O CAMALEÃO SIDERADO

Quando um homem se ajoelha aos pés da loucura, ela se vê tentada a possuí-lo rapidamente como um vírus. Quando este mesmo homem implora por sanidade em meio aos seus delírios, ocorrem fatos inexplicáveis que o fazem duvidar da confiança em si mesmo. 30 anos dedicados exclusivamente à sua Mãe e logo após a sua morte, fatos estranhos movimentam a sua vida e a alteram para sempre. Para o bem e para o mal. Quem é você quando ninguém está te olhando?

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33. CAPÍTULO XXXIII

– Porra Godô, nóis num podia ter pregado ele com a cruz deitada? – Reclamava, com o velho gordo trepado no seu cangote, enquanto ele se equilibrava num engradado de refrigerante e praticamente cheirava as partes pudendas do outro, que se trepava numa escada para alcançar as mãos de Franco.

– Cala a boca hômi e vê se não se mexe. E quem ia conseguir levantar essa cruz com esse peso todo? – Contestou martelando o prego enorme na outra mão do padre, que resfolegava, mas não entregava os pontos.

– Vocês acham que vão se safar dessa sacanagem né? Olhem pro céu e vejam a revolta do Poderoso lá em cima – Gritava Franco apontando os trovões com o beiço – Daqui a pouco a ira de Deus se abaterá sobre vossas cabeças cheias de titica de galinha. Que eu pereça, mas vocês também vão virar ração de cachorro. Adubo de erva daninha, seus imprestáveis! Aaaiiiii!

– Ele pode tá falando a verdade Godô. Óia só o céu! Tá riscando raio de tudo quanto é lado!

– Seu imbecil, essa cruz aqui é quase um para-raios. Se arguem tiver que morrer frito aqui é ele.

 

O céu se agitava e uma ventania se iniciou levantando a poeira do chão. As árvores balançavam como se estivessem protestando, e a lona das barracas se agitavam. Os pingos começaram fracos, mas em pouco tempo começaram a sulcar o chão e a castigar todo o acampamento, que só não estava totalmente calmo por causa dos gritos dos dois homens que tinham acabado de crucificar o velho, que por sua vez, sangrava esperando sua Madalena lhe salvar.

 

Gemima buscava um lugar para se proteger da chuva e ao mesmo estava feliz com a arma que Diolindo deixara cair no chão antes de ir-se. Empunhava o revólver como alguém que sabia manejar aquilo há anos. Conhecia a empunhadura, a trava e o jeito de disparar, aprendido as escondidas quando se casara com Godô e ele praticava tiro ao alvo nos fundos da sua casa com os garotos que aliciava para trabalhar nas plantações de epadu. O imprestável servira para alguma coisa.

 

A chuva apertara e ela desistiu de se abrigar avançando mais para os fundos do acampamento onde ouvira as vozes. Esgueirando-se por entre os pequenos arbustos, conseguiu enxergar o que não achava possível. Com as gotas grossas de chuva caindo-lhe na testa, viu o seu coroa pregado numa cruz enorme e com os dois homens saindo de perto abraçados e rindo em direção ao acampamento. Ajoelhou-se e fez uma mira. Mesmo com o tempo adverso rezava para que a arma não estranhasse a água da chuva e não molhasse a pólvora. Fez um disparo consciente de que iria acertar o que mirava, afinal sempre fora boa de pontaria, desde quando jogar bola de gude contasse. Confirmou seu argumento quando ouviu um grito e o desgraçado caiu no chão amparado pelo outro.

 

– O que foi Godô? – Gritou segurando o amigo e olhando ao redor depois de ter escutado um estampido.

– Me acertaram hômi – Respondeu segurando as partes baixas que agora sangravam – Me ajude!

– Fique aí que vou buscar uns pano pra colocar no sangramento – E saiu correndo o mais que pode daquela cena com medo de levar um tiro.

– Volte aqui seu desgraçado! Me leve pro acampamento, pra longe da chuva! Volte seu merda! – Gritava com uma dor lancinante lhe cobrindo a razão, quando uma silhueta conhecida apareceu na sua frente portando uma arma que lhe apontava a cabeça.

– Gemima. Minha Gemiminha do meu coração.

– Do seu coração não seu filho da puta, porque isso você não têm. E agora também não têm pinto.

– Me deixe viver minha paixão. Nós podemo ser feliz ainda.

– Ahahahaha! Agora ocê também tá ficando engraçado Godôzinho! Essa aqui ó – Disse batendo na xoxota com uma das mãos – Você num têm nunca mais. Na verdade nunca teve seu corno chifrudo. Enquanto ocê tava danado de erva no quarto eu tava trepando na sala com seus aluno.

– Sua vadia do inferno, por isso eles ficavam cochichando nas minhas costas.

– Você é um frouxo, um sem noção – Falava enquanto subia a pontaria da arma pra cabeça do seu ex-homem.

– Me deixe viver Gemima, faço qualquer coisa – Implorava juntando as mãos.

– Tá certo. Baixa as calças pra eu ver.

– O quê?

– O estrago.

Ele se levantou lentamente com a dor aumentando junto com o temporal que se abatia sobre o lugar. Abaixou lentamente as calças sem coragem de olhar pra baixo. O sangue lhe escorria pelas pernas misturando-se com as poças de água que se formavam no chão.

A gordinha olhou a avaria e ficou satisfeita. Aquele nunca mais iria ser homem na vida. Mas pra deixá-lo viver o serviço teria que ser completo já que o pênis estava pendurado por um pedaço de músculo.

– Jogue sua arma fora com muito cuidado. Sei que você tem uma.

O homem obedeceu e a atirou longe.

– Agora pegue o punhal que sei que você guarda dentro da bota.

Ele obedeceu tentando adivinhar os rumos da conversa.

– Corte o pinto fora.

– Quê?

– Ou isso, ou morre.

Ele olhou pra baixo pela primeira vez e viu a miséria em que tinha se transformado o seu órgão sexual. Não serviria mais pra nada mesmo. Segurou a ponta dependurada com dois dedos e passou a lâmina do pequeno punhal no meio da pouca carne que restara. Começou a chorar como uma criança, realizando a situação.

– Jogue pra cá! – Ordenava Gemima.

Ele jogou e se ajoelhou com a hemorragia tomando dimensões preocupantes.

Ela se abaixou, catou o toco do membro e caminho até ele.

– Abra a boca!

Ele a abrira como se fosse um macaco amestrado, vendo a mulher enfiar-lhe o caco do seu pênis boca adentro.

– Mastigue infeliz! – Gritava como uma louca, com a arma encostada no crânio de Godô, vendo a criatura triturar a sua própria carne com a sua dentadura.

Quando se deu por satisfeita, e se afastava de ré, indo em direção a cruz para salvar o seu coroa, viu um raio cair na cabeça do homem capado. Godô fritara em questão de segundos. Com o impacto ela fora arremessada quase aos pés da cruz, vinte metros adiante.

 

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Romeu sabia que o parceiro morreria logo devido ao sangramento, mas não sabia quem tinha atirado. O melhor a fazer era picar a mula dali. O diacho era que não ganharia a distinção entre os seu pares matadores por não matar um policial, e com requintes de crueldade como tinha planejado. E ainda tinha a mulata que jamais veria outra vez, um desperdício de carne que não comeria. A vida era feita de escolhas, e a que ele fizera era pegar a chave do MACK1951 que ficara na viatura e tomar o caminhão pra si. Viajaria no bichão até a terra do seu pai e lá seguiria carreira. Passaria no caminhão pra pegar vasilhames pra encher de diesel e seguiria a pé até o posto. Aquilo sim, era um final feliz, apesar de toda a desgraça que vira nas últimas horas. Ele tinha sido poupado por algum motivo. Pensou no padre pregado na cruz e só lamentava por não ter tido tempo pra se confessar. O que seria pagar uma penitência diante de tanto pecado que ainda pensava em cometer. Quem sabe não pudesse pedir perdão pelos erros vindouros. Daí tava tudo certo e já pago adiantado.

 

Esgueirando-se na escuridão chuvosa, alcançou o barreiro em que a estrada se transformara, ainda em tempo de ver dois vultos entrarem no acampamento, que não tinha o mínimo interesse em saber quem era. Abriu a viatura, e ao invés de apenas pegar as chaves do caminhão, sentou-se no banco do motorista e acionou a chave no contato. Assim alcançaria o seu objetivo mais rápido. Arrancou, fazendo os pneus rodarem em falso na lama que se formava na pista e, seguiu em direção ao caminhão.

 

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– Calma meu amor, vou te tirar daí! – Gritava Gemima enquanto via o seu coroa desmaiado e sangrando em profusão. A chuva fazia o sangue salpicar em sua cara enquanto tentava alcançar os seus braços, escalando a cruz sem sucesso.

– Gemima, calma, o melhor a se fazer é derrubar a cruz! – Berrava uma voz atrás de si.

Diolindo se aproximava com um Almeida atônito, ainda se ambientando com a desgraça que se abatia por ali.

– Sr. Almeida, vá até aquelas duas barracas. Selma precisa da sua ajuda! – Orientou o velho, que agora mantendo o foco, corria trôpego para salvar a sua filha e quem mais precisasse dos seus préstimos.

 

Diolindo cavava em desespero o buraco enlameado para encontrar a ponta da cruz e vergá-la a fim de deitá-la e salvar o seu pai. Gemima agora se abaixava e fazia o mesmo chorando, pedindo a Deus que não o levasse. A intempérie da natureza não se acalmava, e a despeito de uma cadáver calcinado jazer ali perto abatido por ela, nada nesse mundo faria aqueles dois de correr qualquer risco para trazer de volta o velho que lhes parecia mais morto do que vivo..

 

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A primeira barraca fora vasculhada e logo ele reconheceu Fredson, mas não o outro homem deitado atrás de si. Abaixou-se e com dificuldade desatou os nós das mãos. Fredson fez o resto do serviço.

– Sr. Almeida, como o senhor veio parar aqui?

– É uma longa história – Respondeu levantando-se e seguindo para a outra barraca. Lá encontrou a sua filha viva amarrada, amordaçada, subjugada, e logo fez o mesmo. Desatou os nós que a prendia junto com a outra mulher.

– Pai! – Gritou abraçando-o entre lágrimas.

– Minha filha, quanta agonia pra te encontrar – E ficaram ali por muito tempo.

Dorotéia foi ter com Sérgio, enquanto Fredson saia de fininho do acampamento. Sem encontrar a viatura, saiu pela estrada a pé em direção a estrada principal. Tinha que ir buscar o seu filho no hospital. E assim foi, catatônico, debaixo de chuva, pisando em falso na lama que se formava na beira da estrada como um zumbi que precisava cumprir um objetivo.

 

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Freou a viatura que ainda deslizou por uns metros devido as poças de água que se formaram na estrada e saltou com pressa para buscar os vasilhames para comprar o combustível. Deu a volta pela porta do passageiro, já que a do motorista estava ruim de abrir e se assustou com o que viu. As covas que tinha cavado na margem da estrada para enterrar as duas mulheres estavam abertas. As dos jumentos continuavam fechadas. Não deu atenção ao fato, apesar de preocupante e, destemido como estava, destemido seguiu na viatura até chegar na rodovia. Passou pelo sítio do seu ex-patrão e pelo Cebola Podre incendiado, seguiu por mais quatro quilômetros na direção oposta a capital, e entrou no posto com os limpadores de para brisas funcionando a toda velocidade para vencer a água que borrava a sua visão. O posto funcionava as vinte e quatro horas, mas o movimento naquele instante era zero. Ele rezava para que tivesse alguém para atendê-lo aquela hora da madrugada. Os vidros da viatura estavam embaçados e ele não queria se molhar, preferia esperar alguém que viesse atendê-lo e encher os recipientes de diesel para por no bichão e seguir viagem. Lembrou que teria que passar em casa pra pegar o dinheiro e quem sabe dar uma trepada de despedida na sua mulher. Com a excitação que tava lhe subindo no juízo ele relevaria a sua boceta folgada, culpa dos seis bacuris que saíram por ali em partos normais. Ela que regulava a bunda, talvez pudesse lhe dar esse presente no dia em que ele lhe chutaria o traseiro. Aquele pensamento o fez rir. Mas o riso congelou quando viu duas silhuetas lhe cercando carro. Não era possível! Aquelas que o ricocheteio épico teria atingido, estavam ali batendo no vidro da janela com um sorriso sujo de terra e os lábios roxos.

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