Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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9. 08. Esse alguém sou eu

Encosto a cabeça ao vidro do carro como sempre faço durante as viagens. Não sei se pela melancolia instalada por causa das músicas que sempre tocam na rádio, ou se porque os caros têm estas coisas de que quando lá damos entrada somos possuídos por algo que nos corta as cordas vocais e nos incapacita de desenvolver as relações interpessoais neste cubículo.

- E o que é que a menina Miller vai fazer para festejar?

Sou surpreendida por Calum que, ainda que um resto de felicidade me preencha o coração, me desperta desta tristeza superior. Ele estava muito concentrado na sua condução.

- Nada. - Respondi. Ia festejar com quem? Com ele? Sim, talvez. E o que faríamos? Jogaríamos fitas de carnaval ao ar e confetis? - Não é motivo para tanto. - Soltei uma gargalhada para tentar dispersar a atenção dele.

- Espera... Não estás feliz? - Questionou. Assenti-lhe, esperando que ele continuasse a falar. - Então, é um motivo para festejar. E isso chega. Faith, tens de aprender a dar valor à tua felicidade.

- Devíamos dar valor a coisas raras, não é? - Brinquei com os meus dedos, entrelaçando-os uns nos outros, envergonhada e frustrada com esta conversa.

- Dizes-me então que é raro estares feliz? - Volto a assentir, sem palavras possível para dizer. - Não comigo. Comigo vais ser feliz todos os dias Faith. E vais começar por escolher algo que queiras fazer para festejar. Sei lá, conduzir um carro.

- Não tenho carta. - Revirei os olhos perante um sorriso.

- Por isso mesmo.

Olhamo-nos parecendo que ambas as nossas mentes foram invadidas pela mesma ideia, pelo mesmo receio, e pela mesma vontade. Repentinamente saímos, coordenadamente do carro, trocando de lugares, indo eu para o do condutor e ele para o do acompanhante. 
Nestes meus dezassete anos de idade apenas vim a conduzir uma vez, e digo que a experiência, embora boa para mim, não se tratou dessa forma para a minha mãe que estava a gritar no banco de trás com medo que eu espetasse o carro contra uma parede.

Lembro-me também que quando era pequena muitas vezes o meu pai me colocava no colo dele e me dava indicações, mesmo que eu soubesse que era ele quem estava a guiar, a meter as mudanças e a calcar o travão e o acelerador, pois isso era-me impossível.

Sem duvida que de tudo o que me posso recordar que presencie o meu pai, isto contaria como uma memória bastante marcante. Uma memória que me deixa saudades, pois eu sentia-o presente; feliz; lá, coisa que ele agora não o é. Coisa que ele deixou de ser com o passar dos anos e eu unicamente vejo a culpa disso em mim. Talvez porque eu não me tornei naquilo que ele queria, ou talvez porque com o meu nascimento ele deixou de ter tudo aquilo que queria da minha mãe, e a única coisa que adquiriu foram despesas, cargos, responsabilidades.

O meu pai deixou de gostar de mim.

- Pareces nervosa. - Observou Calum. - Não há que ter medo. - Pousei a mão sobre a manete de velocidades e ele sobrepôs lá a sua.

- Eu estou bem. - Sorri, embora tremendo, realmente, de nervos.

- Talvez não seja uma boa ideia conduzires, Faith. - Apreciou desapertando o seu cinto, que já havia colocado, e desprendendo o meu também.

Estou paralisada no passado, nas memórias, no meu pai, nas saudades. Tenho de concordar que sim, de facto ele não foi um bom pai de todo. Nunca tinha as palavras nos momentos certos, nunca sabia como dar abraços. Aquilo que os substituía eram empurrões que, no pensamento de John, eram demonstrações de afeto muito nítidas.

Posso dizer que o meu pai é daqueles que maior parte das adolescentes se queixa de ter, aqueles que só lá estão para apontar defeitos. Sim, confesso que o meu pai é assim.

- Fala comigo Faith. Tu preocupas-me. - Sem eu dar conta ele já estava ao meu lado, com a porta aberta, quase a puxar-me para fora do carro.

- Não tens porque te preocupar com um caso sem remendo. Não valho a pena. - Saltei do carro, confrontando-o com a minha triste realidade.

- Isso faz-me lembrar de que te devo mostrar algo. - Calum parecia ter engolido em seco, demonstrando que lhe custou ouvir aquilo que eu disse. A verdade. A verdade custa.

Estou a estragar tudo como sempre, porque sou sempre eu. O problema sou eu.

Calum começou a conduzir, abstraindo-se de tudo e centrando-se apenas na sua condução. Arranjei uma pose para que o pudesse observar enquanto ele o fazia.

Provavelmente ver alguém abstraído do mundo podia ajudar-me a focar em algo para além do meu passado e daquilo que, para além das noites em que não durmo, não importam.

Vi um sorriso crescer-lhe nos lábios e logo me perguntou o que se passava para eu o estar a observar tão atentamente. Óbvio que me ri sucessivamente, pois este rapaz tinha a capacidade de me arrastar consigo para qualquer coisa, ou para qualquer ação que tenha. Ele apenas me consegue fascinar por ser tão ele, de tantas maneiras diferentes.

Sem lhe responder, coloquei um sorriso no rosto, empurrei o banco para trás e Pousei os pés em cima do tablier. Esperei que Calum me dissesse algo, ou até mesmo reclamasse que nem um doido, mas nada disso aconteceu. Apenas uma gargalhada vindo com um: "- És das minhas, Faith." pairou sobre o espaço vazio daquele carro.

Duas almas vazias, cheias de tudo, com um nada no olhar de quem aguenta um mundo nos ombros. Estes somos nós. Duas almas sozinhas. Duas almas completas de tristeza que outrora foram alegres para disfarçar mas, tal como tudo, se cansaram de fingir, porque ninguém consegue ser um ator para sempre.

- Chegamos. - Ele disse, após uns longos minutos de viagem.

Vi-me demasiado envolvida na música que tocava do CD que Calum havia posto a tocar, impedindo-me de reflectir sobre a imagem que está à minha volta, e concentrando-me apenas nas letras daquelas músicas.

- Estou a ver que gostaste do CD. - Balbuciou ao sair do carro.

- Sim. - Respondi-lhe, seguindo os passos dele, quando este me esticou a mão para eu tomar a minha na dele.

Assim fiz. Tornou-se esquisito este contacto porque, eu estou a dar a mão a alguém.

- É o primeiro CD da minha banda.

- Entendi que sim. Reconheci a tua voz lá no meio. - Baixei o rosto, soltando um sorriso envergonhado.

Por sua vez Calum encarou-me com uma expressão gloriosa de quem estava satisfeito por eu ter reconhecido a sua voz.

Dou de caras com uma paisagem bonita. Uma verdura completamente bem tratada, com flores de várias cores, e por lá passava um vento suave. Soltei a mão dele da minha, e ao mesmo tempo que isso, Fechei os olhos saboreando a brisa que se apoderava do meu corpo enquanto inspirei profundamente este ar fresco. Abri os braços e deixei-me levar, como se o ar o estivesse a fazer. Como se o ar me estivesse a arrastar para longe. Para outro mundo. Talvez para a felicidade.

- Gostas do que vês? - Questionou calmamente. Penso que o fez desta forma para não estragar o momento que eu estou a ter com a natureza, pois a sua voz soou de maneira serena.

- Gosto. - Abri lentamente os olhos.

- Agora senta-te aqui. - Puxou-me para si e sentamo-nos na beira do passeio, continuando a apreciar o horizonte. - Fecha os olhos. - Assim fiz. - Imagina uma paisagem em tons escuros. Feia. Cheia de insectos. Cobras. Ratos. Lagartixas. Lama. Árvores queimadas, e outras tantas a desfazerem-se por cima das pessoas que aqui passavam. - Calum pronunciou-se com uma expressão de revolta, e a sua voz carregava um dramatismo.

Ao som das suas palavras eu ia imaginando o que ele pedia, e digo, não era bom de se ver. Imaginei algo nojento. Sombrio. Horroroso. Terrorífico. 
Imaginei algo que para muitos não passava de uma floresta se remédio.

- Abre os olhos. - Disse-me finalmente. - O que preferes? Aquilo que vês, ou o que imaginaste?

- O que vejo. - Respondi quase sem pensar.

- Então, ainda achas que as coisas não valhem a pena? - Questionou. - Faith, até as coisas mais feias tem algo que se aproveita. Até os passados mais sombrios tem cores. Faith, tu vales a pena. Olha para esta paisagem. Achas que ela seria alguma coisa se não tratassem dela?

- Não. - Abanei a cabeça, engolindo o choro.

- Tu também não vais ser ninguém se não tratarem de ti. Tu precisas de alguém que trate de ti. E esse alguém, esse alguém vou ser eu.

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