O CAMALEÃO SIDERADO

Quando um homem se ajoelha aos pés da loucura, ela se vê tentada a possuí-lo rapidamente como um vírus. Quando este mesmo homem implora por sanidade em meio aos seus delírios, ocorrem fatos inexplicáveis que o fazem duvidar da confiança em si mesmo. 30 anos dedicados exclusivamente à sua Mãe e logo após a sua morte, fatos estranhos movimentam a sua vida e a alteram para sempre. Para o bem e para o mal. Quem é você quando ninguém está te olhando?

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16. CAPÍTULO XVI

O delegado havia sido convencido com facilidade pela quantidade de evidências apresentadas, mas acordar um juiz de ressaca numa quinta-feira pós-carnaval levou mais algumas horas e lhe custou uma orelha aquecida pelos impropérios que o magistrado proferia enquanto pedia mais detalhes. Com um rabujo na cara, o seu superior entregou os dois papéis que ele aguardava impaciente. Um era pra exumar a mãe de Diolindo e o outro para dar uma busca na sua casa. Pegou a chave de uma viatura e foi juntar-se ao perito criminal que tiraria umas fotos para anexar ao caso. Alcançaram o cemitério e foram a secretaria para apresentar-se e convocar um coveiro para o serviço.

- Têm poucos dias que essa senhora foi enterrada – Pronunciou o coveiro olhando de esguelha os dois homens que vinha na sua cola. – Acho que o corpo tá bem feio.

- Estamos acostumados com isso – Mentiu o detetive, lembrando do vexame que dera uma vez no necrotério quando fora reconhecer um primo que sofrera atropelamento. O rosto do rapaz era uma massa disforme. Os olhos estavam dependurados pra fora das órbitas e o crânio rachado ao meio. Não havia nariz e a boca estava numa posição estranha demais para ser chamada assim. Como acabara de almoçar com a sua noiva, deixou um rastro de ragu de carne com cogumelos na camisa do funcionário que abrira-lhe a gaveta do morgue. Lição aprendida. Na barriga mesmo naquele momento apenas uma xícara de café preto sem açúcar. Não podia falar pelo fotógrafo, mas tinha certeza que o homem já tinha visto coisa bem pior.

- É aqui! – Apontou o coveiro tirando a pá do ombro e começando a trabalhar sem que lhe dessem ordem.

Depois de um tempo cavucando o chão, ele, um homem experiente, com milhares de enterros e outras tantos desenterros realizados, viu que a terra tava fofa, como remexida.

- Ué! Parece que andaram mexendo por aqui – E prosseguiu cavando até bater na tampa da urna. Passou a corda pelas alças do invólucro de madeira e começou a puxar o porta defunto pra fora da vala. Antes de abrir levantou as vistas para aguardar um sinal de que poderia abrir a tampa. Com um aceno de cabeça ele desparafusou e levantou-a já pondo a máscara. Fredson e o fotógrafo deram um passo atrás instintivamente pelo odor, e munidos de lenços tapando-lhe as narinas se aproximaram. Caso os homens pudessem ver o sorriso que o detetive dava por trás da sua mão, sabiam que o que ele via significava algo importante.

- Oxente! É uma menina e um...um..cachorro!? Tenho certeza que enterrei a velha aqui. O filho dela tava ali do lado o tempo todo debaixo de chuva. Isso eu lembro.

Fredson pediu que o seu colega tirasse algumas fotos enquanto ele abria o seu bloco para escrever algo. Satisfeito com tudo, pediu ao coveiro que tomasse conta do corpo da menina, pois iria chamar um rabecão para levá-lo dali para o IML. O do cachorro ele podia dar o fim que quisesse. O delegado ia ficar puto quando soubesse que ia ter que enfrentar a enxaqueca do juiz outra vez no mesmo dia pra pedir outro mandado. Em seguida bateria na porta de Diolindo, por onde entraria de qualquer maneira.

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Gemima estava na beira da estrada aguardando a condução com o rosto contorcido de raiva. Aquele filho de uma égua mal parida não aparecera e nem mandara ninguém com um recado esfarrapado que fosse. Esperara ele a noite inteira para jantarem juntos, ou quase isso, pois o tatu ela tinha comido, guardando o resto na geladeira. Ela estava mesmo era no cio, e quando isso acontecia ela precisava desgraçadamente de algum objeto penetrante, preferencialmente de carne e músculo. O seu pepino de estimação fora comido na salada do dia anterior para que não estragasse e não havia nada com que ela pudesse se safar. O cabo da escova era muito fino e a embalagem do desodorante incômoda. Tinha vergonha de comprar um consolo, já que Godô lhe satisfazia plenamente. Mas pelo jeito teria que providenciar algo para emergências como aquela.

Dona Clarice, sua patroa, lhe dera ordens expressas de ir pro sítio cozinhar pra irmã dela que deveria ter chegado lá ontem à noite, já que ela estava na cidade com Joãozinho internado. Se ela não tivesse frescura comeria o resto do tatu que estava levando na esperança de não precisar acender o fogão. Pobre Joãozinho, ainda podia senti-lo no seu ventre. Tivera que mentir pra Godô quando começou a engordar, mas sua gravidez fora tranquila e ele nunca desconfiou do seu estado, já que era gordinha por natureza. O Sr. Sérgio providenciou um hospital afastado pro parto natural e dois dias depois estava em casa com a desculpa que a patroa pedira que ficasse para ajudar num banquete em família. Em seguida, depois do curto resguardo, a sua sede por sexo voltara com força redobrada e se Godô estranhou que ela emagrecera um pouco, não disse nada.

A parte difícil, entre aspas, de ganhar esse dinheiro com a sua barriga de aluguel foi a exigência do patrão de que a concepção teria que ser realizada pelos métodos naturais, ou seja, treparam loucamente por um mês na presença da patroa que ficava na torcida por uma ejaculação potente que provocasse uma maratona desenfreada de espermatozoides. Logo após essas trepadas ela se sentia um pouco esquisita pela presença da mulher, mas logo tomava um banho e se masturbava pensando no chefe bonitão mandando ver em cima dela. O que ganhara fora pouco, mas era um dinheirinho que ela guardaria na poupança, afinal tinha dezenove anos e não tinha ninguém no mundo, ao não ser o safado do marido. Naquele momento ela queria outra coisa guardada na sua poupança.

Viu a trilha de fumaça preta chegando perto e sabia que na frente dela viria o ônibus para levá-la ao trabalho. Coitada da Dona Clarice, estéril, nunca poderia ter um filho trepando, enquanto ela poderia ter quantos quisesse, e até se fosse possível, vendê-los na feira de domingo. Um sonho de riqueza no mínimo doido. Porralouquice da sua cabeça jovem.

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Clarice registrou-se no hotel junto ao seu filho recém-nascido para que tivesse os seus álibis devidamente registrados quando sua irmã fosse morta mais tarde no sítio por Romeu, o seu capataz que fora instruído por ela e Sérgio a proceder tudo de forma que não fizesse nem muito barulho nem muito sangue. Sabia que aquilo era necessário já que o transexual que se dizia sua irmã transformara-se num estorvo desde que eles perderam tudo apostando em corridas de cavalo no jóquei. A herança do seu pai daria pra pagar as dívidas angariadas pelo seu vícios desde que ela a recebesse sozinha. Depois procederia a segunda parte do plano que era fazer papai visitar sua mãe no céu. Aí sim, estariam livres para assumir as aplicações do velho que guardava dinheiro há muito tempo.

Era um sovina. Tinha lhe convidado para conhecer o neto que ele tanto sonhava em ter. Não deixara ele vir vê-la no período da gravidez para que não descobrisse que quem estava grávida não era ela e sim a empregada. Achava que com as emoções a flor da pele por segurar o seu primeiro neto no colo ele ficasse de coração mole e emprestasse a quantia que ela havia pedido. O que recebeu de volta foi uma careta como se tivesse infartando. Ela quase acreditara nisso quando viu as pontas do seu bigode bem cuidado tremelicando. Se ele já tinha feito isso antes, ela não tinha percebido. - Aquele bigode tinha vida própria – Pensou alto enquanto trocava a fralda do filho, ouvindo alguém bater à porta. Era Sérgio que chegara de viagem para aguardarem juntos o desfecho das ações do dia. Ela fizera uma pequena correção nos planos do marido sem ele saber, e pedira que Romeu eliminasse Gemima junto com a irmã. Dessa maneira alguns segredos iriam pro buraco juntos.

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A noite inteira fora uma tormenta. Da cama pra bacia, da bacia pra cama. Quase enchera aquilo com bosta velha e bosta nova. Aquilo fedia e não era modo de falar. Era como se uma múmia estivesse se esvaindo em merda depois de resgatada da tumba dois mil anos depois. Era isso, uma porra de uma cagada faraônica. Nos intervalos entre uma arriada e outra ficava olhando a sua cara bovina no espelho. – Nem que a vaca tussa tuberculosa iria cagar a pedra. Pensou em fazer uma promessa, mas sabia que se olhasse pro céu em seguida Ele estaria lhe dando uma banana. Também não sabia se teria coragem de fazê-la. Como diria Nelson Rodrigues, "Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Düsseldorf".

Era um poço de contradições tal que se deitasse num divã não levantaria nunca mais. Lembrou da sua apostasia e se recompôs segurando o palito de churrasco que ficava remexendo a merda como se cozinhasse um sarapatel.

- Franco, pelo amor de Deus, pare de cagar! – Gritava Selma do lado de fora sem suportar o mau cheiro que saia do quarto. E saia daí que Diolindo quer falar com você! – Completou.

- Hakuna Matata, bwana – O velho respondeu batendo continência sabendo que naquele caldo marrom não tinha nada. Talvez na próxima cagada. Foi tomar um banho e se paramentar para ver o que seu filho queria e pedir alguma coisa pra comer e manter os intestinos trabalhando.

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