A Mente não Mente


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17. "When Nightmares come True"

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia que nunca deveria chegar:

01.12.15

"When Nightmares come true"

Como não percebi os sinais disso antes? A doença, Rogue-Sombre, a morte da minha mãe, mudanças repentinas na minha visão e até mesmo a minha capacidade de relembrar como Marcela morreu. Coisas que eu temia se tornando realidade. Os gritos de almas perdidas se silenciaram. É o silêncio. É a escuridão. O que me dá esperanças de viver e que me lembra de que eu sou especial é aquela luz que aparece minuto sim, minuto não. Ela está lá, me mostrando que há alguma coisa no fim desse túnel que eu não posso alcançar. Algumas vezes sinto que estou mais perto dela, outras vezes, mais longe. Nunca no mesmo lugar. É tão estranho. Será que é desse silêncio que Marshall falava? É para esse silêncio que todos nós viremos? Isso é uma fantasia. Eu quero o céu. O Inferno. Não importa. Eu quero sentir. Tentar. Mudar. Evoluir. Me dê algum lugar que não seja aqui. Me leve para algum lugar que não seja aqui. Ninguém me ouve ou não há outro lugar? Tudo o que recebo é só silêncio... Queria aquelas vozes dos meus alunos que não se calam, tendo sempre que chamar a atenção deles, principalmente dos mais novos. Queria novamente ouvir as músicas da minha mãe, ou mesmo suas lamentações – mentiras – dizendo que queria ter feito muito mais ao lado do meu pai. Mesmo as mais óbvias mentiras eram alguma coisa. Agora o silêncio me desnorteia. Sozinho. Calado. Morrendo. O fim dos tempos realmente está aí.

Que vida louca que eu tive... Tentando sempre encontrar alguma forma de arrancar a verdade das mãos da minha mãe sobre aquele santo dia em que meu pai se fora para sempre. Buscando sempre uma explicação científica para o meu problema, até mesmo quando a verdade está bem na minha frente. Acreditando, de todas as formas, que nunca fui amado, que as pessoas sempre mentiram para mim por causa de uma voz estúpida na minha cabeça. Por que esta tem de ser a verdade? Eu não posso criar minhas próprias verdades? O que seria da vida se fossemos destinados a seguir um único rumo por toda ela, o rumo de sempre ouvir o pior de nós mesmos, sempre ouvir as “verdades” que dizem sobre nós? Essa vida seria um lixo. Um lixo que eu não gostaria de viver. E nem quero viver.

02.12.15

“A idade chega para atrapalhar de vez os nossos planos. A gente começa a desejar ter feito tudo àquilo que não fez quando jovem e perceber todos os outros erros que cometemos. Gostaria de saber se você sentiu o mesmo quando morreu. Se toda a sua pele enrugada guardou algum sentimento por mim. Porque eu guardei. Vivendo entre esses mortais ignorantes eu descobri tanta coisa. Tanta coisa que eu deveria ter levado comigo desde sempre – todo o sempre. Sexo não é amor, é prazer. Ódio não é deixar alguém partir da sua vida, é sempre manter a pessoa perto do coração... Mas há tanta coisa, mamãe. Há tanta coisa que eu aprendi com esses Neandertais. Eu vejo a minha garotinha crescendo. Minha pequena flor amadurecendo, se apaixonando, sentindo, amando. Ela é diferente de nós, acredite. Ela não é uma deusa ou seja lá como se chama um híbrido nosso. Ela é uma humana. Do mais puro coração.

Depois que percebi que ninguém se importava com quem eu já fui um dia, eu procurei a morte. Tentei de múltiplas formas ser levada dessa vida, mas ali era o meu precioso Inferno. Apenas um homem veio me ajudar naquela depressão que eu estava. Ele se chamava Gideão Campos. Conversando, acabei me lembrando de quem era aquele homem que perdera há muito tempo o filho e a esposa. Por medo ou não sei o que não consegui dizer a verdade na hora. Dizer que aquilo ali era o que havia depois da morte e que ambos estavam bem do outro lado. Ao invés disso, mamãe, acabei por dizer que meu nome era Inês e que eu estava ali para trazer a felicidade na vida dele. Tivemos um belíssimo casamento na Igreja, onde nunca esperei entrar na minha vida toda. Usei um vestido branco e bem largo para não apertar a criança que eu segurava. Foi tudo tão lindo... Meu pequeno bebê nasceu alguns meses depois. Talvez foi egoísmo ou egocentrismo, mas acho que eu merecia. O nome dela era Fiona. A mais linda criança que já vi.

Agora, mamãe, devo me despedir deste mundo que tanto havíamos desprezado e que agora devoto. Minha pequena Fiona cresceu, e como cresceu... Tornou-se mais bela do que nós duas! Ainda é nova, mas vai aguentar a dor de ver sua mãe partir. Eu aguentei. Agora é a hora. Estou nervosa. Vivi pouco tempo aqui, mas foi o suficiente para acabar com toda a minha experiência no Inferno. Gideão já se foi... Coitado do meu amor... Agora é a hora. Adeus, mamãe. Espero que nosso destino seja melhor do que daqueles que ainda vivem.”

(Inês Campos, encontrada ao lado do plug da máquina que mantinha a autora viva. Carta para Deus)

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