Sem Condições


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1. Sem Condições

 

Eric do Vale

 

Aquela inesperada visita do meu primo, à minha casa, muito me surpreendeu. Mesmo assim, procurei deixá-lo a vontade.

 -Aceita um café? _ Perguntei.

Como não havia respondido a minha pergunta, pedi a copeira que passasse um café.  O tempo todo, me questionei: “Qual a finalidade dele vir me procurar?”. Deduzi que estivesse em apuros, pois era do meu conhecimento que esse meu primo padecia de problemas psicológicos e tomava remédios controlados.

-Você ainda gosta do Raul Seixas? _ Perguntou o meu primo.

-Sim. Gosto sim.

A fim de quebrar aquele gelo, prossegui:

-Sabe, eu, uma vez, vi aquele seu amigo de infância, o Álvaro. A sua mãe arte estava presente, nessa ocasião.

-Ela já faleceu.

-Eu sei.

-Tem dois anos que a minha mãe morreu. E esse meu amigo, atualmente, se chama Ramona.

-Eu sei. Inclusive, quando o vi, nessa época, ele já se chamava Ramona. 

 Olhamos um para o outro e ficamos em silêncio, por um longo período. Caso prolongasse aquele dialogo, falaríamos sobre o Álvaro. Certamente, comentaríamos: “Veja só, justo o Álvaro! Que coisa, não?”.

-Você está zangado comigo? _ Perguntou o meu prim

-Eu? Por quê?

-Você nunca mais falou comigo.

-Nada disso. É essa minha rotina: trabalho, esposa e filhos. Você entende?

-Entendo sim. Sabe, eu me lembrei da última conversa que tivemos: você me perguntou sobre o que eu achava daquele nosso primo, o Adilson.

- É verdade.

-Ele é muito esquisito.

-Como assim?

O meu primo tinha razão em afirmar aquilo. Honestamente, nunca me simpatizei com o Adilson, porque o achava muito esnobe e insociável. Tais características permitiram com que ele não fosse bem quisto pelos demais familiares.

Lembro-me de que, uma vez, o Adilson, sem mais e nem menos, me disse:

--Por que você não vai na privada e pega um saco de...

Imediatamente, mandei ele ir... O Adilson, obviamente, não deixou barato:

-Quem xinga tem parte com o diabo.

Ele sempre gostou de manifestar essa veia puritana, em virtude da formação protestante dos pais.  Ao me recordar de tudo isso, constatei que o Adilson sofria de algum complexo de inferioridade. Depois que apresentei o meu ponto de vista em relação a ele, o meu primo, que falou:

-Não tem nada a ver com isso tudo que você está falando, refiro-me ao comportamento dele: fica difícil saber se ele é homem ou não, pois tem um jeito muito efeminado.

Lembro-me que, certa vez, alguém da família especulou sobre a orientação sexual do Adilson, mas não dei importância porque fazia muito tempo que não tinha contato com ele.

-É isso que eu vejo nele. Até agora, não casou e nem tem namorada... Você há de convir que isso tudo gera muita suspeita. _ Disse o meu primo.

-Em relação a isso que você está me dizendo, não posso emitir nenhuma opinião. Além do mais, isso é um assunto muito delicado.

-Tudo o que você falou faz sentido e estou de acordo. Mas, o que quero te dizer é que ele é estranho.  Você me perguntou o que eu achava dele, está lembrado? _ Levantando-se - Acho o Adilson muito efeminado e eu não sou único a pensar assim: todo mundo da família também acha isso, mas ninguém tem coragem de dizer isso. Você é um deles.

-Eu?

-Pensa que eu sou idiota? _ Alterando a voz- Não sou nenhum moleque! – Posso ter mens estudo do que você, mas não sou burro!

Ao chegar com a bandeja de café, a copeira presenciou tudo e assim como eu, ficou sem entender nada.

-Você só sabe falar bonito, mas o seu conhecimento de vida é zero! Passei quinze anos correndo o mundo. Quinze anos não são quinze dias! _ Disse o meu primo.  

                Em seguida, caminhou em direção a porta e quando foi abri-la, deparou-se com a minha esposa e foi embora.

-O que foi que deu nele? _ Perguntou a minha esposa.   

-Eu é que sei?  

 

 

 

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