Predadora

Juntem Regina George, Chanel Oberlin e uma garota interiorana em uma trama debochada, que envolve vingança contra os homens, DSTs, alguma pornografia e voilà, temos Predadora. Simples e sarcástica, nada comedida e com toda arrogância cabível a uma ninfomaníaca de marca maior.

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3. Eu, Cyndi Lauper

Olha eu aqui de novo, e tão cedo, acho que estou gostando disso. Sabe quando vocês ficam com uma música na cabeça, mas que vocês não conhecem toda a letra, e vocês ficam repetindo os mesmos versos, e inventando aqueles que intercalam os refrões? Assim tem sido meu dia, aqui na cadeia não tenho acesso as minhas playlists, nem a um rádio na verdade. Me resta cantarolar o que sei, até os instrumentos tornam-se sons em minha garganta. A música em questão é Girls Just Want to Have Fun, talvez vocês conheçam, é bacana saber umas músicas antigas, te dá um ar de culta e inteirada nos assuntos. E a cantora é ótima, uma inspiração. O refrão que me apego e que acho que vocês deveriam ter consigo é este aqui: "I wanna be the one to walk in the sun" e garotas, se vocês não conseguem traduzir isto daqui, é porque está na hora de abrir horizontes. Vamos lá, vocês acham o máximo andar ao lado do rapaz mais bonito do bairro, ou que vocês conhecem, certo? Eu já fui assim, e desfilar com o Rafael massageava meu ego e minha autoestima, mesmo sentindo-me vulnerável quando sozinha, ou me pegando pensando no que estariam as outras a pensar e dizer, fazia-me de ciumenta, inconstante, mas só estava infeliz comigo mesma, com meu corpo, com a vidinha que levava. E olha que eu tinha uma vida bem razoável. Eu orbitava ao redor do meu namorado, eu ficava ansiosa quando ele demorava, quando não respondia minhas mensagens ou ligação, ou quando se portava de forma não amorosa, distante. Eu morria de medo de perdê-lo, de ser trocada, o que seria de mim sem ele? Teria que conviver comigo mesma e minhas insatisfações, com as das minhas amigas, da minha mãe, da minha irmã, da minha família. Estamos sempre tão preocupadas com isso, aparência, maneira de se portar, julgamentos externos, culpa por deixar-nos saborear um sorvete ou chocolate. Ah, que saudades daquelas coxinhas que vendiam na cantina da faculdade. E do pastel então. Pena que comi pouco delas, a vontade sempre ali, e o remorso obrigando-me a passar fome depois. Tudo isso por que? Pelo Rafael, pelos amigos dele, pelas meninas com quem eu tinha treta, com a opinião das minhas próprias amigas. E eu bancava a superior, a que não ligava para falatórios... Quão boba eu era, hoje, mesmo exposta e sendo xingada nas redes sociais, sinto-me mais segura de mim do que naquela época em que julgava tudo tão estável. E a vida ia passando, e eu parada, fazendo as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, sentindo as mesmas alegrias, cada vez mais superficiais, e as dores mais profundas. Chorei.

Hoje eu ando ao Sol, quando permitem que eu vá para o pátio externo. Retifico, hoje eu ando as luzes de flashes. Meu rosto em voga, virou meme, lenda urbana, todos têm medo de transar com a menina do cabelo tingido, que se faz de difícil, mas que termina nua em uma cama. Só fiz prejudicar a nossa luta. Desculpem, meninas. Espero que entendam meu lado um dia, ou que ao menos me achem digna de perdão, ou seja lá o que for. Mas não uma morte por linchamento igual tentaram. Esse meu rosto está tão bonito para ser depredado, e esse corpo ainda nem sofre os efeitos da doença avançada. Uns aninhos a mais desfrutando dele não seria pedir demais. Ou seria? E pensar que a resposta está nas mãos de um homem, que se acha supremo por ser juiz. Tivera eu o conhecido antes.

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