Indesejável Encontro


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1. Indesejável Encontro

 

 

“Não se ocupa com nada

além de um certo interesse pessoal, a saber, vingar-se

da angustia que lhe causo e evitar

a angustia que posso vir a lhe impor no futuro.”

(Franz Kafka: Uma Pequena Mulher)

 

          

O Casal

 

- Está aí com esta cara e sem dizer nada, o que é que há com você? Nem precisa me responder, porque eu já sei do que, ou melhor, de quem se trata: Gonçalo.

  -Esse sujeito seria a última pessoa que, em vida ou em outra encarnação, eu gostaria de encontrar, mas o destino, como sempre, tem esse péssimo habito de nos pregar peças. E como se nada disso bastasse, ele viu a gente.

-E daí?

-O Gonçalo viu a gente! Quer que eu escreva ou desenhe para você entende melhor?

- E a gente, por acaso, deve alguma satisfação a ele?

-De jeito nenhum.

-Então? Você está se preocupando à toa e acho pouco provável ele ter percebido alguma coisa, pois o Gonçalo é uma besta quadrada!

-Não contaria com isso, se fosse você. Também pensava assim até cair do cavalo.

-Nunca vou me esquecer do modo como o fuzilou com os olhos, após haver feito aquela brincadeira com o diretor-presidente. Uma vez que você pega bronca de alguém, é caixão. O Irã que o diga: a sua antipatia por esse manifestou-se desde o início, tal qual aconteceu com o Gonçalo. E, na primeira oportunidade que teve, você nem pensou duas vezes em dar as contas dele.

- Além de relapso, o Irã era um tiro no saco.

-E o Gonçalo também não era relapso?

-Era, mas o Gonçalo sempre foi pontual, nunca faltou ao trabalho e, acima de tudo, jamais criou empecilho com qualquer serviço que eu o encarregava de fazer. Essa persistência dele, aliás, muito me admirava.  

- Mesmo assim, o Gonçalo não ficou livre de suas implicâncias. Sempre você arrumava um jeito de desmontá-lo, como na vez em que ele pediu ao vigia para ajudá-lo com as compras. Isso até me fez lembrar um episódio envolvendo o Irã: voltávamos de um almoço, quando esse atirou, pela janela do carro, o papel de um bombom e a primeira coisa que você fez, assim que chegamos na firma, foi recriminá-lo por tal atitude. O Irã e o Gonçalo podiam ter personalidades diferentes, mas a sua apatia por ambos era similar No caso do Irã, você tratou rapidinho de resolver, assim como havia feito com o Jardel e a Ana Luiza. 

- Ali eram duas cobras! O Jardel, desde sempre, manifestou interesse pelo meu cargo, por isso resolveu indispor o pessoal da firma contra mim. Se eu não agisse logo, teria puxado o meu tapete. E a Ana Luiza entrou na dele, fazendo fofoca de mim dentro da nossa equipe!

-E quanto ao Gonçalo?

- As inúmeras não conformidades que ele recebeu, durante a auditoria, seriam a chance que eu tanto buscava para vê-lo fora da firma e, sobretudo, longe das minhas vistas, se não fosse aquele maldito feedback! Na hora de me avaliar, o miserável não perdeu tempo: “De cada cinco palavras que você diz, quatro são de baixo calão. Há de convir que uma postura dessa, dentro de um ambiente de trabalho, não é digna de um profissional, especialmente de quem exerce um cargo de chefia.”.

-O Gonçalo falou isso?

- Sim. E tomou como exemplo a vez em que eu mandei um funcionário ir tomar... Descrevendo tudo nos mínimos detalhes. Eu me defendi dizendo que não falei aquilo na presença dele, mas o infeliz rebateu: “Suponhamos que eu tivesse dito isso e usasse essa sua justificativa? O problema não foi para quem você disse, mas sim o que disse.”.

- Eu só estou acreditando, porque é você quem está me contando. Mas, francamente, isso é inacreditável!

- Nem o Jardel, aquele filho da..., jamais agiu assim comigo.

-Se fosse o Jardel, eu até entenderia, mas o Gonçalo! Não dá para entender.

- E você pensa que parou por aí? Esse filho de uma égua ainda falou desse meu temperamento genioso e acrescentou: “Uma vez que você perde a paciência, a equipe se fragiliza e ninguém produz. O gestor tem que passar confiança aos seus subordinados.”. Não perdi tempo e expliquei que a minha função exigia muita responsabilidade. Logo o miserável falou: “Assim como você, todos que ocupam um cargo de gestor também sofrem pressão.”.  

-Agora, sim, eu entendo essa sua preocupação dele ter visto a gente.

-A primeira coisa que passou pela minha cabeça, depois que esse energúmeno terminou de me dizer tudo isso, foi botá-lo para correr da firma, como quem enxota um cão sarnento.

-Disso eu não tenho dúvida, pois, se eu te conheço, você não iria deixar barato.

-Não ia mesmo, mas mudei a minha estratégia: em vez de mandá-lo embora, ele é quem sairia “por vontade própria”.

-Como assim?

-Lembra-se de que, certa vez, eu chamei a atenção dele na sua frente ameaçando transferir as atividades dele para um terceiro, caso não trabalhasse direito?

-Lembro.

-Até deixei bem claro: “Se isso acontecer, Gonçalo, não haverá mais trabalho para você dentro dessa equipe.”. Nem que fosse um reles vacilo, faria questão de cumprir essa jura a qualquer custo. E tinha a absoluta certeza de que não tardaria muito para isso acontecer.

-Pudera, a pilha que você vinha botando nele: “Gonçalo, olha só o que você fez! Eu não sei mais o que faço com você!”.

-Nada me faria voltar atrás, nem mesmo o excelente desempenho que obteve na segunda auditoria. Eis que a tão aguardada oportunidade chegou, mas você pensa que o Gonçalo desistiu? Para a minha surpresa, e infelicidade, o filho da mãe continuou desempenhando a função da qual eu o havia “dispensado”.

-Como assim?

-O Gonçalo não entregou os pontos.

-Mas você não havia prometido?

-Prometi. E deixei bem claro para esse idiota: “A partir desse dia, Gonçalo, não haverá mais trabalho para você, dentro dessa equipe. E antes que eu me esqueça: as vagas dos demais setores dessa firma encontram-se preenchidas.”. Diante daquele ultimato, só restava a ele pedir as contas.

-Mas, isso não aconteceu.

-Infelizmente, não. E se eu fizesse vista grossa, esse infeliz estaria, até hoje, trabalhando lá. Mas, sabendo que, dentro de uma semana, o Gonçalo sairia de férias, resolvi antecipá-las. Então, naquela sexta-feira, chaguei mais cedo e o Gonçalo veio em seguida. Esperei alguns minutos até chamá-lo para conversar na sala de reuniões. Sem mais delongas, disse que estava desligando-o, porque o considerava “incompatível com a função que desempenhava.”. A gerente do RH estava conosco e o informou dos direitos que ele tinha para receber. Em seguida, o Gonçalo me perguntou: “Posso ir embora?” e eu respondi que sim. Ele voltou à sala dele para pegar suas coisas e saiu sem dar satisfação a ninguém. Até nisso ele conseguiu me surpreender!

 

Gonçalo

 

Olá!

 

Antes de começar a transcrever este e-mail, tentei recordar de alguma ocasião em que foi possível estabelecer um vínculo com o Rodolfo, porque fiquei bastante surpreso, quando esse me procurou, no dia seguinte, com o intuito de saber se, porventura, comentei com alguém que vi você no cinema. Por que ele ficaria tão preocupado com isso? Apesar de termos trabalhado junto, o Rodolfo e eu nunca fomos muito próximos; jamais conversamos sobre outro assunto que não fosse referente ao trabalho. Sendo assim, não me lembro, nessa época, de nenhuma vez termos alguma proximidade, nem mesmo quando saí da firma.

O Rodolfo nunca tomaria a iniciativa de, sem mais nem menos, vir me procurar para querer saber de um assunto ao qual, no meu entender, não o interessa. Tenho plena convicção disso, pois sei perfeitamente que é do seu feitio encarregá-lo da “tarefa” de transmitir os seus recados.

Vejo-me, portanto, agora no direito de colocar tudo em pratos limpos: primeiramente, quero informar-lhe que, no período em que trabalhei nesta empresa, jamais me interessei em saber da vida particular sua ou de qualquer outro colaborador; prova disso: a orientação sexual de um membro da nossa equipe que só tomei conhecimento, através de você, quando essa pessoa não mais integrava os quadros da instituição. É incrível como ainda hoje você consegue me enxergar como uma pedra no sapato!

 Atribuo ao meu primeiro dia de trabalho essa sua aversão à minha pessoa, quando fui apresentado ao diretor-presidente e esse, valendo-se da própria baixa estatura, brincou comigo dizendo que todo baixinho era ruim, porque tem a alma pequena.  A fim de agradá-lo, disse-lhe que a história confirmava a tese dele e citei exemplos como: Hitler, Napoleão, Getúlio Vargas e Castello Branco. Ele entrou no embalo, fazendo um gesto nazista e colocou a mão sobre o estômago, igual ao imperador da França. Dias depois, o Rodolfo, cumprindo ordens suas, veio conversar comigo sobre esse ocorrido. Se isso te incomodou bastante, por que não veio conversar comigo?

Os treinamentos e os cursos, conforme prometido, quando me contratou, nunca aconteceram.  Você praticamente me excluiu da equipe, restringindo a minha participação das reuniões e colocando-me para desempenhar funções de continuo, coisa que não condizia com o meu currículo profissional. Pelo jeito, a brincadeira que fiz com o diretor-presidente mexeu muito com você, não foi?

Um erro que eu cometesse, por menor que fosse, era motivo suficiente para repreender-me diante dos demais. Não pense que esqueci daquele do dia em que você me solicitou para acompanhar a Vanessa ao supermercado e comprar uns donativos.  Como eu vinha carregando muita coisa, pedi auxilio ao porteiro, mesmo ciente de que você não admitiria aquilo. Dito e feito: você fez questão de falar para todos da sua insatisfação com aquela minha atitude. E narrou, pela enésima vez, a atitude do meu antecessor que não conseguiu colocar um prego na parede, referindo-se a ele como se fosse um débil mental.

Aliás, todo mundo para você, nessa empresa, era um retardado: a Neusa, a Graça, o Isaias, aquela estagiária que vivia com os fones nos ouvidos... Lembra-se de E quando você falou para todo mundo da equipe, inclusive para mim, que achava a secretária do Resende uma burra? Provavelmente, não; mas eu me lembro. E digo mais: por um triz você não ouviu de mim cobras e lagartos que, há tempos, encontravam-se atravessados na minha garganta.  Achei sensato não falar e quando estava de saída, após o expediente, adivinha quem eu encontrei? Dei carona a ela, mas não abri minha boca. Vontade não me faltou, porém o meu bom censo, novamente, terminou falando mais alto. O que eu ganharia com aquilo? Considerando que os meus dias nessa firma já estavam contados, o máximo que eu iria conseguir era criar uma intriga boba, ficando com a pecha de fuxiqueiro.

 Sabe, não me surpreenderia, nem um pouco, se você me considerasse um imbecil e tenho absoluta certeza de que esse era o seu ponto de vista sobre mim. No entanto essa sua concepção, provavelmente, mudou a partir daquele feedback. Feitas as suas considerações quanto ao meu desempenho profissional, você disse:

- Agora, é a sua vez de me avaliar. Então, acha que tenho que melhorar em alguma coisa, Gonçalo?

Fiquei meio reticente, mas você insistiu, argumentando que aquilo era necessário, porque se tratava de uma norma da instituição. Naquelas condições, vi-me no direito de falar do seu constante “hábito” em fazer uso de palavras de baixo calão, durante o expediente, lembrando, inclusive, da vez em que você mandou um funcionário ir tomar... Esse termo, diga-se de passagem, era dito, com frequência, por você, sempre que algo não correspondia às suas expectativas. Para se defender, você alegou que não havia dito isso diretamente ao rapaz e, então, eu respondi:

- Independente de ter sido dito na presença dele ou não, você disse. Já pensou se eu, por acaso, falasse isso?

Comentei ainda desse seu comportamento estressante, mostrando que isso acarretava a insegurança e desestabilidade da equipe.

Quero deixar bem claro que procurei agir como um profissional, fazendo essas observações, sem imaginar que, lá na frente, isso me custaria muito caro. A sua marcação comigo dobrou, ao ponto de ameaçar retirar as minhas funções, caso não trabalhasse direito. E você fez questão de cumprir o que prometeu, logo que cometi uma rata:

- Gonçalo, o que pretende fazer, quando assumirem as suas funções, visto que não haverá mais serviço para você aqui na empresa?

Três vezes, num único dia, você me fez essa pergunta, intencionando que eu pedisse as contas ou perdesse a razão para me demitir por justa causa, certo?

Evidentemente que a minha vida pessoal não lhe convém, mas fique sabendo que, na mesma semana em que você me fez essa pressão, eu tinha acabado de me separar da minha mulher. Sorte, meses antes, ter começado a fazer análise. Estava propenso a sofrer um enfarte, um derrame ou algo parecido.

Diariamente, eu saía para o trabalho, pensando: “Qual vai ser a bronca de hoje?”. Contudo esse suplício terminou no dia em que você comunicou o meu aviso prévio, dando os meus direitos trabalhistas. Oh glória!  

Quero que o Rodolfo saiba que eu o considero bem grandinho para ficar se sujeitando a função de moleque de recados, por isso, o copiei nesse e-mail. E no momento que você estiver lendo essa mensagem, saiba que, para mim, existem coisas muito mais importantes do que a sua vida pessoal.

 

Atenciosamente,

 

Gonçalo Dias.

 

 

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