Salva-me

Martells e Boltons formam uma aliança através do casamento de Amyra (a filha mais nova de Príncipe Doran) e Ramsay. A vida ao lado de um dos homens mais cruéis e violentos de Westeros não será fácil, mas ela terá a ajuda de Hemon Forthwind de Deserto Vermelho, um nobre Dornês apaixonado por ela.

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18. A morte lhe sorri

Amyra olha para o lado e não vê Ramsay. Isso não traz nenhum alívio ou alegria como costumava acontecer antes. A noite passada revelou que Ramsay não tem limites. A dor cresce dentro de Amyra a um nível inimaginável, não apenas a física, mas a emocional também.

“Será hoje” ela pensa, resoluta.

Desce as escadas vagarosamente. Caminha com lentidão, os passos cheios de uma fraqueza e desânimo característicos de quem sofre uma dor lancinante. Não é apenas a dor física que incomoda Amyra, mas a da alma que a impossibilita, que a deixa entorpecida, anestesiada.

Ela pula o café da manhã e vai direto para a sala do Meistre.

- Lady Amyra, em que posso servi-la? – Meistre Wolkan pergunta sorridente. Percebe a palidez e as olheiras profundas dela e sente por isso.

- O senhor teria algo para dor de cabeça? Já fiz compressas mornas, mas não adiantaram. Isso está me matando. - Amyra pergunta com a voz fraca e rouca, resultado dos gritos desesperados da noite passada. 

- Deve haver algo na cozinha, Milady. Pegarei para você, espere aqui um momento. - O meistre diz educadamente e a deixa sozinha, partindo á procura das ervas. 

Amyra disse aquilo apenas para ganhar tempo.

Quando ele a deixa, Amyra percorre a sala do meistre, prestando atenção em tudo o que ele tem ali. Entre livros e mais livros, além de estantes recheadas de garrafas, potes e outros recipientes, ela encontra o que procura. Pega um pouco de uma pequenina flor branca e arredondada.

- Aqui está, Milady. – Meistre Wolkan volta da cozinha com uma xícara fumegante nas mãos, que entrega á Amyra. – Isso amenizará sua dor.

- Muito obrigada. – Ela pega a xícara e bebe de seu conteúdo.

- Repouse e o chá fará efeito mais rapidamente.

- Farei isso. Obrigada e com licença.

Amyra se retira e volta para seu quarto.

Sentada na cama, ela observa as pequenas flores brancas, repousadas em suas mãos finas e delicadas. Conhece o efeito que elas têm pois aprendera sobre venenos enquanto crescia, afinal, seu povo é tão famoso por seus venenos quanto é por suas técnicas com as lanças e seus vinhos, essências e prostitutas. São flores de cicuta. Pequenas, mas extremamente poderosas e letais.

Amyra fecha os olhos por um momento e mentaliza tudo o que já viveu de bom. Recorda-se dos cheiros e sabores de sua terra, do sol de fim de tarde colorindo o céu de laranja e lhe amornando a face, como em um abraço de amigo. Recorda-se do abraço do pai, sempre carinhoso e atencioso, mas sempre muito firme quando precisava ser, além de justo. Recorda-se também dos membros da família, sempre tão carinhosos. Até mesmo Tyene lhe aparece nas memórias. Recorda-se da infância ao lado do irmão e do amigo Hemon. Esse último lhe fixa na mente, como se quisesse acompanha-la em seu derradeiro momento na terra.

“Me perdoe Hemon. Me perdoe pai, irmão, tio... mas não consigo mais. Eu me curvo agora porque já me quebrei”.  

Chorando, Amyra leva as flores até a boca e as mastiga.  

 

*****

 

Hemon está treinando seus soldados quando começa a passar muito mal. O peito fica gelado e ele não consegue respirar. Senta-se, desabotoa a gola da bata, mas ainda assim o ar não chega a seus pulmões. Seu corpo todo começa a se ensopar em um suor gelado e ele treme de frio, apesar de parecer impossível. 

Os soldados se ajuntam ao redor dele enquanto um deles chama Meistre Caleotte, que chega pouco depois.

- Deem espaço para que ele possa respirar – O Meistre pede aos homens, que obedecem.

Hemon pensa em Amyra. Sem entender porque, a imagem dela lhe toma a mente. Ele a vê deitada, rodeada por flores e com duas pedras nos lugares dos olhos. Na visão ele se aproxima dela e, chorando, a observa. O corpo dela está azulado, seus lábios estão brancos e sem vida. Ele olha ao redor e vê a família de Amyra chorando. Ramsay aparece ao lado dela sorridente. Hemon grita para que Amyra acorde, grita o máximo que consegue. Sua voz falha e então ele passa a cuspir sangue. Sente as cordas vocais se rasgarem e arderem, mas continua gritando mesmo sem voz, desesperado para que Amyra acorde. Mas ela não acorda.

Hemon desmaia. Seus olhos se reviram. Alguns soldados o levam até a sala do Meistre.

 

*****

 

Amyra começa a tremer e a suar. Sua visão fica turva e as coisas ficam embaralhadas. Deita-se para não cair, sabe que sua hora se aproxima. Seu estômago dói e ela sente vontade de vomitar. Que bom que não tomou café da manhã.

Mesmo sem nada no estômago, ele se contrai involuntariamente. Amyra se vira na cama e vomita um liquido amargo e amarelado. Ela fica com medo que seu corpo tenha expelido o veneno e agora ele não faça mais efeito, mas como mastigara todas as flores que pegara de uma só vez, não tem outra alternativa além de esperar.

Ela volta na posição que estava antes, fitando o teto. Sente o vestido e a colcha encharcados pelo seu suor. Uma dor incontrolável lhe percorre pelos músculos e ossos. Seus olhos se reviram, sua língua se enrola. Seu corpo todo treme em uma convulsão descontrolada. Ela perde a consciência. A morte lhe sorri diante de seu rosto, veio buscá-la?

Adelaid entra no quarto e vê Amyra convulsionando na cama. Desesperada e gritando por ajuda, desce as escadas e traz consigo o Meistre, além de Walda e de algumas empregadas curiosas.

Meistre Wolkan a vira de lado e protege a cabeça dela com um travesseiro, para evitar que ela engasgue na própria saliva. Em seguida afrouxa os laços do vestido dela. Ele então pede que Adelaid a segure naquela posição e parte para sua sala a procura do antiveneno.

Adelaid chora, desesperada ao ver sua senhora naquele estado. Gosta muito dela e começa a rezar para os sete, para que eles a curem. Walda também reza, pois também tem um apreço imenso por Amyra e não quer perdê-la.

Ramsay é chamado. Ele sobe as escadas do Forte com rapidez.

- Isso continuará por quanto tempo? – Ele pergunta com impaciência ao ver Amyra convulsionando. Sua face demonstra espanto, mas não do tipo que se tem quando vemos alguém amado machucado ou prestes a morrer, mas do tipo que se faz ao ver algo curioso e estranho.

- Não sei, Milorde. – Adelaid responde chorando.

- Ramsay, precisamos fazer algo! – Walda diz desesperada.  – Não podemos perdê-la!

- Tem razão, não podemos. – Ramsay diz friamente. – Vou chamar Meistre Wolkan.

- Já o chamamos. Ele está fazendo um antiveneno. – Walda diz.

- Antiveneno? Amyra foi envenenada? – Ramsay pergunta agora com um pouco mais de interesse.

- Não sabemos de nada ainda, as coisas aconteceram muito rapidamente. Mas Meistre Wolkan mencionou a palavra antiveneno antes de correr para a sala dele. – Walda responde.

- Então devemos esperar por ele. – Ramsay diz.

Ele sai do quarto e espera do lado de fora. Meistre Wolkan volta com o antiveneno. Ramsay faz menção de falar com ele, mas ele diz que precisa medicar Amyra urgentemente, antes que algo pior aconteça.

O remédio faz efeito e Meistre Wolkan consegue salvar Amyra. Walda e Adelaid se abraçam, aliviadas. Um gemido de alívio se ouve em uníssono por todas as mulheres que estão no quarto. Amyra ganhou a amizade de todas ali.

- Deixem Milady descansar agora. – Meistre Wolkan pede.

Amyra é deixada sozinha no quarto, dormindo. Wolkan sai do quarto e Ramsay ainda o esperava.

- E então? – Ramsay pergunta com curiosidade, apesar de estar espantosamente tranquilo.

- Ela vai ficar bem, só precisa descansar um pouco.

- Ela foi envenenada?

- Sim, Milorde. Só não sei como ou quem fez isso.

- Acho que sei quem foi. – Ramsay diz. – Bem, já que ela está fora de perigo posso voltar ao que estava fazendo, então.

Ele desce as escadas e o Meistre o observa, perplexo com tamanho descaso e frieza.

Quando Amyra acorda ela se depara com Ramsay a observando, sentado ao lado dela na cama. Ela se assusta e se senta. Ainda está confusa e algumas coisas ainda estão embaralhadas em sua mente, mas ao entender que sua tentativa de suicídio não havia funcionado, ela não consegue disfarçar a decepção. Ramsay nota.

- Decepcionada, minha querida? Sinto muito que sua tentativa não tenha dado certo. – Ele diz sorrindo. – Me dê um filho e eu prometo que farei, eu mesmo, o que você quer.

Um arrepio percorre a espinha de Amyra.

- O que faz aqui? Me deixe em paz, por favor. – Ela pede. Já não se importa de parecer fraca, pois é exatamente assim que se sente. Fraca e derrotada.

- Ora, sou seu marido! Me preocupo com você. – Ele pega um prato fundo com canja, coloca sobre a perna de Amyra e leva uma colherada da comida até a boca dela. – Agora tome isso, fará bem para você.

- Não tenho fome. – Ela se recusa a tomar.

- Não comece, Amyra querida. Já não basta seu ato ridículo de hoje? Tome essa porcaria antes que eu te faça engolir isso.

Diante da ameaça, Amyra abre a boca e permite que Ramsay a alimente. A canja desce amarga, mas Amyra não sabe dizer se isso vem da comida ou da agonia que sente com Ramsay por perto.

- Não me machuque mais, por favor. – Ela chora enquanto é alimentada. – Eu não aguento mais isso... não aguento mais essa vida que você me obriga a viver.

- Você fica terrivelmente chata quando implora por algo, sabia? – Ele continua alimentando Amyra. – Você era minha esposa linda, a mulher exótica de Dorne que entrou em minha vida para me divertir. Porque estragar isso?

- Porque eu não imaginei que seria obrigada a conviver com um monstro.

Ramsay olha para Amyra com raiva e para de lhe oferecer a canja.  Coloca o prato de volta na bandeja, se levanta e a deixa.

 

*****

 

Hemon abre os olhos. Está em sua cama, cercado por seu amigo Jarin, o Meistre e também Oberyn, Doran e Trystane.

- Graças aos Deuses! – Oberyn diz aliviado. – Você nos matou de susto, Hemon!

Hemon é ajudado por Jarin a se sentar. Sua cabeça dói e sua visão ainda está turva e escurecida. Tudo é muito confuso, porém, uma coisa está nítida em sua mente: Amyra precisa de ajuda.

- Sente-se melhor? - Doran pergunta ainda preocupado. Conhece Hemon desde que este era criança e sabe o quão saudável ele é e sempre foi.

- Sim, obrigado. – Hemon responde.

- Ele só precisa descansar e ficará bem, meu príncipe. – Caleotte diz a Doran.

- Então que assim seja. Vamos todos sair daqui. – Doran diz olhando uma última vez para Hemon para se certificar de que ele esteja bem. Hemon sorri para ele, então ele sai juntamente com os outros.

- Jarin, fique por favor. – Hemon pede.

Jarin olha para os outros homens no quarto e volta para perto do amigo, sem entender o pedido.

- Vamos em busca de algo. Partiremos amanhã. – Hemon diz.

- Como é? Não... não mesmo! – Jarin se agita e caminha ao redor da cama, bravo. – Você quase morreu e só os deuses sabem o que aconteceu. Aquilo nunca aconteceu antes, Hemon, foi assustador! Sabe o quanto tememos perder você? Você apagou depois de se retorcer todo. 

Hemon esperou que o amigo se acalmasse pacientemente, observando-o andar ao redor da cama com passos pesados e com bufadas de ar saindo pelas narinas vermelhas, queimadas pelo sol. Os olhos ganharam um tom intenso e seus cabelos loiros também pareciam ferver de raiva.

- Já terminou? – Hemon pergunta.

Jarin percebe que havia se exaltado e para de caminhar, mas mantém o olhar duro e discriminatório.

- Há algo que preciso fazer o mais rapidamente possível e farei com ou sem sua ajuda. – Hemon diz. – Quanto a minha saúde, não se preocupe. Estou bem, aquilo foi algo... algo que não sei explicar, mas que com certeza foi de natureza sobrenatural. – Hemon parece se perder e viajar com a mente para outro lugar nesse ponto. – Eu a vi... ela estava sofrendo e precisa de minha ajuda... eu a vi...

- O que? Viu quem? Do que você está falando? – Jarin se senta aos pés de Hemon e o observa atentamente, com certo medo até.

Hemon volta a si.

- É algo que não sei explicar. – Hemon diz olhando para Jarin. – Mas acredite, meu amigo, foi tão assustador para mim quanto foi para vocês. Tudo o que sei é que isso precisa ser feito o mais rápido possível.

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