Coisas do amor

Antenor, certo dia, vê uma linda mulher, e apaixona-se por ela, e deseja-a para si, e a conquista. Mas o desfecho de sua aventura não foi o que ele desejava. Deu-se uma tragédia.

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1. Coisas do Amor

Antenor, ao ver Angelina pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua - prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angelina a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angelina, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si - e tê-la-ia, prometeu. Angelina não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angelina. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angelina conversaram, descontraídos. Angelina era muito requisitada. Interrompida inúmeras vezes a conversa.

Angelina estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angelina não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angelina despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angelina exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angelina, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angelina admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

- Oi - disse-lhe Angelina. - Você... Conheço você. Você é amigo do Pedro... Ele me apresentou na festa... É... Amadeu... Não... Alaor...

- Antenor.

- Isso. Antenor. Que surpresa!

- Eu é que estou surpreso, Angeline.

- Angelina. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

- Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angeline.

Angelina soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angelina economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angelina iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angelina e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angelina estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angelina foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

- O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angelina. Foi carinhoso, meigo, afável. Angelina encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angelina se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angelina, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava - e Angelina se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angelina forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angelina não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angelina, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angelina desmarcou-o - alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angelina respirou, aliviada - mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angelina mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angelina, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angelina rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural - a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds e as jóias que Angelina ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angelina, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angelina despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e arremessaram-no no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angelina, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angelina à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego - vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angelina. Angelina estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angelina, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angelina e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angelina foram à casa dela. Angelina, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angelina iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angelina e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angelina passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

- Antenor, você está ferido - disse-lhe Angelina, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

- Vamos ao hospital - disse Angelina. - Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

- Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

- Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel - disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. - Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui... - e apontou o ferimento. - Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

- Combinamos R$ 500,00.

- Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angelina, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angelina.

- Oi, Antenor – saudou-o Angelina, com voz melodiosa.

- Boa noite, Angelina.

- Boa noite.

- Onde você está?

- Em casa.

- Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

- Está bem. Esperarei você, Antenor.

- Tchau.

- Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo - ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo, e cravou-lhe a faca no coração.

- Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

- Angelina! - berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

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