A Mente não Mente


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6. Vozes Infantis

12.11.15 e 13.11.15

Daniel ainda está desconsertado pela perda de sua visão. "Tua visão levarei para o Inferno", Mamãe já dizia. Tenho medo do que ela pode me obrigar a fazer com o Dan. Eu ainda o amo, mesmo depois de tudo e ele não se lembrar de nada tudo por causa Dela. Tenho saudades de nossas espadas noturnas onde eu ia casa dele ou ele vinha na minha. Conversávamos a noite inteira e voltávamos correndo para nossas camas para que ninguém percebesse nada. É triste que minha morte tenha chegado tão cedo devido a Ela, eu tinha muito potencial para a minha idade, Ela dizia, e me queria do seu lado. Aceitei de imediato, contanto que Daniel pudesse ser tão feliz quanto eu fosse. Morri no dia seguinte com o acidente de ônibus em 1996, quando culpei o homem que não me salvou pela minha morte, sem saber que aquele seria o futuro de Daniel. Algo externo está fazendo com que ele vasculhe o passado, tenho medo do que ele possa encontrar. Mamãe, ou talvez outra Criança esteja fazendo com que Daniel revire o meu passado sombrio.

- Marcy? - Uma voz pergunta na minha mente. Não a ouço desde que morri no ônibus confuso. - É você mesmo?

Reconheço aquela voz assustada.

- Getúlio? Como você pode estar aqui?

Nem Rebeca nem Daniel estão mais no quarto, foram para o hospital, creio eu. Marshall sumiu cantarolando "Como nascem as Crianças", algo que eu preferia não ter ouvido. As barreiras do espelho ainda me cercam. Tateio pela tez de Getúlio, mas nada encontro.

- Não sei, Marcy... - Ele começa a chorar. - Você cresceu tanto desde aquele dia. - Ele assua o nariz. - Imagine como eu estarei. Não quero sair daqui. - Só então vejo seus sapatos pretos nas sombras.

- Oh, Getúlio... Não se preocupe, tenho certeza de que você estará igualzinho, mortos não envelhecem!

Posso ver metade de sua face enrugada surgindo das trevas do quarto.

- Por que estou aqui então? Ouço gemidos, pessoas falando sobre mães e sofrimento... Por que me escondo aqui?

Não há pele na outra metade de sua face. Acabo me assustando quando ele vira o rosto.

- O que foi? Estou tão feio assim?

Quero lhe contar tudo, mas hesito.

- Não, imagine só. Você. Feio. Nunca aconteceria! - Minha mentira parece convencê-lo. - Quer dar uma volta pela realidade? - Estendo minhas mãos para ele e sem pensar duas vezes ele se segura firme nelas.

- Por favor.

Saltamos entre as realidades tocando a barreira e conjurando palavras de Mamãe. Ele implora por luz do sol e é a primeira coisa que lhe concedo.

- Parecem décadas... - Ele começa a falar. - Parece que foi há décadas atrás que aparecemos na tevê, né? "Motorista louco sequestrou uma garotinha que parecia sua filha desaparecida...", é louco...

- Foi há vinte e um anos. Ninguém mais se lembra de nós. Pude começar uma carreira como musicista... - Ele me interrompe.

- Mesmo estando morta?

- Sim. Mamãe me ajuda com isso.

- Aquela mulher que te sequestrou ou sua mãe de verdade? Porque soube que Katrina morreu.

Abaixo a cabeça enquanto recolho algumas roupas que o casal deixou jogadas por aí. Cuecas, calcinhas, sutiãs, vestidos.

- Há outra pessoa. Outra criatura que exige ser chamada de Mamãe, por suas Crianças, que somos nós. Para os humanos, é somente Ela. Você já deve ter ouvido falar.

- Claro! Uma mulher bateu no meu portão no dia 30 de outubro, dizendo que seu nome era Ela e que ela tinha informações que minha filha havia sido sequestrada pelos empresários daquele prédio.

- Desde sempre Mamãe fez algumas travessuras para conseguir aquilo que queria: suas Crianças. Ela mata aqueles que estiverem no caminho, sem dó ou piedade.

- Pra quê Ela faz isso? - Ele pergunta enquanto explora a casa de Rebeca.

- Ela quer um exército de anomalias, quer nos transformar em suas armas para a guerra que se aproxima. - Respiro fundo. Estou falando rápido pela ansiedade de contar tudo pra alguém. - Mas sei que ela transa com algumas de suas criações. Ela só pensa em fortalecimento, e acredita que com sexo ficamos mais preparados psicologicamente e fisicamente estáveis. Marshall, hoje, é um de seus escravos sexuais mais conhecidos. Ele é um verdadeiro baba-ovo. Só sabe fazer isso e dedurar as outras aberrações por não seguirem os 10 mandamentos que ele mesmo criou. - Respiro mais uma vez e percebo que falei de mais.

- Uau. Você tinha bastante coisa pra contar...

- São coisas que eu guardo desde criança. Eu e Marshall crescemos juntos como Filhos da Mamãe, mas hoje ele só me machuca. "Nem mesmo minha irmã acredita no meu potencial, então quem acreditaria?", ele me perguntava todas as noites depois de nossos vinte anos. Mamãe ouvia as preces dele e o levou para a sua mansão no inferno, onde é sexo dia, noite, tarde. Basta Mamãe entrar no quarto do Marshall. Aí quando ele sabe que ela não irá aparecer porque está no quarto de outro cara, ele vem chorando pra mim, pedindo para sermos como irmãos de novo. Ele pede para fazer uma banda comigo.

- Você gosta dele?

- Claro! Ele é meu irmão! - Contesto.

- Não digo dessa forma. Quero dizer se você tem vontade de ser Ela algumas vezes.

Estou acariciando o lado da cama que Daniel estava. O carro de Rebeca estaciona na garagem e já posso ouvir a doce voz do Dan cantarolando coisas estranhas.

- Não tem nenhum macaco no quarto, Dan. - Rebeca dizia para ele antes de abrir a porta.

- Rápido, vamos para o espelho! - Digo puxando Getúlio contra o espelho. Damos de cara no vidro. O portal está fechado, Marshall o trancou. - Desculpa, Getúlio. - Estalo os dedos e não estou mais visível para os olhos mortais, apenas para aqueles que já foram retalhados.

- Você parece uma miragem, assim. - Comentou rindo.

- Dan, tem um homem na nossa casa! - Rebeca gritou ao ver Getúlio rindo para o espelho.

Daniel está numa cadeira de rodas. Ele saca um revólver. Essa não é uma boa ideia, amigo.

- O que veio fazer aqui? - Dan perguntou. Ele deve estar imaginando que algumas imagens são miragens, como eu ali no quarto. - Responda logo!

- Só vim dar um passeio. - Getúlio fica estalando seus dedos. - Precisava de um pouco de dinheiro, mas posso ir embora, sem mais problemas. - Nada acontece com os estalos.

Daniel atira em Getúlio e a bala atravessa seu corpo. Ele é um fantasma que se torna visível para os olhos mortais graças aos encantamentos da Mamãe. O disparo acaba por atingir a minha cabeça e meu feitiço é desativado. Estou visível. Rebeca suspira assustada e Daniel levanta da cadeira de rodas e corre até mim.

- O que você estava fazendo aqui, Marceline? - Dan pergunta antes de eu desmaiar.

Ouço várias vozes antes de ver a luz. Eu com oito anos contando como amo a minha mãe, eu com cinquenta odiando a Mamãe... A luz parece confortável, reconfortante.

- Mãe? É você mesmo? - Ouço uma voz diferente.

- Sou eu sim, minha flor. - Digo, mas não escolhi minhas palavras.

- Estava com saudades, estava te esperando. Um homem me deu essa dica. Gostou da surpresa?

Como eu era tola. Ainda bem que eu morri, penso, e mudei. Nunca me toquei de que eu era minha mãe lá no céu. Significa que eu morri. Não posso fazer, mais nada. Adeus, Dan, meu amor. Marshall, meu querido irmão. E morra, Mamãe, sua vaca.

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