Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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8. 07. É o pai do bebê?

"Bom dia. Espero que não te atrases para a consulta. E espero que tenhas gostado da última noite."

Acordo com o bip do telemóvel que me dava a indicação de que havia recebido uma mensagem. Ainda bem que não decidi cair no sono novamente. Ainda bem que a li logo e a deixei que me despertasse, porque juro por tudo, isto foi a coisa mais querida que alguma vez fizeram por mim. Para mim.

Talvez porque nunca ninguém do sexo oposto decidiu ser meu amigo a este ponto. 
Depois da noite passada ainda me Pergunto, sim, se isto é certo ou errado, e vou continuar a perguntar cada vez mais à medida que isto evolui.

Posso dizer que não esperava gostar daquilo que vi, e posso dizer que fui surpreendida pela sua dedicatória quando decidiu cantar a "Beside you". Nunca ninguém me tinha dedicado nada. Nunca, para além daquelas músicas que durante uma conversa eu e as minhas amigas dizíamos que: " OH, esta música é para ti." 
Depois de ter testemunhado o sucesso que aquela banda tem, quando anteriormente dito por Calum, decidi voltar para casa.
Já era tarde e eu sei bem como funciono para acordar cedo. Não funciono.

"É quarta-feira. Odeio quartas." Escrevi com dificuldade, pois estava com um olho aberto e outro fechado enquanto o fazia, mas mandei-lhe isto. Sendo seguida e rapidamente respondida com um: 
"vá lá Faith Miller. Levanta-te da cama e vai ao médico."

"Calum, tu és como uma quarta-feira. Eu odeio-te. ;)"

"A sério? Oh, o meu mundo acabou agora. ;(" "Despacha-te porque enquanto tu vais a uma consulta há quem tenha de ir para o martírio chamado escola." 
"Bem feita, Calum Hood." "Adeus. :)"

Larguei o telemóvel em cima da cama, por entre risos causados pela nossa conversa, lembrando-ne do momento de ontem onde trocamos os número de telemóvel.

[...]

- Anda, eu levo-te a casa. Já é tarde para ti, não? - Interrogou Calum quando me viu encostada ao balcão, a dúvida se devia ir ou ficar.

- Sim, um pouco. - Trinquei o lábio por entre um sorriso.

Mas valeu a pena.

Despedi-me dos outros rapazes da banda, ao qual Michael piscou o olho a Calum. Oh, eu entendo bem o porquê daquilo. Ri ao perceber automaticamente que o rapaz ainda estava com esperanças que Calum "desencalhasse", tal como me havia segredado à uns minutos atrás. 
Ele não vai desencalhar comigo.

- Não ligues ao que eles dizem. - Calum disse-me, após alguns momentos de silêncio quando ambos estávamos no seu carro, embaraçado. - Gostaste? - Questionou já ansioso pela minha resposta.

- Talvez. - Sorri para ele, vendo-o usar uma expressão indignada e engraçada.

Estou com tanto sono que, de cada vez que me encosto à janela do carro, sinto-me prestes a adormecer lentamente. Para tal não acontecer fixei-me nas ruas de Sydney e nos seus encantos a esta hora.

Nas explanadas que ainda estavam abertas, raparigas e rapazes de mãos dadas, trocando beijos e caricias era o que mais se via. Uma melancolia automática foi instalada em mim, como se eu sentisse falta de algo. Ou como se eu me estivesse a lembrar de algo. Eu estou a lembrar-me de algo.

"Adeus." Disse, naquela altura, quase em lágrimas na minha despedida a Tyler, quando tivemos uma discussão.

No momento em que virei costas, foi quando me senti a ser puxada. Por ele. Colou o seu corpo ao meu, enquanto me agarrava pelo cotovelo, tentando exercer posse sobre mim. 
Não me queria largar dele. Daquele beijo. Os seus labios acariciavam os meus, deixando-me docemente exaltada. Quem disse que uma rapariga com dezasseis anos não pode ter outras vontades? Pois bem, a minha era empurra-lo contra a parede e fazer coisas com ele ate chegar à exaustão. Eu quero possui-lo, te-lo só para mim.

"Tu não podes ter duas." sussurrei levemente contra a sua boca. Eu queria ser a única, mas neste momento não me importava de ser a outra.

"Só quero uma." disse-o de igual forma.

"Porquê é que eu tenho o pressentimento que essa não sou eu?" choraminguei.

"És."

- Faith! - Calum gritou despertando-me do meu pensamento.

Isto de estar sempre a pensar no passado e em Tyler era enervante. Ainda para mais quando eu nunca o tive, nem nunca o vou ter. Para mim foi o meu primeiro beijo, mas para ele foi só mais um. O que faz com que para mim também tenha de ser insignificante, canso contrario está tudo perdido.

- Desculpa. - Sorri envergonhada. - O que dizias?

- Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas.

- Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu. - Arranjei uma postura melhor no banco e acariciei o meu próprio corpo, protegendo-me do frio e das palavras que havia dito. Não sei se foram ou não cruéis, mas foram aquilo que eu sinto e isso é o que conta. Eu acho.

- Porque não eu? - Paramos no semáforo. Estávamos a chegar. Realmente o caminho não era muito grande.

- Porque és rapaz.

Deixei-me ser atacada com o seu olhar meigo que nesta altura parecia mais que isso. Era um olhar quente que me esfriava.

- Hum... - Pareceu-me atrapalhado quando tentou falar. - Dá-me o teu número.

[...]

A consulta está marcada para as nove da manhã, e eu já devia ter bebido pelo menos um litro e mio de agua, mas nem isso fiz. Sim, porque eu vou fazer uma ecografia e para isso é necessário eu ir com a bexiga cheia de água.

Preparo-me rapidamente e desço as escadas pegando numa garrafa de água e na minha bolsa com os documentos. Quando olho para a receita da ecografia tremo, pois faltam poucas horas para eu saber algo. Para ter uma luz, um sinal. E eu tenho medo do que possa sair daquela boca de quem me vá fazer a ecografia.

- Bom dia, Faith. - Ouvi a voz da minha mãe chegar aos meus ouvidos com um certo tremor. - Vais para as aulas? - Interrogou com um sorriso de quem me pedia desculpas.

Ao som disto virei a cabeça na direcção a ela, olhando-a discretamente de lado. 
Como é que é possível vivermos nesta hierarquia em que eu me encontro no degrau de baixo, e em cima - no topo máximo - se encontra a pessoa que mais nos maltratou? Como é possivel ela nem sequer se lembrar daquilo que eu tenho passado de há uns meses para cá quando me meteram na cabeça que eu poderia não ser mãe?
Oh, certo. Ela não se importa comigo. Ninguém se importa. A minha mãe é só mais uma na lista.

- Claro. Para onde haveria de ir?

Não nego ter ficado magoada, e o meu coração pode dizê-lo agora sem temer que, por cada batimento que ele dá, o seu ritmo marca tristeza. O seu ritmo marca o meu nome e a vontade que eu tinha de ser importante para alguém. De eu ser importante para a minha mãe. De, com o passar do tempo, não me ter tornado nesta segunda opção. Neste ombro criado apenas para um conforto temporário.

Sempre que, ou na hora de jantar ou na hora de almoço - dependia da disponibilidade de cada uma - nos sentávamos à mesa e éramos acompanhadas pelas noticias na TV, viamo-nos a comentar sobre o mundo à nossa volta e sobre os defeitos deste que, muitas vezes partiam de relações familiares.

Lembro-me também que de todas essas vezes a minha mãe dizia, quando por exemplo a noticia era sobre um filho renegado pelos pais, ser uma total estupidez e cobardice por parte dos progenitores fazem algo de tremenda crueldade.

E agora, enquanto a encaro com a pena de a ver tornar-se no que se tornou, pergunto-me a mim mesma - pois esta solidão não permite perguntar a mais ninguém - onde está a mulher dona daquelas palavras? Onde está a pessoa que achava absurdo um pai abandonar um filho? Onde estás tu e porque me abandonaste?

- Tenho de ir. - Avancei com uma magoa instalada na minha voz, e um nó que me prendia as cordas vocais.

- Tem um bom dia, querida. - Ela disse, e a minha resposta foi um revirar de olhos para ela que neste preciso momento fingia preocupar-se comigo.

[...]

Ando de um lado para o outro na sala de espera, com uma garrafa de agua já quase vazia. A senhora que me irá fazer a ecografia disse-me que, se eu andasse assim de um lado para o outro, a beber água mais depressa eu iria estar pronta para o exame, pois a minha bexiga iria ficar rapidamente mais cheia.

Confesso que o meu nervosismo acelerava a minha vontade de urinar, o que logo me deixava pronta para a ecografia.

Estou sozinha, completamente sozinha agora. Neste momento. Aterrorizada pelo medo de não ser só no presente, e ser para sempre. Eternamente.

- Pronta? - A senhora toca-me no ombro quando chega a mim, e eu tremo assustada, mas logo lhe assinto e sigo-a enquanto esta me dava indicações. - Entras aí nessa porta, e deitas-te na cama. Esperas um pouquinho e eu já volto, Ok querida? - Novamente assinto. - Oh, pareces assustada. - Recuou ainda antes de sair da minha beira. - Não precisas, princesa. Vai tudo correr bem.

Solto-lhe um sorriso e vejo a mulher, alta, de meia idade, e cabelos negros amarrados num rabo-de-cavalo, desaparecer pela porta ao lado da qual onde eu entrei. 
De certo que não serei a primeira adolescente a entrar aqui e a ter estas dúvidas e inseguranças sobre o futuro, ou o passado. Sobre o presente. Sobre o poder ou não.

Desço um pouco as calças e subo a t-shirt, deito-me na cama preta, coberta com um papel de cima a baixo e fico a contemplar o teto no tempo em que espero por ela.

Eu podia estar acompanhada. Eu podia não estar sozinha. Mas não é assim que as coisas se sucederam. Não foi assim que o meu destino foi escolhido. 
Pelos vistos eu não sou uma pessoa de pessoas.

- Desculpa a demora, querida. Estava a tratar de outro paciente. - Com um sorriso caloroso a mulher aconchegou-me, colocando um papel preso ao elástico das minhas cuecas. - Isto é suficiente. - Balbuciou de si para si. - Então, o que te trás aqui? O porquê desta ecografia?

Num suspiro vejo-me a encarar estas paredes cinzentas e brancas, compartimento escuro, com uma pequena luz que tratava de ser o monitor do computador. Porquê? O porquê de estar aqui?

Os meus pensamentos e reflexões foram interrompidos por alguém a entrar nesta sala de rompante. Achei ser uma enfermeira qualquer, mas quando olho por cima do ombro da doutora, deparo-me com algo que me deixou a hiperventilar por segundos a fio. Oh, merda.

- Desculpem demorar. Não me estavam a deixar entrar. - Por entre uma respiração ofegante, Calum adentrou o consultório, reflectindo em si as luzes que mostravam a testa coberta por pequenas partículas de agua ao qual chamamos de suor. 

- É o pai do bebê? - A doutora perguntou, embora eu notasse nos seus olhos que brincava com a situação.

- O quê? Faith! Estás grávida? - Num guincho afónico, misturado com a falta de ar que tivera, Calum questionou, assustado.

- Não! - Respondi logo em defesa. - Estou a fazer esta ecografia justamente porque tenho receio de não poder ser mãe!

- Eu estava a brincar! - Disse a senhora, rindo, aparentemente, da cara de Calum. - Queres um copo de água, rapaz? Ficaste um pouco amarelo. - Soltou uma gargalhada. - Se vocês usarem preservativos, não há nada a temer, e vocês não irão ser pais tão cedo. - Informou a senhora.

- Nós não... - Gaguejei. - Nós não somos namorados. - Retifiquei o erro dela, acompanhada com Calum, que disse exatamente o mesmo que eu, ao mesmo tempo.

- Oh. - Murmurou embaraçada, pegando nos materiais necessários.

Calum sentou-se num banco ao meu lado e eu notei que ele não sabia o que haveria de fazer neste momento. Curvou-se sobre a cama e deu-me a mão, entrelaçando os seus dedos nos nós dos meus. Pestanejei algumas vezes seguidas, deixando umas gotas de lágrimas escorrerem pelos meus olhos.

- Então, uma ecografia pélvica. - Murmurou a mulher. - Tens medo de ter um ovário poliquistico? - Questionou.

Olhei para ela. De facto era-me impossível encarar Calum. Ele está a faltar às aulas por mim. Porque eu lhe havia confessado ontem o medo que sentia, e a ausência de alguém que se importasse.
Mas, ainda que perante a esta bondade completa por parte dele, não lhe consigo olhar nos olhos. Não lhe consigo olhar porque ele foi o único que abdicou de algo para estar aqui, para mim. Para segurar na minha mão enquanto tremo de medo, e para me segurar na cabeça quando eu a baixar para chorar. Quando eu tiver a confirmação que não poderei ser mãe.

- Sim. - Sussurrei. - Disseram-me que era possível eu ter, pois o meu período é demasiado irregular.

- Veremos.

Começou por deitar um liquido na minha barriga e depois percorreu por cima deste com uma sonda, carregando na minha barriga e olhando para o monitor. Aquilo magoava-me, ainda para mais quando eu tinha de lutar contra a minha vontade de urinar, devido à quantidade de água que tenho na minha bexiga. 

Contenho a dor, trinco o lábio e olho finalmente para Calum que me contempla com uma expressão de compaixão. Articula os lábios dizendo: "Vai tudo correr bem." Volto a olhar para a senhora, sem qualquer tipo de reação possível para com ele. Esta ainda se mantinha muito concentrada a olhar para o monitor, e pelas suas expressões contraditórias e na maneira como abanava o queixo, algo parecia estar mal. O meu coração batia como tal. 

Uma mão acaricia-me a testa, o cabelo. Afaga-me o rosto e limpa-me as lágrimas. A mão de Calum. Ele. Ele estava aqui e não me deixou sozinha.

- Bem. - Prosseguiu a mulher de cabelos negros. - É claro que tem quistos. Mas não seria uma pessoa normal se não os tivesse, pois todas as mulheres tem. Quistos funcionais. - Ao ouvir isto, apertei Calum com toda a força. - De resto, está tudo bem, querida. Eu disse que ia estar. - Sorriu, limpando a minha barriga. - Não há ovários poliquisticos aqui.

- Oh, meu Deus. - Suspirei de alivio. - Oh meu Deus, obrigada.

Dou um pulo da cama, ficando sentada nesta. A doutora riu com a minha reação. Encarei Calum que, mais uma vez, parecia olhar-me com admiração. Oh, porquê?

- Já posso ir? - Engoli o choro de felicidade que se preparava para sair, e o grito que me preparava para dar inconscientemente.

- Sim, princesa.

Apertei as calças e desloquei-me até à recepção, rapidamente, achando que Calum viria atrás de mim, mas quando olho para trás deparo-me com a ausência dele. Olho para dentro da sala. A doutora está lá, com ele, e a única coisa que eu tenho percepção de que se passa, é que ele mantêm a mão na sua cabeça, e coça-a, mostrando a sua expressão atrapalhada. 

Depois, vejo também a mulher de cabelos negros e bonitos passar-lhe algo para as mãos. Aguço a visão e, oh merda. Merda outra vez. 
É inevitável não me rir perante isto. Perante o facto de que a mulher acha que temos algo e de que lhe acabou de dar umas quantas saquetas de preservativos para a mão, claramente por causa disso.

- Desculpa, Faith. - Riu ele ao chegar ao pé de mim. Ainda estava a meter o seu pequeno presente ao bolso.

- Bem, estou a ver que tens uma diversão para as próximas noites lá no bar. - Franzi o cenho, mas logo ri, não conseguindo manter uma expressão seria perante isto. - E... obrigada. - Sussurrei.

- Faith... - Puxou-me para um abraço, e eu juro não me ter importando com o demasiado contacto fisico neste momento, pois soube tão bem saber que tinha ali alguém. - Tu és uma pequena rapariga que eu gostei de conhecer. Aliás, que eu estou a gostar de conhecer, pois ainda não sei o suficiente sobre ti. Mas sei que tens carência de carinho, de atenção. Que tens um passado. Que tens demónios. Que tens medo, e solidão. E, Faith, todos temos fases na vida. Eu vou ajudar-te a ultrapassar todas elas, pelo menos enquanto puder.

 

 

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