Deveria ter te amado - Parte III da Serie Deveria

Percy sorria. Ele se considerava um cara de sorte. Havia feito todas as escolhas erradas, possíveis e imagináveis, e ainda assim, o destino havia lhe dado uma segunda chance. Não foi fácil, Percy teve que percorrer um longo caminho até chegar ali. Mas se ele pudesse escolher, faria tudo novamente se isso o trouxesse para aquele exato momento.

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2. Capitulo 2 - Deveria ter lutado

Nico caia do céu.

Ele descia em direção ao chão, descontrolado, através das sombras feito um meteorito flamejante e com uma pancada barulhenta, pousou, despencando com a estátua de Athena Paternos ainda presa a ele, balançando a terra e todo o resto a seu redor.

Deus! Sua situação não poderia ser pior. Ele achava que tinha quebrado alguma coisa.

Ajoelhado e com suas roupas em farrapos, Nico se segurou para não vomitar. Ele agarrou a grama e abraçou o estômago, se apoiando na estátua com os olhos fechados ao sentir o mundo girar. Suas feridas tão pouco o ajudavam, suas pernas e braços latejavam, seus músculos protestavam com a menor tentativa de movimento enquanto sua respiração saia falhada.

Gemendo, quase não aguentou o peso do próprio corpo. Por isso, continuou ali, parado. Ele tinha sorte por chegar até ali, mesmo que não soubesse exatamente onde estava e muito menos o paradeiro de seus companheiros, mas a terra que o guiara até ali lhe confirmava; ele se localizava em algum lugar ao norte de Nova York, perto do acampamento meio-sangue. Esperava que tivesse chegado á tempo de impedir que os romanos e gregos destruissem o acampamento, ainda que tudo o que Nico quisesse fosse se deitar e dormir.

Ele não podia.

Não entendia o que o movia, mas sabia que algo aconteceria em breve. Estava tão perto de vencer, quase podia sentir a benção dos deuses. Entretanto, ele tinha que se mover, precisava continuar. Só mais um passo.

Abriu os olhos e retraiu o gemido de dor. Havia luz, tanta luz que não podia enxergar nada além do clarão que o cegava. Piscou os olhos e logo veio a nitidez; ouviu sons de espadas, gritos e gemidos de dor.  

Se deparou com seu maior pesadelo.  

Gaia, a cruel mãe terra, se levantava fluida e resplandecente pelo solo. Ela se sentava em seu trono de terra no topo da colina meio-sangue, observando a terra molhada tremer e engolir tudo o que estivesse a sua volta. Com o semblante calmo e piedoso, reluzia ofuscante sob a luz do sol como se os feixes de luz existem somente para satisfazê-la. Sua beleza era de tal forma que Nico não poderia descrever se lhe perguntassem.  

Eles estavam perdidos.

Não importava o que fizessem; ainda que os dois acampamentos trabalhassem em conjunto, Gaia estava prestes a despertar em poucos segundos, sem contar os gigantes a serem derrotados.

Mas, não. Não era Gaia que o preocupava. No momento, Percy, que estava encurralado por um dos gigantes, era o que o afligia.

Polybotes se aproximava decidido do filho de Poseidon, o descendente de seu maior inimigo. Possuía uma lança que brilhava feito o mar mais negro que Nico já havia visto; uma lança tão fina e com tanto veneno que nem mesmo a água mais pura poderia curar.  

“Oh! Perseus Jackson! Tenho certeza que mamãe vai ficar tão feliz como se fosse o próprio Poseidon preso à minha lança.” O gigante disse animado, brandindo a lança e arrancando arvores e tudo mais o que estivesse em sua frente.

Percy tentava se defender da forma que podia; tinha um dos braços quebrado, caído ao lado do corpo e o outro que tremia, segurava a fiel espada Contracorrente. O semideus se arrastava para trás com as pernas bambas, forçando o corpo a obedecê-lo, sem desgrudar os olhos da enorme lança que estava a sua frente, preste a fatia-lo e sem saída, o único caminho era o precipício as suas costas.

Nico tinha certeza, Percy morreria como um verdadeiro herói e depois de tanto esforço, ele não podia deixar que Percy se sacrificasse, quase sentindo o fio da vida do semideus se esvair em frente a seus olhos.

Isso não aconteceria enquanto Nico estivesse vivo.

“Percy! Atrás de você!” Nico rugiu, se levantando do chão e se soltando de Athena Paternos.

Ele só tinha uma chance e não iria falhar.

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No final, seria uma decisão fácil. O problema era seu egoísmo. Nico precisava desse momento, um ultimo vislumbre do rosto de Percy antes de se sacrificar.Viu o rosto angustiado e surpreso de Percy, angular e tenso, negando, pedindo para Nico não fazer aquilo. Viu acusação, também, mas sabia que Percy o perdoaria.

Eles não precisavam de palavras, ambos sabiam qual seria o fim.

Nico não precisou mais do que aquele momento para chamar a atenção do gigante. Essa seria a sua ultima chance; viajaria atrás das sombras e faria o certo. Ele não falharia. Então, deixando o ar entrar devagar, foi engolido pelas sombras, assumindo o lugar do amigo e o jogando para longe do gigante, recebendo o golpe final.

Dessa vez ele não iria escapar, pensou sorrindo de sua sorte.

Caiu ao chão gemendo e olhou para o céu iluminado e livre de nuvens enquanto levava as mãos a ferida no meio de seu peito, sentindo em sua boca um gosto metálico e uma dor aguda no lugar que deveria estar seu coração. Mas não havia mais nada lá, apenas um grande buraco e a dor que se derramava sobre seus membros mais rápido do que ele podia processar, até que somente o entorpecimento restasse. Era a simples e pura paralisação de seu corpo.

Ouviu vozes também, sons estranhos e ecos como se seu ouvidos estivessem tapados. Tudo parecia mais calmo e simples, só lhe restava relaxar e deixar que a morte o levasse. Não haveria dor ou angustia, apenas o silencio que ele por tanto tempo havia desejado.  

Essa sensação Nico conhecia bem. Não havia nada a temer e até gostava de seu manto suave. Mas nada era tão fácil e se ele pudesse, estaria franzindo o cenho, pois podia escuta-lo, ouviu um rugido, como o de um animal ferido em sua busca por conforto e soube, não o deixariam ir sem uma boa luta. Em seguida, uma mão quente estava pressionando seus ferimentos e sussurrando palavras que ele não podia compreender, não completamente. Se esforçou e piscou os olhos, sua visão estava embasada, mas ele pode enxergar um garoto com cabelos cumpridos e olhos verdes, alguém que insistia em não lhe deixar descansar e contra a sua vontade, a realidade voltou a ele.

Dor e solidão lhe abateram quando Nico pode entender o que acontecia. Ele reconhecia a voz, era Percy Jackson tentando reanima-lo.  

Nico não esperava por isso.

Não mesmo.

“Nico! Aguente firme. Eu vou te tirar dessa.” A voz sussurrada tremia, descompassada, mas não deixava de ser decidida.

Ele piscou os olhos novamente e viu Percy chorando por ele.

Ninguém antes havia chorado por ele.  

Nico sentia que devia se sentir emocionado, mas era tarde demais. Ele gostaria de poder lutar e dizer tudo o que sempre quis. Ainda que tivesse forças, não seria justo com ele e nem com Percy.

Nico não iria destruir o que tinha sobrado de suas vidas. Percy tinha uma namorada e talvez ainda pudesse ter o seu final feliz.

“Não faça isso.” Sussurrou cansado e com dor ao fechar os olhos. “É hora de ir.”

Sorriu por fim. Finalmente poderia ter o seu repouso.

“Eu não vou deixar.” Percy falou calmo, numa frieza que Nico apenas havia visto no campo de batalha.

“Você não pode me salvar.”

Nico já podia sentir sua alma ser puxada para onde ela pertencia e o mundo parecia desaparecer diante de seus olhos.

Essa era a verdade. Morrer era fácil, o difícil era viver em meio a tanta dor e sofrimento, mas tudo ficaria bem agora que seu vínculo com os vivos se dissolvia. Ainda assim, ele sentia cada tentativa inútil de Percy. Sentiu o calor de Percy, pressionando, tentando parar o sangramento. Sentiu também o gosto de Ambrosia, uma boca junto a sua e ar entrando em seus pulmões em colapso e, por fim, a água rastejar por sua pele em outra tentativa de estancar a ferida.

Nada funcionou.

Nico teve vontade de segurar nos braços de Percy e fazê-lo parar.

Tremendo, sorriu débil e fraco para Percy. Depois de sua curta vida e de tantas batalhas e desentendimentos, Nico perdoava tudo o que Percy havia feito a ele, pois cada sentimento doloroso e cada ferida aberta não significava nada diante da imensidão do ciclo da vida. Ele se perdoava também. Havia fugido por tanto tempo, mas agora entendia. Tinha amigos, até mesmo Annabeth parecia se importar o suficiente com ele. Estava conformado com sua partida e gostaria de dizer tudo isso a Percy; que ele desejava que Percy fosse feliz ao lado de Annabeth, mas suas forças tinham se esgotado. Manter os olhos abertos e o pulmão funcionando era feito com uma dor que Nico não pensava ser capaz de sentir.

No fim, ele iria morrer, mas Percy Jackson sobreviveria e venceria a batalha por eles e com um pequeno sorriso no rosto, Nico fechou os olhos permanentemente.

Ele morria com a consciência limpa, vendo o rosto de quem ele mais amava. Sua morte não seria em vão.

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