Salva-me

Martells e Boltons formam uma aliança através do casamento de Amyra (a filha mais nova de Príncipe Doran) e Ramsay. A vida ao lado de um dos homens mais cruéis e violentos de Westeros não será fácil, mas ela terá a ajuda de Hemon Forthwind de Deserto Vermelho, um nobre Dornês apaixonado por ela.

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10. Meu nome é Reek

Amyra coloca uma grande capa de pele de lobos por cima dos ombros enquanto Walda a observa, sentada na cama.

– Ainda acho perigoso, Amy. Porque ir sozinha? – Walda pergunta preocupada. Ela e Amyra se tornaram grandes amigas. 

– Porque quero conhecer as florestas. Sabe o quanto sou ligada à natureza, ainda não conheci nada. - Amyra responde enquanto arruma a capa em seu corpo. 

– Não há nada interessante para conhecer. A natureza Nortenha é tão diferente da Sulista, você ficará desapontada.

– Há beleza em todo lugar, Walda. Só precisamos estar atentos e reconhecer isso.

– Você fala tão bonito. - Mais do que gostar de Amyra como uma amiga, Walda a admira. - Promete não demorar?

– Prometo. Promete não contar para ninguém?

– Prometo, apesar de achar que isso não está certo.

– Não se preocupe, voltarei logo e inteira!

Amyra não mentiu totalmente, quer mesmo conhecer melhor as florestas Nortenhas, ver de perto as plantas verdes cobertas de neve e os lagos congelados. Apesar das feridas do corpo e da alma, Amyra quer voltar a sentir um pouco de vida e um passeio pela floresta pode ajudá-la a se sentir melhor. Mas a exploração tem também outro motivo. Ela quer ver de perto o lugar onde Ramsay faz as tais caçadas e talvez – e é o que ela deseja do fundo do coração – não encontrar nada e poder mentir para si mesma que está salva e que Ramsay não a machucará mais.

 

*****

– Vou matá-la... Juro que vou! – Myranda anda de um lado para o outro, descontrolada, tomada por uma raiva insana.

– Fale baixo, Myranda! Se te escutam você morre! – Outra mulher, também empregada da família Bolton, fala para ela enquanto lava roupas. – Daqui a pouco Lorde Ramsay se encherá dela e voltará a te procurar, homens são assim mesmo.

– É mais do que isso. Aquela mulher não apenas roubou meu homem como também me humilhou! Não posso deixar as coisas assim.

– Mas ela tem razão! Você achou mesmo que Ramsay se casaria com você, não achou? Pois acorde, menina! Isso nunca aconteceria.

– Isso não vai ficar assim. – Myranda parece não ouvir o que a outra mulher diz. – Já sei exatamente o que fazer.

– E o que pretende fazer?

– A ouvi conversando com Lady Walda. Ela quer andar pelas florestas para conhecer a “natureza Nortenha” – Myranda faz sinal de aspas com as mãos - Maldita princesinha metida... Ela se acha muito esperta.

– Ainda não entendi o que pretende fazer.

– Acidentes acontecem, principalmente acidentes com flechas...

– Pelo amor de todos os deuses, Myranda. Esqueça essa loucura!

– Você vai ver o que farei com ela... você vai ver.

Myranda deixa a mulher.

Theon Greyjoy passava por ali nesse exato momento e se escondeu atrás de pilhas de lenha seca para ouvir o resto. Chocado, correu até a floresta o mais rápido que suas pernas permitiram.

Ele teve vontade de falar com Amyra desde que ela chegou ao Forte, pois a reconheceu imediatamente. 

Ele a viu pela primeira vez quando eram crianças, em Porto Real. Um casamento acontecia e todas as famílias de todos os reinos foram para a festa. Ela estava acompanhada de outras duas crianças, dois meninos de peles morenas e cabelos cacheados. Um era um pouco mais alto e a seguia para todos os lugares, além de oferecer bebida a ela e de sentar-se ao lado dela sempre que podia. O outro era seu irmão Trystane. Theon quis convidá-los para jogar comida nos adultos e roubar doces junto com as crianças Stark, mas era tímido demais para isso.

Ele não poderia se aproximar dela por conta de sua aparência assustadora e do cheiro que exala, mas a vida dela depende dele agora. 

*****

Amyra caminha vagarosamente, prestando atenção em cada detalhe da floresta. Por alguns instantes esquecera-se do que veio fazer ali, tamanha a admiração que ela sentiu ao ver os tapetes brancos de gelo se estenderem por todo o lugar. Os fracos raios de sol que tocam seu rosto são suficientes para fazerem-na se sentir melhor. Ela fecha os olhos e deixa que os raios de sol lhe beijem o rosto. Por um momento imagina estar em Dorne, apesar do frio que lhe sufoca. Consegue sorrir um pouco, apesar de tudo.

Mas então ela se lembra das terríveis caças de que ouviu falar. Olha ao redor e não compreende como alguém pode ser tão cruel quanto Ramsay, e como uma floresta tão bonita possa ser palco de tragédias assim. Está absorta em seus pensamentos quando ouve passos atrás de si, juntamente com galhos de árvores que se partem ao serem pisados. Olha para trás assustada e se depara com Myranda segurando um arco e uma flecha apontada para sua cabeça.

– Olá, Milady. Espero que tenha aproveitado o passeio, pois ele está para acabar. – Myranda a ameaça.

– O que faz aqui? – Amyra tenta manter a calma, não quer mostrar que está assustada.

– Calada. – Myranda aperta a flecha e fica séria. 

– Não cometa nenhuma estupidez, Myranda. - Amyra engole em seco. – Você sabe que minha morte não sairia impune, eu ainda não dei um filho para Ramsay.

– Solte essa flecha, Myranda. Lady Amyra precisa vir comigo. – Uma voz masculina se ouve vinda detrás de algumas árvores.

Myranda olha para onde a voz vem. Theon sai de trás das árvores e a encara cheio de uma coragem que ela nunca havia visto. Ele está sempre olhando para baixo, falando baixo e agindo como um ratinho assustado. De onde veio tamanha coragem?

– Saia daqui, Fedor! – Myranda diz.

– Só saio daqui com Lady Amyra. – Theon a enfrenta. – Venha, Milady, vamos voltar para o forte. – Ele faz um movimento com as mãos, chamando por Amyra. Ela se coloca ao lado dele imediatamente.

Myranda percebe que é melhor não tentar fazer nada estúpido. Apesar de ser a única armada, sabe que se fizer algo contra Amyra terá de enfrentar consequências. Ela guarda a flecha e o arco na bolsa que carrega nas costas e os deixa.

No instante em que Myranda sai Theon volta a ser o homem acuado que é. Volta a olhar para baixo e agir com medo.

– Obrigada! Muito obrigada! – Amyra o agradece emocionada. - Você salvou minha vida! Aquela mulher louca ia me matar! 

– Venha comigo, Milady. – Ele passa a caminhar de cabeça baixa.

– Como é seu nome? - Ela se coloca a caminhar ao lado dele. 

– Fedor. Meu nome é Fedor.

Amyra ouvira falar dele e agora entende de onde viera tão detestável apelido, mas apesar de o rapaz se manter quieto e de não a olhar nos olhos, ela não planeja deixar as coisas assim.

– Fedor? Ora, vamos... esse não é seu verdadeiro nome. Quero muito saber o nome do meu salvador.

Theon a olha com dúvida e surpresa. Salvador? Ele não passa de um homem imundo e mutilado, um escravo de Ramsay Bolton. Aliviado, percebe que Amyra não o reconhecera, mas chama-lo de salvador já era um pouco demais.

– Sim, salvador. – Amyra percebe a dúvida nos olhos dele. O toma por uma das mãos, obrigando-o a parar de caminhar, e o olha nos olhos. – Se não fosse por você eu estaria morta agora. Serei eternamente grata.

– Meu nome é Fedor... – Ele se solta das mãos dela e olha para baixo, incapaz de encará-la, humilhado demais. – Sempre fui Fedor... Sempre serei Fedor...

A vergonha nos olhos do rapaz tocam o coração de Amyra, a machuca. Ele é mais uma vítima de Ramsay, ela pode perceber isso.  

– Está bem, Fedor, como queira. – Ela se abaixa um pouco para fazer contato visual com ele e sorri. Um sorriso tão sincero que obriga Theon a sorrir também. – Vamos voltar para o Forte.

Ela entrelaça o braço nele, surpreendendo-o. Voltam para o Forte de braços dados, unidos, partilhando da mesma dor que apenas quem convive com Ramsay Bolton entende. 

A medida que se aproximam do Forte, Amyra percebe Theon mais nervoso e agitado. Ele está inquieto, olhando para todos os lados, parece estar à procura de alguém.

– O que há de errado, rapaz? – Amyra pergunta gentilmente.

– Milady, quero te pedir uma coisa, mas... por favor, não pense errado de mim. – Theon mantém a cabeça e a voz baixas, de modo que Amyra precisa prestar atenção redobrada para entender o que ele diz. - É melhor que me solte, Milady. Se Lorde Ramsay nos vir juntos ele vai...

Theon estava prestes a dizer sobre os castigos físicos que sofre constantemente, mas Ramsay lhe ordenara a não contar nada a Amyra.

“Ela é uma moça muito doce, de coração muito bom. Não entenderia nossa relação, Fedor querido”. Ramsay lhe dissera.

– Vamos lá, continue. – Amyra o encoraja.

– Não posso, Milady. Não posso... Só... Só não podemos ser vistos juntos, é só isso.       

Amyra percebe imediatamente que Theon esconde algo. O corpo cheio de machucados, as roupas puídas e insuficientemente grossas para o frio do Norte, a magreza quase esquelética. Ela já convivera tempo suficiente com Ramsay para saber do que ele é capaz.

– Nada acontecerá com você. Eu não deixarei. – Ela tenta acalmá-lo.

– Com todo o respeito, Milady, mas a senhora não poderá intervir a meu favor caso Lorde Ramsay tente algo contra mim. E na verdade eu nem mesmo quero que isso aconteça. Ele não a pouparia, mesmo sendo esposa dele.

Amyra o olha estranhamente. Como um rapaz humilde, escravizado, teria um linguajar tão refinado? Quanto a Ramsay não a poupar, ela sabia. O marido lhe mostrara sua verdadeira face inúmeras vezes.

– Não se preocupe. – Ela diz. – Vamos. Nada acontecerá conosco.

Entram juntos no Forte, apesar de terem separado os braços. Ramsay os vê entrando e vai de encontro a eles. Sua feição é séria e raivosa. Instintivamente, Amyra se coloca em frente à Theon, como se quisesse protege-lo, embora saiba que Ramsay é mais forte.

– O que significa isso? O que está acontecendo aqui? – Ramsay pergunta sem paciência e com o rosto vermelho.

– Ramsay, nós estávamos... - Amyra tenta explicar. 

– Cale a boca, não perguntei a você. – Ramsay grita. - O que fazia com minha esposa? – A pergunta de Ramsay é dirigida à Theon, que estremece de medo e continua calado. – Responda minha pergunta, Fedor!

– Senhor... Senhor, nós... – Theon tenta responder, mas o medo não permite. Treme tanto que as palavras não saem.

– Deixe-o em paz, Ramsay! – Amyra intervém. – Eu queria conhecer a floresta e ele gentilmente me levou até lá. É só isso. O que pensa que fizemos?

Ramsay a olha por um instante, sem dizer nada. Depois olha para Theon, que continua tremendo de medo. Sorri para ambos, mas todos sabem que seus sorrisos são falsos. Amyra pensou que tudo estaria bem, mas enganou-se. Ramsay chuta Theon, fazendo-o cair e urrar de dor. Depois se abaixa, acerta-o repetidas vezes com socos até que suas mãos sangram.

Amyra se desespera. Se abaixa também e, gritando, tenta tirar Ramsay de cima de Theon, que continua caído, apanhando, gemendo e chorando.

Ramsay a empurra e desfere mais dois socos em Theon. Depois se coloca em pé, arruma a camisa, ajuda Amyra se levantar e, sorrindo, limpa a sujeira misturada com neve que sujara suas calças na altura dos joelhos.

Theon permanece caído. Amyra fita Ramsay com incredulidade.

– Vamos. – Ramsay pega no cotovelo dela, mas ela se solta e corre até Theon. – Amyra... Vamos entrar. Agora!

– Monstro! – Amyra grita para Ramsay enquanto ajuda Theon. Ela seca o sangue que escorre dos ferimentos no rosto dele.

– Entre com ele, Milady. – Theon diz em meio a todo o sangue que lhe ensopa o rosto. – Por favor, vá com ele.

Amyra percebe pânico nos olhos de Theon. Ele implora para que ela acompanhe Ramsay e ela entende porque. Entende que se continuar ali não apenas ele, mas ela também sofrerá as consequências. Mas não pode deixa-lo ali, sangrando e com dor.

Ramsay a pega pela cintura, a coloca em pé e a obriga a entrar.

Dentro do forte, Amyra continua desesperada. Agita o corpo em uma tentativa desesperada de sair dos braços de Ramsay, mas ele a segura fortemente. Tão forte que sua cintura dói, mas ela não se preocupa com isso. Ela se preocupa com Theon e com a injustiça que acabara de acontecer a ele.

– Ele salvou minha vida! – Ela grita.

Ramsay a solta e a olha com estranheza. Diante do olhar, ela explica o que aconteceu. Ramsay continua perplexo.

– Não acredita em mim? – Ela pergunta ainda muito nervosa. – Sua namorada me odeia e se não fosse por aquele rapaz eu provavelmente estaria morta agora! Me deixe vê-lo! O que você fez foi uma barbaridade!

Ela não planejava contar sobre Myranda, mas precisa ajudar Theon e essa foi a única maneira que encontrou.

Ramsay vai até um dos guardas que os acompanha e pede para que mandem o Meistre cuidar de Theon.

– Satisfeita? – Ele pergunta para Amyra.

– Eu só estaria satisfeita se não houvesse me casado com um monstro como você. 

Ela corre escada acima e se tranca no quarto antes que Ramsay pudesse dizer alguma coisa.

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