Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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5. 04. Fumar mata, Faith

Caminho sozinha para o portão, pretendendo sair desta escola rapidamente, com o intuito de ir para casa e possivelmente atirar-me para a cama, dormindo seguidamente. As aproximadamente quatro horas que dormi não chegaram para me manter estável durante este tempo todo de aulas.

Provavelmente ainda teria de chegar a casa e fazer o almoço, pois a minha mãe foi fazer o turno de dia, e agora só chega a casa às oito da noite.

Não me questiono, nem muito menos preciso de o fazer, sobre o que cozinhar, pois certamente vou comer apenas uma lata de salsichas e está feito.

Ao chegar, por fim, ao portão, sob os empurrões de todos os outros adolescentes histéricos e mortos por ir para casa, sou retida pelo porteiro. Quando sei o motivo de tal, reviro os olhos pois esse é o meu modo eterno para encarar os problemas da vida.

- Tens de passar o cartão da escola nessa máquina aí. - Avisou o homem puxando-me para trás bruscamente pelo braço, quando dei o passo em saída do portão.

- Não tenho o cartão da escola. - Disse meia atrapalha, ainda sem entender o que se estava a passar.

Quando, antes de eu entrar para esta escola, a minha mãe veio cá falar com a direção desta, eles deram-lhe um papel em que dizia que iria ser obrigatório a circulação na escola com um cartão "oferecido" por esta, mas em contrapartida não tenho cartão nenhum ainda.

O homem, alto, de cerca quarenta anos, moreno e com uma expressão rude no rosto, olhava-me esperando que eu tirasse o dito cartão. Continuei a encará-lo sem dizer uma única palavra, na esperança que este entendesse que existem alunos novos todos os anos e eu sou uma delas.

- Hum... sou nova na escola. - Preferi adiantar, uma vez que ele não capaz de juntar as peças deste puzzle.

- Então, tens de mostrar o teu cartão de cidadão. - Rematou, com voz rouca e uma expressão agressiva.

- Mas isto é uma prisão? - Inquiri, completamente frustrada com isto.

Primeiro não nos deixam sair da escola nos intervalos, nem que seja para ir ao café da frente comer alguma coisa mais elaborada do que aquilo que há à venda nesta coisa que chamam de escola; depois não nos deixam sair sem ter o cartão da escola ou o de cidadão.

Realmente isto parece uma prisão. A começar nas grades e a acabar nos prisioneiros que somos. Todos aqui metidos, diferentes, loucos por vezes. E não digo isto por acaso, até porque sou apologista das pessoas que vêem a escola como uma prisão. As nossas almas estão presas aqui dentro. As almas de jovens como nós estão aqui presas.

- Também não o tenho aqui. - Franzi o sobrolho, dando a justificação após a minha revolta inesperada.

- Então o teu encarregado de educação terá de te vir buscar. Tens de ser maior de dezoito anos para saires sozinha. Tens mais de dezoito anos?

Mentalmente levo as mãos à cabeça e reviro os olhos num suspiro intenso que me deixou sem ar nos pulmões. Brinco com a língua dentro da boca e trinco o interior da bochecha para não me irritar - exteriormente - ainda mais.

- Eu preciso de ir para casa agora! A minha mãe está a trabalhar. - Informei, contorcendo-me de desespero.

- Ei, senhor Wilkson! - Ouvi gritarem por fora da escola. O som daquela voz vinha pelo meu lado direito. Parecia uma respiração ofegante e quando dou por mim vejo-me a apreciar Calum que me sorri abertamente, e me puxa para ele lentamente, voltando-se para o porteiro. - Ela é da minha turma. Nós já acabamos as aulas, sim. Ela vem comigo.

Silenciosamente agradeço-lhe por ter aparecido aqui nesta altura em que eu até já esperava ter de ficar fechada na escola. Calum tinha-me muito perto de si e do seu peito, sentindo eu, com a minha mão sobreposta na dele, o coração palpitante habitante dentro deste.

Ele era capaz de ser uns trinta centímetros mais alto que eu. Acreditava vivamente nisso, pois eu tinha de estar quase que totalmente esticada para chegar ao lugar que Calum pretendia.

Ainda que estando desconfortável com o contacto corporal, não me soltei dele. Afinal era exatamente ele que me iria salvar desta escola, não é mesmo?

O dito senhor Wilkson fixou o seu olhar no meu, parecendo querer decorar a minha cara. Sorriu para Calum e assentiu a cabeça, aprovando a saída da minha pessoa daquela escola.

Mal consegui, soltei-me dele. As suas mãos que cobriam as minhas, eram grandes, morenas, e estavam tão quentes que eu posso dizer que aquilo me aqueceu um pouco. Embora estivesse um pouco de sol, e eu me encontrasse de manga comprida, o frio apoderava-se de mim.

A minha pessoa não tem meios termos. Ou estou com um calor dos infernos, ou com um frio dos diabos.

- Parece que te Salvei, Faith.

Decidiu abordar-me, envolvido numa gargalhada, rompendo todo o silêncio constrangedor naquela rua feita de paralelos e medos. Medos de quem um dia sonheu ser algo e hoje não o é. Medos de pessoas. Medos de morrer. Vejo-me a encarar a realidade de que todos temos medo de algo, nem que seja de um mínimo inseto.

Sem lhe responder e apenas olhando para ele pelo canto do olho, ergo uma sobrancelha. Calum, por sua vez, imitou-me de forma engraçada, lançando uma careta seguidamente.

Ambos calamo-nos no final destas acções que nos manteram em contacto. O contacto acabou.

- Obrigada. - Claro que ficava bem da minha parte agradecer-lhe porque, sim, é como ele disse, salvou-me.

O silêncio voltará a apoderar-se de nós. Estamos na rua paralela à escola, transtornados por algum motivo. Por motivos diferentes. Cada um há sua maneira. 

Prometi ir para casa, descansar, e onde me encontro agora? Exatamente aqui, sentada na berma da rua com um rapaz que eu mal conheço.

- Moras aqui perto? - Perguntou.

- Perto da rua dos bares. - Respondi com o busto baixo, em tom quase inaudível.

- Autocarro?

- Sim, vou de Autocarro. - Ainda não sei a razão, mas as questões que ele me está a colocar deram-me vontade de rir. Talvez por a curiosidade dele, ou talvez pela minha estupidez de achar isto engraçado. 

- Queres boleia? - OH, ele parecia tão sério neste momento.

- Conduzes?

Ele assente, atirando ao ar e apanhando umas chaves. Sorri-lhe levemente. O que poderia acontecer se eu aceitasse? Ou o que poderia não acontecer? 

Vejo-o de rosto baixado. Admirava o chão talvez. Ou então, deixava a sua tristeza transparecer.

Reparo que, como se tivesse sido um flash que ele havia tido, mexe-se freneticamente e retira algo da mochila. Oh não. 

Respiro fundo. Levo uma mão à cabeça e tento controlar-me. Ele acabou de tirar um maço de tabaco. Merda.

Faith, Faith, Faith ...

- Calum? - Pergunto de manso com ele a dar-me um pouco de um sorriso enquanto me olhava pelo canto do olho.

Ele abana a cabeça dando-me passagem para falar. Toda aquela mascara que de qualquer maneira eu havia criado para me proteger de tudo, parecia cair aos poucos. Eu parecia deixar-me render há vontade e ao desejo que possuía de me deixar mergulhar em algo que me mata. Lenta e eficazmente.

- Dá-me um cigarro, por favor. - Pedi tão docemente, como se fosse uma pequena criança a pedir um rebuçado.

Calum não reagiu. Não disse sim nem não. Apenas continuou a admirar o chão. Ele ficava em outro mundo quando fumava.

Toquei-lhe com o indicador, na esperança de que ai ele dissesse algo. Na esperança de que ele nem me tivesse ouvido da primeira vez.

- Não. - Respondeu seco, sério. Não me atrevo a dizer arrogante, porque dessa forma ele não é, mas com uma certa agressividade na forma como cuspiu as palavras.

- Porquê? - Perguntei, indignada, levando a mão ao peito e colocando a tipica expressão de indignação que costumo adquirir nestas situações.

- Não tenho mais cigarros. - Disse-o, novamente, com uma voz zangada. Desta vez misturado com o fumo que deixara entrar nos pulmões.

- Tens o maço cheio. Na mão! - Atirei-lhe à cara a mentira, pausadamente para que este sentisse mais as palavras.

- Não gosto de raparigas que fumem. - Encarou-me finalmente, olhos nos olhos, da maneira que eu detesto e ele desconhece isso, embora tenha acertado exatamente no ponto fraco.

- Boa. Mas, Calum, eu não te pedi para gostares de mim. Eu pedi um cigarro.

Foi como se o mundo parasse, causando uma nostalgia que voava no nosso meio. Ambos precisávamos do mesmo para nos satisfazer. Desde que cheguei de Melbourne que não toquei num cigarro. Confesso que me estava a tentar controlar, mas ele... aqui... com um maço cheio. O que poderia fazer eu com esta vontade enorme? Oh, a forma como ele coloca aquilo por entre os lábios. Oh, eu desejava ser aqueles lábios apenas para ter o cigarro entre eles, apenas para ter o cigarro.

- Fumar mata, Faith. - Ele disse-o como se fosse o conselho mais certo. Ele também fumava. É a típica "faz o que digo, não faças o que eu faço."

- Tu estás a matar-te.

- Quem disse que eu não queria? A morte dá sentido à vida.

Aquela mágoa expressa em cada palavra, veio a confirmar tudo aquilo que anteriormente eu havia suspeitado. Toda aquela tristeza, solidão. Tudo aquilo era devido a vários fatores incógnitos, que espero vir a saber algum dia. Calum era semelhante a mim. Suportava dentro dele todos aqueles demónios que nunca serão possíveis de se explicar.

- Então, e quem disse que eu também não queria?

Lembro-me tão bem de no décimo ano ter falado da vida e do seu sentido. Na altura ainda eu pensava que tinha sentido e que a vida valia a pena. Agora? Agora apenas estou aqui por estar. Perdi a definição e o sentido da vida. Perdi a minha pessoa interior, a minha alma, a minha alegria. Ou então ela só é exposta em casos extremos. Raros.

Calum pousa o maço na berma da rua onde estavamos sentados, no meio de nós os dois, dando-me, embora receoso, permissão para usufruir daquela delicia que outrora a minha Daisy disse enquanto um dia eu arrumava a casa e ela me acompanhava com as suas filosofias: "Isto faz tão mal, mas sabe tão bem." Daisy, Daisy. Desejava que estivesses aqui agora. Provavelmente ia impedir-me, e eu não me iria importar. Provavelmente nem lhe ia pegar porque tudo isto foi pelo facto de que a minha vida estava com elas. Com Mary, Clarke, Daisy. Mas a vida não é certa. Qual é o meu refugio agora, se elas não estão cá?

Pus, finalmente, o cigarro por entre os lábios e com o isqueiro que Calum me emprestara quase por obrigação, acendi. Oh, como era tão bom deixar o fumo entrar dentro de mim. A felicidade chegara. Isto era, sem duvida, a definição de felicidade.

- Vamos? - Elevou o tom, trazendo-me para a realidade. - Vens comigo, Faith?

- Sim, desculpa.

Levantei-me e segui-o, chegando ao lado de um carro preto. Não reparei a marca. Mais uma vez não me interessa. Entrei. Estava envergonhada. A sensação de entrar para um carro desconhecido, para este carro, era tão semelhante de quando entrei para o carro de Tyler.

Sentia as borboletas na barriga e a emoção nas veias.

- Será que vamos morrer agora? - Brinquei simultaneamente com a conversa anterior, e com a forma de condução dele.

- Podia levar isto até aos 200 km/h que não te acontecia nada, Faith.

- Será? - Interroguei.

- Queres experimentar? - Calum carregou no acelerador levando aquilo até aos 150 km/h, sensivelmente.

Agarrei-me ao puxador da porta, com os olhos fechados e creio que umas lágrimas a cairem-me por estes a baixo. Gritei um pouco. Esta velocidade inesperada assistiu-me imenso.

- Para, Calum! Por favor! - Pedi, agoniada.

Ele parou. Riu de mim e eu não me importei, quando na verdade já estava habituada a que o fizessem noutras circunstancias. Baixei o rosto e apenas me deixei esperar pelo momento em que ele dissesse que já haviamos chegado. Porra, esse momento nunca mais chegava.

- Chegamos. - Finalmente. - É aqui? - Questionou.

- Na verdade é mais à frente, mas eu vou a pé. - Respondi-lhe.

- Não quero que te falte nada, Faith. - Brincou e continuou a andar com o carro até que lhe disse para parar. - Entregue.

Olho para o lado, para a casa onde vivo. Contemplo as janelas, fechadas, e as árvores em volta quase sem folhas nos ramos. Contemplo a tristeza envolvida nelas e na minha casa. A casa que bem me transparecia.

Volto a olhar para Calum que se fixa em mim. Novamente, olhos nos olhos. Receio pedir-lhe para parar de o fazer, mas não o faço.

- Onde vais almoçar? - Questionei quase como automático, deixando que o meu pensamento tomasse voz.

- Em casa, talvez. - Sorriu. Ele tinha um sorriso demasiado bonito para ser uma pessoa deprimida.

Lembro-me da casa. Vazia. Sozinha. Como eu. Somos dois. Sozinhos. Porque não? Porque não poderia ele subir e fazer-me um pouco de companhia? Oh, eu estou sozinha. Estamos os dois sozinhos. Precisaremos de companhia, ou de solidão?

- Queres almoçar comigo?

[...]

- Podemos comer apenas umas sandes! Eu contento-me com isso. FAITH!

Na meia hora seguinte, após Calum ter aceite o convite de almoço, andei a tagarelar pela cozinha, tentando encontrar alguma coisa que pudesse servir de almoço.

Ele gritava atrás de mim dizendo que não iria ser preciso algo de muito elaborado. Já eu, discordei.

- Se vieste almoçar, é para almoçar. Não é para fingir que almoças, Calum. - Ralhei.

Abaixei-me e vi por baixo do balcão, os enlatados. Haviam salsichas, atum, e depois as frutas. Havia também grão-de-bico e feijão frade. Não, não vamos comer isto.

- Faith! - encurralou-me entre o balcão e o seu corpo, tomando os meus pulsos nas suas enormes mãos. - Pára. Eu faço o almoço, então.

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