A Amiga Da Morte

Julie está em seu quinto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e nada parece começar tão bem. A jovem já está mais que preparada para o estudo redobrado, devido aos N.O.Ms, e crê que tudo vai sair como planejado.

Porém o destino não reservou para ela algo muito tranquilo. Em meio as suas novas descobertas e novos caminhos, Julie tem de enfrentar uma série de pequenos problemas para no final descobrir que tudo pode piorar.

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2. Noah

        Um clima estranho se formou na saleta, trocamos olhares discretos, todos pareciam ter percebido a grosseria na voz de Martha. Eu tomei fôlego para dizer algo, questionar ou fazer um mísero comentário, mas Sam me interrompeu antes mesmo que eu começasse. — Ah, vamos então! Essas malas não vão ir para o quarto sozinhas, certo? — ela pegou o malão de Hogwarts com esforço e saiu fazendo careta pela única porta que havia na sala. 

       Eu e Gui nos entre olhamos, mas aí percebi que não existia mais nenhum comentário para ser feito. Ele agarrou a gaiola de Pluma, deixando-a um pouco agitada, e eu peguei a outra mala que era a única bagagem que restara. Seguimos, lado a lado, pela mesma porta pela qual Sam havia passado.
       Estávamos agora em um cômodo maior, mas com o teto baixo, que me dava uma leve sensação de claustrofobia. Haviam duas pequenas camas em cantos opostos, mas ambas estavam meio escondidas por um série de caixas de papelão e madeira, e um monte de tralhas e bugigangas que eu fiquei com preguiça de decifrar...— Ai! — gritei, por reflexo. Havia dado com o pé em uma coisa dura.
       — Oh, cuidado Julie — aconselhou Sam —, Teki e Ruminus são dois grandes nauseabundos, e deixam tudo espalhado.
       Baixei os olhos e observei que tinha chutado uma mesinha de madeira maciça, que continha um bule de chá em sua superfície. — Não acho que seja culpa deles — declarei automaticamente, mas então parei de esfregar o pé dolorido para analisar o que Sam havia dito. — Está falando dos elfos domésticos?
       — Sim, é aqui onde eles dormem — Sam olhou ao seu redor. — É uma pena os visitantes terem de passar por aqui para chegar até a sala, ninguém liga mas, francamente, olha esse lugar! Vovô tem que dar um jeito nisso.
       — Nos elfos ou no lugar?
       — No lugar! Tem de tirar a lareira da rede de flú dali, ou sei lá, usar um feitiço de ocultação para que os visitantes não vejam esse caos.
      — Por que simplesmente não pedem para que eles deixem em ordem?
       Sam parou de admirar aquela pequena falta de organização e olhou pra mim. — Quem? Os elfos? Ah...não, não. Minha mãe não quer tirar essa pequena liberdade deles, e vovô não se importa com esse lugar — ela deu de ombros e voltou a andar tortamente por causa da mala pesada que carregava. — Vamos, então. Nós te apresentamos para os elfos depois.
       Assenti e continuei a seguindo pela próxima porta que, diferente da anterior, dava para um cômodo amplo e magnífico, que fez meus olhos brilharem de contentamento. Aquela deveria ser a sala de estar, com sofás de couro escarlate, esculturas que aparentavam ser caríssimas, um tapete de pele que se estendia por quase todo o espaço, mesas para chá e outras para xadrez, além do belo, enorme, e sinuoso lustre dourado que pendia bem no centro de tudo aquilo.
       — Julie! Vai ficar parada aí o resto do dia? — Sam perguntou, já estava do outro lado do cômodo, ao pé de uma das escadas que levava para o andar de cima que possuía uma sacada interna por toda a extensão da sala.

       Me apressei para chegar até ela junto com Gui, que tinha esperado pacientemente a minha incredulidade passar. — Esse lugar é incrível!

        Sam abriu um sorriso amarelo e que durou pouco, como resposta. Ela estava tentando subir os degraus com aquele malão pesado, usando toda a sua força em vão. Eu queria ajudar, mas ela, com suas acrobacias na escada, não permitia que eu me aproximasse. — Sam...— murmurei, tentando chamar sua atenção.
       — Um minuto Julie, eu...só...preciso apoiar aqui e eu vou....
       — Vai cair.
       Sam se assustou com a voz inesperada, que não era nem minha nem de Gui, mas de um garoto parado no meio da sala. A mala escorregou pelos únicos três degraus que tinha subido, e bateu na canela de Sam que xingou baixinho e se virou para o garoto. — A quanto tempo você está aí?
       — Tempo o bastante para ver seu show, foi esplêndido — o garoto sorriu, exibindo uma fileira de dentes extremamente brancos.
       — Será que pode nos ajudar?
       — Logo eu? — ele pôs as mãos no próprio peito, se auto indicando e se aproximando de nós. — O convencidinho maior de idade?
       Sam revirou os olhos. — Não vejo mais nenhum ser mais útil por aqui.
       O garoto apenas riu e tirou a varinha do bolso. — Como vai Julie? Soube que viria pela rede de flú, não imaginei que demoraria tanto — Ele acenou a varinha, tirando meus pertences do chão e os conduzindo escada acima.
       Em nenhum momento ele olhou pra mim, e isso era meio assustador levando em conta que estava falando comigo. — Bem...nós...nós somos meio atrapalhados — respondi.
       Ele riu. — Deve ser de família.
       — É.
       — Mas o que achou da viagem?
       — Com flú? Enjoativa — meu estômago embrulhou só de lembrar.
       — Ah, sim, é péssimo — ele finalmente se virou pra mim quando atingimos o andar de cima, um baque atrás de nós me fez entender que minhas coisas já tinham voltado ao chão. — A propósito, eu sou Noah, somos primos de enésimo grau.
      Arqueei as sobrancelhas. — Enésimo?
      — Ai, ele está exagerando — Sam disse, impaciente. — O que sabemos é que somos primos tão distantes que quase não temos parentesco. Na verdade nem somos consanguíneos. 
      Olhei de Sam para Noah, e ele pareceu confirmar com o olhar o que ela tinha acabado de dizer, e que olhar...grandes olhos azuis claros, bem da cor do céu de verão. — Ah...é um prazer, Noah.
       — O prazer é todo meu — ele sorriu.
       — Tá legal Julie, venha conhecer nosso quarto — Sam disse, já me puxando para uma das inúmeras portas do segundo andar, bem onde minhas coisas haviam "pousado". — Antes eu dormia aqui sozinha, se você quer saber, mas essa cama sempre esteve aqui pra você. Creio que nunca, nenhum hóspede, dormiu aqui.
       — Nenhum hóspede dorme nos nossos quartos — disse Gui, orgulhoso, vindo logo atrás de nós com a gaiola de Pluma nas mãos. — É como se morássemos aqui, mas só viemos nas férias...
       Sam finalmente escancarou a porta e nós entramos. Era amplo, maior do que o quarto dela habitual, no qual eu estava acostumada a dormir. Havia uma cama de solteiro de cada lado, escrivaninhas, e perto da porta um guarda roupa  de madeira idêntica as da parede e do chão. 

       Foi fácil para identificar a cama de Sam, já que a parte do quarto que condizia a ela estava enfeitado com pôsteres animados de diferentes galãs bruxos, que iam de jogadores até cantores. Já a cama oposta, a minha, estava sem graça e sem vida a não ser por um único pôster de Chaerphilly Catapults, o time para o qual eu torcia. Sorri.
       — Foi ideia de Gui colocá-lo aí.
       — Um presente pra você, prima — Gui confirmou, pondo a gaiola de Pluma no chão, com um sorriso de satisfação no rosto.
       Passei a mão pelo cabelo dele. — Obrigada, meu garotinho favorito — beijei-lhe o topo da cabeça.
       — M-mas é claro que você pode tirar se quiser Julie, sua parte do quarto, sem problemas.
       Olhei para Sam enquanto Gui me abraçava pela cintura. — Samantha — disse — não seja patética.
       — Desculpe...— murmurou enquanto Gui me soltava. — Mas saiba que você está livre para pôr mais coisas aí desse seu lado, na cabeceira, onde quiser. E o guarda roupa está divido ao meio, essa é sua parte — Sam passou a mão no meu lado do guarda roupa para indicá-lo.
       — Ok, obrigada.
       — Eu gostaria de deixá-la fazer o que quisesse agora, mas ainda temos de deixar Pluma do corujal — observou, colocando o cabelo loiro escuro atrás da orelha. 
       — Er...— cocei a cabeça — agora?
       Sam franziu as sobrancelhas. — Ora, por que não seria agora?
       — É que eu queria enviar uma carta pra minha mãe e...bem...pensei em enviar a carta e soltar Pluma no corujal de uma vez só.
       — Ah...bem... — Sam olhou para Noah, parecia ligeiramente desconcertada — eu e Gui temos umas coisas para resolver, daqui a pouco voltamos aqui em cima para te buscar.
       — Não se preocupe — Noah entrou na conversa —, eu fico aqui com você Julie, espero você terminar sua carta e depois vamos até o corujal.
       — Ah — senti meu rosto esquentar levemente. Normalmente eu não iria ficar nervosa com uma situação dessa, mas acontece que Noah estava impregnando o quarto com um cheiro muito bom, sua voz tinha um timbre muito charmoso e seus olhos eram tão bonitos que só de pensar em ficar sozinha os fitando eu...eu...— não quero incomodar.
       — Não! — Sam interrompeu. — Não vai incomodar de jeito nenhum, eu e Gui vamos indo — ela empurrou o irmão em direção a porta, e antes de sair me fitou com os olhos semi-cerrados. — Não dê ouvidos a uma palavra que esse doido lhe disser Julie, e se te incomodar lhe dê um chute no meio das pernas — ela deu um sorriso sarcástico para nosso primo distante. — Tchauzinho. 

       

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