Bestialidade Exorbitante


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1. Bestialidade Exorbitante

 

Eric do Vale

 

“Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também”

(Baader- Menhof Blues: Renato Russo)

 

 

 

Quando não estava nos semáforos limpando os para-brisas dos carros, abordava algum pedestre e pedia um trocado. Às vezes, ele recebia alguma coisa, mas isso acontecia raramente. E quando o sinal fechava, dirigia-se para o primeiro carro que via e, sem perguntar, começava assear os vidros. Tal atitude, porém, terminava custando-lhe bastante caro. Além de ouvir a clássica frase: “Desculpe, não tenho dinheiro”, era também obrigado a escutar intermináveis desaforos dos motoristas.

Uma vez, quando aproximou-se de um carro, o motorista abaixou o vidro e gritou:

-Não tenho dinheiro!

Ele, imediatamente, esmurrou a porta e o ameaçou, gerando, assim, uma horrível discussão em que ambos foram parar na delegacia. Ele, é claro, terminou sendo o mais prejudicado.

Isso também acontecia com os pedestres:

-Um dinheiro aí. _ Pedia ele.  

E insistia:

-Um trocado.

Quando alguém não lhe dava ouvidos ou o insultava, ele apelava para a brutalidade e tirava na marra. Apesar de ser velho conhecido dos policiais, não demorava muito para estar de volta as ruas e voltar a sua rotina.

Não fazia pouco tempo que tinha retornado as ruas, quando viu um senhor passar perto dele e foi direto ao assunto:

-Um trocado, por favor.

O velho não deu ouvidos e ele persistiu:

-Uma graninha, meu tio.

Como o velho continuou ignorando-o, ele apressou o passo, segurou no braço dele e alterou a voz dizendo:

-Tu é surdo? Quer que eu traduza? _ Apertando o braço dele mais forte.

-Tudo bem, já entendi. _ Disse o velho levantando o polegar esquerdo.

Ao soltar o braço dele, o velho colocou a mão no bolso e sacou um revólver. Ele deu dois passou para trás, mas levou um tiro certeiro no coração.    

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