O Dilema

Escrita ácida e visceral sobre a selvageria humana. Resumido em poucas linhas, o reencontro de uma dupla de amigos de infância toma rumos obscuros quando Fausto é posto contra a parede acerca de um estupro cometido no metrô do parisiense.

Infelizmente, negócios são apenas negócios.

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1. O Dilema

 

 

            — De acordo, Fausto? — Dizia Joaquim para mim. 

            O fato é que nunca concordei com seus métodos sórdidos. Escalpelamento, desmembramento... Talvez o estupro fosse mais a minha cara; a sensação de poder ao dominar a vítima que grita desesperadamente em minha mão abafada. 
            E então chegamos nesse limiar, no qual eu e Joaquim precisávamos fazer uma escolha nada simples. Matar ou confiar? É verdade, nós fomos parceiros de rua por muitos anos, mas nessa vida não se pode confiar em qualquer zé-preto. Aposto que está com uma faca no bolso. Irá cravejá-la em minhas costas assim que virar. Eu sei, posso ver em seu sorrisinho sádico. Nós combinamos, nada de sentimentalismo. Não estaríamos nessa situação se ele tivesse cumprido sua parte do acordo. Como eu poderia saber que ele estava apaixonado por Jannet? 
           Eu lembro, lembro-me bem. Na estação do metrô, passava ela de saia e decote enquanto eu tentava satisfazer-me com os mesmos viados de sempre. Já estava acostumando com os gays do metrô, mas uma mulher? Uma mulher de verdade? Minha nossa, há quanto tempo não via uma por aqueles cantos? Não podia deixa-la escapar assim, tão facilmente. Sabe-se lá quando veria outra. 
           Pus a faca, que ironicamente ganhara do próprio Joaquim, em sua garganta e disse-lhe para calar. Gritava muito, apesar de saber que ninguém a ouviria. Seria muito covarde se dissesse que arrependo-me. Não. Aquele grito, aquele choro de medo, é isso que me sustêm dia após dia nessa vida medíocre sem um traço feminino. Preocupei-me em passar tranquilidade à garota para não dificultar a penetração. Falei com carinho que não ia fazer-lhe mal, além do mal que ela já imaginava. Não era um assassino. Cortei sua saia e sua calcinha, para vexa-la no momento de volta para casa. Penetrei-a vagarosamente para que sentisse o asco do meu ser. Chorava intensamente, mal sabia que era o choro que me fortalecia. 
            Não precisei mudar de posição, acabei rápido. Vê? Eu não planejei o que ocorreu. Se ela ao menos não tivesse tentado acertar-me com aquele maldita faca... Se ela tivesse se comportado com uma cadela comportada... Mas não, enquanto levantava, a vagabunda tentou desferir um golpe em minha face. Rapidamente desviei a faca com minha mão, que hoje se tornou inútil devido ao ferimento profundo. Possuído pela raiva acertei um soco em sua têmpora, desmaiou no ato. Sentei em seu peito, que era macio, e com diversos golpes no rosto a matei. Levantei-me. Peguei o extintor de incêndio, e por prazer desfigurei-a. Quebrou o nariz, o maxilar... Não parecia mais uma burguesa, assemelhava-se com as mulheres que viviam na minha vila quando era moleque. Essas prostitutas quaisquer. Muitas doenças, poucos dentes. Ainda penso todos os dias que se não tivesse a matado tão rápido, não teria precisado repetir a dose com a garota já morta. 

          — De acordo, Quim...
 

        Apertamos as mãos, esperei-o virar, peguei o primeiro tijolo maciço que se encontrava ao caminho, e derrubei-o. Arranquei-lhe as calças, depois a cueca, e fiz de novo. No impulso, o estupro havia se tornado um vício, e ele sabia bem! Era ele o culpado de tudo isso! Durante meus gemidos toda a nossa vida como amigos de infância passava pela minha mente. Confundiam-se simultaneamente prazer, gozo, arrependimento, terror, dor. Fiz questão que estivesse consciente no momento em que nossos corpos se unissem. Talvez desejasse aquilo também, enrustidamente. Levantei-me e com um tiro único na nuca acabei com sua agonia. Finalmente, alguém havia posto fim ao nosso dilema. 

 

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