Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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10. 09. Ajuda-me

"Tu és tão sonhadora, Faith."

Mesmo que eu queira afastar isto do meu pensamento, estas palavras bombeiam em mim como se de sangue a espalhar-se pelo corpo se tratassem. Sonhadora. Deitada na relva ligeiramente molhada, fecho os olhos e deixo a voz da minha mãe aproximar-se e aterrorizar-me com coisas que ouço diariamente. 
Então, o que seria de nós se não sonhássemos? Mesmo depois de tudo o que passei e das teorias que segui; do tempo que refleti sobre o que deveria seguir ou não; mesmo depois de estar aqui e não estar, continuo a acreditar que os sonhos são bons para o nosso futuro. As nossas crenças viram lutas infernais e isso é bom. O facto de nós acreditarmos em algo é bom porque o que seria de nós se não acreditássemos? Onde estaríamos? Pergunto-o às folhas que abanam com a ligeira brisa que paira por aqui, pergunto-o às nuvens, e pondero perguntar realmente a Calum que me encara com felicidade. Não, eu não lhe vou perguntar nada.

Este lugar tornou-se tão relaxante, mas eu não tenho a certeza se assim viria a ser se Calum não estivesse aqui. Não tenho a certeza se eu o conseguiria apreciar da forma que estou a fazer com ele aqui.

A felicidade de ambos enquanto percorríamos por este campo florido era notória. Parecíamos entrelaçar-nos completamente bem neste lugar, nesta calma, neste sitio. Parecia perfeito para nós e para as nossas almas.

São quase três horas da tarde e nós ainda nem almoçamos. E eu nem fome tenho.

- Calum, tu não devias ter faltado às aulas por minha causa. - Pus a mão na consciência, lembrando-me daquilo que ele havia feito.

- Mais uma falta. Menos uma falta. Não vão ser as últimas. - Sorriu, transmitindo-me segurança e despreocupação. - Vamos, finalmente, almoçar? - Perguntou.

- Não tenho muita fome, mas... - Foi-me impossível continuar a falar, pois este interrompeu-me.

- Há uma pizzaria fantástica no shopping perto de minha casa! - Gritou, invadindo-me os ouvidos.

- Oh! Tenho muita fome. - Adoro pizza. Mesmo.

Arrancou o carro numa velocidade que me meteu medo, mas quando habituada a sentir aquele vento intenso na cara, devido a todas as janelas estarem abertas, descontrai e estiquei-me no banco. Já nem queria saber a que velocidade ele ia, ou onde isto nos poderia levar. O perigo que isto podia trazer.

- Sabes que podes ser preso por excesso de velocidade, certo? - Recostei-me no banco, procurando uma nova posição, e deitei o braço por fora da janela, deixando-o suspenso a apanhar com aquele ar. 

- Oh, minha querida Faith Miller, eu já estou preso desde que nasci. Preso a mim mesmo. - Disse-o com uma gargalhada irónica.

[...]

O meu telemóvel toca e eu nem sequer tenho a percepção que ele o faz, até que Calum me avisa dando-me com o ombro no meu braço e uma olhada para o bolso das minhas calças.

Vejo o ecrã piscar sinalizando o nome "Clarke" e o meu coração sofreu pontadas de ansiedade em querer atender. Assim fiz, sendo os meus ouvidos invadidos pelos gritos de Daisy, Mary e a própria Clarke.

- Olá Faith! Temos saudades tuas! - Disse Mary com uma calma ansiosa.

- Olá meninas! - Comecei automaticamente a chorar. A chorar baixinho e a esconder o meu rosto cheio de lágrimas de Calum. - Quem me dera puder estar com vocês! 

No meio do caminho, neste shopping, Calum para em frente a mim, cruzando os braços e colocando uma expressão indignada na cara.

- Posso ligar-vos logo? Talvez pudéssemos falar um pouco no skype. Gostaria de ver-vos. - Pronunciei devagar e em baixo tom, tentando não deixar escapar mais lágrimas.

- Estás esquisita! - Ouvi apenas Clarke. De perto. Mais perto. Era só ela agora. Só ela falava, só ela ouvia. - Conheceste alguém?

- Não!

Sim, eu conheci alguém. Óbvio que conheci alguém, senão não estava aqui, com Calum. Mas entendi o "conhecer" que ela conjugava. O conhecer de "atracão", " amor" ou "sedução". E não, eu não conheci alguém assim. Não quero. Não tão cedo, não agora. Não nunca. 
Por favor, não quero outro Tyler.  Não quero sofrer. Não quero mais.

- Só estou com a minha mãe às compras. Eu ligo logo. - Despachei e vi Calum, novamente, indignado e inconformado com a minha mentira.

Desligada a chamada, decidi não dizer mais nada e ambos fizemos um caminho silencioso e mortífero até ao carro. Parecia que nos tinham cortado a garganta fora. Ou talvez Calum esteja tão compenetrado nos seus pensamentos que me envolvem, ou que não me envolvem. Talvez estejamos os dois presos no meio do nada. 
Talvez estejamos presos em nós.

- O que foi aquilo? Quem és tu, Faith? - Ele perguntou-me. Senti o retórico. Ele não queria uma resposta concreta. Ele queria um sinal. Um sinal.

- Uma pessoa. - Respondi sem coragem para o encarar.

- Eu acho... Faith, eu acho que te devias mostrar agora. Acho que devias falar comigo e parar de te matar em silêncio. - Calum disse. A mágoa corroía a voz dele. Ele queria saber. Deveria ele saber?

- Não tenho a certeza se deveria falar sobre a minha vida com uma pessoa que conheço à três dias. - Engoli em seco perante a minha deixa que mais parecia uma acusação camuflada.

O Calum não é só uma pessoa, e eu poderia jura-lo a pés juntos pois senti isso a partir do momento em que ele entrou naquela sala morta de sofrimento e dor. Eu podia jurar que ele era igual a mim e ambos lutavamos contra o mesmo. 
Posso jurar que, por tudo e mais alguma coisa,  ele tinha sido tão magoado quanto eu nesta vida cruel. Neste mundo cruel. Mas, contudo, não quero desvendar os meus medos e segredos. Dar parte fraca e destruir a imagem que criei.

- Pensas mesmo que eu sou esse tipo de pessoa que vai andar a espalhar a tua vida por aí? Tu achas mesmo que eu sou o tipo de rapaz que vai andar a brincar com a tua vida, só porque me Conheceste há três dias. - Franziu os lábios num ato de amargura e tristeza, causadas pelas minhas palavras mal usadas. - Tens vergonha de estar comigo, não é? Eu sei... Toda a gente tem, Faith. Tu és apenas mais uma.

- Não! Não é nada disso! - Tentei remediar a situação, mas isto já tinha ido longe demais naquele coração cheio de uma vida quase morta como a de Calum. Ele está a mostrar. Ele está a mostrar a tristeza que o invade. Que nos invade mutuamente.

Rolo os polegares um no outro. Não consigo negar o nervosismo e a pressão que sinto em cima dos meus ombros. Não posso negar que tudo o que se passa há minha volta me afeta e esta é uma das coisas. O facto de eu não querer quebrar a promessa mental que fiz de me envolver socialmente ou sentimentalmente com alguém, ou até de me abrir e expor a minha vida; os meus sentimentos; o meu passado e a dor que este envolve no meu peito, é tão grande. Como posso eu explicar todos os demónios que percorrem o meu corpo, que prender a minha garganta, e que jogam pingue-pongue com o meu coração e cérebro? 

- Calum, é difícil de explicar. Tenho dezassete anos e eu não quero estar presa ao medo de ser feliz mas, foda-se, é esse o medo que eu tenho! - Gritei. Ele encarou-me surpreendido e consegui ver os seus olhos encherem-se de água. Ele parecia querer chorar.

- Explica-me de qualquer maneira, Faith. - oh, ele está sempre a fazê-lo. Ele está sempre a chamar o meu nome e eu odeio isso. Mas eu não o odeio. Não agora. Não consigo. - Explica-me o porquê de eu não merecer saber o que se passa nessa cabeça e nesse coração. Explica-me tudo, sem receio de nada.

- Calum. - Envergonhada pelo facto de ele se estar a aproximar demais, querer saber, provavelmente, demais, faz-me corar. Sorrir. Afastá-lo. Solto um sorriso e ele deve pensar que eu estou a brincar com esta conversa. - Estamos num carro. No meio de um parque de estacionamento de um shopping. Creio que não é o melhor sítio para ter esta conversa.

- Ok! - Ele diz, rapidamente, ligando o carro. - Então vamos para minha casa.

[...]

- Podes falar agora? - Calum perguntou, aparentemente concentrado no que estava a fazer. Estou deitada na cama dele enquanto este toca no baixo, ensaiando para o concerto desta noite.

- Não te quero desconcentrar, Calum. - Murmurei. - Tocas tão bem. É um som tão relaxante. Tão grave, mas tão relaxante para mim. - Fechei os olhos e deitei-me embalar. - Ensina-me.

Dou por mim a ser encarada por ele, quando eu estava de cabeça suspensa na cama, e ele a olhar por cima do meu nariz.

- Anda. - Ele disse.

Levantei-me, Calum esticou a mão e eu agarrei-a, puxando-me para os seus braços e fazendo-me rodar por baixo destes. Ele colocou o baixo em frente à minha barriga enquanto ambos o segurava-mos. Ele por trás de mim, e eu com dificuldade fingia segura-lo, sabendo bem que era ele que fazia o esforço todo.

- Põe os teus dedos assim, assim e assim. - Calum murmurou colado ao meu ouvido, pondo os meus dedos na posição que ele queria.

O som da sua voz num contacto direto com os meus ouvidos, arrepiava-me por completo. A ideia de que ele tinha uma voz harmoniosa não me saia da cabeça. Fechava os olhos e saboreava aquele som. Tanto o dele como o do baixo.

- Gostas? - Perguntou. As mãos dele coordenavam as minhas.

- Eu... Eu adoro.

- Diz-me, então, o que se passa contigo. - Voltou a dizer ao meu ouvido, apertando-me contra o seu corpo e o baixo, ainda continuando a tocar nele. Sussurrou ao meu ouvido a letra de uma música sincronizada com o som das cordas do baixo. - As tuas mangas estão a perturbar os acordes. - Riu, soltando o baixo e tentando subir as minhas mangas.

- Não faças isso! - Gritei acabando com a harmonia ali instalada. - Por favor. Eu... Tenho... Frio.

Encostei o baixo à parede e sentei-me na beira da cama olhando para o chão como se estivesse em choque com algo. Fixando-me num ponto e balouçando-me um pouco.

- Não me estou a sentir bem. - Disse-lhe. - Eu acho... Eu acho que tu mereces saber, mas eu não quero contar. Calum... Estou... Sem... Ar....

Senti os meus olhos revirarem automaticamente, sem eu os conseguir controlar. Apenas sinto Calum abanar-me e falar comigo, mas na verdade não lhe consigo responder porque estou pressionada demais. Oh, merda. O choro e a agonia são incontroláveis. Eu não devia estar assim.

- Faith, para com isso. Por favor! Fala comigo! - Ele gritava agarrado a mim.

- Eu estou aqui. Eu não vou embora. - Sorri com as faces molhadas, com os olhos molhados. - Estou... Sem... Ar... Por favor... Sê o meu ar... Preciso de alguém. Ajuda-me.

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