Predadora

Juntem Regina George, Chanel Oberlin e uma garota interiorana em uma trama debochada, que envolve vingança contra os homens, DSTs, alguma pornografia e voilà, temos Predadora. Simples e sarcástica, nada comedida e com toda arrogância cabível a uma ninfomaníaca de marca maior.

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5. Provincianas

Estou ferrada. Acabei de chegar de uma conversa com o lindo do meu advogado, ao menos não tem barriga de cerveja e pelos saindo das narinas. Ele me trouxe a deliciosa notícia de que a repercussão do meu caso iniciou um debate quanto a pena para crimes como o meu, no caso transmitir propositadamente uma doença incurável a outra pessoa, sem que ela tenha consciência disso. Me disse até que estão querendo equiparar a uma tentativa de homicídio, vocês acreditam? Eu só queria me vingar de ter sido usada, enganada, ter meu corpo violado. Mas nessa hora a justiça não estava interessada em discutir uma punição para casos como o meu, e de muitas outras moças por aí. Não. Precisa ter pressão da mídia e das "pessoas de bem" que se escondem por detrás de uma tela negra e tornam-se juízes da vida alheia. Mas se esse livro fizer sucesso, minhas queridas, eu posso até continuar presa, mas não vou ser esquecida mofando aqui dentro. Voltando ao assunto, meu advogado particular, que eu não faço a menor ideia de quem esteja bancando, me disse que se isto acontecer poderemos recorrer e algo assim, mas que por enquanto minha situação continua muito delicada e que devo evitar ao máximo novas exposições... Justo agora que tinham duas emissoras querendo me entrevistar. Chateada. Ou como ele disse, podemos tentar alegar insanidade mental, não sei como isso influenciaria no meu julgamento ou na pena, nunca escutava o que os acadêmicos de direito me diziam antes de transarmos. Como o mundo é sádico. Capaz que estão eles agora a depor contra a minha pobre pessoa. Como se eu tivesse os obrigado a alguma coisa. Qual a dificuldade de entenderem que eu só deixava rolar, deslizar para dentro como eles queriam? Até porque raramente um deles vai parar e pedir por um preservativo. Claro, se você jurar que toma pílula, como era meu caso. E agora tornaram-se vítimas de um estupro físico e mental pela Ninfo do HTC, não ficaria surpresa se estivessem lucrando com isso.

O que vocês acham leitoras devo ou não fingir-me de louca? Se bem que vocês já devem me achar uma, não é? Whatever, vocês são incapazes de compreender meu lado mesmo. E olha que eu contava com o apoio feminino de vocês, ou ao menos empatia para com a nossa situação de submissas. Não foi o que vi nas manifestações em frente a minha casa e na porta da delegacia. Vocês mulheres predominavam, traziam cartazes me chamando de quenga, puta, que eu merecia a morte e o fogo eterno por ter seduzido homens casados. Eu nesse corpo de um metro e sessenta e cinco arrastava e prendia homens de um e oitenta numa cama... Aham. Por isso que eu falo, não vivam suas vidas em função de seus maridos ou namorados. Eles traem, e vocês culpam as amantes. Rafael também me traiu, uma vez para o bem e outra para o mal. Chorei nas duas vezes, e dentro delas tomei atitudes muito importantes. Vamos lá, estava eu nas férias de Julho, tinha quinze dias e uma infinidade de conteúdo atrasado para por em dia, fora os livros de literatura que estavam abandonados sobre o bidê. Decidi me concentrar nos estudos e manter uma rotina diária semelhante a que mantinha no cursinho, o que me prendia em casa pela manhã, tarde e início da noite. Nos intervalos usava o celular, ajudava minha mãe quando esta encontrava-se em casa, ou dava uma saída rápida para espairecer. Como podem imaginar Rafael não gostou nada, desaprovou minha atitude, na verdade ele não compreendia como eu podia me dedicar tanto aos estudos, principalmente de matérias das quais eu vivia reclamando. Ele abandonara aquela vida por preguiça, estava farto, só não largou o ensino médio porque eu e sua mãe não deixávamos e dávamos todo o apoio possível. Mas ele continuava o mesmo, os anos passavam e traço algum de maturidade revelava-se em suas atitudes, continuava dependente dos pais, saia todo fim de semana, de sexta a domingo de tarde, às vezes bebia demais, e quantos carros amassou ou bateu nessas noitadas furiosas dele por aí. Seus pais pareciam ter desistido, insistiam que ajudasse na loja e que não saísse durante a semana, de tanto falarem acatou, ou talvez só não tivesse o que fazer. Logo, os fins de semana eram sagrados e por ele aguardados, e isso recaía sobre mim. Enquanto fazia escola até o acompanhava em tudo, no entanto, minha forma de ver aquela diversão foi mudando, não queria prender-me aquela cidade, aqueles mesmos bares e pessoas, ver caras de trinta e cinco anos portarem-se como adolescentes me agoniava. As mulheres mães solteiras que deixavam os filhos em casa para poder sair, beber e flertar com aqueles rapazes bêbados era o que mais me afligia. Não queria terminar daquela forma, a cidade era catalisadora daquela transformação, não permitia que aspirássemos nada que não aquela vida boêmia e decadente. E pensar que as festas em nada se comparavam as que fui nos tempos de faculdade. Aquelas pessoas eram condicionadas a desfrutar daquilo, como se o mundo fosse inatingível demais para elas. Mas eu não me deixaria enraizar, e por mais que tivesse meu namorado pesando na balança, seus deslizes m impulsionaram para longe, e também para detrás desta grade. Quem sabe se não tivesse ficado na minha cidade natal bebendo vodca e cerveja não estivesse mais feliz agora. Feliz sim, pois são ignorantes, e não sentem a falta do que nunca tiveram ou almejaram. Não posso deixar-me consumir por estas dúvidas. Sair de lá foi o melhor que me aconteceu. Repita. Sair de lá foi o melhor que me aconteceu. Não fosse isso não estaria com a cara estampada na capa da maior revista de circulação semanal deste país. Aposto que aquelas moças que deixei para trás estão mexericando sobre mim.

Ah, eu também estaria se fosse uma delas.

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