Salve Simpatia

Com uma mania peculiar, Maribel Rêgo, vive a vida blindando mente e alma através de simpatias, pois acredita no poder de suas boas energias. E é acreditando na ajudinha mística que, ao sucumbir à paixão platônica por seu novo vizinho, envolve-se em uma tremenda confusão, restando-lhe apenas uma saída: revelar seu segredinho. Qual será a consequência de sua decisão?

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1. Capítulo 1

  Nota da autora: Olá, caro leitor. =)

Você acredita em simpatias? Não?! Sim?! Na dúvida, eu te convido a embarcar nesse (macro) conto salpicado de boas energias e misturado com uma boa dose de comédia romântica.

PS: o conto terá 9 capítulos publicados, ok? Boa leitura. ;)

_______x____________

  Senhorita Simpatia. Era o que estava escrito no post-it rosa fixado na capa da apostila de Química Orgânica Experimental I. O apelido gracioso fixou-se na minha mente como um mantra. Tudo isso por causa de uma mania peculiar: recorrer à barra de pesquisa do Google à procura de sites especializados em... simpatias; de todos os tipos. E aquelas que eu apostava como perfeitas para os meus objetivos, eram registradas em um bloquinho de anotações. Um hábito adquirido ainda na minha adolescência, vivida em Salvador, na casa da minha tia, uma fervorosa devota de Iemanjá.

  Nos últimos dias, no entanto, estive mais focada em achar as mandingas do tipo “trago seu amor de volta em ‘n’ dias”. E conforme seguido à risca, a simpatia para tentar reconquistar meu ex-namorado completou 24 horas há uma hora e quarenta e cinco minutos. A presença da mandinga ainda estava rabiscada na sola do meu pé esquerdo. Durante o banho tomei todo o cuidado para evitar que a tinta da caneta desaparecesse. Qualquer deslize poderia não surtir o efeito desejado.

  Sou estranha, não? E um tanto mal-educada por não me apresentar; Meu nome é Maribel Carvalho Rêgo, tenho 23 anos e sou universitária; amo cursar Engenharia Química e amo mais ainda morar na República das Universiloucas com as três amigas que a vida acadêmica me deu, mesmo quando Dani, Vivi e Nanda, cismavam em me provocar. Para elas, minha mania era engraçada, às vezes beirando o exagero; para mim, era uma questão de concentração de energia consciencial. Eu procurava me blindar a maior parte do tempo com energias de bom padrão.

  - Quem foi que colou isso na minha apostila? - balancei o papel entre os dedos, ao sair do meu quarto enrolada em uma toalha vermelha com a imagem de São Jorge e aquele dragão do mal derrotado.

  Confesso que além de simpatizante das mandingas, também sou um pouco supersticiosa, mas quem convivia comigo já nem se importava, porque sabia que era parte de quem eu sou. E aqui, do alto da escada, no segundo andar da casa em que morávamos, eu tinha uma boa visão da amplitude da sala de estar e das três presenças femininas espalhadas no sofá em formato de “L”, em frente à uma Smart TV LED de 55 polegadas, completamente relaxadas assistindo Stranger Things, no Netflix.

  - Não adianta fazer essa cara de paisagem – estreitei os olhos, quando me fitaram com o semblante neutro por alguns segundos.

  De repente, elas gargalharam e eu revirei os olhos, constatando o óbvio: me pregaram uma peça. Desci os degraus da escada de madeira polida com cuidado para não escorregar, e fiquei de frente para elas, apenas escrutinando seus rostos que expressavam a bela diversão que eu era naquele momento.

  - Foi ideia da Dani – acusou Nanda, enrolando uma mecha de seu cabelo preto perfeitamente arrumado por seu modelador de cachos, enquanto seus olhos negros, cheios de divertimento, fitavam a ‘fifi de Letras’, sentada ao seu lado.

  - Dedo-duro – Dani cutucou-a de cara feia e me olhou sem graça. - Não fica chateada, tá? – franziu o cenho, preocupada com minha reação. – Nós só achamos engraçado quando flagramos você fazendo a simpatia para tentar reconquistar o Pedro. Então, eu... uh... – tamborilou os dedos sobre a faixa de couro toda trançada que adornava sua cabeça.

  Como uma espécie de tique-nervoso, Dani sempre mexia nessa faixa que prendia os fios de seu cabelo castanho natural e comprido, quando era confrontada. Para quem não a conhecia poderia pensar que seu gesto era puro charme.

  - Então sugeriu o apelido e todas vocês concordaram – completei, fitando-as com fingida indignação. – Tudo bem... - suspirei, cedendo à vontade de rir. - Eu mereço esse tipo de honraria. Eu era a única que ainda não tinha uma identidade secreta – zombei, apertando a toalha contra o corpo enquanto sentava na mesinha de centro.

  Todas elas estavam ainda com cara de sono e vestidas com suas roupas de dormir. As nossas manhãs de sábado eram geralmente aproveitadas para fazer nada. Em nosso dicionário universitário, o “fazer nada” significava tirar par ou ímpar para escolher um filme ou um seriado de maneira democrática.

  - Ah, mas é até bonitinho, Mari – Dani sorriu, aliviada por eu não ter surtado com ela.

  - É mais sutil do que ser chamada de coquetinha – Nanda justificou, fazendo uma careta quanto ao apelido que escolhemos para ela.

  Gargalhei me juntando às risadas das demais.

  - Mas você é naturalmente uma coquete, Nanda – Dani reforçou, ganhando um olhar enviesado da mulata, que tinha um corpo esbelto como o de uma modelo de passarela.

  Nanda era estudante de Nutrição e possuía algumas neuras com seu corpo. Para ela, comida tinha que ser com pouco sal, sem glúten e sem lactose. Ou seja, sem graça!

  - Você tem o dom do flerte e está namorando o filho do reitor, que é um gato de olhos verdes... o cara está caidinho na sua... - Vivi falou de boca cheia, segurando com uma mão seu pão com mortadela e com a outra, seu chá gelado.

  Tive de concordar balançando a cabeça.

  – Ah, sim... – ela apontou para Nanda com o dedo mindinho, enquanto bebia um pouco do líquido amarelo - seu apelido é bem melhor que o meu. Não é nada legal ser chamada de “a garota vampira” – ela pôs a comida numa bandeja esteira, presa ao braço do sofá, e inclinou-se na minha direção, esticando os braços e aproximando-se do meu pescoço como se quisesse me enforcar, mas logo sorriu me dando a língua, e eu joguei-lhe um beijo no ar.

  Seu estilo era meio gótico, mas suave, e combinado à sua mania em caçar seriados vampirescos na tevê ou na internet, serviu para que eu alimentasse o apelido na minha mente até torná-lo público para as outras amigas.

  - Bem, quanto ao meu... sem comentários – Dani deu de ombros e nós rimos porque seu apelido foi inspirado na Dona Vamércia, a saudosa fofoqueira do programa A Praça É Nossa.

  Um estalar de dedos calou-nos abruptamente. Nanda queria nossa total atenção.

  - Já que fui intitulada como diva da sedução - piscou, e em seguida soprou as unhas pintadas com esmalte claro, numa forçada gabação -, por que não aprendem comigo como conquistar um carinha fingindo agir da maneira mais distraída possível? – ergueu uma sobrancelha olhando para cada uma de nós, estudando nossas reações.

  Eu, Vivi e Dani nos entreolhamos, mas somente eu e minha amiga gótica caímos na gargalhada. Dani ficou com os olhos brilhando para a possibilidade de conseguir alguns truques com Nanda.

  - Sem chance! – Vivi foi enfática, enquanto pegava seu pão e abocanhava um bom pedaço – Eu não levo o menor jeito para isso... – falou embolado enquanto mastigava e, em seguida, engoliu -, quem quiser se relacionar comigo, vai ter que gostar do jeito que sou. Por enquanto, vou dando preferência aos meus seriados – apontou com a cabeça para o episódio que passava na tevê, às minhas costas.

  - Eu topo! – Dani vibrou, batendo palmas e exibindo um olhar esperançoso. – E você, Mari? – voltou-se para mim, sorrindo com malícia.

  Mordi o lábio, pensando sobre a questão levantada tão despretensiosamente. Eu me conhecia muito bem. Sensualidade não era uma característica marcante em mim, mas sim, o fato de eu ser um pouco extrovertida. Eu não saberia interpretar caras e bocas como uma boa atriz. Falharia na primeira tentativa.

  - E então? Topa? – minha amiga coquete me olhou com um sorriso ansioso.

  - Acho que... não – respondi, sem graça, vendo o sorriso de Nanda murchar e seus olhos revirarem em descrença.

  Dani seguiu seu gesto, mas Vivi me apoiou balançando a cabeça.

  - Por que não? – Nanda quis saber, estreitando aqueles olhos de jabuticaba, que sempre adivinhavam quando uma de nós estava desconfortável com alguma coisa.

  - Não sou naturalmente sensual – encolhi os ombros. – Se eu tentar seguir seus passos, vou precisar de coragem, e para isso, vou ter de me blindar antes com alg... – ela me interrompeu bruscamente.

  - Com alguma simpatia para te dar sorte – bufou cruzando os braços. – Falando sério, Mari... você não precisa disso. É linda, inteligente, tem bom papo, é naturalmente ruiva, o que já é um atrativo por si só, e, suas sardas salpicadas no nariz e nas bochechas são o destaque do seu charme – enumerou nas pontas dos dedos o que considerava como minhas qualidades para atrair o sexo oposto.

   Até me senti lisonjeada e sorri, encabulada.

  – Mas vamos ser sinceras... – ela pausou, suspirando dramaticamente -, até quando você vai continuar acreditando em mandingas?

  Meu sorriso se desfez e eu a encarei profundamente.

  - Achei que você respeitava minhas escolhas – disse secamente.

  Ela suspirou, outra vez, e falou:

  - Eu respeito, mas não concordo, porque me preocupo com você, Mari. Aliás, nós... – apontou para Dani e Vivi -, nos preocupamos. Não queremos que esse seu estilo de vida se transforme em uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo – ergueu a sobrancelha e eu fechei a cara.

  Ela está falando sério? TOC?!

  - Aí você está exagerando, Nanda – rebati, chateada por sua observação sem noção.

  A nossa conversou que, começou cheia de risadas, agora se encaminhava para uma sessão de sermão desnecessária.

  - Exagerada?! – exclamou, torcendo o canto da boca. – Não mesmo, srta. Simpatia – soou toda convencida e eu comecei a contar até vinte para não me estressar.

  Como me mantive calada, ela franziu o cenho e abriu a boca, novamente:

  - Vou aproveitar a brecha prolongada do seu silêncio para completar com o que acho necessário – ela se remexeu no sofá, ganhando a atenção da Dani e da Vivi, que se mantinham apenas atentas ao nosso embate.

  Eu apertei mais a toalha contra o corpo e respirei fundo, me preparando para ouvir mais chatices, mas ao mesmo tempo, pensando em uma maneira de conseguir escapar de volta para o quarto.

  – Eu acho totalmente desnecessário você apelar para o misticismo quando o assunto é relacionamento amoroso, como aconteceu ontem – referiu-se indiretamente à simpatia da sola do pé e eu, por muito pouco, não levantei meu pé esquerdo em uma atitude rebelde e debochada. – Você não precisa mendigar o amor de ninguém. Apenas deixe as coisas rolarem. Se tiver que ser, será... e você com certeza será a primeira a notar – tentou me convencer. – Agora me diz... você realmente acredita que o ritual de ontem vai trazer de volta para sua vida o seu ex-namorado? – olhou-me ceticamente e eu desviei o olhar rapidamente para as outras duas amigas.

  Dani e Vivi me fitavam da mesma maneira. Eu não queria me dar por vencida, porque dessa vez eu sentia que poderia ser diferente. Minha crença continuava firme. Empertigando as costas, olhei bem nos olhos de cada uma das minhas amigas e respondi:

  - Sim, acredito – aquiesci, no mesmo instante em que o meu celular tocou no segundo andar, aliviando a tensão sobre meus ombros e despertando a esperança outrora adormecida.

  A canção era familiar aos meus ouvidos. Então, levantei às pressas, e corri escada acima ouvindo as risadas de Dani e Vivi, menos a de Nanda, o que já era esperado. Assim que peguei o celular em cima da mesa de estudos, parei um pouco tentando controlar minha respiração ofegante.

  - Oi, Pedro – sorri como uma boba, sentindo minhas bochechas esquentarem.

  - Oi... Maribel – a voz contida do meu ex-namorado murchou um pouco minha animação.

  E a partir do momento em que ele monopolizou minha atenção ao soltar a frase ”precisamos ter uma conversa séria, mas será por telefone”, eu preferi fechar a porta do quarto e me acomodar na cama. O meu quarto ainda estava escuro por causa da persiana fechada, e um pouco abafado por causa do aparelho de ar condicionado desligado, mas ignorei esse desconforto momentâneo apenas para prestar atenção ao que Pedro dizia. E a cada palavra dita por ele com relação ao nosso namoro que terminou uma semana atrás, eu ficava mais tensa porque ele evitava ir direto ao assunto, estava preparando o terreno para plantar a bomba e acioná-la depois.

  - Eu... eu sou gay – ele acionou a bomba, que explodiu bem na minha cara e eu caí de costas na cama, olhando para o teto com os olhos arregalados e boquiaberta com a revelação.

  Em dois meses de namoro, eu nunca percebi nada diferente no comportamento dele. Os beijos eram tão ousados quanto os amassos, mas notei também que ele nunca forçou a barra para a gente transar. Eu apenas pensei que ele estava sendo um... cavalheiro.

  - Sinto muito por ter esse tipo de conversa por telefone... e... justamente depois de uma semana que não estamos mais juntos. Eu... eu não tive coragem de encará-la, então... – ele estava nervoso e envergonhado e eu, completamente pasma. – Foi... foi difícil revelar a minha orientação sexual à minha família e mais difícil ainda, pegar o telefone e ligar para você. Perdoe-me por não ter sido sincero. Eu nunca quis te machucar. E eu desejo que você encontre alguém merecedor da sua companhia. Você é uma garota excepcional – elogiou como forma de amenizar o choque que me mantinha imóvel. – A-adeus... Maribel – balbuciou constrangido, encerrando a ligação, sem me dar a menor chance de me pronunciar.

  Olhei para o telefone, franzindo a testa. Ainda anestesiada pela notícia, joguei o aparelho na cama, pensativa. Para esse tipo de revelação, não tinha simpatia alguma que servisse para o meu propósito, porque a questão era completamente diferente de quando você acha que não gosta mais daquela pessoa e termina o relacionamento. Pedro nunca esteve em dúvida sobre nós; ele esteve em dúvida sobre ele mesmo, mas em vez de ser sincero comigo, preferiu mentir desde o início, e agora, resolveu que eu merecia algum tipo de consideração.

  Trinquei os dentes, chateada por ter sido usada, por ele não ter confiado em mim. Que sacanagem! Sentindo meu rosto quente, saí da cama ainda enrolada na toalha, e com o cabelo levemente úmido, e fui levantar a persiana. Em seguida, abri a janela para me refrescar. Ledo engano. Sequer havia um sopro de brisa. O tempo estava nublado, mas abafado. E o mormaço que entrava pela janela só podia ser castigo. Ah, primavera brasileira...

  Quando eu ia me afastando da janela, meu olhar ficou preso a um objeto não identificado... corrigindo, muito bem identificado, mas escondido sob uma sunga preta justa num quadril estreito. Hipnotizada com a visão, subi mais um pouco o olhar, admirando descaradamente um abdômen “trincado”, mas sem excessos, e mais acima, um peitoral nu impressionante adornado por pelos no peito, que instigaram minhas mãos a querer sentir a maciez junto à pele levemente bronzeada.

  Os ombros largos me fizeram engolir em seco e quando tomei consciência de um rosto masculino com contorno facial forte e bem demarcado, assobiei baixinho. Meus olhos curiosos demoraram-se descobrindo cada traço: o cabelo escuro e liso com um leve topete, a testa ampla, o ângulo da mandíbula marcado, queixo proeminente coberto por uma barba por fazer, nariz afirmativo... tudo isso era simplesmente uma visão do pecado.

  Quando um vulto marrom atrapalhou minha análise minuciosa, eu desloquei meu olhar para o conjunto da cena que se passava no quintal da casa vizinha: um cachorro robusto e imenso, brincava de modo bruto ao redor do homem, que, deitado numa espreguiçadeira de madeira, tentava ler o jornal. Mordendo uma bola murcha de futebol, o cão balançou a cabeça, cutucando o braço do moreno para chamar sua atenção.

  O belo rapaz encarou o cachorro, e deixando o jornal de lado, pegou a bola da boca dele, levantando-se da espreguiçadeira. Jogou o brinquedo murcho para um canto do quintal que ficava na direção da minha janela e o cão correu enlouquecido. Babando pela figura alta e viril, desejei ver seus olhos, mesmo à distância, mas não consegui. Estavam encobertos por lentes amarelas espelhadas dos óculos de sol. No entanto, um vinco surgiu entre as sobrancelhas do moreno, deixando-o com cara de mau. Só então notei que sua cabeça estava virada na minha direção e que, em um movimento calculado, ele retirou os óculos e me encarou, estreitando os olhos.

  Merda!

  Envergonhada pelo flagrante, me abaixei abruptamente, sentando no chão de piso laminado e recostei na parede. Esticando as pernas, respirei fundo com a mão no peito, tentando me acalmar, mas a imagem daquela encarada e daquele rosto, seria difícil de sair da mente. E eu sabia que quando algo se fixava nas profundezas das minhas memórias, eu só sossegava quando me satisfazia. O que significava que eu precisava descobrir quem era o meu novo vizinho.

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