Ascendente: Entre Anjos e Demônios

'Entre Anjos e Demônios' é uma introdução à série Ascendentes, uma história sobre deuses, anjos, demônio e humanos. Lucius Fallen, é um adolescente que vive uma vida sem maiores experiências, não por falta de interesse, e sim porque não há experiências. Até o momento em que ele esbarra em um garoto com um nome um tanto peculiar: Lúcifer. Naquela mesma noite, Lucius é acordado de madrugada e da de cara com Lúcifer, uma situação estranha e curiosa, a não ser pelo fato de que algo na casa estaria procurando por Lucius, com uma intenção nada boa. Os fatos seguintes a isso acaba levando Lucius para um caminho sem volta e repleto de revelações, e em algum momento, ele vai descobrir que há mais ligações entre ele e Lúcifer do que imaginava. E mais: é apenas um dos treze Ascendentes. Mesmo não sabendo, o que seria um ascendente.

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1. Suporte Isso, Como Atlas Suportou

Acordo. Estou com uma dor de cabeça tremenda, e nem ao menos sei o que aconteceu na noite passada. Ouço meus pais trocando palavras nervosas, e apesar de não estar entendendo o que eles dizem, imagino que é sobre mim. Minhas costas doem, o que será que eu fiz de errado? A última coisa que me lembro, é de ter ido para a festa do Glenn. Devo ter bebido demais, ou alguém colocou algo em minha água. São várias as possibilidades, e não posso descartar nenhuma. Na escuridão do meu quarto, apalpou meu travesseiro procurando pelo meu celular, sempre o guardo ali debaixo. Quando o encontro, vejo que há quatro mensagens novas e duas ligações perdidas. Estou sem saco para lê-las ou ver de quem são as mensagens e as ligações. Meu corpo ainda dói, e por esse motivo, tento não me levantar. "Não é preguiça, é paz de interior", sempre ouço Glenn dizer, mas sim, ele é um completo preguiçoso. Quero voltar a dormir, mas não consigo, minha cabeça dói, meu corpo dói, e acho que até minha língua estaria doendo caso eu estivesse sentindo ela. Apenas rolo pela cama, e sem perceber, vou ao chão. O barulho do meu corpo caindo chão chama a atenção dos meus pais. Eles entram no quarto rapidamente e me ajudam a levantar. Por mais estranho que pareça, me sinto anestesiado agora, nada de dor, com exceção da enxaqueca. — Lucius, filho! — É a voz da minha mãe. — Quer que chamemos um médico para você? — N... — Tento formular alguma frase. Naquele momento, estava parecendo um drogado, mas ainda assim, consegui balbuciar alguma coisa legível. — Não... Precisa... Tô... Bem... Agora... — Ou quase legível, considerando as pausas que fiz. Quando meus pais finalmente me convenceram de abrir os olhos por completo e descer para tomar café, fragmentos de minha memória voltaram a tona. Eu realmente estive na festa do Glenn, bebi um pouco, levei um fora de uma garota (nada que me importasse muito, eu nem gostava tanto assim dela mesmo), bebi mais um pouco. Resumindo: o ontem foi um meio para chegar a este fim, estou desmemoriado, com uma baita dor de cabeça, e para finalizar, não faço a mínima idéia onde deixei meu celular... Ah sim, tá embaixo do travesseiro. Desci a escada aos tropeços. São apenas 8 de graus (contei uma vez, e nem sei como lembro disso), então, não demorei para chegar à mesa do café e me sentar. Já estavam todos la. Mamãe estava a minha direita, e bem ao lado dela, meu irmão mais novo Sam de 13 anos. A direita de Sam, e sentado na cadeira que ficava na ponta da mesa, o homem da família, meu pai. Também tinha minha irmã, mas está estava só de visita a casa, pois era a mais velha, casada com um ricaço, e com uma mansão do outro lado da cidade. Lauren sempre vinha visitar a família aos domingos (ou quase sempre, as vezes tinha um contratempo ou outro, mas suas 'faltas' não eram frequentes). Como em toda refeição, não falamos muito. Quase sempre mantinhamos silêncio, se alguém falava, era para contar alguma novidade do colégio ou do trabalho. Evitavamos falar sobre assuntos irrelevantes. Mas, algo que eu já esperava que fosse acontecer no café da manhã de hoje, foi o fato de que todos parecia olharem para mim enquanto eu não olhava para eles, aquele tipo de olhar que diz "Você errou, mas não vou te julgar, não aqui, não agora", e por esse motivo, sempre fingiam não estar olhando quando eu percebia que eles estavam. No fim das contas, foi apenas isso. Nada de discussão, nada de sermões, nada de nada. Depois do café, me preparei para dar uma saída. A dor de cabeça já estava passando, e meu corpo havia deixado o estado "doloroso-barra-anestesiado". Avisei que ia sair, meu pai estava assistindo TV e apenas disse para não me demorar e que tivesse cuidado, minha mãe fez praticamente o mesmo, só que com mais palavras e seguido de um beijo em cada bochecha. Ao sair de casa, dei uma olhada no quarteirão. Sam, meu irmão, estava na casa do vizinho jogando alguma coisa. Lauren já havia saído há um bom tempo, provavelmente já estava em sua mansão do outro lado da cidade, comendo comida chique e beijando o marido louco dela. Não que o cara seja louco, ele até que é legal, mas digamos que... Ele sempre aparece com a barriga e o corpo pintados quando vamos para o jogo de basquete ou quando estamos assistindo com a família pela televisão. Ele perde a normalidade nesses casos, mas nada de grande tamanho. Há um parque perto de casa, cheio de arvorezinhas e alguns brinquedos para as crianças. Sempre vou lá para refletir, apesar de alguns idiotas (os quais evito esbarrar por la) viverem me enchendo com o papo de "Ei, você tem 16 anos, deixa o parque para os menores". Já até me acostumei, mas para ser sincero, não vou ao parque para brincar, apenas fico sentado observando as coisas e pensando em outras. Desta vez não será diferente. Estou em um dos bancos, tem um em cada canto do parque. Ponho os fontes de ouvido, e coloco alguma música para tocar no meu celular. Quando a música acaba toca outra, e mais outra, e mais outra. Depois da quinta, paro de contar. Pareço perder a noção do tempo por ali, e mesmo que pareça algo que apenas os vagabundos devam fazer, penso que as pessoas deveriam tentar ficar em um lugar como esse de vez em quando, quietas, de boca fechada, admirando a paisagem ou, como é o meu caso, sentindo a música. Quando deu a hora de voltar para casa, poucos minutos antes do almoço, me levanto rapidamente sem olhar para nada, ainda estou com os fontes e algo do Blackout City Kids está tocando, "Mercy" é o nome da música. Por um breve segundo, a distração é o suficiente para que eu esbarre em alguém. Vejo alguns livros cair no chão, e um rapaz se agacha para apanha-los. Faço o mesmo. — Me desculpe por isso, estava distraído. — digo enquanto ajudo o rapaz a pegar seu material. — Não tem problema, eu entendo o que é ouvi Mercy sem se desligar das coisas. — Paro por alguns segundos. Ele olha para mim e sorri, como se soubesse o que eu estava pensando. — Seu fone está bem auto, consegui ouvir quando você se agachou. — Ah, legal você conhecer a música... E, ter bons ouvidos. — Claro, obrigado pelo elogio... Eu acho. Ao terminamos, levantamos quase ao mesmo tempo. Ele me olha novamente e desta vez, presto mais atenção em seu rosto. Ele tem olhos meio avermelhados. Fiquei me perguntando se aquilo era realmente a cor dos olhos dele, ou se era apenas lente. Não era um vermelho forte, mas era vermelho claramente. Não perguntei nada a ele, mas a dúvida continuava pairando. — Lúcifer. — Ele disse, estendendo a mão para mim. — Você deve ter confundido, meu nome na verdade é Lucius...  — Comentei, estranhando a situação e o fato dele ter confundido meu nome, o qual ele nem sabia. A não ser que... — Não, Lúcifer é o meu nome, estou me apresentando. — Ele disse puxando uma carteira do bolso, ele segurou a identidade na minha frente e pude conferir. — Ah, Lúcifer... Igual o...? — Não terminei a frase, imaginei que poderia ser ofensivo para o rapaz. — Igual o diabo? Sim. Mas não ligo muito com isso, na verdade, ninguém deveria ligar. É só um nome... — Claro, isso... Bom, eu tenho que ir porque, vou almoçar... Nos vemos por aí? Ele balançou a cabeça confirmando. Seu cabelo era de um preto quase reluzente, não sou bom com coisas de aparência, mas sinceramente, a combinação de pele clara, lábios rosados, olhos vermelhos e cabelos pretos tornava aquele cara uma das pessoas mais belas que eu já vi. Assim que me despedi, vi ele se afastar de onde eu estava, e então, notei algo próximo ao banco. Me agachei para pegar. Era uma folha de papel com uma espécie de desenho ou Anagrama ou seja lá como se chama essas coisas. Tinha quatro palavras, três delas formavam uma espécie de  triângulo, enquanto a quarta ficava no centro dele. No topo do triângulo, a palavra HUMANO estava em destaque, as duas outras pontas do triângulo tinham as palavras ANJO e na outra DEMÔNIO, e por fim, no centro, a palavra DEUS. Desta forma, HUMANO estava ligado à ANJO e DEMÔNIO e também DEUS, porém as outras três não estavam interligadas entre si. Fiquei me perguntando o que aquilo significaria, talvez o rapaz de nome Lúcifer estivesse estudando as ligações religiosas apresentadas na folha de papel. Olhei em volta para ver se ele ainda estava por perto, mas não o vi em lugar algum. Virei a folha e notei algo novo, apenas mais uma palavra, escrita com tinta vermelha e com uma bela letra cursiva: Ascendentes. Guardei o papel no bolso e voltei para casa. A tarde havia sido longa. No parque, o tempo parece não passar, mas é uma sensação boa. Porém, em casa, não é bem assim. Dificilmente tenho algo para fazer, e quando tenho, são coisas bem chatas. O que me resta é ouvir música, mas ainda assim aquela havia sido a tarde mais chata de toda a minha vida até aquele momento. Lauren e o marido, Josh, iriam passar a noite aqui em casa, por causa de Josh, minha família teve um longo papo sobre esportes, televisão, carros e fatos correntes, o que eu costumo chamar de 'fofoca'. Nem sei porque Josh parece tão sem nexo as vezes, e mesmo que ele não seja uma pessoa má, o resto da minha família sempre entrava nas conversas dele sobre os 'fatos correntes'. Nunca disse o que penso sobre isso para eles, mas se eu dissesse, seria discussão na certa. Quando a noite finalmente chegou, pude descansar esperando por um amanhã melhor e mais interessante. Não demorei muito para dormir, e quando o fiz, pareceu que o céu havia desmoronando. Toda aquela escuridão caiu sobre mim, como acontecia todas as noites. Desta vez, estava longe de casa, perdido em algum lugar do caos noturno. Tudo que me ligava a esse dia, e o dia anterior, parecia haver se dissipado e meu céu estava limpo. Sonhar é viver em um universo paralelo, e eu só queria uma coisa: viver nesse universo para sempre. As vezes eu me pegava pensando se sonhar é como morrer, se ha realmente um paraíso depois que fechamos os olhos. Como seria pular de um prédio e ter asas para não temer o terrível "pouso"; E o coração, ele bateria como bate enquanto vivo? São tantas as perguntas. Nenhuma resposta. A não ser que eu acabasse chegando aos finais, porém, espero que isso esteja bem longe de acontecer. Mas, algo que sempre pensei enquanto estava só: Não quero morrer depois de uma longa vida. Mas não quero viver uma vida curta, sabendo que poderia ter mais. É um impasse. Deve ser por isso que, apesar de ter um coração batendo, não me sinto totalmente vivo. Sonhar é diferente: é estar acordado, sem precisar estar exatamente vivo, afinal, estar vivo é seguir essa imensa linha reta e sem sentido que sigo. O sonho filosófico termina quando algo me faz acordar. Não passa das uma da madrugada, e consigo ver da janela do meu quarto a escuridão celeste. Não há estrelas. Me pergunto quem teria aberto a janela. — Precisamos ir! — Ouço alguém dizer, a voz não me é estranha. Assim que me sento na cama, estou encarando um par de olhos avermelhados. Alguma coisa tapa minha boca, na tentativa de evitar que eu grite, mas eu não estava pensando em fazer nada deste tipo, apesar de ter sido algo assustador que acabará de acontecer. Eu o conhecia, ou ao menos já havia falado com ele, uma única vez, no parque, antes do almoço de... Ontem. Lúcifer estava no meu quarto. — Você precisa vir comigo Lucius! — Ele sussurrou, ainda com a mão em minha boca. Ele tira a mão assim que ele percebe que não farei alarde algum. — O que você está fazendo? — Pergunto baixinho, estava assustado, mas manter a calma era algo que eu havia apreendido com o tempo. — Tem alguém na casa, e está atrás de você. — Sim, é essa pessoa está na minha frente, e não atrás de mim! — falei nervoso. — Creio que eu deva chamar a polícia... — Não estou falando de mim, tem uma pessoa na casa, está te procurando, só invadi seu quarto para poder te ajudar. — A calma em sua voz era sufocante, mas em todo caso, eu já estava ficando com medo do que realmente estava acontecendo, ou viria a acontecer. Eu não queria acreditar no que Lúcifer estava me contando, mas ainda assim, vesti uma camiseta as pressas e peguei meu celular embaixo do travesseiro. — Espera, quem está me seguindo? E porque? — Perguntei, encarando aquele olhar vermelho. Estava diferente, antes, quando encontrei com Lúcifer no parque, seus olhos eram de um vermelho claro, mas desta vez, parece ser um pouco mais forte, e como um certo brilho quase sobrenatural. — Uma das perguntas está perto de ser respondido, ele acaba de chegar a porta. Virei de costas para Lúcifer, quando olhei para a porta do meu quarto ela já estava prestes a ser derrubadas. O barulho provavelmente havia acabado de acordar todos da casa. Não pensei nos meus pais, nem em Lauren, nem em Sam naquele momento. Era Josh que estava a poucos metros de mim. Se a ocasião fosse outra, estaria aliviado, mas ele havia acabado de arrombar a porta do meu quarto, e me olhava com olhos acinzentados e com veias pulando por todo seu rosto. Usava apenas uma bermuda, a mesma que sempre usava para dormir. — Dois coelhos! — Ele exclamou com um sorriso nos lábios. — Josh o que está fazendo? — Não é mais o Josh, está possuído. — Lúcifer disse, me segurando pelo braço. — Acho melhor corrermos, ou a situação pode ficar feia aqui. — Mas ele é o marido da minha irmã! — Gritei para Lúcifer, Josh já está a se a aproximando de mim. — Ele é só um corpo! — Foram movimentos rápidos, em um segundo Lúcifer estava pulando por cima de mim, é no outro, atingindo o rosto de Josh com um chute que sua cabeça se contorcer maus do que o possível para um ser humano, apenas ouvi o som do quebrar de ossos. Josh já estava no chão. — O QUE VOCÊ FEZ?! — Gritei, dando um passo para trás. Josh não se movia, sangue escorria de sua boca, nariz e orelhas. Uma quantidade imensurável de sangue, mais do que eu podia ter visto em uma vida inteira. No mesmo momento, meus pais apareceram na porta, logo em seguida Sam e Lauren. Eles abriram a boca para perguntar algo, mas assim que viram o corpo de Josh e todo aquele sangue cobrando o chão do meu quarto, gritaram. Minha mãe empurrou Sam para o lado e o abraçou, impedindo-o de ver a cena por mais tempo. Meu pai e Lauren correram para perto de Josh, pude ver que eles tremiam ao segurar o pulso. Meu pai me olhou, com uma mistura de medo e tristeza. — O QUE VOCÊS FIZERAM?! — Ele gritou, sua voz ecoou em minha cabeça, e quando percebi, Lúcifer estava me empurrando para fora do meu quarto, pela janela. Cai de costas para o chão. Novamente, aquela sensação de anestesia. — Nos precisamos ir agora Lucius!!! — Ouvi alguém gritando. Me levantei, parecia haver algo preso em minha garganta, e não eram palavras, todas haviam fugido de mim. Meus pés estavam encharcados de sangue. O sangue de Josh, pensei, e isso fez meu estomago se contorcer no mesmo momento. Olhei para Lúcifer, ele mais uma vez pedia que correremos, mas eu não podia. Eu queria pular a janela novamente, contar que a culpa não foi minha, que tudo foi obra dele, mas algo dentro de mim me fazia tremer ao pensar nisso. Algo dentro de mim me fazia querer confiar em Lúcifer. Eu não pensei em mais nada, apenas o segui. E, enquanto eu me afastava de casa, correndo como um fugitivo (era isso que eu era agora), pude ver de relance uma névoa escura preencher meu quarto e sumiu logo depois, mas além disso, vi que o corpo de Josh não estava mais lá, só meu pai apareceu na janela. Me virei e simplesmente corri. Como se minha vida dependesse disso. O céu havia caído sobre mim, mas diferente de como acontecia em meus sonhos, o céu parecia ser completamente sólido desta vez, e eu estava tentando suportar o seu peso sobre minhas costas. Como Atlas, da mitologias grega. Mas Atlas não tinha um louco perto dele. Eu tinha um cara chamado Lúcifer perto de mim.
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