A Sete Chaves


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1. A Sete Chaves

 

Eric do Vale 

 

 

Inacreditável! Aquela era a melhor palavra para classificar o que tinha acontecido, horas atrás. De banho tomado e totalmente vestido, ela falou:

- Irei depois de você. Por favor, vá embora.

Ela tirou da bolsa uma nota de dinheiro e me deu dizendo:

-Pegue um táxi.                              

Agora, provavelmente, deve ser três horas da tarde e assim que o meu irmão entrar por aquela porta, estranhará eu ainda estar de pijama e, com certeza, dará aqueles seus tradicionais sermões. Dito e feito, essa foi a primeira coisa que ele perguntou, assim que chegou em casa.

-Acordei tarde. _ Essa foi a desculpa que encontrei.

-Não acredito que você ficou dormindo até as 15 horas!

-Eu fui dormir a partir das seis da manhã, você sabe: essa minha insônia...

Fui até a firma onde o meu irmão trabalha a fim de pedir-lhe um dinheiro emprestado.

-Eu, por um acaso, tenho cara de banco?

Eu sabia que ele iria dizer aquilo. Reconheço que o meu irmão tem razão suficiente para se impacientar comigo, mas fazer o quê? Lamento não ter, ainda, conseguido ganhar na loteria, assim como não ter nascido em berço de ouro.

Quem era aquela mulher? Apesar de ser coroa, colocava qualquer menininha no chinelo. De acordo com o recepcionista, ela, abaixo do sócio majoritário, era a manda- chuva do pedaço. Não demorou muito para que eu ficasse sabendo que além de rica e bonita, aquele mulherão também era solteira. Joguei verde com o meu irmão:

-Quem é aquela mulher lá do seu trabalho?

Ao descrevê-la fisicamente, ele foi na mosca:

-Você está se referindo a diretora-presidente?

Ele me falou o nome dela e salientou:

-Pense em uma mulher insuportável.

Notei, naquele momento, um sentimento de repulsa mesclado com medo, quando o meu irmão começou a falar dela:

-Acho que, talvez, seja por isso, que ela continua encalhada?

-Ela é solteira? _ Dissimulei.  

-Homem nenhum aguentaria dividir o mesmo teto com ela. Digo isso, porque ninguém do trabalho consegue ficar perto dela, por alguns segundos. 

Lá estava ela em uma mesa almoçando com os executivos, eu me encontrava do outro lado tomando o meu uísque sem tirar os olhos dela. Percebendo a minha investida, ficou me encarando. Visto que o pessoal que a acompanhava tinha saído, não perdi tempo e fui até lá. Mal me acomodei, ela foi direta:

-Qual é a sua?

-A minha?

-Sei quem você é.

-Sabe?

-O seu irmão trabalha na firma em que sou diretora-presidente. Por sinal, ele é um profissional muito competente, é muito difícil, nos dias de hoje, encontrar alguém com o potencial dele e não me refiro apenas como profissional, mas também como pessoa. Ao contrário de você...

-Ao contrário de mim?

-Eu puxei a sua fixa.

Fiquei sem ação e ela continuou:

- Pensa que eu não notei as suas investidas sobre mim? Qual é a sua?

Eu não estava esperando aquilo.

-Te fiz uma pergunta, por que não me responde? Vamos, rapaz. Me diga: qual é o seu interesse por mim? _ Ela insistiu.

-Você... Digo, a senhora... É muito bonita.

Naquele momento, eu me senti como uma criança quando é pega fazendo uma coisa errada. Aproveitando-se da minha inercia, ela deu o golpe de misericórdia:

- Preste atenção no que vou te dizer: se, por um caso, surgir, seja dentro ou fora da empresa, algum boato sobre nós dois, cabeças vão rolar. E o maior prejudicado nisso vai ser o seu irmão. Portanto, peço que você pense muito bem no que vai dizer, depois que sair daqui.

-O que é isso?! No que depender de mim, o meu irmão permanecerá naquela firma, por muito tempo.

-Assim é que eu gosto.

Em seguida, ela chamou o garçom e pediu a conta.

-Mas, a senhora já pagou. _ Falou o garçom.

-É a conta dele._ Apontando para mim.

-Mas, eu pretendia ficar aqui..._ Falei.

Ela não me deu ouvidos, pagou a minha conta e disse:

-Vamos?

Eu me levantei todo desconcertado e ao sairmos, ela perguntou:

-Não vai me acompanhar?

Confesso que não estava entendendo nada, mesmo assim fiz o que ela pediu. Entrei no carro dela e no meio do trajeto, ela falou:

-Sem perguntas, entendeu?

Chegamos ao apartamento dela e continuava sem entender nada. Naquela hora, lembrei-me das palavras do meu irmão: “. Eu, no seu lugar, teria vergonha de viver às custas dos outros!”.  Ela pediu que eu ficasse a vontade e falou:

- Bebe alguma coisa?

-Um uísque.                        

-Sirva-se a vontade. Com licença. _ Saindo.

Ela deve ter ido para o quarto e eu tomei um cowboy. Andei de um lado e para o outro perguntando-me: “Por que fui me meter naquilo?”. Dentro do táxi, recordei dos tempos de adolescente: o meu irmão com a cara nos livros, enquanto eu... Só Deus sabe o quanto ele pelejou para conseguir uma vaga naquela firma, quando ainda era universitário. O que será que ela queria comigo? Ao sair do quarto vestindo um roupão, ela pegou uma taça de Martini, sentou-se no sofá e cruzou as pernas, várias vezes.

-Você está tão tenso, relaxa! _ Disse ela.

Ela me desmontou, aquilo nunca tinha acontecido comigo, antes. Perto de pegar no sono, pensei como foi difícil para o meu irmão ter chegado no patamar, onde, atualmente, se encontra. Portanto, não seria justo ele despencar por minha causa.

-  A gente vai se ver, novamente? _ Perguntei, assim que nos despedimos.

 -Não sei. Sem perguntas, certo? Lembre-se do que conversamos, no restaurante, sobre o seu irmão.

O meu irmão foi até a cozinha pegar um copo com água e quando voltou, disse:

-Insônia, eu sei bem o que é isso. _ Ironizando. - Você não tem jeito, é um caso perdido. _ Disse ele.

Ah, se o meu irmão soubesse!

 

 

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