falou demais.

– Desde ontem notei diferenças em você. Na verdade, essas diferenças são tão gritantes que mal consegui dormir.

– O que quer dizer com isso?

– Seu olhar... tem algo de errado nele. Costumava ser tão brilhante, agora ele me parece... – Ele pensa antes de dizer, não quer magoá-la ou assustá-la. – Me parece triste. Um pouco obscuro, até.

– De onde tirou essas coisas, Hemon? Os livros que lê te deixaram com uma mente muito fértil, meu amigo. – Ela tenta disfarçar usando a paixão que Hemon tem por livros, mas sabe que ele a conhece bem demais e que por isso ele percebeu sua mudança.

– Não é só isso. – Ele continua. – Os vestidos que usa, a maneira como se comporta, como fala, a maneira como mantém o rosto para baixo, especialmente quando Ramsay está por perto. 

– Não há nada de errado comigo, Hemon. Não se preocupe. - A voz de Amyra soa ríspida. 

Ele toma as mãos dela e afasta as pulseiras, revelando as marcas e as acariciando. Não é preciso dizer nada para que Amyra entenda sua preocupação.

Amyra, envergonhada com as marcas da violência que sofre, sentindo-se humilhada por ter sido “descoberta”, retira suas mãos das mãos dele rapidamente.

– Isso não é nada... é apenas... foi só um acidente. - Ela não consegue encará-lo por causa da humilhação que sente.

– A marca em seu pescoço também foi um acidente?

Amyra também usa colares grossos para tentar esconder as marcas, mas para Hemon isso não bastou. Ela esconde a marca com uma mão e sem olhar para ele, insiste que foi um acidente.

– Eu não acredito nem um pouco em você. – Ele diz.

– Esqueça isso. – Ela finalmente o encara. – Essas coisas acontecem de vez em quando, mas... bem, são coisas que acontecem entre um marido e uma mulher.

– Pelo amor dos deuses, Amyra. – Hemon fica inquieto e com raiva. Ouvir isso é tão absurdo que ele não consegue ficar indiferente. – Percebe que o que está me dizendo é errado? Isso não deveria ser normal entre um casal. O que ele faz com você?

– Nada. Já disse, esqueça isso. Você diz que mudei e sim, mudei. Estou casada agora, vivo em um lugar diferente. As pessoas mudam, Hemon. É um processo natural. 

– Não quando essa mudança vem acompanhada de tristeza e marcas na pele!

– Chega! - Amyra se levanta e inspira profundamente. - Eu só queria conversar com um amigo querido no velho jardim de minha família, mas isso não é possível com todas essas suas desconfianças descabidas. Por favor, Hemon, esqueça tudo isso que você disse agora, pois não passam de coisas absurdas que sua cabeça inventou. Estou casada com Ramsay e não há nada que possamos fazer para mudar isso.

Ela o deixa. A voz ríspida e o corpo trêmulo denunciam seu nervosismo e contribuem para a desconfiança e a raiva de Hemon. Ele fica inquieto, sente-se desconfortável. Sente que Amyra implora por ajuda, mesmo que não verbalize isso. A conhece muito bem, sabe que seu espírito e seu corpo estão sendo machucados e isso o enlouquece. 

 

*****

 

Ramsay acorda e, pela primeira vez desde que chegaram, não se zanga ao notar que Amyra não está mais ali. Ele deixa o quarto e após o café da manhã caminha até um ponto de Jardim das Águas onde é possível ver o mar e os navios que atracam ou partem, levando e trazendo mercadorias e tripulações. É tudo que lhe resta fazer já que Amyra não está por perto e ela eé a única capaz de lhe trazer algum divertimento. Ele detesta o jardim e não suporta o clima de Dorne. Enche a taça com mais vinho e volta a observar os barcos e navios, cheio de enfado. Tyene se aproxima sorrateiramente, o que o assusta.

– Vocês Dorneses são muito esquisitos. – Ele reclama, um pouco assustado.

– Não esfolamos pessoas vivas. – Ela diz enquanto se apoia na mureta, curvando seu corpo para a frente.

Ao fazer isso suas nádegas ficam muito nítidas por causa da fluidez do tecido com que seu vestido é feito, e seus seios se achatam contra o concreto, criando impressão de volume. Nada disso é ignorado por Ramsay, que a olha de soslaio, mas continua bebendo vinho.

– É, talvez sejamos todos um pouco estranhos. – Ramsay diz.

– Estranho como manter uma amizade intensa com o homem que costumava ser seu noivo e que ainda te ama?

Ramsay a olha enfurecidamente. Está claro que ela fala de Amyra e Hemon. Ele coloca a taça sobre a bandeja e a encara, esperando pela continuação.

– Ande... termine. – Ele pede sem paciência.

– Eu os vi juntos, conversando no jardim.

Ramsay volta os olhos para o mar, mas sua atenção não está ali.

“Eu a proibi de vê-lo e, no entanto, é a primeira coisa que aquela vadia desgraçada faz”. Ele pensa. 

– Não se preocupe. - Tyene nota a raiva e introspecção de Ramsay. – Minha prima não fará nada. Aliás, Hemon também não teria coragem de tentar nada.

– Como tem tanta certeza? – Ramsay volta a olhar para ela.

– Eles são muito sonsos para isso, com aquela conversinha irritante de honra e todas essas coisas inúteis.

A fala de Tyene agrada Ramsay. Ele vira o corpo para ela, demonstrando interesse e atenção. Ela pensa como ele e isso lhe agrada.

– Acha que posso confiar neles? – Ramsay pergunta mais calmo.

– Com certeza, eles são iguaizinhos a meu tio Doran. Uns inúteis e fracos que só pensam em honra e compromisso. Sua mulherzinha nunca trairia você.

– Você por outro lado... – Ele a olha de cima a baixo, analisando cada detalhe e parte de seu corpo. Ela ama a atenção repentina que recebe. – Você a trairia.

Tyene se aproxima de Ramsay e encosta seu corpo no dele, olhando-o nos olhos, a poucos centímetros de sua boca. Ramsay sente o calor dela.

– Sou mais interessante que ela, mais divertida. – Ela leva as mãos até a virilha dele e aperta de leve.

Ramsay levanta uma sobrancelha em sinal de aprovação. Ela o puxa por uma das mãos e o leva até seu quarto.

Tyene não o acha propriamente bonito, pois prefere homens como Hemon. Mas estar com o marido de sua prima, ganhar dela em algo, é afrodisíaco o suficiente.

 

*****

 

Hemon andava preocupado desde que vira Amyra pela primeira vez e não consegue tirar as marcas que viu no corpo dela da mente. Anda de um lado para o outro, inquieto. Havia tentado conversar com ela novamente, mas ela o dispensara e dissera que se Ramsay os visse juntos seria capaz de algo ruim. Isso só serviu para aumentar a agonia de Hemon, mas não há nada que pudesse fazer para convencer Amyra a falar com ele novamente.

Theon se aproxima dele. Está sério e olha para todos os lados com medo, como se esperasse pelo pior.

– Posso falar com você? – Ele pergunta baixo.

– Claro. – Hemon estranha o jeito nervoso do rapaz. 

– Podemos ir para outro lugar? 

Hemon compreende que se trata de algo sério e pede que Theon o siga.

Chegam até a sala de equipamentos, onde as espadas e outras coisas de combate são guardadas.

– Estamos seguros aqui, pode dizer. – Hemon o tranquiliza.

– Vou direto ao assunto. Amyra precisa de ajuda.

Hemon o olha espantado. Tem medo do que vem a seguir. Sabe que algo de errado está acontecendo com Amyra, mas tem medo que suas suspeitas se mostrem verdadeiras.

– Ramsay é um monstro... ele é doente! – Theon continua.

– Ele faz coisas com ela? – Hemon soa incerto, mas precisa saber a verdade.

– Coisas terríveis. As marcas que você viu no corpo dela não são nada comparadas ás que estão escondidas. Eu nunca vi, claro, mas ela me conta e, bem, eu o conheço muito bem, sei do que ele é capaz.

– Ela conta? Então ela confia em você?

– Sim. Somos vítimas do mesmo carrasco. A história que ele conta sobre me ajudar... – Theon para por um instante. Hemon percebe que ele é tomado por dor e que terminar de contar lhe machuca.  – É tudo mentira. Ele também me machuca, mas não me importo mais. Mas ver o que ele faz com Amyra e não poder fazer nada... é frustrante. Isso me machuca mais do que as torturas as quais ele me submete.

– Torturas?!  - Hemon não pode acreditar.

– Sim, torturas.

– Porque você não pode fazer nada? – A voz de Hemon soa mais grave do que ele pretendia, mas não consegue evitar. Teme pela vida de Amyra mais que tudo.

– Ele me obrigaria a vê-la sendo torturada, depois me mataria e continuaria infernizando a vida dela. É isso que ele faz, ele tortura. O prazer dele não está em matar, está em fazer sofrer. Ele não pode matar Amyra enquanto ela não der um herdeiro a ele, mas com certeza pode fazer outras coisas.

– Ele é tão ruim assim? Faria isso com a própria esposa?! – Hemon está desesperado, a ponto de chorar.

– Eu sou ruim, soldados são ruins... ele é diferente. É cruel. É sádico. Ele faz coisas que você nunca acreditaria se eu contasse.

Hemon se desespera. Sua respiração fica pesada e difícil, seu peito sobe e desce com rapidez por causa da falta de oxigênio. Ele anda de um lado a outro, passando as mãos pelos cabelos. Não suporta imaginar que Amyra sofra, ela não merece isso. Ela nasceu para ser amada e cuidada, não maltratada.

– O que faremos? – Ele finalmente pergunta. Seus olhos estão vermelhos e sua voz sai embargada.

– Hemon! – Trystane entra sem bater, surpreendendo os dois. – Preciso muito de sua ajuda.

Hemon olha para Theon e respira fundo, procurando se recompor. Theon olha para baixo, disfarçando.

São obrigados a terminar a conversa por ali.

 

*****

 

– Mas você precisa me ouvir, Amy! – Theon insiste. – Converse com ele, conte o que está acontecendo.

– Theon, por favor! Pelo amor de todos os deuses! Não arraste Hemon para o meio disso. Se o conheço bem ele seria capaz de ir até as últimas consequências para me ajudar.

– Ótimo!

– É sério, Theon. Isso é muito sério! Ele morreria tentando me salvar e isso é algo que eu nunca poderia deixar acontecer. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse com ele. E ainda pior, se Ramsay descobre alguma coisa ele não apenas me mataria, como mataria minha família inteira! Ele traria seu exército, ele começaria uma guerra!

Amyra fica nervosa só de pensar nos possíveis desfechos que isso traria. Passa mal só de pensar no que Ramsay faria com aqueles que ela ama se a ideia de Theon vingasse. Ela não dirá nada a ninguém, não pedirá ajuda. Está casada e tem de aceitar as consequências disso, sem deixar que ninguém corra riscos por ela.

– Desculpe, eu não queria te deixar nervosa, mas é que morro um pouco toda vez que vejo um machucado novo em você ou quando ouço seus gritos e choros.

– Isso vai mudar logo.

O rosto de Amyra se torna sombrio e Theon se preocupa. Insiste para que ela explique melhor o que acabara de dizer, mas ela não o faz.

Acontece que Amyra pretende dar um fim a seu sofrimento muito em breve, e antes de engravidar para não deixar nenhuma criança com Ramsay.

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