A Mente não Mente


0Likes
0Comentários
2137Views
AA

3. Teste da Mamãe

09.11.15

Sinto dedos tocando minha face. A risada de uma garota é a última coisa que ouço antes de abrir os olhos e nada encontrar. Estou numa colina, sem nada para me impedir de ver o sol se despedindo ao meu lado. Ele está imenso, imagino onde esse sonho se passa. Vejo algo brilhando um pouco mais para baixo, parece um papel dourado. Movo-me para conseguir pegá-lo e toda a grama em volta de mim mexe-se junto. É como se eu estivesse em uma grande bola invisível. Estico meus braços para tentar pegar o bilhete dourado, mas algo me impede e eu não consigo ver o que é. Um vento forte bate e o papel voa, ficando com a face escrita voltada para minha barreira.

"Cuidado, Daniel, isto é um teste Dela", diz o bilhete.

Como um teste dela? Isso só pode ser paranoia. Olho para o céu que já está mais escuro e começo a ver as estrelas surgindo. Ouço passos e procuro ver quem é. Um homem trás um garoto numa mão e na outra um telescópio. Só consigo ver suas silhuetas, estão muito longe. Uma voz diferente daquela do ônibus diz: "Use e abuse" depois de algo morder minha orelha esquerda.

- Papai, você acha que é possível ver nosso futuro daqui? - Perguntou o garotinho.

- Talvez. Se você realmente quiser, tudo pode ser possível. Está vendo aquela estrela? - O senhor aponta para a estrela que brilha mais forte lá no alto e o garota afirma com a cabeça. - Ela representa nosso futuro juntos, o futuro que teremos juntos para todo sempre.

Não sei o que houve, mas tudo isso parece uma representação do quadro que Beca pintou pra mim de aniversário. "Use e abuse", ecoa na minha cabeça. Aquela estrela está morta, não existe mais há muito tempo. O homem está mentindo. "Diga em voz alta", a voz me aconselha com outra mordida na orelha.

- Ei! - Grito.

Pai e filho parecem tão felizes degustando das belezas da imaginação que tudo que eu consigo fazer quando eles olham na minha direção é me jogar no chão.

- Você não deveria desobedecer a Ela. - Um homem que sentou em minha barriga diz. Seus olhos eram vermelho-escuro, chegando quase num tom escarlate, mas sua pele não era pálida como todos que tinham Rogue-Sombre supostamente teriam. - Mamãe não gosta quando não fazem o que ela pediu, Daniel. Você precisa estragar a felicidade deles.

- Fale para a sua mamãezinha que eu não vou fazer nada disso. Eu tenho princípios.

- Isso é apenas um sonho, não é? - Ele pergunta, sarcástico.

- É o que eu acho.

- Por isso você não teme Mamãe, mas deveria. - Há uma pausa entre suas falas. Ele vira o rosto e posso ver dois furos no seu pescoço, como um vampiro. - Você precisa ver do que Ela é capaz para temê-la.

Ele agarra meus braços com força e ergue voo. Estamos rápidos, sem rumo, apenas na vertical. Ele vai me jogar?

- Não, não vou te jogar, seu bichinha. - Ele responde quase que instantaneamente depois da minha pergunta.

Só assim percebo que ele está na minha mente.

Atravessamos um mar de nuvens e há um novo mundo desse lado. É uma floresta escura, mas sem nenhum barulho.

- Vamos, gente, temos visitas! - Ele grita com um sorriso no rosto.

Várias pessoas começaram a sair de trás das árvores, do topo das copas e das sombras que outras faziam.

- Peguem leve com o brinquedinho. Ele acha que isso é um sonho. - Completa. Ouço a verdade, infelizmente: "Fodam com ele o máximo que puderem". Algumas pessoas já estão ficando estranhas. Cada vez que pisco algo está diferente. Mãos se transformam em patas, cabelos em cobras, pernas em caudas. São monstros me cercando. - Esperem! - Ele grita de repente. - Como funciona isso que acabou de acontecer, Daniel? - Não sei ao que ele se refere. - Ah, você sabe sim. Como que você sabia que eu estava mentindo? Precisa de algum estímulo? De alguma coisa?

- Eu não sei direito... Eu nunca entendi isso muito bem. - Estou assustado pelos monstros me cercando.

- Oh, Daniel, Daniel... Você tem de me responder agora ou você vai acordar com a bunda assada sem entender nada. Talvez alguns arranhões e mordidas. É bom ir para o hospital, nós temos cobras aqui, mas todos querem sexo! Anda, conta... Mamãe ficará feliz.

Não abro a boca por alguns segundos, decodificando aquela mentira. "Você vai morrer de qualquer jeito", é o que ele quer dizer.

- Está vendo! É isso o que eu quero! É isso o que Mamãe quer! - Ele grita com empolgação.

- Daniel? - É a voz de Beca.

- Saiba que se você não me falar agora, eu vou te perseguir e te destruir para conseguir aquilo que Mamãe quer.

Estou desaparecendo cada vez que Beca me chama.

- Boa sorte pra você, Rebeca Kreuz. - O ouço comentando.

Antes de sumir completamente, tenho a coragem de mandá-lo saciar a vontade daqueles animais e mostrar o dedo do meio. Ele grunhe e eu acordo.

- Daniel? - Beca está sentada em cima de mim, desesperada. - Ah! Graças a Deus! Achei que você tinha morrido! Não conseguia sentir seus batimentos ou ouvir sua respiração... - Ela se acalma. - Está tudo bem?

- Melhor agora com você aqui. - Olho para o relógio ao meu lado. São 11h. - Rápido! A escola! - Supostamente eu deveria estar lá às 9h e ela também.

- Eu liguei lá avisando que você estava doente e que eu iria cuidar de você. - Ela ri um pouco. - Mas essa coisa de você quase morrer aconteceu há alguns minutos... Antes você só estava com uma febre muito alta e não queria acordar, ficava repetindo "aquela estrela está morta, não há futuro. Pode me soltar agora?" E eu tinha medo de estar te machucando. Me desculpa, Dan...

Faço uma força pra levantar, mas estou fraco.

- Fica deitado. Eu faço tudo que você precisar.

- Pode pegar um copo d'água, por favor? - Pergunto, mas sem realmente querer.

Ela sorri e sai do quarto. Olho para o teto e depois para o espelho do armário.

- Daniel, Daniel... Você deveria cuidar melhor daqueles que ama, ou você pensa que ir à cozinha é um trabalho fácil?

Beca volta inteira e ele some deixando uma última frase no ar “Mamãe está te observando”.

- Alguém deixou esse bilhete dourado pra você. "Você falhou no teste, Dan. Sinto muito." - Ela lê em voz alta enquanto bebo a água.

- Pode jogar fora, não sei o que significa. Muito obrigado, Beca. Vou descansar um pouco, ok? Pode ir pintar se quiser, não precisa ficar me vigiando.

- Preciso sim! Tenho que cuidar muito bem daquilo que eu amo. - Ela fecha os olhos para me beijar e vejo-o no espelho mais uma vez. Ele escreve algo no ar, mas só entendo a primeira letra "M". O que poderia ser?

- Obrigado, de qualquer jeito. Mas estou cansado e se eu realmente estiver doente, preciso descansar bastante.

- Pode deixar, meine schatz, você vai ficar bem relaxado ficando aqui durante a semana. É a primeira vez que você vai passar uma segunda-feira aqui, é um milagre. Mesmo com tudo isso eu estou feliz com você aqui. - Ela beija minha testa e eu fico observando o teto, buscando respostas nas manchas e aranhas que se escondem por aí enquanto ela se revira do meu lado.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...