Paper Souls * Calum Hood

"Tu és tão misteriosa e pensativa. Queria estar na tua cabeça nestes momentos, e saber o que pensas." "Oh, ninguém vai saber o que eu penso, Calum. Muito menos tu." Plágio é crime Copyright © 2015 All Rights Reserved by Cakeslittlegirl

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3. 02. Imaginar não basta

Melbourne, Junho de 2015

Deixo rolar o meu corpo por entre os cobertores, tentando-me aquecer sobre este frio que eu nem sequer sei se é psicológico, ou se não passa de uma súbita vontade de deprimir na cama, a ver um filme dramático, ou até mesmo ouvir uma música triste, revolvida pelos sentimentos explícitos no livro que tenho lido.

"As palavras que nunca te direi" de Nicholas Sparks, está neste momento pousado na mesa de cabeceira, esperando que eu acabe de o ler. A vontade neste dia deprimente foi embora.

Afinal, o que posso eu fazer quando tudo na minha vida deixa de fazer sentido de um segundo para o outro, ficando eu no mais profundo poço?

Por fim escolho cair no sono. Os meus olhos já lutavam contra a vontade que eu tinha de fazer alguma coisa de produtiva. Ou de ser feliz. Dormir ia ser sempre a solução para algum que não tinha solução.

São oito da noite e nem sequer tenho fome. De admirar. É sempre de admirar quando não tenho fome.

A minha mãe deve estar a chegar, mas eu não me importo porque não vou jantar. Não com ela; não hoje.

Não estou pronta para a ouvir, não estou pronta para ser criticada novamente, não estou pronta para chorar pelo mesmo.

Mal me sinto a dormir, sei que sou encaminhada para o mundo mais próximo existente. O mundo dos sonhos. 

Os sonhos andam em volta do meu pensamento durante este pouco tempo em que adormeço. Ouço berros e mais berros. Oh, um pesadelo. Merda. Quero acordar.

Começa a tornar-se difícil entender se é real ou mesmo um sonho. Custa-me a abrir os olhos. Deve ser do sonho. Apenas sei que ouço gotículas de chuva caírem contra a minha janela e acho isso esquisito porque é Junho e estamos na Austrália.

Finalmente consigo despertar e deparo-me com a realidade. Com os sons a fluir pelos meus ouvidos dentro, submersa audição e pontadas no coração. Não era um sonho.

- Para com isso, por favor! - Os gritos da minha mãe, vindos do andar de baixo, eram estridentes. Perturbadores. Assustadores.

Ela estava em agonia e eu ainda me encontrava sem ar, em choque, incapaz de me levantar para ir ver como ela se encontra e o que se passa para além deste quarto, mergulhado em solidão e tristeza de quem é assim por natureza. Tento entender, apenas com os suspiros, respirações e falas, aquilo que se vai passando, e a cada segundo mais que o faço perco o raciocínio de tudo o que captei anteriormente.

- Por favor. Para!

Sydney, Setembro de 2015

Desperto assustada. Sonhei com aquilo outra vez. É incrível como já se passaram três meses e o medo dentro de mim ainda perdura como se o acontecimento que me deixa assim tivesse sucedido ontem. Olho para o lado, para o relógio. São três da manhã. Suspiro de alivio pensando que desta vez foi apenas um sonho, mesmo.

Agora, sem sono, vejo-me a contemplar todas as partes do quarto. Teto, paredes. Os móveis são iguais, desde a ultima vez, e pergunto-me discretamente, enquanto o relógio faz tic-tac, "porque é que tudo me parece diferente?".

Passei pelo meu primeiro dia de aulas. Nada de especial. Tudo cansativo. Meu Deus, como eu desejava sair daqui. Ir para longe. Bem longe.

Serei eu banal demais para este mundo, ou o mundo é banal demais para mim?

Viro-me para um lado, segundos depois para o outro. O aquecimento dos cobertores já não me conforma, e aí eu penso que foi bom ter vindo. Por vários motivos. 

Sento-me no canto da cama, imaginando as estrelas. Imaginar não basta. Eu quero vê-lasE por muito tempo fui proibida de o fazer.

Porquê? Porque é que somos proibidos de algo que queremos? Porque é que nos querem cortar as asas agora e por a voar mais tarde? É possível voar com as asas cortadas?

Lentamente ganho coragem para me levantar definitivamente, indo até ao corredor. A mãe está a dormir. 

Adentro a cozinha, colho um copo do balcão e encho-o com água, desejando que fosse algo mais forte. Algo que me adormecesse. Algo que me deixasse em coma.

Encosto-me ao balcão. Em frente a esta área é o quarto da minha mãe onde, provavelmente, ela está a dormir descansada, livre dos seus demónios e defeitos, e quanto eu estou aqui a lutar contra eles como sempre fiz.

"Para, por favor." estas palavras fazem eco na minha cabeça. Tilintam-me nos neurônios e voltam-me a levar ao passado. Abano a cabeça, na esperança de remexer as ideias. De as apagar.

De novo no quarto ando de um lado para o outro na vontade de desaparecer. O ar podia evaporar-me

Vou até a janela e sento-me no parapeito. Daqui a nada começa a ver-se um pouco de luz. pôr-do-solO céu está bonito agora.

Um flash passa-me pela cabeça, então saiu do parapeito indo até ao vestuário. Escolho uma roupa.

Visto um top branco, umas calças pretas - rasgadas nos joelhos - e um casaco preto. Botas pretas também. Preparo a mochila. Não há muito que tenha de pôr lá. Ainda são os primeiros dias de aulas, então é raro darmos algum tipo de matéria. Metade dos professores ficam a falar sobre as férias que passaram nas Maldivas, ou aqueles dias em que estiveram deitados na cama durante horas porque lhes apeteceu fazer isso.

Tenho o básico. Um livro, um caderno qualquer, estojo, o telemóvel, os fones, o carregador e o porta-moedas. Falta-me o computador. Não o posso levar. Ainda assim, antes de sair de casa - como a minha cabeça planeia - liguei-o. Sinto falta de algo que só ele me pode trazer. Sinto falta de Clarke. Sinto falta da minha melhor amiga.

"Um dia, quando já aqui não estiveres, eu vou estar e trazer-te todas as recordações que algum dia te esqueceste." Lembro-me de ela dizer, lavada em lágrimas com a minha partida.

São quase quatro da manhã. Estará ela acordada, com as olheiras a bater no chão, ainda que sem sono? Estará ela à minha espera?

Olho para o nada e do nada surgem imagens vindas do tudo. Imagens dela. Que saudades que eu tenho de quando tudo estava mal e apenas as palavras vindas de Clarke faziam sentido e me ajudavam a recuperar daquilo que me tornei. Daquilo que me fizeram tornar.

Clarke era a rapariga dos olhos castanhos e do cabelo negro, comprido, em pequenos cachos de caracóis, Apaixonada por arte e pelo mundo imaginário que criou para apenas ela viver lá, refugiada da crueldade do mundo paralelo, do mundo real. Clarke era a pessoa que sabia sempre o que dizer quando mais ninguém sabia. Quando todos estavam mudos e ela era a voz que recitava Shakespeare na multidão sem vida.

Clarke era a minha melhor amiga. A única com quem falava, e saber que ela jat não está comigo porque o meu estado familiar não permite, faz-me crer que o mundo é demasiado cruel para Jovens como nós.

"A minha vida está um pesadelo. Tenho saudades tuas." Mando-lhe para o Skype. Ela está offline.

Fecho o computador de novo. Mergulho nos pensamentos inesperados, nos pensamentos passados e nas saudades de tempos que me faziam sorrir e não deprimir. Salto pela janela. Se a minha mãe descobrir isto, mata-me. Mas como poderá ela matar algo que já está morto?

Cruzo a rua onde ninguém vagueia. Apenas sombras de um luar já apagado e vestígios de um novo renascer. Do renascer do sol.

Tal como o sol, penso que toda a gente merece um renascer. Um novo começo. Mas afinal quantos de nós fazem para o ter? Será que alguém o faz realmente, ou ficam sentados esperando que algo surja do nada e que se torne tudo, unicamente numa fração de segundos? Será que eu o fiz? Será que eu lutei para um novo renascer? Não, eu não o fiz. Isto foi apenas uma obrigação inquirida pelo medo dentro de mim, percorrente por todos os fragmentos do meu corpo, frio e morto. Sem vida, sem mim. 

Os bares ainda estavam abertos e aquelas pessoas que, tal como eu, não tem alma, ficam fechadas neles deixando que um copo de vodka lhes queime a garganta e o cérebro. Lhes apague aquilo que elas não se querem lembrar para mais tarde se virem a arrepender do que fizeram. E porquê? Porque é que o fizeram? Porque existem demasiadas coisas que suportamos e que nem sequer devíamos. Existem demasiadas palavras ouvidas por acaso, e acções recebidas em troca de uma leve vingança - por assim dizendo - que não devíamos de sofrer.

E isto apenas anda em volta do nada. Anda em volta de tudo aquilo que desejamos e nunca antes deu certo. De tudo aquilo que quisemos e em troca recebemos um nada. Uma dor, um sofrimento, uma nega. Anda em volta de tudo aquilo que outrora fizemos para conquistar algo inconquistável.

Desço a rua, envolvida nos sons das músicas psicadélicas proeminentes. Traspasso uma paragem de autocarro, ainda sem saber o que estou a fazer. Quando olho para trás está um a chegar, e o meu pensamento cercasse em volta do certo e do errado. Ai chego à mera conclusão inconcluida de alguém que está perdida, que o errado só é errado se não experimentarmos e não testarmos os nossos limites e as margens que estão no nosso psicológico.

Entro no autocarro. Eram noturnos. Estes não se pagavam.

Sento-me, abraçada a mim própria. Ainda é tão cedo. Faltam tantas horas para ter de ir para a escola. Vou em direção à praia. Possivelmente iria acalmar-me ouvir o som das ondas bater nas rochas, o vento na minha cara, e as minhas mãos entrelaçarem-se pela areia fina, fazendo-a escorrer pelos meus dedos. Possivelmente irei ler até ao sol nascer. Até eu nascer novamente.

[...]

Arrasto o peso do meu corpo, conforme a velocidade que posso, até ao portão da escola. Merda, estou atrasada. Novamente. No segundo dia de aulas. Não importa se de qualquer maneira tenho coisas para fazer ainda antes de ir para as aulas. Cruzo o pavilhão B e ao entrar lá viro à direita, onde são as casas-de-banho femininas.

Desabo sobre mim e sobre aquilo que me tornei. Quando olho ao espelho, bem dentro dos meus olhos, penso que há um ano atrás tudo era diferente. Seria? Talvez em alguns aspetos.

Como deixei que isto fosse acontecer? Como me pude acostumar tão rápido a algo tão passageiro, ou como consegui ser tão fraca ao ponto de não estancar a situação como a água estanca o sangue?

Olho dentro dos meus olhos verdes e vejo-me em tons cinza. Seguidamente deixo de me ver focada. Unicamente partes de mim. Partículas. Lágrimas derramarem-se pela minha cara.

A vontade súbita de me magoar, de me matar, de parar de viver por algum motivo possível, é tão grande. Tornasse um cliché, e eu detesto clichés. Só que, tal como antes, num dia melancólico e deprimente enquanto olhava pela janela do autocarro dirigindo-me a casa, Daisy Stinson relembrou-me que: "Os cichés são os que vendem mais, Faith."

O que ela quereria dizer era que, por muito habitual que isto esteja a ser, é o que mais acontece às típicas pessoas da minha idade que não sabem ser ouvidas e compreendidas. Apenas julgadas para o meio do meio como sendo um monte de lixo.

Recupero, embora não ache que tenha uma recuperação possível. Olho-me novamente ao espelho. A mesma Faith, marca diferentes. Marcas diversas. Mais marcas. Pelos pulsos, pelo corpo, pelo psicológico. Pelo coração.

Tapo-me como se estivesse nua. Abraço-me, estando sozinha.

Subo as escadas. Tudo estava vazio, assim como eu. Faltava aqui a gargalhada conjunta de Clarke e Daisy, acompanhada com o olhar duvidoso de Mary Carter. Mary que era um anjo calmo. Cada palavra que soltava era semelhante a um cântico vindo dos Deuses, misturado com uma melodia graciosa de uma banda de Metal.

Mary era assim, uma mistura contraditória. Tanto dizia sim como não. Ela não tinha qualquer tipo de medo nem das respostas que pretendia dar. Quando estava mal ela queria estar sozinha, se alguém a chateasse eram os diabos. Mas Mary era a melhor pessoa para dar conselhos e um abraço nas piores ocasiões. Embora maior parte das vezes não conseguisse ter uma reação solida aos acontecimentos em sua volta, aqueles olhos verdes claros, transmitiam sempre algo. Amor, ódio ou compaixão, aquela rapariga tinha sempre algo. Sentia sempre algo. Não era como maior parte das pessoas que se mascarava. Não era como eu que deixei o meu brilho apagar-se, camuflar-se, desvanecer. Ela ainda restava. Ela ainda estava lá.

Cada degrau me trazia uma recordação à medida que os calcava. Cada suspiro que eu dava era uma promessa quebrada.

Finalmente chegou à sala. A habitual monotonia de quem não queria estar ali era bastante presente.

Ainda olho para as mesas à beira da janela. Estas salas são parecidas com as da minha antiga escola. 

Aqueles lugares pareciam marcados por assombrações de tão semelhantes que eram.

Sei que, na exata terceira mesa da primeira fila - contado verticalmente - sentava-me em todas as aulas, o ano passado. Na outra escola, na outra vida, no outro eu.

Agora, aqui em Sydney, dirigo-me para o final das mesas, na última fila destas. Encostada à parede. Olho para lá. Está vazia, mas diferente.

Ontem não tinha ninguém à minha frente. Hoje tenho um rapaz.

- Parece que se vai repetir muito os teus atrasos, Faith. - Disse a professora Angela.

- Desculpe. - Pedi fracamente.

Não tenho sequer um pingo de força nos pulmões para respirar em condições. Para falar. Agora não falo muito também.

Que contradição. Oh, Faith, Faith. Onde vieste tu parar? Uma rapariga que falava por sete cotovelos, hoje custa-lhe a dizer uma simples palavra? Como te deixaste ficar assim? Tu não és mais a minha Faith.

A voz de Daisy, a única voz que vagueia na minha cabeça, atirava-me à cara tudo aquilo que outrora fui. Arrependo-me de vir embora sem me despedir. Arrependo-me de não ter dado a conhecer o motivo, pelo menos a ela. Mas eu conheço-a. Conheço a Daisy como a palma das minhas mãos. A esta hora ela já sabe de tudo e aquela alma viva, escondida por entre demónios que não a libertam, já se culpa do porque de não me ter ajudado.

Só gostaria que ela entendesse que eu não tenho ajuda possível. Não vejo ajuda possível neste monte de acontecimentos que me deitam a baixo cada vez mais.

- Parece que vais ter concorrência, Hood. - Brincou a senhora, animada. Bem, alguém deve ter tido uma boa noite de sexo.

Hood... Era o rapaz em frente a mim e o que atrasou ontem. Bem, ele chegou primeiro que eu hoje.

Podia descreve-lo tão bem só de olhar para ele enquanto o trespasso para ir até ao meu lugar. Descrevê-lo psicologicamente. Daisy ensinou-me a analisar tão bem as pessoas.

Os seus olhos pequenos e rasgados, castanhos, gritavam solidão. Tal como todos, ele queria ser alguém que não era, mas na verdade não passava de uma pessoa mergulhada na tristeza de estar só. Oh, como eu o entendia. O seu brilho era falso, ele necessitava de alguém que o voltasse a reacender.

Ele é como uma vela. A ponta está queimada e vai ficar queimada para sempre, mas se a voltarem a acender a chama pegasse a ela. Calum Hood era assim. Parecia ser.

Sento-me por fim. Tudo parecia ter decorrido em câmara lenta.

Tinha tudo para continuar a pensar neste rapaz em frente a mim, com o cabelo negro, forte e ondulado. Não o fiz. Deixei de me preocupar com o que andava à minha volta, desde que se deixaram de preocupar comigo também.

Tiro o caderno e o estojo da mochila. Deixo em cima desta o livro que agora se encontra na reta final de leitura.

"Um momento inesquecível" de Nicholas Sparks.

Escrevo rapidamente no caderno aquilo que havia perdido da primeira parte da aula. Quando dou por mim, a olhar para o lado, o livro não estava lá. Encaro a pessoa à minha frente que me observa atentamente enquanto entro num desespero silencioso. Detesto que mexam no que é meu. Principalmente em livros.

- Nicholas Sparks? Não gosto. - Calum torceu o nariz.

- Nunca mais te atrevas a tocar no que é meu. - Fitei-o com um olhar perigosamente matador, nesta altura. - Atrasado. - Murmurei.

- Quem chegou mais tarde foste tu. - Com um sorriso, possivelmente contagiante para outras alturas, ele respondeu.

Não entendi se era sobre ele, ou sobre mim. Aquele rapaz era mais do que podiam dizer ou pensar. Faltava-me aqui a Daisy. Só ela me poderia dizer a verdade sobre ele.

- Imagino que me estejas a criticar, Faith. - Provocou, distraindo-me dos pensamentos, estes que eram centrados nos seus olhos onde neles via constelações perfeitamente formadas.

Imaginar não basta.

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