O CAMALEÃO SIDERADO

Quando um homem se ajoelha aos pés da loucura, ela se vê tentada a possuí-lo rapidamente como um vírus. Quando este mesmo homem implora por sanidade em meio aos seus delírios, ocorrem fatos inexplicáveis que o fazem duvidar da confiança em si mesmo. 30 anos dedicados exclusivamente à sua Mãe e logo após a sua morte, fatos estranhos movimentam a sua vida e a alteram para sempre. Para o bem e para o mal. Quem é você quando ninguém está te olhando?

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40. CAPÍTULO XL

69 DIAS DEPOIS

 

Almeida alugara o boteco e o mercadinho depois de assustar-se com o estado em que Florinda chegara em casa. Parecia uma moradora de rua, suja, descabelada, bêbada, fedendo a urina e falando coisas sem qualquer nexo. Mas nada disso superava o seu choro primitivo, como uma cotovia em depressão. Aqueles uivos lancinantes demoraram dias para saírem da cabeça dele. Acolheu-a e perguntou por Babi até o sétimo dia. No oitavo decidiu que deixaria ela falar por conta própria quando melhor lhe aprouvesse.

 

Enterrou Clarice derramando as poucas lágrimas que ainda lhe saiam pelos olhos, pois já vivera o suficiente para calejar o coração. O corpo de Sérgio fora reclamado pela família e, ele nem mesmo sabia onde havia sido enterrado. Queria informações de João. Mas a depender da cretina da irmã do seu genro, a criança aquela altura já deveria ter sido surrupiada por sua corja. Nunca mais veria o seu neto, e cada vez mais tinha certeza que não veria mais Babi também.

 

Providenciou que arrancassem o pé de jaca do quintal e, no seu lugar, plantou mudas de acerola, frutinhas mais inofensivas. Na primeira colheita se dedicaria a alquimia de criar um aguardente daquela fruta, que tinha certeza ultrapassaria a fama da pinga maligna. Como forma de compensar a morte da árvore portentosa, criou um mutirão na escola do bairro para plantar mudas de árvores frutíferas de pequeno porte ao redor do descampado que era o terreno do campinho.

 

Florinda se recuperava a olhos vistos depois de algumas sessões com o psiquiatra contratado por ele, e agora até esboçava um sorriso envergonhado. Começara aos poucos a cozinhar, a fazer a limpeza da casa, regava os pés de acerola, lavava e passava cada vez com mais gosto, e até começara a assoviar durante suas tarefas domésticas. Uma vez até tinha lhe passado a mão por baixo do seu pijama à noite enquanto ele fingia dormir. Mas ele não tinha certeza se ela voltaria a ser como antes. De toda maneira, ela continuava a ser uma mulher encantadora. Aos poucos ela recuperaria o seu viço, e logo logo poderiam ir a um cinema, ou quem sabe até num motel desses a beira da rodovia, quando ele se sentisse mais confiante em poder ser um homem a altura da juventude da sua esposa.

 

No primeiro dia em que saíram juntos de casa para algum lugar, foram a uma loja que alugava roupas. Selma e Diolindo iriam se casar dali a alguns dias e ele queria estar com a sua mulher na primeira fila da igreja, bem vestidos e orgulhosos. Afinal ele seria o pai da noiva e padrinho ao mesmo tempo, junto com Florinda.

 

Só uma coisa ainda o incomodava. Ela lhe pedia uma vez por mês para que Tião, o taxista, a levasse até o centro da cidade, onde lhe dizia que ia se distrair um pouco vendo as ex-colegas de trabalho. Tião, que ficava de butuca a mando dele, lhe relatava que Florinda comprava um buquê de flores, caminhava até um beco fétido, fazia o sinal da cruz e, parecia rezar por cinco minutos antes de depositar as rosas brancas dentro de um contêiner de lixo. O que significava aquilo? Talvez morresse sem compreender, mas se aquilo fizesse com que ela se sentisse melhor, até ele lhe acompanharia qualquer dia desses nessa empreitada estranha.

 

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Fredson conseguira acordar do pesadelo canibal fugindo da chácara, chamando a atenção dos policiais ao soltar rojões no meio da propriedade, enquanto se dirigia à porteira como um ator de bangue bangue dando tiros pra cima. Depois de identificar-se e de uma rápida explicação da situação, os policiais chamaram reforços e prenderam vinte e duas pessoas em flagrante por vilipêndio de cadáver. As irmãs foram indiciadas por vários homicídios triplamente qualificados e não sairiam de uma penitenciária tão cedo. Passariam o resto da vida comendo marmita de cadeia ao invés da picanha humana a qual estavam acostumadas. Talvez um dia fosse visitá-las com uma saladinha de alface de presente.

 

Sequestrou João do hospital com a anuência da enfermeira que cuidava do garoto, e o levou para casa. Pediu demissão da polícia sob protestos do seu mentor, que apesar de não reconhecer o seu pupilo de semblante transtornado, ficara decepcionado com o encerramento precoce de uma carreira promissora. Com a herança que a sua Tia Geruza lhe deixara, daria para cuidar do moleque até o fim da faculdade, quando esperava ainda estar vivo para finalmente ter a sensação de dever cumprido e poder bater as botas feliz como um pinto no lixo.

 

Desde o início sabia que não conseguiria incriminar Franco e Diolindo sem provas mais cabais. Não havia testemunhas para exumação, ocultação e destruição de cadáver, apesar de ter certeza que eles os cometeram. Ainda teria que investigar muito para chegar num resultado, mas não teria tempo para se dedicar aquilo, ainda mais agora que Franco voltara a ser padre e praticamente fundara a paróquia de Santa Meredite ali mesmo na comunidade. Ao que parece a igreja também não conseguira provas suficientes para excomungá-lo por pedofilia, e também não poderia fazer vistas grossas a sua popularidade no bairro, ainda mais quando ele descobriu uma Santa nova para juntar-se ao rol das que já eram consagradas. Não se sabe se por pesquisar em velhos alfarrábios por um longo tempo, ou fora um acaso, ou apenas invenção da mente louca do homem. O que importa é que Joãzinho teria o seu primeiro evento social, e já que fora convidado, levaria o filho consigo a igreja para o casamento de Selma. Recebera o convite com desconfiança, mas não faria a desfeita da ausência. Parece que ele também havia sido perdoado. Eram tempos para se dar as mãos.

 

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A venda do diamante fora um sucesso retumbante, por um preço muito acima do esperado. Rapidamente Diolindo quitou as prestações de Desirée e comprou uma casa maior e mais aconchegante no alto do morro, com vista para as luzes dos arranha-céus do centro da cidade. Vendeu sua casa para Gemima, que antes de entrar para morar, tocou uma reforma de cima a baixo, ouvindo os resmungos de sempre do seu velho, que queria a todo custo construir um alambique no quintal.

 

Selma descobriu-se grávida de dois meses após uma sequência de enjoos e desejos. Fez Diolindo ir buscar numa olaria bem longe dali, um tijolo fresquinho para que ela pudesse arrancar um pedaço com os próprios dentes, saborear, e cuspir o barro fora. Ao invés de passar a se vestir com batas e vestidos folgados mais condizentes para futuras parturientes, instruiu o marido a comprar chambray, liganete e brim para mandar costurar suas costumeiras calças coladas ao corpo, porém com uma circunferência e flexibilidade maior. As cores eram as de sempre, muito chamativas. Lilás, turquesa, âmbar, pink, entre outras, somente vistas na paleta de um pintor.

 

Marcaram o casamento aproveitando a inauguração da Paróquia de Santa Meredite, com o agora reordenado Padre Franco à sua frente. Depois que Fredson afirmara não haver provas contra o velho e, a igreja interessada no grande movimento de fiéis que frequentavam aquele templo desgarrado, decidiu pela sua absolvição e readmissão ao seio da família religiosa, pedindo discrição quanto ao seu vício no álcool, e admitindo que Gemima fosse tão somente a sua secretária e cuidadora devido a idade avançada.

 

Diolindo era só cuidados com ela e, por necessidade, estava se tornando um excelente cozinheiro. Decidiu também fazer o berço do seu filho com as próprias mãos. Para isso, passava o dia inteiro aprendendo o ofício com um marceneiro. Passou a tomar a medicação na hora certa e Selma nunca mais o deixou derramar uma lágrima que fosse, a não ser de felicidade.

 

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– Meu suquinho de jabuticaba, eu não sabia que você tinha tanto dinheiro assim guardado! – Dizia Franco espantado com a compra da casinha que um dia fora de Dirce, e na qual já estavam aboletados.

– Economizando meus trocos, tirando dos bolsos do safado quando chegava bêbado, e foi por aí que juntei e apliquei na poupança. Nem sabia que o saldo tinha engordado mais do que eu nesses últimos dois anos.

– Viu a cara do sacripanta que veio aqui cheio de pompa e fleuma pra pedir perdão?

– Vixe que o homem tinha mais paramento que o Papa!

– Aqui nesse país, acima dele só o Papa mesmo.

– Estou orgulhosa de você, e ao mesmo tempo triste.

– Porque, meu borrifo de água benta?

– Porque você fazia todo mundo acreditar que tinha matado aquela gente, quando na verdade você não matou!

– Hoje vejo que essas bravatas quase me levaram pra cadeia. Foi Dirce que matou Agenor quando ele descobriu a gravidez. Eu só fiz o buraco no banheiro para que ela não perdesse a criança fazendo esforço, mesmo assim quem jogou o corpo ali foi ela. Eu nem vi o sujeito morto.

– E a menina?

– Se engasgou com um osso de frango lá no campinho. Eu fui tentar ajudar e parecia que eu mais atrapalhei do que ajudei. Ela morreu sufocada ali na minha frente. Tirei o corpo da Dirce da cova e queimei pensando em presentear o meu filho com as cinzas da mãe pra acabar com aquele perrengue de abre e fecha cova todo dia. Aproveitei o buraco e pus a menina dentro junto com o cachorro.

– E a Dirce no hospital?

– Morreu numa síncope quando eu disse a ela que ia contar a Diolindo o seu passado de puta. Me pegaram quando eu tapava a boca da ingrata para não deixá-la me chamar de filho da puta, como ela adorava, apenas pra me machucar. Foi assim.

– E Desirée se movimentando dentro de casa como se tivesse vida? Aquilo poderia levar Diolindo a uma piração total? E a morte da cadelinha?

– A morte do animal foi um acidente. Eu estava segurando a boneca para trocá-la de lugar e confundir Lindinho, apenas para deixá-lo suscetível as minhas sugestões para chegar no diamante, e aí o animal veio pra cima de mim. Chutei-o com força demais e ele bateu a cabeça na parede com força de mais. Caiu morto no chão. Abri o seu ventre com uma faca apenas para dar a impressão de crueldade e assustá-lo – Disse baixando a cabeça enquanto uma rara lágrima teimava em ficar grudada no seu globo ocular.

– Já chega por hoje. Amanhã você têm o casamento do seu filho pra celebrar, vá descansar.

– Posso tomar meu remedinho antes?

 

Gemima caprichou numa dose de bourbon puro, que o velho tomou como se fosse xarope pra tosse. Dormiu como um anjinho obeso tentando voar com asinhas pequenas demais para o intento. Antes de cair nos braços de Morfeu, fez uma anotação mental, para saber se Selma havia convidado Dorotéia e Plínio, dois devotos fervorosos de Santa Meredite, cuja imagem fora providenciada a um santeiro famoso, que assustou-se com o serviço. Criaria a imagem da nova santa baseado numa foto de uma loura voluptuosa que parecia ter sido tirada de uma revista pornográfica. Vai entender o que se passa na cabeça da igreja hoje em dia.

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