Corações de Vidro

Vivi na escuridão por muito tempo, era como uma escrava para aqueles que diziam serem meus pais, mas um dia não aguentei, vi os grandes portões abertos e sabia que aquela seria minha única chance de fugir e quem sabe ter uma vida melhor, não pensei duas vezes e fugi daquele lugar, somente com as roupas do corpo e que infelizmente não eram quentes o suficiente para me aquecer naquele inverno...

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2. A fita preta.

Dois anos depois

O dia estava começando a clarear eu e Stefan já estávamos de pé, hoje seria dia de caçada, há um ano e meio atrás caçávamos a noite, pois não estava totalmente acostumada com a luz, claro que minha habilidade no escuro ainda é muito melhor mas hoje já me acostumei e sinceramente não perco um minuto da claridade, sempre que levanto consigo ver o dia nascer e nunca me canso de o admirar.

Stefan era um homem de bom coração e muito rico, não sei ao certo o porquê dele morar no meio da floresta, tudo bem que a casa é grande, mas tem sua simplicidade que a deixa linda, porém um homem com tanto dinheiro como ele poderia ter uma mansão na cidade e conhecer muitas pessoas, mas as únicas pessoas que vem a sua casa são Sylvia, uma senhora adorável que faz nossas vestes, e Joseph que nos trás suprimentos da cidade e leva alguns dos bichos que caçamos para vender na cidade, e algumas vezes conversa em particular com Stefan, confesso que minha curiosidade sobre o que tratam a sós é muito grande, mas prefiro não perguntar.

Sou muito grata a ele também, pois me ensinou muita coisa, como ler direito, já que sabia só o básico e só lia livros que eram escritos por aqueles qual me chamavam de filha, mas tratavam como animal, me ensinou a me orientar pelas estrelas para sempre saber como voltar para casa e me ensinou o nome de diversas constelações, ensinou-me a usar arco e flecha qual uso para caçar entre outras coisas que segundo ele serão necessárias.

O barulho de algo caindo no corredor chamou minha atenção fazendo com que deixasse de olhar o sol nascer e caminhasse até a porta aberta do meu quarto, assim que passei pela porta o vi, estava apenas com suas calças e botas, os negros cabelos úmidos indicavam que havia se banhando há pouco tempo, apanhava do chão sua besta, que provavelmente seria a causadora do barulho, não pude deixar de notar seu corpo e algumas de suas cicatrizes que sempre achei charmosas, mesmo que ele as odiasse, ao se levantar me olhou e sorriu, é incrível como seus dentes são perfeitamente brancos e o sorriso é maravilhoso, sem contar que seus olhos, que parecem serem feitos do mais puro azul dos céus, brilham quando sorri, confesso que sinto uma atração por ele e um frio na barriga quando está muito próximo, mas ele, desde que me encontrou, diz que sou como sua irmã e ter tais sentimentos por ele é errado e se contarmos que é quase quatro anos mais velho, parece tornar ainda mais errado como se ele me visse como uma criança, sorri para ele e calada desci as escadas.

— Violet? –perguntou ele descendo logo após eu descer.

— Diga... –disse pegando meu arco que ficava pendurado na parede da sala.

— Algum problema? –perguntou se aproximando, rapidamente segui para cozinha.

— É temos um problema... Onde estão minhas flechas? –perguntei pegando uma das frutas sobre a mesa.

— Ah, estão no porão tive que afiar as pontas de algumas! –respondeu coloca sua besta junto ao pé da mesa.

— Vou pega-las para sairmos. –falei e fui em direção ao porão.

[...]

O vento soprava para o leste, a velocidade da flecha aumentaria se seguisse o mesmo rumo do vento e para minha sorte era para aquele lado que a águia voava, peguei a flecha e junto ao arco a ergui deixando meu pulso rente ao meu queixo dando-me uma ótima mira, este seria certeiro, se não fosse outra flecha acertar o animal antes da minha, me virei e vi Stefan rindo.

— Seja mais rápida! –disse ele entre risos.

— Eu estava me concentrando, era pra ser uma flecha certeira se você não tivesse me atrapalhado! –reclamei indo até a águia caída no chão, a flecha havia certado bem em seu pescoço, arranquei a flecha e joguei para ele.

— Você odeia fazer isso, não é? –perguntou enquanto pegava a águia pelas assas, antes majestosas e agora simplesmente tingidas por alguns pontos vermelhos.

— Não odeio, sei que temos que fazer isso, mas tem que concordar que é cruel. –disse enquanto andávamos até o cervo que ele havia pego.

— É cruel, mas é a cadeia alimentar minha cara, a cadeia alimentar. –me entregou a águia enquanto ia até o cervo.

[...]

Era pouco mais das nove da manhã quando chegamos em casa, como sempre Stefan foi armazenar o que havíamos caçado, enquanto eu ia me banhar para logo após ajuda-lo a fazer nosso almoço.

Eu sempre demorava muito ao me banhar, principalmente quando resolvia usar a grande banheira que havia no banheiro que era reservado só a mim, mas naquele dia eu não consegui demorar muito, minha cabeça latejava e minhas pernas e costas doíam, após me secar e vestir-me, sentei-me de frente a penteadeira branca que Stefan havia feito com suas próprias mãos para mim, lembro-me do dia em que pedi isto a ele, não fazia mais de um mês que havia me encontrado, ainda era inverno e a noite me chamava para tomar chá e conversar de frente para lareira na sala, esta qual era a única iluminação quando se tinha minha presença.

A conversa não rendia muito, ainda era um tanto receosa com ele, apesar de ter me ajudado muito, foi quando ele me perguntou se havia algo que eu queria, de primeira respondi que não, que todo o conforto que ali ele me proporcionava já era o bastante e seria muito grata sempre, mas ele insistiu e disse: "Pense bem Violet, algo que sempre quis ter e nunca teve a oportunidade.", com estas exatas palavras enquanto me encarava com os olhos azuis atentos. Demorei cerca de meia hora para pensar em algo, foi quando lembrei de ao passar em frente aos quartos dos meus pais ver uma linda e grande penteadeira branca, além de linda sempre via minha mãe sorrir para ela, era as únicas vezes que a via sorrir já que nunca dirigia um daqueles sorrisos largos para mim e pedi a ele uma igual explicando os mínimos detalhes, lembro do sorriso que ele deu após meu pedido e dizer que eu o surpreendia a cada dia que passava, talvez esperasse que eu pedisse alguma joia, pelo menos eu sempre penso assim ao me sentar de frente a ela.

Ao sentir um cheiro doce vindo da cozinha, me toquei que havia ficado muito tempo sentada na frente da penteadeira, rapidamente fiz uma trança amarrando com uma fita preta e desci.

— Hum... doce de maça. –falei ao entrar na cozinha.

— Isso era tarefa sua, mas como você esqueceu-se do mundo de novo...

— Desculpe, é que eu estou com uma dor de cabeça que não passa. –expliquei enquanto me sentava.

— Quer saber, eu posso fazer isso sozinho, vai descansar. –disse virando-se para mexer alguma panela.

— Prefiro ficar aqui, não é nada demais. –deitei minha cabeça sobre a mesa e o observei cozinhar em silêncio, o que era estranho, dificilmente ele ficava tão quieto parecia pensativo.

Após comermos nos sentamos na sala, mas ainda em silêncio o que já estava me incomodando, fichei os olhos e joguei a cabeça para trás na esperança da dor diminuir, mas não deu muito certo, já que as dores nas costas voltaram o que me fez franzir o cenho e soltar um suspiro.

— Violet, você está se sentindo bem? –Stefan perguntou e só então percebi que havia se aproximado, permaneci com os olhos fechados e voltei com a cabeça para frente de vagar.

— Não muito...

— Deite aqui. –disse colocando as mãos sobre meus ombros e me deitando no sofá.  — Vou buscar algo...

Mal deu para ouvi-lo falar já que havia saído da sala, não demorou muito para ouvir seus passos se aproximando e logo algo gelado ser posto sobre minha testa, abri os olhos e o vi segurando o pano que estava em minha testa e próximo ao sofá um pequeno pote com água.

— Sylvia é boa com essas coisas e me ensinou um pouco. –disse ao perceber que o encarava, mal sabia ele que só admirava cada cantinho de seu rosto tão próximo ao meu.

— Pedirei a ela que veja melhor o que está acontecendo com você amanhã. –continuou enquanto eu somente assenti em resposta, fechei os olhos novamente...

O vento frio fazia minha espinha arrepiar, me virei e deparei-me com a floresta, mas estava diferente, os troncos e galhos eram acinzentados poucas folhas ainda mantinham-se presas aos galhos e grande parte delas pretas ou cinzas, uma nevoa branca passava por meus pés e ia subindo rapidamente, comecei a andar procurando como sair daquele lugar, mas parecia não ter fim, a nevoa já me impedia de ver as coisas mais além, o vento começou soprar forte e então parei, meus cabelos não mais presos estavam e voavam junto ao vento, pude ver a fita preta que antes os prendiam voando e atravessando com facilidade a nevoa densa, passos atrás de mim me fez prender o ar e travar, queria correr, gritar ou até mesmo me virar, mas nada conseguia fazer, mas ao sentir algo gelado encostar em meu ombro, foi como se meu corpo fosse novamente ligado e desesperadamente corri para fugir daquilo que havia me tocado, ouvia meus passos e os passos daquele que me seguia, mas ao olhar pra trás, nada eu via, até que um passo em falso eu dei e senti meu corpo ser afundado nas águas negras, quanto mais força fazia para sair da água mas ela me puxava para baixo, já não aguentava mais e o pouco de oxigênio em meu pulmões foram soltos ao vê-lo em minha frente... "Violet, Violet..."

— Violet, está tudo bem... –senti os braços de Stefan passar em volta do meu corpo e me abraçar forte, eu chorava compulsivamente e nem ao menos entendia o porquê daquilo, mas eu só tinha vontade de chorar, sentia um aperto no coração e uma sensação ruim.  — Hei, tá tudo bem, eu estou aqui, o que houve?

— Eu... Eu não sei, mas algo ruim, vai, vai acontecer, eu sinto isso Stefan.

— Não vai, fica tranquila... –se afastou um pouco e pôs a palma de mão sobre minha testa. — Você tá muito quente, deve estar delirando.

— Por favor, me escuta...

— Violet, se acalme, depois conversamos sobre isso, mas preciso leva-la para o quarto. –antes mesmo de poder dizer algo ele me pegou no colo e se direcionou a escada, sem muito esforço levou-me para meu quarto e me colocou na cama.  — Vou pegar algumas coisas, fique aqui!

Saindo as presas, Stefan esbarrou na minha penteadeira derrubando a pequena caixinha de madeira em que ficavam minhas fitas, ao vê-las espelhadas pelo chão a imagem da minha fita preta voando pela nevoa me veio à mente, imediatamente passei a mão sobre a trança em que havia feito em meu cabelo e antes de chegar às pontas a trança começou a se desfazer e a fita antes ali não se encontrava mais, passei a mão mais algumas vezes sobre o cabelo e nada da fita, gelei, isso era impossível.

O som de algo batendo começou a deixar-me irritada, mesmo que ainda assustada com o ocorrido aquele barulho me tirava do sério, levantei-me e ao me sentar senti as costas e as pernas doerem, mas ignorando a agonia que dava ao andar, caminhei até a porta, olhei pelo corredor e então percebi que o barulho vinha de meu quarto, virei-me devagar e rapidamente meus olhos alcançaram o pássaro de penugem branca e marrom batendo no vidro da janela, aproximei-me lentamente do local observando o animal atentamente, ao estar próximo o suficiente da janela para alcança-la o pássaro olhou diretamente em meus olhos causando ligeiro arrepio pelo meu corpo e logo abriu voo pelo céu que já começava a escurecer, ao perdê-lo de vista abri a janela e ao ver que a fita, que deveria estar presa aos meus cabelos, estava presa a uma pequena farpa da madeira dei alguns passos para trás.

— Mas como... Como... –me aproximei novamente da janela e peguei a fita. — Isso não pode ser possível...

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