Memórias De Um Médico (Parte 2)


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1. Memórias De Um Médico (Parte 2)

 

Eric do Vale

                                         

Para Salomão Francisco Rabelo Sampaio

 

Todos os médicos estavam no pátio central do Hospital Militar, quando o coronel Feitosa, diretor do estabelecimento, ficou no meio de nós e foi direto ao assunto:

-Fui informado de que, ontem, houve, aqui dentro do Hospital Militar, uma briga entre dois médicos que resultou em luta corporal. Portanto, peço aos responsáveis por essa balburdia para, nesse exato momento, darem um passo à frente.  

 Eram quase dez horas da noite, quando papai chegou e vendo todos nós ali presentes, perguntou para mamãe:

 -Tudo em ordem, por aqui?

-Sim, meu velho.

 Era comum, sempre que chegava em casa, papai fazer essa pergunta a ela. Caso fizéssemos alguma coisa errada, ela o informava e ele, imediatamente, aplicava o corretivo em nós.

O coronel insistiu, mas ninguém se pronunciou e então, perguntou:

 - Quer dizer que não houve briga?

 Todos ficaram em silêncio. Assim como os demais presentes, ali na recepção, eu não balbuciei uma palavra sequer e como os responsáveis, até então, não haviam se pronunciado, era muito provável que todos nós seriamos punidos.   

Depois que mamãe disse-lhe que estava tudo em ordem, o velho andou alguns metros, olhou para todos nós e perguntou:

- Olhem para cá e me respondam. _ Apontando para a testa – Aqui, por acaso, está escrito trocha ou outra palavra semelhante? Vamos, me respondam!

O silêncio foi a nossa resposta e ele continuou:

-Vocês pensam que eu tenho cara de palhaço? A quem pretendem enrolar? Eu quero que me digam a verdade, senão vou descobrir. E se eu descobrir...

Não sei como papai desconfiou que havia algo errado. Aliás, ele sempre foi muito esperto e, até hoje, estou para conhecer alguém que tenha conseguido levá-lo no bico. Naquele dia, os meus irmãos mais velhos, Carlos e Pedro, saíram no braço, porque um tinha vestido a camisa do outro.  A sala estava um pandemônio:  mamãe e as minhas irmãs aos prantos, enquanto os meus outros irmãos tentando separá-los. Discretamente, aproximei-me do interruptor e apaguei a luz.  

Naquela noite, eu havia sido escalado para o plantão e quando cheguei, vi dois colegas discutindo até saírem-na pancadaria. Todo mundo correu para separá-los e nessa mesma hora, chegou um paciente, portador de demência mental, que começou a agredir todo mundo e a arrebentar tudo o que via pela frente.  Então, tudo ficou escuro. Só ouvi aquela quebradeira toda e uma voz que, até hoje, não consegui identificar perguntando:

-Quem apagou a luz?

Para piorar, o gerador estava quebrado!  Apoiei-me no braço de um casal e nos escondemos debaixo de uma maca até a luz voltar. Quando me levantei, percebi que um senhor estava deitado na maca, onde eu havia me escondido, e como ele que não se mexia, toquei, duas vezes, o braço dele, que abriu os olhos.

-Está tudo bem? _ Perguntei.

-Sim. Eu só me fingi de morto, por causa desse doido.

Não vou mentir que fiquei com vontade de abrir o jogo, mesmo sabendo que dedurar um colega não era uma coisa correta. Tenho certeza de que não apenas eu, mas também os demais, fariam a mesma coisa, pois o coronel Feitosa era o sadismo em forma de gente. Entretanto, para a nossa surpresa, os dois deram um passo à frente e confessaram tudo.  Sumariamente, foram punidos: passaram duas semanas sem sair do hospital e fazendo todo o serviço de limpeza.

Papai era macaco velho e sabendo que ninguém lhe contaria o que tinha acontecido utilizou o método de sempre: escolher aleatoriamente um de nós para interrogar. Ana Lúcia foi a escolhida e o velho, com o cinto na mão, perguntou:

-Me diga: aconteceu alguma coisa?

Ela olhou para todos nós e em seguida, observou papai segurando o cinturão e   percebendo que não havia escapatória, encheu os olhos de lágrima e contou, detalhadamente, a briga de Carlos e Pedro.

 Depois de aplicar o corretivo nos dois, papai disse:

-Todos vocês estão de castigo, durante uma semana. Inclusive você. _ Referindo-se a mim.

Justo eu que não fiz nada!   

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