O CAMALEÃO SIDERADO

Quando um homem se ajoelha aos pés da loucura, ela se vê tentada a possuí-lo rapidamente como um vírus. Quando este mesmo homem implora por sanidade em meio aos seus delírios, ocorrem fatos inexplicáveis que o fazem duvidar da confiança em si mesmo. 30 anos dedicados exclusivamente à sua Mãe e logo após a sua morte, fatos estranhos movimentam a sua vida e a alteram para sempre. Para o bem e para o mal. Quem é você quando ninguém está te olhando?

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34. CAPÍTULO XXXIV

Finalmente conseguiram tombar a cruz no chão e rapidamente puseram-se a extrair os pregos das mãos e dos pés. O velho perdera muito sangue e estava pálido. Com muito esforço Diolindo e Gemima carregaram-no até a tenda central onde estava montada a mesa. Era o único lugar ainda a salvo de um alagamento. Lá encontraram o resto do grupo ainda se recuperando do achaque.

– Ponha-o aqui em cima das mesas – Disse Dorotéia acudindo para ajudá-los juntamente com Sérgio, enquanto Almeida não parava de abraçar e beijar a filha.

– Alguém viu Fredson? – Perguntou Selma vasculhando o local com os olhos.

– Depois que o soltei ele saiu andando lá pra estrada – Revelou o pai de Selma, estranhando apenas para si a atitude do homem.

Perceberam que a viatura não estava no mesmo lugar.

– Imagino que tenha ido atrás do outro vagabundo – Respondeu Gemima lembrando da fuga de Romeu.

– Quem imaginaria esse quiproquó todo com Romeu envolvido. O outro até eu posso ver os motivos, mas Romeu? – Indagara a mulata olhando pro pai, que teria que lhe contar coisas doloridas e importantes.

 

Puxou a filha pro lado, enquanto o grupo acudia o ex-padre e contou-lhe toda a situação sob o olhar perplexo dela, que tinha dificuldades para absorver tudo. Depois de passado o choque inicial, ela também fez as suas revelações e esclareceu o porque de estar ali. Estava apaixonada por Diolindo. Desta feita fora o velho que arregalara os olhos.

 

– Minha filha, logo por Diolindo?

– Porque meu pai esse. ..logo por Diolindo.. ?

– É porque ele têm problemas de cabeça, pode se tornar violento, te machucar. Eu me preocupo com você minha filha.

– O senhor é que está me machucando papai. Eu sou de maior, não estou pedindo a sua autorização, apenas a sua bênção. Afinal doideira maior foi mandar pra casa uma mulher que o senhor mal conhece não é?

 

Ele racionou melhor e viu que o mundo era mesmo uma máquina de fazer maluco em série. E que maior loucura de fato era ele que tinha feito. Uma completa desconhecida morava agora na sua casa com um bebê que não era dele. Coisas do coração. Como não abençoar a paixão da sua filha. E com um gesto que significava sua aprovação, beijou-lhe a testa. Selma pensou na sua irmã e, sem saber porque, não derramou nenhuma lágrima. Ela que tivesse num bom lugar.

 

– Acorde meu coroa, por favor eu imploro de joelhos. Ainda é cedo pra você me deixar – Choramingava Gemima amparada por Dorotéia.

O dia amanhecera com o cessar da chuvarada. Sérgio que estava na beira da estrada voltou para dar a notícia que o caminhão que viria desmontar o acampamento estava encostando lá na frente. Pediria que os levassem dali o mais rápido possível até o posto de saúde do arraial. O velho poderia não suportar os solavancos da estrada até a capital.

 

###

 

A mais baixinha abriu com violência a porta do carona, enquanto a grandona quebrava o vidro do motorista com uma pedra. Romeu estava apavorado com o ataque de fúria daquelas duas e pensou em colocar a culpa em Godô. Mas o homem já devia estar morto aquela altura e poderia vir puxar o seu pé de noite. Fora arrastado pra fora e puxado pelas mangas da camisa até mais próximo das bombas de combustível. Rapidamente as duas o desarmaram e tiraram suas roupas, deixando-o completamente nu. Com os primeiros raios de sol querendo acender a luz do dia, elas também se despiram e, ali mesmo no pátio enlameado, sem dizer uma única palavra, se esfregavam os corpos, numa cópula múltipla que o fazia revirar os olhos. Mesmo sem entender o que estava se passando, lhe parecia um esboço do paraíso, desenhado por duas mulheres ressuscitadas, foragidas das suas covas, que trepavam como duas lobas no cio e o mundo fosse acabar num coquetel de progesterona turbinado por pensamentos ilícitos.

 

As mulheres se alternavam em cima dele, ao ar livre, no meio da lama. Enfiavam as tetas na sua boca, pegavam seus dedos e os enfiavam nos seus orifícios. Era um sonho se realizando de uma maneira estranha, mas ainda assim algo que nem em cem anos poderia imaginar em realizá-lo. Misturavam seus líquidos sem dizer palavra e, tudo parecia perfeito até elas alcançarem o orgasmo. Depois de uma sequência de gemidos que não pareciam muito humanos, elas recuperaram a compostura rapidamente. Vestiram as roupas de bombeiras, enquanto ele permanecia em êxtase boiando na poça de lama completamente vencido, sem se dar conta que a grandona tirava a mangueira da bomba de gasolina e caminhava de maneira decidida em sua direção.

 

Quando se deu conta do que ia acontecer, levou uma botinada da baixinha que o atordoou. Sentiu um jorro de líquido com cheiro forte banhando-lhe o corpo. O aroma o deixara nauseado. Aquilo não podia ser bom. Com o resto de consciência e o sol recém-nascido lhe cegando na posição em que estava, viu um isqueiro ser acendido e pensou ter ouvido gargalhadas. Sim, elas estavam abaixadas diante dele, rindo de alguma piada. Não sabia dizer se era porque ele as tinha feito gozar intensamente ou era pelo fato de estar com uma cara de bobo, surpreso por ver o bruxulear daquela pequena chama que poderia fazer um estrago bem grande se pousasse nele, bem ali, na barriga.

 

E foi exatamente o que imaginou que elas fariam, que de fato elas fizeram. Viu o pequeno facho se aproximar do seu tórax desnudo e se distanciar como uma brincadeira hedionda que o poria a nocaute psicológico antes mesmo da tragédia. As duas tomaram certa distância dele como renegando os momentos vívidos de prazer que ele proporcionara a elas e, num ato quase ensaiado, jogaram o isqueiro aceso no seu corpo. Teve tempo de ver a elipse que o objeto descrevera no ar, como se tivesse o poder de suspender o tempo por uma fração de segundo, mas o que se seguiu teve dificuldade para interpretar já que a sua pele estava virando torresmo. Pensou no dinheiro guardado embaixo da moringa. Na arma que o seu pai enterrara e só ele sabia o local. Até da boceta frouxa da sua mulher ele lembrara. Só não conseguia se desvencilhar do choro insuportável de seis bacuris que lhe azucrinavam os ouvidos enquanto tinha coisa melhor pra recordar antes de perecer.

 

###

 

Estava exausto. Toda a água que bebera desde que saíra do acampamento fora da chuva, mas já tinha passado do entroncamento. Evitara entrar no sítio outra vez e ter que lembrar do seu pai. O dia já tinha clareado e as coisas agora ficariam mais fáceis, imaginava ele. Avistou o posto de gasolina e apressou o passo como podia, afinal já tinha caminhado por mais de dez quilômetros. Como era domingo de manhã, o tráfego na rodovia era inexistente. Rezava para que no posto tivesse algo para comer. De longe avistara duas moças. Uma delas abastecendo um veículo de passeio e a outra entrando no escritório.

 

– Bom Dia! – Disse no melhor tom de cordialidade que encontrou diante do cansaço e fome que sentia.

– Dia moço! Tá fazendo peregrinação é? Parece que errou de estrada. Por aqui não têm nenhuma igreja perto pra rezar – Disse a baixinha em tom de chacota recolhendo a mangueira e cobrando o combustível do motorista do veículo recém abastecido.

– Não, não. Sou só um homem perdido e com fome.

– Então tá no lugar certo. Entre. Pelas minhas contas o próximo carro só deve parar aqui daqui a hora e meia.

Entraram no escritório bagunçado do posto que parecia clandestino, e a grandona assistia televisão com os pés pra cima da mesa que pertencia ao seu chefe, que só apareceria no dia seguinte.

– Virna, o moço tá com fome – Disse a baixinha numa voz lasciva encostando-se na entrada da porta.

– Fome de quê? – Retrucou a grandona levantando-se da cadeira e indo na direção dos dois.

O faro de investigador de Fredson lhe dizia que daquele mato não ia sair coelho, a não ser que fossem Pernalongas emaconhados e com passagens na polícia.

– Veja senhoritas, eu só estou de passagem e tenho fome. Preciso de algo pra comer, só isso. Pago e depois vou embora – Pronunciou sério sem querer se identificar, até porque seu distintivo estava na viatura roubada.

– Tudo bem, vou lhe trazer algo pra comer. Você me parece boa gente – Disse a grandona levantando-se e indo para oas fundos do posto.

Lá, na cozinha, ligou o fogo e arrastou a grande panela com o seu conteúdo pesado e manteve o fogo baixo para que a carne não grudasse no fundo. Enquanto mexia com cuidado, pensava no quanto a receita que a sua mãe lhe dera ainda jovem tinha funcionado. Ela que a princípio sentira nojo dos ingredientes sem entender plenamente do que se tratava tudo aquilo, agora tinha certeza do quanto carecia de informações e inteligência par apreciar certas iguarias.

 

Voltou ao escritório com o prato ainda fervendo e improvisou rapidamente um sousplat com um pano que levava no ombro onde pousou a comida.

– Sirva-se Senhor....

– Fredson, esse é o meu nome. Nossa, como cheira bem isso aqui!

– É a especialidade da casa.

 

O investigador com a fome que tava, esqueceu de perguntar que bicho que ele tava comendo, mas com o perfume que lhe subia nas ventas não podia ser carne de segunda. O sabor era inominável, apesar da carne estar um pouco dura, o que relevou, tendo em vista que por ali ninguém comia filé mignon por falta de posses. Não perguntara o preço do prato, mas achava que elas não iriam lhe cobrar nada pelos olhares de satisfação com que acompanhavam cada garfada que ele dava. O que ele não poderia jamais imaginar, era que estava se deleitando com carne humana. Um tal de Romeu fora cozido lá atrás com verduras, pimenta do reino, alho, sal e, uma pitada de amor por carne de gente, passada de geração pra geração, desde sempre, por uma família que apreciava acepipes um pouco mais exóticos.

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