A Bolada


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1. A Bolada

Eric do Vale 

 

- Vavá, nós somos irmãos e por isso, não deve haver segredo entre nós. Principalmente quando o assunto diz respeito a família. _ Falou Máximo.

  -Onde é que você quer chegar?

  -Antes de morrer, a nossa mãe te falou alguma coisa sobre aquele dinheiro que o velho ganhou na loteria?

  -Lá vem você de novo com essa história! 

- Contou ou não contou?

 -Ela disse aquilo que você e eu já sabemos: o velho ganhou uma bolada, foi ao banco pegar todo o dinheiro e depois...

 -Chegou em casa bêbado esculhambando todo mundo e dizendo pra gente esquecer, porque ele não ia deixar nada para ninguém. _ Interrompendo-o.

  -Sim, foi isso.

  -Só isso?

- Qual é a tua, Máximo? Acha que eu estou escondendo o jogo? Se eu soubesse onde estava esse bendito dinheiro, já tinha passado a mão e dado no pé, há muito tempo.

 

...

 

Depois de atender o interfone, a empregada falou:

-Tem um homem chamado Ivo, lá embaixo.

-Você disse Ivo?

-Sim, esse é o nome dele.

-Mande-o subir, por favor.

Ela acatou a sua ordem e quando ouviu a campainha tocar, abriu a porta.

-Entre, por favor. _ Disse a empregada.

Ele fez o que ela pediu e ficou olhando os cômodos daquele apartamento. Ivo devia ter, aproximadamente, uns sessenta anos e quando a empregada perguntar-lhe se queria beber alguma coisa, ele respondeu.

-Não, obrigado.   

Ao deparar-se com aquela pessoa, Ivo não se conteve:

-Então, é verdade?

- Deixe-nos a sós, por favor. Por hoje, você está dispensada. _ Falando para a empregada.

Depois que ela saiu, Ivo continuou:

-Você me deve explicações.

-Nada disso, quem me deve explicações é o senhor. Quem foi que te deu o meu endereço?

-O Jurandir. Sabia que esse homem que você colocou para trabalhar na sua loja é um ex-presidiário?  Sabe o que foi que ele fez? Cumpriu pena, por dez anos. Você sabia disso? O Jurandir é um criminoso.

 -Não fale assim do meu irmão.

-Não sei qual dos dois é pior: você ou ele?

- O senhor não é melhor do que ninguém e sabe de uma coisa? Não imagina o grande favor que me fez, quando me colocou para fora de casa. Se o Jurandir tivesse tido a chance de se afastar do senhor...

- Você fala assim como se eu fosse o culpado dele ter feito o que fez.

-E não é verdade?  Desde que ele nasceu, o senhor o tratou a socos e a pontapés, como fazia comigo e com a mamãe, que Deus a tenha! Ela aguentou tudo do senhor até o dia em que o flagrou agarrando, a força, a sobrinha dela. Quantos anos tinha a menina?   Uns quinze, dezesseis, por aí. Era sabido que o senhor vivia de chamego com outras menininhas, mas com a sobrinha dela! Aquilo foi o estopim para mamãe dar fim na própria vida, tomando veneno de rato. Mas, para todos os efeitos, ela morreu do coração.

-Infarto fulminante.                   

- Depois, o senhor se casou com a Isaura e o tratamento com ela não foi muito diferente. Tenho absoluta certeza de que a “educação” que os seus outros dois filhos receberam foi a mesma que o senhor deu para o Jurandir e para mim. Apesar de ter tido pouco contato com eles, já conheço a fama desses dois.  Por mais que intimide os outros, o senhor nunca passou de um fraco. Pensa que eu me esqueci daquele dinheiro que o senhor ganhou na loteria?  Alguma vez, o senhor teve coragem de contar essa história para alguém, seu Ivo? Eu me lembro como se fosse hoje: a Isaura passou a sua melhor camisa e o senhor saiu de casa para pegar a bolada. Ao sair do banco, foi para a zona com aquela dinheirama toda. Depois, chegou em casa, bêbado, com a mão na frente e a outra atrás, pedindo para que o Jurandir e eu não contarmos nada para ninguém.

-Foi um desprazer ter te reencontrado.

-O desprazer foi todo meu. Como te disse: o senhor me fez um grande favor, quando me colocou para fora de casa. E agora, quero que me faça um outro favor: esqueça, de uma vez por todas, que eu existo. 

 

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