Desconforto


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1. Desconforto

Eric do Vale 

 

 

“Não se ocupa com nada

além de um certo interesse pessoal, a saber, vingar-se

da angustia que lhe causo e evitar

a angustia que posso vir a lhe impor no futuro.”

(Franz Kafka: Uma Pequena Mulher)

 

O Casal

 

- O que é que há com você? Não diz nada e fica aí com essa cara amarrada. Que bicho te mordeu? Nem precisa me responder, porque eu até já sei o motivo: Gonçalo.

-Esse sujeito seria a última pessoa que, em vida ou em outra encarnação, eu gostaria de encontrar.

-E por causa disso, você vai ficar com essa tromba? Cara feia, pra mim, é fome.

- Ele viu a gente.

-E daí?                                                                        

- Quer que eu desenhe para você?                                         

- Em primeiro lugar: a gente não deve nenhuma satisfação a ele; segundo: o Gonçalo é carta fora do baralho, portanto não nos ameaça em nada. Ele, aliás, nunca foi uma ameaça para ninguém, você bem sabe disso. Ademais, o Gonçalo é uma besta quadrada. Duvido que ele tenha percebido alguma coisa, quando viu a gente.

- Devo concordar com você, em alguns aspectos: na primeira tese, sim; estou completamente de acordo. Entretanto, na segunda... Não sei.  E quanto a essa última afirmativa que você defendeu com tanto louvor, tenho as minhas dúvidas.    

-Nunca vou me esquecer do modo como o fuzilou com os olhos, quando ele brincou com o diretor-presidente. Uma vez que você cisma com alguém, é caixão.  O Irã que que o diga: a sua antipatia por esse manifestou-se desde o início, tal qual aconteceu com o Gonçalo. E na primeira oportunidade de dar as contas dele, você sequer pensou duas vezes.

- Além de relapso, o Irã era um tiro no saco.

-O Gonçalo também não era relapso?

-Era, mas o Gonçalo sempre foi pontual, nunca faltou ao trabalho e, acima de tudo, jamais fez corpo mole com qualquer serviço que eu o encarregava de fazer. Essa persistência dele muito me admirava.  

- Mesmo assim, o Gonçalo não ficou livre de suas implicâncias. Sempre você arrumava um jeito de desmontá-lo, como na vez em que ele pediu ao vigia para ajudá-lo com as compras. Isso até me fez lembrar de um episódio envolvendo o Irã: voltávamos de um almoço, quando esse atirou, pela janela do carro, o papel de um bombom. A primeira coisa que você fez, assim que chegamos na firma, foi recriminá-lo por tal atitude. O Irã e o Gonçalo podiam ter personalidades diferentes, mas a sua apatia por ambos era similar No caso do Irã, você tratou de resolver rapidinho, assim como havia feito com o Jardel e a Ana Luiza. 

- Ali eram duas cobras! O Jardel, desde sempre, manifestou interesse pelo meu cargo, por isso resolveu indispor o pessoal da firma contra mim. Se eu não agisse logo, teria puxado o meu tapete. E a Ana Luiza entrou na dele, fazendo fofoca de mim dentro da nossa equipe!

-E quanto ao Gonçalo?

- As inúmeras não conformidades que ele recebeu, durante a auditoria, seria a chance de vê-lo fora da firma e, sobretudo, longe das minhas vistas, se não fosse aquele maldito feedback! Na hora de me avaliar, o miserável não perdeu tempo: “De cada cinco palavras que você diz, quatro são de baixo calão. Há de convir que uma postura dessa, dentro de um ambiente de trabalho, não é digna de um profissional, especialmente de quem exerce um cargo de chefia.”.

-O Gonçalo falou isso?

- Sim. E tomou como exemplo a vez em que eu mandei um funcionário ir tomar... Descrevendo tudo nos mínimos detalhes. Eu me defendi dizendo que não falei aquilo na presença dele, mas o infeliz rebateu: “Suponhamos que eu tivesse dito isso e usasse essa sua justificativa? O problema não foi para quem você disse, mas sim o que disse.”. Nem o Jardel, aquele filho da..., jamais agiu assim comigo.

-Se fosse o Jardel, eu até entenderia; mas o Gonçalo!

- E você pensa que parou por aí? Esse filho de uma égua ainda falou desse meu temperamento genioso e acrescentou: “Uma vez que você perde a paciência, a equipe se fragiliza e ninguém produz. O gestor tem que passar confiança aos seus subordinados.”. Não perdi tempo e expliquei que a minha função exigia muita responsabilidade. Logo o miserável falou: “Assim como você, todos que ocupam um cargo de gestor também sofrem pressão.”.  

-Agora, sim, eu entendo essa sua preocupação dele ter visto a gente.

-A primeira coisa que passou pela minha cabeça, depois que esse energúmeno terminou de me dizer tudo aquilo, foi botá-lo para correr da firma, como quem enxota um cão sarnento.

-Disso eu não tenho dúvida e se bem te conheço, você não iria deixar barato.

-Não iria mesmo! E quer saber do que mais? Naquelas condições, mudei a minha estratégia e passei a jogar pesado.

-Como assim?

-Lembra-se de que, certa vez, eu o repreendi na sua frente e ameacei transferir as atividades dele para você, caso não trabalhasse direito?

-Lembro.

-Até deixei bem claro: “Se isso acontecer, Gonçalo, não haverá mais trabalho para você dentro dessa equipe.”. Nem que fosse um reles vacilo, faria questão de cumprir essa jura a qualquer custo e tinha a absoluta certeza de que não tardaria muito para isso acontecer.

-Pudera, a pressão que você vinha colocando nele: “Gonçalo, faça isso direito! Olha par isso, Gonçalo! Eu não sei mais o que faço com você!”. Você não dava um minuto de sossego para ele, era de enlouquecer!

-Nada me faria voltar atrás, nem mesmo o excelente desempenho que obteve na segunda auditoria. Finalmente, a tão aguardada chance veio e eu deixei bem claro para aquele idiota: “Quando o Alfredo começar a trabalhar conosco, a partir do dia 2 de maio, delegarei as suas funções para ele. Dessa forma, não haverá mais trabalho para você, dentro dessa equipe.  E antes que eu me esqueça: as vagas dos demais setores dessa firma encontram-se preenchidas.”. Diante daquele ultimato, só restava a ele pedir as contas. Mas, para a minha surpresa e infelicidade, o filho da mãe não entregou os pontos e continuou desempenhando a função da qual eu o havia dispensado. É mole ou quer mais?

-E por que você não passou as funções dele para o Alfredo, conforme havia prometido?

-Porque eu tinha certeza de que o Gonçalo, naquelas condições, fosse jogar a toalha.

-Mas, não foi isso o que aconteceu.

-Infelizmente, não. E se eu fizesse vista grossa, esse sujeito, ainda hoje, continuaria lá; mas, sabendo que, dentro de uma semana, ele sairia de férias, resolvi antecipá-las: chaguei mais cedo naquela sexta-feira, e ele veio depois. Esperei alguns minutos até chamá-lo para conversar, em uma sala reservada. Sem muita delonga, eu disse que estava desligando-o, porque o considerava inepto para com a função que desempenhava.”. A gerente do RH estava conosco e o informou dos direitos que ele tinha para receber. Em seguida, o Gonçalo me perguntou: “Posso ir embora?”. Eu respondi que sim. Ele levantou-se, dirigiu-se até a mesa dele, desligou o computador, arrumou os seus pertences e saiu sem dar satisfação a ninguém. Só eu sei o alivio que senti, quando, de longe, o vi atravessando o portão de vidro da recepção.

- O Gonçalo, o Jardel, a Ana Luiza e o Irã, todos eles te incomodavam. Por isso, tinha queixa deles. Com o Alfredo não foi diferente: mal começou a trabalhar, você se invocou com esse.

-O Alfredo era muito mole!  Na primeira dura que recebeu, o que foi que ele fez? Pediu arrego.

- Qualquer um, no lugar dele, teria feito a mesma coisa, inclusive eu. Humilhá-lo daquela maneira, xingando-o de burro na frente de todo mundo. Aquilo foi demais!

-Eu sei que vocês eram muito amigos, mas...

-Disse bem: éramos. Por sua causa, eu acabei me afastando dele e de muita gente boa, lá da firma.

-Por minha causa?

-É preciso ter uma paciência de Jó para aguentar os seus abusos.

 

Gonçalo

                                            

Olá!

 

Fiquei surpreso, quando o Rodolfo, no dia seguinte, me procurou querendo saber se, por ventura, eu comentei com alguém que vi você no cinema. Não me lembro dele ter me dado nenhum telefonema, na época em que fomos colegas de expediente; muito menos, quando saí da firma. Apesar de termos trabalhado juntos, nunca fomos muito próximos e jamais conversamos sobre qualquer outro assunto que não fosse referente ao trabalho.

É claro que tal iniciativa não partiu do Rodolfo e tenho plena convicção disso, pois sei perfeitamente que é do seu feitio encarrega-lo da tarefa de transmitir os seus “recados”. Vejo-me, portanto, agora no direito de colocar tudo em pratos limpos: primeiramente, quero informar-lhe que, no período em que trabalhei nesta empresa, jamais me interessei em saber da vida particular sua ou de qualquer outro colaborador; prova disso: a orientação sexual de um membro da nossa equipe que só tomei conhecimento, através de você, quando essa pessoa não mais integrava os quadros da instituição. Muito me admira que você, ainda hoje, me encare como uma pedra no sapato!

Atribuo ao meu primeiro dia de trabalho essa sua aversão à minha pessoa, quando fui apresentado ao diretor-presidente e esse, valendo-se da própria baixa estatura, brincou comigo dizendo que todo baixinho era ruim, porque tem a alma pequena.  A fim de agradá-lo, disse-lhe que a história confirmava a tese dele e citei exemplos como: Hitler, Napoleão, Getúlio Vargas e Castello Branco. Ele entrou no embalo, fazendo um gesto nazista e colocando a mão sobre o estômago, igual ao imperador da França. Dias depois, o Rodolfo, cumprindo ordens suas, veio conversar comigo sobre esse ocorrido.  Pelo jeito, a brincadeira que fiz com o diretor-presidente mexeu muito com você, não foi?

Os treinamentos e os cursos, conforme prometido, quando me contratou, nunca aconteceram. Você praticamente me excluiu da equipe, restringindo a minha participação das reuniões e colocando-me para desempenhar funções de continuo, coisa que não condizia com o meu currículo profissional.

Qualquer deslize que eu cometesse, era motivo suficiente para repreender-me diante dos demais.  Não pense que me esqueci daquele do dia em que você me solicitou para acompanhar a Vanessa ao supermercado e comprar uns donativos. Foi a própria Vanessa que, vendo-me carregando muita coisa, sugeriu que, na volta, eu procurasse o porteiro e pedisse a esse que me ajudasse com as compras. Acatei a decisão dela, mesmo ciente de que você não aprovaria aquilo. Dito e feito: você fez questão de falar para todos ali presentes da sua insatisfação com aquela minha atitude, isentando a Vanessa de qualquer responsabilidade. E, pela enésima vez, narrou a postura do meu antecessor que não conseguiu colocar um prego na parede, referindo-se a ele como se fosse um débil mental.

Aliás, todo mundo para você, nessa empresa, era um retardado: a Neusa, a Graça, o Isaias... Aquela estagiária que não tirava os fones dos ouvidos, por exemplo: não havia um dia que deixasse de falar nela sem chamá-la de idiota ou de qualquer outro sinônimo. Lembra-se de quando você falou para todo mundo da equipe, inclusive para mim, que achava a secretária do Resende uma burra? Provavelmente, não; mas eu me lembro. E digo mais: por um triz você não ouviu de mim cobras e lagartos que, há tempos, encontravam-se atravessados na minha garganta.  Achei sensato não falar e advinha quem encontrei, logo após o expediente? Dei carona a ela, mas não abri minha boca. Vontade não me faltou, porém o meu bom censo, novamente, terminou falando mais alto: o que é que eu ganharia com isso? Considerando que os meus dias nessa firma já estavam contados, o máximo que eu iria conseguir era criar uma intriga boba, ficando com a pecha de fuxiqueiro.

 Sabe, não me surpreenderia, nem um pouco, se você me considerasse um imbecil e tenho absoluta certeza de que esse era o seu ponto de vista sobre mim. No entanto essa sua concepção, provavelmente, mudou a partir daquele feedback. Feitas as suas considerações quanto ao meu desempenho profissional, você disse:

- Agora, é a sua vez de me avaliar. Então, acha que tenho que melhorar em alguma coisa, Gonçalo?

Fiquei meio reticente, mas você insistiu, argumentando que aquilo era necessário, porque se tratava de uma norma da instituição. Naquelas condições, vi-me no direito de falar do seu constante “hábito” de fazer uso de palavras de baixo calão, durante o expediente, lembrando, inclusive, da vez em que você mandou um funcionário ir tomar... Termo esse, diga-se de passagem, era citado por você com frequência, sempre que algo não correspondia às suas expectativas.

Para se defender, você alegou que não havia dito isso diretamente ao rapaz e, então, eu respondi:

- Independente de ter sido dito na presença dele ou não, você disse. Já pensou se eu, por acaso, falasse isso?

Comentei ainda desse seu comportamento estressante, mostrando que isso acarretava a insegurança e desestabilidade da equipe.

Quero deixar bem claro que procurei agir como um profissional, fazendo essas observações, sem imaginar que, lá na frente, isso me custaria muito caro.

A sua marcação comigo dobrou, ao ponto de ameaçar retirar as minhas funções, caso não trabalhasse direito. E na primeira rata que cometi, você fez questão de cumprir o que prometeu:

- Gonçalo, o que pretende fazer, quando o Alfredo assumir as suas funções, visto que não haverá mais serviço para você, aqui na empresa?

Três vezes, num único dia, você me fez essa pergunta, intencionando que eu pedisse as contas ou perdesse a razão para me demitir por justa causa, certo?

Evidentemente que a minha vida pessoal não lhe convém, mas fique sabendo que, na mesma semana em que você me fez essa pressão, eu tinha acabado de me separar da minha mulher. Sorte, meses antes, ter começado a fazer análise. Estava propenso a sofrer um enfarte, um derrame ou algo parecido.

Diariamente, eu saía para o trabalho, pensando: “Qual vai ser a bronca de hoje?”. Contudo esse suplício terminou no dia em que você comunicou o meu aviso prévio, dando os meus direitos trabalhistas. Oh glória!  

Quero que o Rodolfo saiba que eu o considero bem grandinho para ficar se sujeitando a função de moleque de recados, por isso o copiei nesse e-mail. E no momento que você estiver lendo essa mensagem, saiba que, para mim, existem coisas muito mais importantes do que a sua vida pessoal.

 

Atenciosamente,

 

                                                          Gonçalo Dias

 

 

 

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