A Mente não Mente


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9. Uma escolha, um coração

17.11.15 e 18.11.15

- Dan! - Uma voz feminina grita meu nome e só assim desperto do meu sono profundo. Sinto que morri, estou com dores, lembro-me do som dos disparos que me mataram, mas quando olho para o lado o despertador de Beca. São 8h50, temos de ir para a escola. Beca está pronta, com o quadro que me dera de presente em mãos. - Levanta, Dan! Estamos perdendo hora!

Apronto-me em segundos. Logo parece que já estamos no carro, de café tomado. 9h30 consta o relógio. Quando comemos? Pegamos o caminho do colégio. Beca está apressada, a luz está fraca.

- Sabia que eu te amo? - Ela pergunta.

- Mas é claro, Beca. Eu também te amo... - Dou um sorriso amarelo. Nunca trocamos algo além de "Ótimo sexo".

- Mas Dan... Eu te amo mesmo, sabe o que isso significa? - Ela espera uma resposta, mas não a entrego. - Você só pode ser meu! Não pode ser daquela puta da Marceline!

Ela acelera o carro em direção a uma doçaria qualquer, ela não parece estar brincando.

- Precisamos estar juntos até no momento da morte! - Seu sorriso agora é diabólico. - Aquela vadia nunca te terá, Dan! - Tento abrir a portas do veículo, mas estão trancadas. Vejo minha vida diante dos olhos. O filme é curto, não há tempo. Cerro meus olhos e sou jogado para dentro da loja, em cima de toda a vitrine destruída pelo carro. Meu corpo sangra. "Acha que já está bom, Marcy?", uma voz surge na minha mente. "Você também quer participar, não é? Pois bem". Ouço aquele tiro mais uma vez e a luz está próxima.

Marceline e eu estamos deitados no chão da casa de Beca, nus e debaixo de uma coberta. Ela fuma um cigarro singelo e segura firme o tecido sobre seus peitos.

- Sempre tive vontade de fazer isso, Dan. - Ela comenta num dos intervalos das tragadas. Sua voz é baixa, quase rouca. - Principalmente na casa da sua namorada.

Ouvimos um som na cozinha e ela se esconde. Enrolo-me na coberta e deito no sofá.

- Bom dia, Dan! Tudo certo? Como foi seu aniversá... - Ela não tem forças para continuar. Seu peito foi atravessado pelas garras de Marceline.

- O que você fez, Marcy? - Estou em pânico.

- Você é só meu, Dan. - Torno a ver um sorriso diabólico. O que isso significa? - Ela não poderia te ter... Só eu sei quanto amor você precisa e aguenta quanto sexo você quiser.

- Mas eu não quero isso, Marcela! - Suas garras se aproximam do meu pescoço. - Eu realmente não quero... - Minhas palavras são detidas pelos ciúmes de Marcy.

"Acho que agora deu", aquela mesma voz comenta.

Agora estou sentado numa cadeira elétrica, insetos percorrem o meu corpo. Meu maior inimigo: o grilo está próximo a minha orelha.

- Veja só quem sobreviveu aos sonhos das namoradas! - A mulher que cobre seu rosto com um véu preto comentou. - Já decidiu qual delas vai ser? - As luzes do cômodo se acendem. A minha esquerda vejo Beca amordaçada a uma cruz. Uma serra se aproxima de seu tronco. Na direita há Marcela. Ela está girando numa daquelas rodas de circo. A Mamãe continua atirando facas nos espaços entre os membros. - Uma delas vai com você, a outra fica... Para sempre. - Ela manda um beijo especial para Marcela. - Se demorar muito, ambas se vão. Decida com cuidado... Você tem sessenta segundos, Daniel.

Não quero escolher quem vive e quem morre.

- Lembre-se de que apenas uma delas te ama, a outra foi manipulada. - Mamãe me dá a dica.

Ela deve voltar de onde veio, não é? Mamãe a manipulou para que gostasse de mim, não é, Marcela? ALGUÉM ME RESPONDA!

- Vinte segundos e as duas serão enterradas juntas num rio de lava.

- Eu escolho a Rebeca. Ela me ama de verdade.

- Ai, querido... Você é um besta mesmo. - Percebo pena em sua voz. - Mas seu desejo é uma ordem. - Num estalo de dedos a serra que se aproxima de Beca para, eu estou livre e uma faca perfura o olho de Marcela. Ela está morta. - Veja só! De primeira! Estou melhorando nesse jogo, não é, Marshall? - Uma nuvem cobre o corpo de Rebeca e logo aquele cara do meu sonho está ali. Marshall, presumo.

- Onde está a Rebeca?! - Pergunto enfurecido.

- Longe daqui. Talvez morta. Não sabemos. Ela fugiu antes que pudéssemos amarrá-la aqui. Marshall foi um ótimo ator. Você tem sorte de ele ter te escolhido, sabia, brinquedinho?

- Sim, minha Rainha.

- Você tinha feito um acordo comigo! - Questiono.

- Dica número um do Inferno: Satan mente. - Como eu não percebi? - Agora vá. Você é inútil pra mim aqui. Você precisa estar no plano real. Se quiser, leve Marshall para dar um passeio.

- É, eu preciso cagar, bichinha. - Marshall zomba de mim. Mamãe ri.

- Então me leve lá pra cima... Por favor...?

- Seu desejo é uma ordem, Daniel. - Marshall estala os dedos. Não posso deixar de notar o sangue de Marcela escorrendo por toda a roda e manchando a faca. Eu sou tão imbecil assim?

Estamos agora em minha casa. Nada parece muito fora do comum até Marshall dizer:

- Acho que essa montanha de poeira aqui era um dos meus.

- Uma - Corrijo-o.

- Você se lembra de quem era?

- Não. - Minto. Aquele monstro é inesquecível.

- Sabe, você pode tornar essa minha visita ao mundo dos vivos um negócio muito bom. A gente pode procurar umas mulheres da vida... - A conversa não me agrada. - Talvez uns garotos de programa, se você preferir.

- Nem tudo se resume a sexo, sabia?

- Mas você adora, não adora?

- Somos humanos. Faz parte do nosso ciclo. Depois iremos morrer e nossos filhos irão fazer o mesmo.

- Não. - Ele balança a cabeça e põe um dedo nos meus lábios. - Não, Daniel. Eu me refiro ao prazer. Você não gosta?

Sai de perto dele. Busco uma vassoura e uma pá para limpar toda aquela sujeira e ele está com o meu quadro em mãos.

- O que você pensa que está fazendo? - Questiono jogando as coisas no chão e arrancando o quadro de suas mãos.

- É bonito. Sua namorada quem fez? - Balanço a cabeça.

- É o que eu tenho dela, agora. É meu presente de aniversário... - Abraço a tela. - Ela me deu isso para eu me lembrar do meu pai que já morreu há muito tempo.

- Desculpa, cara. Eu não sabia...

- O Inferno não sabia que alguém morreu? Conta outra.

Ele flutua até a minha frente e começa a falar:

- Para ir parar no Inferno é preciso morrer. Você não tem noção do que eu passei, das razões pelas quais eu sou viciado em sexo...

- Sério? Que interessante! Conta mais para aqueles que você matou, torturou e enganou. Pode ser?

- Eu estou tentando ser legal aqui, compartilhando experiências...

- Você me ameaçou e sequestrou. Acha mesmo que você pode ser legal?

- Ela tem meu coração em mãos, ela me controla, amigo. Eu não podia fazer nada, só agora que eu vim para cá com você que eu posso fazer o que eu quiser. Então, por favor, vamos fazer alguma coisa? Chamar umas garotas? Assistir a uns filmes?

- Seu coração?

- Agora você se interessa, não é? Eu morri com oito anos, na mesma época que a Marcela. Eu costumava a me chamar de Marcel, mas nós trocamos de nome no Reino de fogo... - Ele invocou uma guitarra e começa a tocar. - Fui uma das primeiras Crianças Dela, não foi uma coisa muito boa. Ela descobriu meus poderes. Tudo começou com o meu poder de ler mentes. Até 96 eu tive a chance de conhecer alguns grandes nomes que me inspiraram a escrever algumas músicas de criança. Não é só você que é filho de gente famosa sabia? Tenho saudades da minha mãe, Cordélia Pacis. Meu pai foi quem me levou para a morte. Foi logo depois que meus pais descobriram que eu podia ler mentes que ele disse que me levaria ao Guarujá, conhecer novos ares. São Paulo já não era mais tão bom na época.

- Ele te matou...? - Deduzi.

- Quem dera... Ele me levou sim para o Guarujá, onde ficamos num apartamento de uma prima dele. Na mesma noite em que chegamos ele abriu as portas para uns caras estranhos que usavam máscaras. Ainda me lembro bem das últimas palavras dele antes de me deixar sozinho com aqueles homens: "Divirtam-se meninos. Não esqueçam de finalizar rápido". Pude ler a mente dos encapuzados, não foi nada bom. Eles só pensavam no que iriam fazer comigo, uma aberração. Depois dos oito ou nove caras me violarem, levei um tiro no peito. - Os acordes que ele toca formam uma melodia fúnebre. - Mamãe me amaldiçoou a gostar da forma que me mataram, é o que ela faz quando você não coopera. Desde que fui parar no Inferno eu sou o brinquedo sexual dela. Por vontade própria.

- Eu me lembro da sua mãe. Ela ficou devastada com o ocorrido. Seu pai foi acusado de cúmplice por uma testemunha anônima.

- Fui eu. Foi o último pedido que fiz para Ela antes de me render às tentações do sexo.

- Nossa... Sinto muito, cara... - Olho no relógio ao lado, ainda são 11h. - Você ainda lê mentes?

- Um pouco. Mamãe nos ensina novas habilidades. Não podemos nos prender ao básico. Ela quer formar um exército, sabe? Quer controlar os mortos de todos os reinos, não só aqueles que pecam ou que procuram vingança. - Ele erra alguma coisa na guitarra. - Fora que ela absorve nossa capacidade de usar o básico. Você ainda consegue ouvir a verdade?

- Menos do que antes... Acho que é por tristeza, sinto falta da Rebeca...

- Ou da Marcela... - Ele completa.

- Pode ser. Eu gostava muito dela quando éramos menores...

- Ela é minha Irmã. Crescemos juntos no Inferno. Mamãe a obrigou a te observar há muito tempo. Foi como colocá-la num ninho de cobras; ela ficou desconfortável. Eu sabia o que ela sentia. Ela te amava, e te ama até agora mesmo no colégio em que você dá aula.

- Ela está lá?

- É o último pedido dela antes de cair nas tentações da Mamãe. - Ele prepara um estalo de dedos. - Quer que eu te leve?

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