Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

2Likes
0Comentários
243Views
AA

4. 03. Filosofia do futuro

Caminho pelos corredores cinza procurando por um lugar onde possa comer qualquer coisa. Tenho o estômago vazio e este já me pedia desesperadamente por comida. Encontro, num pequeno departamento apertado uma máquina com sandes, sumos, rebuçados e coisas por ai. Ao olhar para lá deu-me a súbita vontade de comer tudo aquilo que ela contia. Com dificuldade tirei o porta-moedas da mochila. 

Os berros da multidão penetraram-se pelos meus tímpanos quando os fones me caíram ao chão, e eu juro por tudo que a minha reação mental foi mandar-lhes um berro para eles se calarem. Não julgues quem é como outrora já foste, Faith. 

Volto a pôr os fones e envolvo-me na música, abstraindo-me do mundo em volta. "How you Remind Me" dos Nickelback tocava no fundo, deixando-me com uma enorme saudade do passado.

Dou por mim a esquecer-me de tudo e a apreciar a minha figura, - vista como imaculada aos olhos dos outros - mergulhada em tons de melancolia e depressão. Estes olhos, que um dia gritaram paixão, hoje gritam desgosto.

[...]

"Eu sou tua mãe. Eu sei o que é bom ou não para ti. Tu tens de deixar aquele homem. Ainda és nova demais. Não te vou deixar ter nada com ele." Lembro-me de ela ter dito, e eu lembro-me também que foi a última coisa que ouvi vindo dela naquele diálogo de ideias.

" Nós somos amigos, e se tu não entendes isso provavelmente não os tens." Achei-me tão cruel ao dizer estas palavras secas e frias. O que me passou pela cabeça para dizer isso à minha própria mãe?

[...]

Perdi a completa noção do tempo enquanto me relembrava dos últimos meses. Foi tudo uma lástima. Eu sou uma lástima. Vejo-me aqui no meio, com pessoas na fila da máquina, parada. Remexida por memórias más, que um dia pensei que fossem boas.

A música mudou. Agora tocava a "Champagne Supernova" de Oasis. Esta música pode ter tanto significado para algumas pessoas, como pode, para outras, ser apenas um conjunto bonito de palavras que fazem sentido de acordo com os acordes. E estamos divididos assim. Sempre, em dois grupos. Neste caso, faço parte do primeiro. Faço parte da população que se vê nesta música.

"Quantas pessoas especiais mudam?Quantas vidas vivem estranhamente?"

Perguntava-me constantemente por aquilo que a música me interroga. Onde estão as respostas? Onde as posso encontrar e saber que não sou a única neste mundo que vive estranhamente? Onde posso descobrir que ele não foi a única pessoa especial que mudou?

Oh, ele não mudou simplesmente. Ele mudou-me. Ele contribuiu para a minha mudança quando me magoou tão brutalmente que todo o meu corpo se desfez em pequenas partículas de tristeza.

[...]

Os trovões teriam começado mesmo no momento em que eu dei entrada. Porra. um dos meus maiores medos é sem duvida a trovoada. Ninguém me pode garantir que eu não vou morrer com um trovão enquanto eu estiver abrigada em casa, escondida por baixo dos meus lençóis; mas também ninguém me vai garantir que eu não vou morrer agora, no centro de estudos, enquanto estiver a rever a matéria para o teste de matemática som dos trovões e, provavelmente, ao ritmo deles pois cada vez que os ouço contorço-me de medo.

- Estás bem? - Com um sorriso totalmente arrebatador, de me matar sem qualquer tipo de esforço, Tyler Parker, um dos professores, aproximou-se de mim e colocou uma das suas mãos sobre o meu ombro, mas logo de seguida retirou-a como se tivesse cometido o maior crime de toda Austrália.

- Es..estou.- Disse ainda a medo.

Tyler fazia troça de mim porque sabia o quão mal eu estava por dentro com o temporal que habitava lá fora.

- Não sou capaz de acreditar nisso, Faith. - Ele continuou com aquele bendito sorriso que tem.

- É bom que acredites. Eu estou sempre bem. - Ataquei em tom provocador.

Ao olhar para ele deparo-me com a vontade de estar envolvida nos seus braços, na sua vida, no seu tudo; mas há sempre um mas. Ele é a tão dita "areia demais" para a minha camioneta. Ele tem vinte e oito anos, e eu apenas dezasseis.

Tyler Parker é o fruto proibido mais apetecido da minha vida, e eu sou apenas uma cereja qualquer no meio de outras tantas, na sua.

- Vais para o centro da cidade, hoje? - Perguntei-lhe com um ligeiro tremor na voz. Ele vivia no centro de Melbourne, enquanto eu na periferia. - Da última vez que perguntei isto, não correu muito bem. - Sussurrei com um ligeiro sorriso inocente e com uma certa mágoa.

- Sim, eu vou.

- Oh. - Engoli em seco. Iria pedir-lhe para me levar, mas um relâmpago de conselhos vindo por parte de toda a gente fez-me voltar atrás com a minha ideia.- Tens dois minutos para mim... quando saíres? - Acabei por perguntar.

- Claro.

Estiquei-me na cadeira, aproximando-me mais um pouco dele e fiquei muito perto do seu ouvido.

- Encontra-me fora do parque de estacionamento às 18h15. - Sussurrei.

Foi um alívio dizer isto. O meu coração estava apertado e com uma saudade enorme a viver nele. Apenas foi preciso uma única semana para eu arrancar cabelos sem ele aqui. Talvez porque esta semana foi a pior de todas. Não por não ter a ajuda dele nos trabalhos de casa, mas sim por não sentir o seu cheiro ou o seu toque. Ou até mesmo ver o seu sorriso estonteante pelo conto do olho quando ele dizia uma piada qualquer enquanto ajudava outras raparigas como eu.

Estará isto a acontecer pelo mero destino? Pelo facto de a vida saber que eu me senti fraca sem ele aqui? Porque ele é a única pessoa que me ouve da maneira que eu quero. É a pessoa que ouve os meus gritos no silêncio e entende as minhas palavras mudas.

De facto não seria eu, Faith Miller, a única rapariga com esta idade apaixonada por um professor. Por um homem mais velho que eu. Todas estas à minha volta parecem encantadas por ele cada vez que ele passa.

- Eu estarei lá. - Ele piscou-me o olho.

[...]

Tenho mesmo de parar de pensar naquilo, ou naquele, que já nem sequer se lembra do meu nome, ou do meu toque. Aquele que foi outrora percorrido pelo seu corpo um dia.

- Está tudo bem? - Ouvi perguntarem quando a música acabou e um abanão foi exercido sobre o meu corpo.

Olho para o lado, com uma expressão nada arrogante e fixo-me no rapaz de cabelo escuro. Calum Hood, o atrasado. Ele encarava-me com um sorriso, ainda que me questione o porquê de o fazer, sendo eu tão presunçosa com ele. Com todos.

"Sais ao teu pai." Todos os dias a minha mãe repetia essa ladainha irritante que só quem a ouve diariamente a pode classificar como assim sendo.

- Estás aqui há mais de cinco minutos. - Gargalhou melodicamente ao meu ouvido.

- Estava a escolher o que comer. - Expliquei. Na verdade nem sequer o tinha escolhido ainda.

Calum empurrou-me com os quadris, sobressaltando-meDesequilibrei-me e por momentos pensei que fosse cair mesmo de rabo no chão. Rapaz estúpido. Dou por mim a querer esbofeteá-lo, só que o resto do coração de manteiga que possuo não me deixa, juntamente com aquela expressão que este rapaz usa quotidianamente.

- Hum... Não sei se reparaste, mas eu estava na fila. - Chamei-o à atenção.

- Queres uma sandes mista e um sumo? - Perguntou-me com algum dinheiro na mão, ignorando a minha chamada de atenção.

Recuo um pouco. Encaro-o e por dentro estou com a mão no peito, com uma expressão indignada e um sorriso fechado. "Tenho dinheiro para pagar as minhas coisas, rapaz." Pensei de mim para mim, fitando-o. Calum deixou desvanecer o sorriso que o envolvia nesta situação. Apontou para a pequena multidão atrás de nós, querendo ele dizer com isto que os outros estavam à espera que eu saísse dali. 

- Pago a minha comida, ok? - Deixei-me contagiar por ele.

Empurro-o de volta. Quase que não se moveu. Unicamente soltou uma gargalhada. Vejo-me revoltada. Hoje - e sempre - estou no modo "chateada com a vida", e sei que provavelmente ele não merece, nem ninguém com quem eu falo do modo que falo, mas não consigo mudar. Não consigo controlar o meu humor. É como se fosse um mau humor matinal que se prolonga por todo o dia, indo até à noite. 

Felizmente consegui pagar a minha comida. Achei que Hood se fosse embora, com um andar de convicção e glorioso, sendo que por tantas outras vezes aparenta ser assim. Ele não o fez. 

Foi desconfortável estar a comer e ter alguém a olhar para mim, compenetrado nos meus gestos. Vi-me quase como obrigada a perguntar-lhe se ele queria comida. Calum negou.

- És nova na escola? - Questionou.

- Parece que sim. - Respondo, elevando o tom o máximo que consegui, enquanto por nós passava uma multidão imensa de rapazes e raparigas aos gritos, descendo as escadas do pavilhão A.

Merda. Contemplo, depois de estes tantos passarem por nós, que um casal de namorados - talvez com a minha idade, talvez do meu ano - se encontrava encostado às portas pretas, altas, junto ao elevador. As portas dos contadores de luz, e afins. Ele estavam lá a trocar caricias. A darem abraços. Parecendo ou não sensibilizou-me, trazendo-me de volta aquela melancolia que me foi imposta pela música que saboreei à bem pouco tempo atrás.

[...]

Tyler estava no seu carro preto e eu ainda não consegui ver a marca, e sei que não preciso disso para nada. Para além de não entender nada sobre carros, não são as marcas que vão afetar o meu sentimento por ele.

Parece estranho dizer isto quase do nada, mas não. Tudo isto vem de trás. De coisas passadas. Mesmo com dezasseis anos eu consigo ver as coisas de outra maneira. De uma maneira mais soft que creio que ele não o faz, e eu alertei-o sobre isso a semana passada. Penso que levou a peito tudo aquilo que lhe havia dito, e acho bem que assim o tenha feito.

"Nunca se é velho demais para aprender com alguém mais novo." Ele disse-me uma vez.

- Olá. - Aclarei a voz ao chegar perto do carro. Tyler estava a mexer no telemóvel e eu fiz com que ele desviasse as atenções dele, para mim. - Podes sair do carro... um pouco? - Perguntei.

Já não estava a chover, mas ainda continuava um certo vento medonho, capaz de derrubar uma frágil pessoa.

- Claro. - Parker disse ao mesmo tempo que saía do carro. - O que se passa, Faith?

- Desculpa, eu vou ter de fazer isto.- Penso que o Mr. Parker já estava a ver a vida dele andar para trás. Ele estava a pensar que eu o ia beijar. Consegui ver isso nos seus olhos.

Mas eu não o fiz. Apenas me abracei a ele com uma força que eu nem sequer sabia que tinha. As minhas saudades falaram mais alto do que a minha própria voz esganiçada.

Do nada e involuntariamente, os meus olhos foram invadidos por um correr de água. Estou a chorar. Porquê? Ele está aqui agora.

- Esta semana foi tão... difícil. Eu precisava de ti. Tu, que és o único que me consegue entender. Senti saudades tuas, Tyler.

[...]

Até as mínimas palavras ditas, até o mais belo suspiro de amor, me fazia lembrar dele. Quando me envolvia em cada palavra de um livro, era nele que eu pensava. Quando eu sentia o toque de alguém, era nele que eu pensava, pois ninguém nunca vai ser capaz de me tocar como ele. 

Contemplo aquele casal, e mesmo nunca tendo estado perto de me tornar assim com Tyler, eles lembravam-me nós. No nosso primeiro abraço.

- De que escola eras? - Indagou Calum, puxando-me de volta para a vida real.

Acho que o facto de ter dormido pouco, juntamente com a minha fome, e com o pesadelo que tivera no curto espaço de tempo em que dormi, me estão a afetar e cada vez mais penso no meu passado e em diversas partes dele.

Tyler não devia estar no meu pensamento. Ele não devia.

- Hum... eu não era daqui. - Bebi um trago de sumo, trincando em seguida a sandes mista. Deliciando-me com ela. Com a tão esperada comida desde ontem à noite. - Era de Melbourne.

- Oh. Nova escola, nova cidade. Nova vida? - Questionou como um bom apreciador. Respondi-lhe com um sorriso calmo e sereno. - Entendo. Para bom entendedor, meia palavra basta.

"Para bom entendedor, meia palavra basta." Calum disse-o parecendo um sábio. O dito entendedor de que falou. Não me parece que ele seja. Sendo Calum uma mistura contraditória do bom e do mau. Aparentemente alguém puro que, interiormente, grita tudo menos pureza.

Ele parece ser a pessoa que todos adoram por alguma razão alheia, por um dito sentimento forte de obrigação para com ele. Uma obrigação de gostar dele apenas porque sim. Será ele o típico jogador de futebol? Podia ficar o resto do dia todo a fazer apostas mentais comigo mesma, mas do que valia a pena se a resposta certa não está em mim e sim nele? 

Sei que na verdade ninguém o conhecia devidamente. Ninguém. Era difícil as pessoas conhecerem um sujeito como ele. Sei tão bem disso que podia jogar com cada sentimento percorrente nas entranhas deste rapaz, ainda que ele não dissesse nada a ninguém. Sei tão bem porque fui assim, antes de ser como sou. Calum protegesse por trás de este sorriso, deveras encantador, que não duvido ser o sorriso mais amargurado de sempre. Mais triste. Ele parece ser como aquelas tardes de chuva que quase todos na verdade detestam, e apenas querem saber delas quando estão deprimidos. Prontos para um cinema, sozinhos ou acompanhados, embrulhados numa manta sob a luz da escuridão. Ele era vitima de interesseirismo.

Calum parecia ser aquelas pessoas que sofria por ausência. Pela ausência de ser amado, e de amar. Pois eu tenho a certeza que todas as pessoas que ele fingiu amar, são miragens. Nunca houve nenhuma paisagem na vida deste rapaz. Vejo isso naqueles olhos brilhantes de dor. 

- Algum motivo especifico? - Continuou com as questões quando adentramos o pavilhão B ao som do toque da campainha que nos indicava a próxima aula. Filosofia.

Não. - Sim, na verdade sim. Aliás, há sempre motivos para tudo.

Andávamos a par. Chegámos à sala e ele deu-me passagem. Não agradeci o cavalheirismo, embora gostasse de coisas dessas de vez em quando. 

Novamente sentou-se em frente a mim, como em todas as outras aulas. 

A meio desta, dei pela turma a ter uma plena discussão de ideias, como a própria filosofia designa ser feita, sobre os nossos futuros e o que planeamos fazer no final deste ano. Deste último ano.

- Faith? - A professora Elena Allen, olhou-me lançando-me um sorriso aconchegante, apontando para mim, para que eu, no meio destes que se matavam por entre ideias distintas, me pronunciasse em relação ao meu futuro.

- Na verdade ainda não sei, professora. - Retorqui, muito baixo. - Mas, tal como Gandhi outrora disse: "O futuro depende daquilo que fazemos no presente." - Todos olharam para mim e eu nem entendi o porquê daquela admiração súbita e desprezível vinda deles. - Então, eu estou a lutar por algo. Por uma vida. Por mim. Aquilo que eu fizer no futuro depende das decisões do mesmo. Apenas quero viver, respirar. Ser feliz.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...