A Mente não Mente


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2. Passado Roubado

08.11.15

Mamãe me acorda com uma ligação às 11h com perguntas típicas de mãe ausente e uma congratulação fajuta - uma mentira mal dada. Acordo Beca para irmos ao Pão de Açúcar comprar mais doces para as crianças do bairro que virão pedir doces hoje a noite e ela me responde com um travesseiro na cara um belíssimo não.

- Você vai se arrepender de não comprar mais doces.

- Essas crianças vão se arrepender se tentarem algo comigo ou com a minha casa. Deita aí. - Ela diz bem brava. Puxa as cobertas e vira para o outro lado, sem dizer mais nada. O ronco dela era mais alto que meus pensamentos naquele instante.

Rio um pouco. "Não vou dormir sem cobertas", comento baixinho, pego meu passe livre de busões e fico no ponto, esperando o próximo com um shorts verde amassado, uma camiseta laranja e meus tênis de corrida coloridos. Alguns minutos se passam e lá está a minha carona. Dentro do ônibus vejo vários estranhos - gente estranha mesmo, não desconhecida - espalhados por aí. Escolho ficar de pé a sentar-me do lado de um idoso com óculos escuros e roupa colada. O velho desce duas paradas depois e eu me sento porque o supermercado com os melhores preços fica longe.

Por algum motivo sem sentido o motorista Getúlio - conheço-o de tanto pegar o mesmo ônibus - pega uma rota diferente, segue por uma rua que ninguém sabia onde daria. Poderia ser só ideia minha, mas ele parecia estar buscando o prédio da Coca-Cola, como todo bom carioca chama. É lá onde a filha dele foi vista pela última vez, ela estava fazendo faculdade e foi pesquisar mais sobre a empresa universal e simplesmente não voltou mais para casa naquele dia. Há algumas teorias que dizem que o refrigerante de cola da empresa é o principal causador da Rouge-Sombre e Gina, a filha do motorista, foi pesquisar coisas desse tipo.

Getúlio é um cara meio pirado, com uns parafusos a menos. Ele dizia que iria ser astronauta depois que ficasse mais velho, porque é de idosos que a NASA precisa. Mas também era aquele tipo de cara que faz tudo pela família. Lembro-me bem de uma vez quando a creche em que o filho dele, Luís, estava ligou pra ele. Luís tinha caído do escorregador e formado um galo na cabeça. A palavra "cair" já foi o suficiente para que Getúlio afundasse o pé no acelerador, quebrasse muitas leis de trânsito e levasse o filho da creche pra casa em poucos minutos. Só não foi demitido por eu ser um dos únicos passageiros, como sempre.

Agora, o que o homem estaria pensando em fazer no prédio da empresa que pode ter feito sua filha desaparecer? É o que pergunto pra ele enquanto ele chora e dirige a toda velocidade para a Lapa.

- Eu só quero ter uma conversa de homem pra homem com esses caras. - É a resposta que obtenho.

Um pouco do pânico do momento atrasa meu pensamento, mas logo ouço "Vou explodir esse ônibus naquele prédio com todo mundo dentro" e eu sei que ele o faria. Dentre a serra de prédios pode-se ver erguendo-se aquele prédio gigantesco da empresa. Carros buzinam de todos os lados, o motorista não respeita os semáforos e placas. É estranho como os outros passageiros não se importam com o que está ocorrendo, apenas uma garotinha está assustada. Sua mãe segura forte sua mão, mas ela tenta escapar. Aproximo-me dela.

- Qual seu nome?

- Não posso falar com estranhos. - Ela está ofegante, parece que quer fazer isso há um bom tempo.

- Pode soltar sua filha um pouco? Parece que você está machucando ela. - Agora pergunto para a mãe.

- Shhhh! - A garotinha me alerta. - Isso não é minha mãe. Essa coisa fingiu ser minha mãe e disse que me levaria à escola, mas hoje é domingo! Estou assustada, me aju...

O que quer que estivesse segurando a mão dela agora estapeia sua face.

- Não fale com estranhos, mocinha. - A mulher comenta com frieza.

- Eu vou te tirar... - O que a mulher disse está se repetindo na minha mente "Não fale com ele". - daí...

A garota consente com a cabeça, sua face está sangrando pelo anel que a mulher usa. Vou até o motorista mais uma vez e imploro para que pare.

- Não. Eu preciso ter essa conversa com eles. Nada mais me resta.

Já sei o que conversa quer dizer...

- Você vai matar todas essas pessoas aqui dentro só pra se sentir bem? Que tipo de pessoa você é? - Todos olham pra mim. - A morte nem sempre é a solução, Getúlio. Você não vai encontrar sua filha lá. E se ela foi sequestrada?

- E os sequestradores não pediram o resgate em três meses? Acho que não.

- É possível! Não se sabe mais o que eles querem hoje em dia. Por favor... Ao menos nos deixe descer...

- Não. - Ele saca uma arma. - Fique lá trás com todo mundo. - Ele diz apontando a arma pra mim.

Enquanto volto os olhares vão me seguindo. A garotinha está chorando "Eu vou morrer... Eu vou morrer...", ela se lamenta.

- NINGUÉM AQUI VAI MORRER, ESTÃO ME OUVINDO? NINGUÉM! - Grito com todas as forças que tenho disponíveis depois de acordar.

Estou no fundo no ônibus com a garotinha quando ouço um tiro. Estou de costas para Getúlio, mas me viro no mesmo instante do som. A arma está apontada para mim. Estou morto. Vejo o olhar dele "Me desculpe, não queria fazer isso, mas você me obrigou", quando na verdade a gente só faz o que a gente quer, ninguém nos obriga a nada. Os olhares estão na bala e a garotinha grita. Alguém lambe meu ouvido, "Não hoje, aniversariante", mas não reconheço a voz. A bala chega a encostar-se à minha camiseta laranja, mas quando percebo estou deitado na cama de Beca com o meu telefone tocando. É minha mãe. São 11h e ela está falando novamente aquelas coisas típica de mãe ausente e uma congratulação fajuta. Não consigo me levantar da cama. "Que porra está acontecendo?", me pergunto em voz alta.

- Daniel, volte a dormir, está tão bom com você aqui comigo... - Beca me diz enquanto me abraça e coloca a mão no lugar em que eu seria perfurado por uma bala.

Entrelaço meu braço direito com a sua cabeça e ela ronrona. Volto a dormir como se aquilo houvesse sido apenas um sonho.

Acordamos perto das 17h quando já deveríamos estar com todos os doces prontos. As pernas de Beca já estão normais de novo, mas a pressa não nos permitiu comemorar.

- Meu Deus! Os doces! Por que você não avisou antes, Dan? - Beca pergunta em pânico.

- Eu tentei, mas você queria dormir...

- Inventa outra, eu adoro comprar doces e enfeitar eles, você sabe disso.

Pegamos o carro da Beca que tem alguns canais na telinha e fomos até o Pão de Açúcar.

- Vamos ver o que perdemos hoje no canal de notícias. - Diz Beca empolgada.

Estamos chegando ao ponto em que aquele velho estranho tinha descido quando o programa volta do comercial.

"Halloween é uma data maldita mesmo. Todo ano em algum lugar do mundo uma tragédia acontece e dessa vez nosso país foi o escolhido. Um motorista louco de ônibus sequestrou uma garotinha que se parecia com a sua filha desaparecida e explodiu o veículo em que estava num prédio abandonado."

Eles mostraram a foto da garotinha e era a mesma do meu sonho. Cabelos negros e pele bem clara, usava uma roupa roxa como os vizinhos disseram.

- Nossa! Você conhecia esse cara? - Beca me pergunta.

- Sim... Ele quem me trazia até a sua casa várias vezes... - Minha voz está trêmula.

- O que foi, Dan? Você conhecia a garota também? Foi sua aluna?

Antes que eu abrisse a boca para responder nós chegamos num ponto onde não se podia mais ir adiante. Tudo estava interditado pelo estrago que Getúlio fez à rua. Carros capotados, em chamas, batidos. Vidro para todo lado.

- Que droga! Como vamos chegar ao Pão de Açúcar?

- Vamos ter que nos contentar com outros preços, Beca.

- Ok... - Ela não parecia muito animada com a decisão.

Fomos ao supermercado mais próximo e compramos algumas balas. Já era hora das crianças baterem de porta em porta quando chegamos a casa. Arrumamos bem rápido os itens da minha festa e atendemos as primeiras crianças.

- Deu tempo.

- Parabéns, Senhor namorado da Rebeca! - As crianças gritaram.

- É assim que você me apresenta pra vizinhança? - Brinco.

- É. - Ela esnoba. - Quer que eu diga o que? Amante número quatro?

- Achei que eu era o número um.

- Esse é o Giovani, ele é mil vezes melhor que você.

- Eu posso provar o contrário.

- Como?

Mais uma vez um ataque de cócegas basta para que ela ceda. Deixamos as balas na porta da frente com uma plaquinha "Pegue quantas quiser" e ficamos no quarto de Beca a noite toda.

- Daqui a algumas horas teremos que dar aulas. - Beca disse olhando o relógio por cima de mim.

- Pense positivo. Você estará dando aula na mesma escola que o seu melhor amante.

Ela bate no meu ombro e se levanta.

- Vou buscar um pouco d'água, amante número um. Quer um pouco?

Balanço a cabeça em sinal de negação.

- Vou dormir, ficarei até mais tarde que você amanhã.

- Ok, mas vê se não rouba todos os lençóis.

- My precious. - Brinco com o fato de ela gostar de Senhor dos Anéis.

- Bobo...

Fico sozinho no quarto, mas sem sono. Posso ver a luz da cozinha acesa e a sombra de Beca se movimentando de um lado para o outro, ela parece fazer tudo de propósito. Estou com um sorriso na cara que se desfaz na minha próxima piscada.

- Por que você não me salvou? - Aquela garotinha do ônibus me pergunta da porta do quarto. - Você prometeu.

Esfrego os olhos, mas é verdade. Lembro-me do que aquela mulher disse após lamber minha orelha direita: "Não hoje, aniversariante" e repito em voz alta.

- Como sabe que hoje é meu aniversário? - Ela pergunta.

- Porque hoje é o meu também. - Respondo com simpatia.

- E hoje era o dia de eu morrer? - Seus olhos estão se enchendo de lágrimas.

- Foi o que uma mulher me disse.

- Foi a minha mãe? - Ela parecia um pouco mais animada.

- Talvez. Não vi o rosto dela.

- Onde ela está? Eu vou procurá-la, não importa. Obrigada por tudo...

- Daniel. - Completo a frase dela. - Qual seu nome?

- Marcela, prazer. - Ela sorri e desaparece com a chegada de Beca.

- Achei que você fosse dormir. - Ela começa. - E olha que eu demorei bastante na cozinha por que um copo caiu.

- Eu estava só pensando nas aulas que eu terei que dar amanhã... - Minto.

- Você mente muito mal, Dan. Bom, boa noite, meine schatz. Durma com os anjos nesse dia tão especial. - Ela me dá um beijo e se deita ao meu lado.

- Com duas anjinhas com certeza, Beca...

Fecho os olhos para dormir, mas Marceline me acorda. Ela está nua em cima de mim, Beca não está do meu lado.

- Você é muito bom nisso, sabia, Dan? - Ela fala entre gemidos; ela está se movimentando para cima e para baixo. - Mas você não deve interferir no passado dos outros. É assim que Ela vai te reconhecer mais fácil. Você não está sozinho. Cuidado, Dan, Ela te observa.

Um flash de luz lá fora como um farol alto faz com que ela desapareça e Beca volte. Não entendo o que está ocorrendo, sempre pensei que eu era o único com esse tipo de falha, de poder encontrar a verdade na mentira, mas ela me diz que não. E quem diabos é Ela? Quero respostas, mas não sei onde encontrar. Uma lambida na minha orelha esquerda vem com uma resposta.

- Na escola, amanhã. Laboratório de Biologia, esteja sozinho.

Mas quando me viro não há nada. Mais uma vez encolho-me para dormir debaixo das cobertas. O ar condicionado está mais eficaz esta noite. Dou um último beijo na cabeça da Beca e fecho os olhos.

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