Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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6. 05. O palhaço e a tatuagem

- Eu simplifico aquilo que para ti é complicado, Faith Miller. - Calum prenunciou em tom de brincadeira, mastigando o último pedaço de sandes que tinha nas mãos.

Exato, ele fez sandes como me havia dito para fazer, embora eu não o quisesse, pois se o convidei para almoçar cá, no mínimo algo de jeito ele deveria comer. 
No entanto ainda achei divertido o facto de me sentar atrás do balcão e vê-lo articular-se por entre os tachos e as panelas primeiro, tentando encontrar o sitio das coisas que pretendia obter. Claro que eu não ia ser boa pessoa se não me risse dele, pois ele fez tudo sem me perguntar uma única coisa. Realmente ele simplificava o que para mim era complicado.

- Moras sozinha, ou...? - Questionou sem acabar a frase, entendendo obviamente o que este pretendia perguntar.

- A minha mãe está a trabalhar. - Respondi, sem conseguir deixar escapar um sorriso.

Calum rodou na cadeira, divertindo-se e soltando umas gargalhadas. Franzi-lhe uma sobrancelha. 
Levantei-me, continuando a apreciar a felicidade daquela criança. Quem diria que ele ia estar aqui agora. Que alguém ia estar aqui agora. 
Contorno a cozinha, indo até ao corredor e sucessivamente ao meu quarto. Logo apareceu Calum a correr com uma expressão preocupada que mostrava ter um certo medo de se perder ali. A casa não é tão grande assim.

Atirei-me para cima da cama e comecei por ligar o computador, enquanto o rapaz contemplava todos os pontos do meu quarto. Fixou-se num em concreto após vários segundos a olhar para tudo. Era a guitarra. A minha guitarra acústica.

- Costumas sair? De noite. - Desviou o olhar do seu ponto máximo, e encarou-me.

- Não. Quer dizer, aqui não. Em Melbourne eu saía bastantes vezes. - Reparo que ele voltou a olhar para a guitarra e que provavelmente ignorou a minha resposta. - Podes ir buscá-la. Ela não morde. - Ri.

Num pulo de felicidade eterna, Calum levanta-se e alcança-a em apenas dois passos. Coisa que eu faria em cerca de 5. 
Ele acaricia-a como se fosse uma pessoa, e toca em cada corda tão devagar como se tivesse medo de as partir. Finalmente começou a tocar uns acordes combinados de uma música, seguido de uns riffs vocais que me davam a entender ser a "I miss you" dos Blink-182. 
Desvio as atenções do computador, onde nele me deparo com a resposta de Clarke, e fico a admirar Calum e a sua paixão por aquilo que está a fazer.

- Esta foi a primeira música que toquei com o baixo. - Sorriu ternamente, olhando para o chão, sem nunca deixar falhar um acorde. Um perfeito acorde.

- Não sabia que tocavas algum instrumento. Sempre te vi como o típico jogador de futebol, apenas com jeito para isso. - Admiti.

- Sim... - Riu. - Também o fui. Mas agora dedico-me 100% à banda.

- Tens uma banda? - Questionei admirada.

Ele assente sem qualquer outro tipo de pronunciação, deitando-me curiosa sobre o que podia estar por trás disto. Pousou a guitarra em cima da cama e subiu as mangas que o estavam notoriamente a incomodar, desvendando algumas tatuagens no seu braço.

- Gostava de fazer uma também. - Baixei o rosto sob os acordes melancólicos que ele tocava e voltei a centrar-me no computador.

"Estou aqui Faith!!!" - Dizia uma das mensagens de Clarke. - "fala comigo." "Dá-me atenção. Faith Miller." - Imaginei-a dizer isto, totalmente revoltada a clicar fortemente nas teclas, como se a partir daí eu a ouvisse. - "web?"

Eu tinha estado suficientemente distraída com Calum para não conseguir ouvir os bips vindos do computador, dando sinal à entrada das mensagens dela.

- Agora não posso, anjo. Mais daqui a pouco ligo. - Mandei-lhe rapidamente, ao que ela me respondeu um smile triste e logo depois um "ok".

Fecho o computador. Ele continuava a tocar com toda a atenção possivel e eu revirei-me na cama, deitando-me ao lado dele, de barriga para cima. Fiquei a admirar o tecto. Bem, na verdade não. Na verdade eu só olhava para ele e pensava que estavam pintadas coisas, coisas aleatórias que outrora me haviam dito respeito. 
Estou a ser embalada pela música, juntamente com os pensamentos.

- Então, e o que quererias fazer se pudesses? Como tatuagem. - Inquiriu.

- Um mocho.

- Porquê um mocho? - Deitou a guitarra no chão e arranjou uma posição confortável junto a mim, contemplando-me. Era constrangedor. Ele parecia que me admirava.

Nunca ninguém me havia admirado desta maneira. Nunca, a não ser o Tyler que em outros tempos eu julgava ser único e verdadeiro.

- Porque é o símbolo da sabedoria. E também é um animal que vê tudo... Até aquilo que os outros não vêem. - Finalizei. 

Cruzou os braços por baixo da cabeça e sorriu, olhando para o teto como se estivesse a ver estrelas. Encarei também eu o teto. Deixei-me ficar ali perto dele, logo eu que não queria. Que não me queria dar assim tão bem com alguém desde a primeira vez, pois eu sei exatamente o que se sucede a seguir.

As pessoas são como bombas, são máquinas surpreendentes que nos fascinam e brincam com as nossas peças, nomeadamente com o coração. As nossas almas são como robos. Sem vida.

Então, eu comparo os meus relacionamentos sociais com robos. Com brinquedos, com peças. Tudo acaba desfeito, tal como os robos quando se estragam. Ou postos de parte como os brinquedos quando deixam de ter graça.

- Posso fazer-te a tatuagem se quiseres. - Disse-me Calum, extremamente sério, mas ainda assim não o deixei de levar na brincadeira.

- Naa. - Ri. - Ainda saia um palhaço em vez de um mocho. - Gargalhei, dando um impulso que me fez sentar na cama.

- Faith. - Revirou os olhos. - Estou a tirar um curso de tatuador.

- Ok... - Respondi, engolindo em seco, hesitante. - Vou pensar nisso, então.

Posto isto, Calum olhou para o relógio e eu esperei que ele me dissesse as horas, pois não faço ideia de que horas sejam. Seguidamente usou o seu tronco como um batuque e fez uns sons, assobiando também. 

Lembro-me que da única vez que um rapaz entrou em minha casa, foi expulso pela minha avó que habitava na casa ao lado. Deu merda, como a Daisy diria. 

Suspiro fortemente relembrando-me desses momentos em Melbourne, e a meio do meu ato, um grito vindo da rua interrompeu-me, assustando-me.

[...]

- Se não ficas comigo, não ficas com mais ninguém.

A famosa frase de alguém que não se contenta com o fim de algo, invadiu os corredores de toda a minha casa, cortando a minha respiração. Mas o pior viria a seguir, e ainda nem esperava por algo assim. O som de uma arma a cortar o silencio imposto nos segundos mortos. Um grito veio depois. O grito da minha mãe, os gritos dela.

- Para, por favor. Para. - Ela suplicava e por momentos imaginei o cabelo preto dela ser puxado com toda a força possível. - Estás a magoar-me, para!

Desci as escadas, não tinha medo de nada. Pelo menos nessa altura. O medo não estava em mim nessa altura. Corri rapidamente pelas escadas e vi a morte. Vi a morte chegar bem perto de mim, e onde estava a importância? Provavelmente na cabeça de alguém que já tinha morrido antes de mim. Provavelmente na cabeça do meu antigo eu.

A minha mãe estava encostada a uma parede, lavada em lágrimas enquanto o meu suporto antigo padrasto a ameaçava com uma arma bem apontada para o seu coração. 

Desço as escada e ela já me vê, embora não se pronuncie a não ser com alguns olhares de piedade e medo com o que ele pudesse fazer quando me visse. 

Lentamente apunhalei-o pelas costas com uma jarra que estava pousada em cima de um baú na sala, partindo-a em pedaços na sua cabeça. Esguichos de sangue saíram, mas Peter não se deu por vencido, apontando-me a arma.

- Não lhe faças isso! - Gritou a minha mãe, Bela.

[...]

- Ouviste? - Calum tocou-me, e eu saltei assustada.

A verdade é que o meu flashback me deixou frágil, e as lágrimas estão prestes por escorrer pelos meus olhos e eu não quero. Não quero ser fraca por chorar e me desfazer nessas partículas sem noção.

- O quê? Desculpa. - Sorri fracamente.

- Estás a chorar? - Questionou.

- Não, não. - Aprecei-me por responder.

- Eu e a minha banda vamos dar um concerto esta noite no bar central. Queres vir? - Convidou, num sorriso orgulhoso que me convenceu, mas infelizmente era-me impossivel ir.

- Não posso. Fica para a próxima.

Se houver próxima. Não gosto de fazer planos a longo prazo. Ou planos. Desde que os fiz pela ultima vez, tudo deu errado, então eu prefiro deixa-los bem longe de mim.

- Amanhã nem vou às aulas de manhã. Vou ao médico. - Revirei os olhos. - E confesso que estou ligeiramente nervosa. Mas irá passar.

- Nervosa, com o quê? - Inquiriu.

- Vou sozinha. - Disse, baixando o rosto. - Fazer uma ecografia ao útero. Para ver se tenho ovários policístico.

Olhou-me confuso, como se não entendesse nada que eu tivesse dito. Provavelmente não entendeu mesmo, mas eu não queria dar mais qualquer tipo de justificações, até porque estou a ir longe demais com a afinidade que estou a sentir com Calum.

- Porque não vais com a tua mãe? - Oh, merda. Tocou na ferida.

- Porque ela deixou de se importar comigo há muito tempo. - Respondi

 

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