Balzaquianas/ Cinema Noir


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1. Balzaquianas/ Cinema Noir

 

Eric do Vale 

 

I

 

Naquela sexta-feira, após o expediente, fui até um barzinho, onde tomei umas cervejas com os meus colegas. Depois, entrei no meu carro e vaguei por aí decidido a, tão cedo, não voltar para a casa. A minha rotina consistia no seguinte: da casa para o trabalho; do trabalho para a casa. Por isso, resolvi modificar todo o meu roteiro.  

Estacionei em frente a um clube noturno e lá entrei.   Pelo que pude notar, aquele espaço era frequentado por gente com mais de trinta anos de idade. O repertorio musical era repleto de músicas dos anos 70 e 80.  Sentei-me e pedi ao garçom que me servisse uma cerveja.

Na pista havia uma mulher de vestido preto e cabelos castanhos, quem era ela? Provavelmente, devia ter uns 37,38, por aí. Quando o garçom me serviu, pedi-lhe uma caneta emprestada e escrevi no guardanapo algo do tipo “Quero te conhecer”.

-Está vendo aquela mulher de preto? _ Perguntei ao garçom.

-Sim.

-Entregue este bilhete a ela, por favor.

Vi quando ele entregou-lhe o bilhete e, em seguida, disse alguma coisa para ele. Pensei: “Nessa eu dancei”. O garçom aproximou-se de mim e falou:

-Ela pediu para que o senhor fosse até ela.

Fui até lá e começamos a dançar. Depois nos sentamos e bebemos um pouco. Ela se chamava Glória, era funcionária pública e, há pouco tempo, tinha se separado do marido.  

-Qual é o seu nome? _ Perguntou Glória.

-Danilo.

É claro que aquele não era meu nome e também não era professor universitário coisa nenhuma, conforme eu tinha dito para ela.

 

II

 

Depois daquela noite, passei a frequentar aquele espaço com maior assiduidade, alternando os dias e as semanas. César, Otávio, Carlos, Miguel, esses eram alguns dos nomes que eu utilizava para apresentar-me a elas, sem esquecer das minhas “ocupações”: corretor de imóveis, escriturário, advogado, engenheiro, agrônomo, policial...

Tenho um caderno com os números de todas ela: Fátima, Stela, Olívia, Graça... Não sou muito religioso, mas tenho que levantar as mãos para o céu, pois, até então, nenhuma delas jamais desconfiou de nada.

 

III

 

Glória não diferia nem um pouco das demais mulheres que frequentavam aquele espaço. A maioria delas padeciam de frustrações amorosas.

Fico me imaginando deitado em um divã e o(a) analista querendo saber sobre mim:

-Toma algum medicamento?

-Não.

-Já usou drogas?

-Nunca

Que outas ele, ou ela, faria? Qual seria o meu diagnostico?  Não fiz aquilo tudo por dinheiro, mas, pelo menos, eu tenho certeza de que suprimi as carências de todas elas.

 

 

 

 

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