A Mente não Mente


0Likes
0Comentários
2141Views
AA

1. Não Minta pra Mim

07.11.15

Começa com uma mentira. Depois, por algum motivo, eu ouço a verdade. Não posso perguntar coisas que eu não queira saber a resposta, porque eu sempre saberei a verdade. Sempre. Já tive namoradas, mas em todos os casos houve aquela vez do "Eu te amo", que se tornava um "Só quero seu dinheiro", "Só te uso pra sexo, amo outro" ou mesmo "Sua mãe me pagou pra falar isso", o que nos leva a minha família. Filho de Eva Rabelo, incrível cantora da década de 80, e Gideão Campos, o homem que tocava o instrumento que minha mãe precisava. Eles foram um casal feliz, até me terem em 1988. Eles estavam se programando para sair do Brasil e lançar mamãe no exterior como "Le Magnefique Eva Champs". Queriam conhecer Paris, Lisboa, Sidney quem sabe, mas eu estraguei tudo, eles não podem esconder a verdade de mim. Contudo, num dia antes de eu completar 12 anos uma quadrilha invadiu nossa casa. Eles procuravam dinheiro e que lugar melhor do que casa de gente rica? Eram dois caras e uma mulher, eles pediam silêncio e diziam que nada iria acontecer se não reagíssemos. Nessa época, ouvir a verdade das pessoas ainda não era comum. O pânico do momento talvez tenha desencadeado o auge disso tudo, quando podia ouvir não só verdades, mas angústias e anseios também. "Silêncio, nada vai acontecer se vocês ficarem quietinhos" era na verdade "Andem, falem bastante, assim posso saciar meu desejo de estourar uns miolos". Meus pais não eram tontos, ficaram em silêncio o tempo inteiro, mas todos se esqueceram de que era hora da empregada chegar, Marinês. Ela tornou-se o algo principal. Pude ouvir a assaltante falando "Não podemos deixá-la sair daqui, ela vai chamar a polícia". O mais alto, aquele que queria que falássemos para que estourasse nossos miolos, já tomou à dianteira. Sacou uma arma e estava disposto a matá-la. Papai conseguiu se soltar nesse meio tempo, tirou sua mordaça e gritou com todas as suas forças: "Corta, Marinês, salve sua vida". Na mesma hora a mulher atirou nele e pôde-se ouvir a porta da frente batendo. Os assaltantes levaram muitos bens nossos, mas a vida do meu pai foi o mais precioso. Mamãe estava chorando antes mesmo de ele levar um tiro no peito, ela talvez tivesse previsto o ato, eu pensava na hora. Mas depois descobri que ela não havia sido amarrada, as cordas em volta da sua mão sequer estavam presas, mas nunca descobri o porquê. Por algum motivo nada mais sobre aquele dia se torna uma mentira. O trabalho é inverso. Mesmo verdades tornam-se mentiras. Eu me lembro do meu pai, morto no chão com sangue escorrendo da sua boca, seus olhos vidrados no espaço, mas se minha mãe me conta isso se torna uma história pra criança sobre seu animal de estimação "Ele foi viver na fazendo com os amigos dele". Naquele dia meu poder nasceu e creio que só morrerá junto comigo.

Hoje completa 15 anos da morte de meu pai. Amanhã, dia das bruxas, é meu aniversário. Dessa vez não pretendo prestar luto como todos os anos faço com mamãe - tocando suas músicas preferidas, incluindo "Imagine", "Let it Be" e "Hey Jude" - quero fazer algo diferente. Ligo para minha mãe de manhã. Ela está morando em Belo Horizonte, bem longe da nossa antiga casa no Rio de Janeiro, mas eu nunca desisti dessa cidade maravilhosa. Ela aceita meus termos, contanto que, como de costume, às 10h eu cante "Let it Be" para ele. Troco esse favor pela emancipação na escolha de namoradas. Ela ri, dizendo que não sabe nada sobre isso, mas sempre que vem à cidade uma nova garota surge na minha vida milagrosamente. Eu sei que ela paga para essas garotas fingirem que gostam de mim, me acalmarem com uma boa noite de amor e nunca mais aparecerem, mas as garotas ficam e o clima depois que elas me contam isso não costuma ficar legal. Ficamos nessa troca de favores tempo o suficiente para que meus créditos acabassem. Estou no busão, indo me encontrar com uma garota nova que conheci no início do ano letivo na escola que dou aula. Ela se chama Rebeca, tem os olhos mais claros que já vi, a pele mais rosada e macia que senti e os cabelos louros mais belos e cheiros que já tive o prazer de degustar. Ela é professora de História da Arte e nova na cidade do Rio, veio da Alemanha com uma passadinha de dois anos em Portugal para aprender o português tradicional. Nosso primeiro esbarrão no colégio foi uma coisa divertida:

- Você deve ser a nova professora de Artes, não é?

- Ya. - Ela me respondeu com um sotaque meio russo. - E você é? - agora já parecia que era portuguesa.

Soltei um riso antes de responder.

- Professor de Biologia, a seu dispor. - Curvo-me diante a magnificência que arrisco flertar com.

Seu riso baixo é engraçado. A mão que não segura livros de Artes está tentando esconder seus lábios carnudos, mas sem sucesso. Admiro aquele beiço com batom cor de rosa e pergunto:

- Você é alemã, não é? - Ela balança a cabeça e fala algo que se parece um sim em alemão. - O que veio fazer nesse país pacato?

Imagino que a resposta seja algo como "Encontrar homens sarados e me divertir bastante", ou ao menos imagino que ouvirei isso independente da resposta.

- Vim pelas belezas naturais e pela cultura que esse país maravilhoso tem.

Meu cérebro demora um pouco para processar aquela mentira por causa daquela cara instigante que ela está fazendo, mas em instantes ouço em minha mente: "Vim pelas belezas naturais e cultura, mas também procurar um homem maravilhoso que nem você". E eu não pude deixar de repetir alto o suficiente para que ela ouvisse. Rimos bastante e quando estava prestes a convidá-la para sair o sinal toca e uma manada de alunos sai pelos corredores em busca de suas próximas refeições de conhecimento, ou da caça aos professores. Ela é levada junto com a turma do quarto ano que está desesperada para pintarem suas mãos na parede da escola e eu fico ali, parado e sozinho quando todos já estão em suas respectivas salas de aula.

No ônibus eu riu lembrando-me disso tudo. Rebeca é tão animada, divertida. Ela conseguiu cativar até mesmo os mais difíceis do colégio com seu alemão e frases em russo que aprendeu com seu pai. É um ser radiante no meio de nuvens carregadas que tutelam naquela escola as mais variadas matérias. Eu era uma nuvem até aquele sol aparecer e iluminar a minha vida e sorrio conforme o ônibus para no ponto na frente da casa dela. O portão marrom nos separa. Toco o interfone e espero que ela abra a porta lá de dentro. Entro e já sou atacado pelas musas de Rebeca, Barbie e Polly, duas Yorkshires bem pequenininhas. Elas adoram visitas. Pego as duas no colo e vou me aventurando no jardim que existe entre a garagem e a casa. Consigo colher uma flor antes de bater na porta. Ouço-a gritar lá de dentro: "Pode entrar, a porta está aberta!". Giro a maçaneta e ela não está mentindo. Deixo as duas cadelinhas correrem soltas por aí e vou direto para o ateliê dela onde sei que posso sempre encontrá-la.

- Oi. Tudo bem? Trouxe isso pra você. - Digo após um beijo meio desajeitado pelo medo de me sujar de tinta e entregar a flor.

Ela ri.

- Obrigada, Senhor Romântico, mas tenho certeza de que essa era uma das flores que eu estava cultivando no jardim da frente.

- Não tive tempo de passar comprar, você sabe... Não é um dia muito feliz pra mim. Estou meio desconcertado, sem saber direito o que fazer.

- Ligou pra sua mãe?

Balanço a cabeça mostrando que sim. Ela limpa bem os dedos de tinta numa flanela ao lado do quadro que está pintando, tira o avental e me dá um abraço forte.

- Você pode sempre contar comigo, sabe disso.

Uma lágrima escorre na minha face e molha seus ombros desprotegidos. Choro porque ela é a primeira pessoa que me diz isso e é a verdade.

- Fica tranquilo, a gente vai de divertir hoje. Podemos fazer o que você quiser e se você quiser fazer absolutamente nada, eu crio os planos.

Beijo a cabeça dela.

- Posso ver a obra-prima? - Pergunto enquanto limpo minhas lágrimas.

Ela tenta me segurar, mas um ataque de cócegas a derruba. Na tela há um homem e uma criança observando o céu.

- Era pra ser surpresa. - Ela me diz com a mão no meu ombro. - Estive fazendo isso desde que me contou do seu pai. O homem seria ele e a criança você. Ambos olhando para o desconhecido, um futuro que nunca tiveram juntos... Ficou muito ruim? Muito mórbido?

Tenho vontade de chorar de novo, mas tenho de ser forte. Agradeço com um beijo bem dado em seus lábios que acaba descendo para seu pescoço. Sussurro galanteios em seus ouvidos e ela ri. Vamos para o quarto dela onde deixo não mais só seus ombros nus, mas todo o seu belo corpo. Ela está suja de tinta nos braços, mas isso não me incomoda. Ela pinta meu nariz com um pouco de tinta fresca azul que ainda tinha no seu dedo. Ataco-a com todas as minhas forças e ela cede, rindo sem parar. Só vejo os ponteiros do relógio se moverem. São quase 10h quando acabamos. Ela decide ir à cozinha começar a preparar o almoço e eu pergunto se há algum violão na casa.

- Tenho um que está destruído, mas você pode pedir na vizinha da casa roxa, ela é música. Nem sabia que você tocava, achei que era só piano e coisas clássicas.

- Tive que aprender de tudo um pouco para sustentar o ego da minha mãe. - Abaixo a cabeça. - Vou lá pedir, já volto, então.

Ponho minhas roupas que estavam jogadas pelo quarto dela e sigo pelo jardim pra buscar um violão. Um helicóptero está por perto. Está transmitindo ao vivo para a televisão, o barulho das hélices girando atrapalha meus pensamentos. Saio pelo portão e faço uma busca visual por uma casa roxa. Apenas uma se encaixa, a casa da frente, totalmente o oposto da casa de Rebeca. A casa roxa parece uma casa assombrada, abandonada. As janelas do primeiro andar estão quebradas e as do segundo não têm vidro. O jardim da frente está morto e alguns gnomos me observam enquanto sigo pelo caminho que dá direto para a porta da frente. Não há campainha ou interfone, apenas uma velha argola dourada. Encaixo meu punho no buraco e antes que eu possa usá-la para bater na porta, alguém abre a porta. Uma garota de cabelos roxos surge, seus olhos são escuros e a luz não permite que eu veja a cor deles.

- O que quer? - Sua voz é doce, por mais que sua aparência não seja.

- Sou namorado da Rebeca, sua vizinha da frente. Vim pedir um violão emprestado. - Digo, tentando parecer o mais simpático o possível.

- Vá comprar o seu. - Ela diz enquanto fecha a porta.

Ponho meu pé entre a porta e a parede.

- Sério, eu preciso de um violão. Você parece ser uma pessoa legal. Quer ir lá na casa da Rebeca? Nós teremos frango para o almoço, umas batatas fritas, salada...

Ela me entrega um violão preto antes que eu termine. Posso ver que seu braço todo é tatuado. Há caveiras, garras, diamantes e ossos por todo ele. Penso em dizer "Belas tatuagens", mas ela não me dá a oportunidade.

- Apenas saia daqui e me devolva ele inteiro. - E ela fecha a porta com muita força.

O helicóptero ainda está rondando aqui perto, mas consigo ouvir bem baixinho: "Volte pra mim inteiro, bobão.", mas não tenho certeza se ela fala de mim ou do violão.

São 10h e enquanto Rebeca cozinha o frango e o arroz, toco "Let it Be" em homenagem a meu pai. No final, minha única plateia me parabeniza.

- Sua voz é linda. Não sei por que você não é professor de música ou algo assim. Biologia? De onde você tirou isso?

Espero um pouco antes de responder, esperando pra ver se aquele elogio era verdade.

- Bom... Eu só queria entender mais do corpo humano, sei lá... Entender como funciona o cérebro, entender mais de genética e essas coisas.

- Você tem algum problema genético?

Ninguém nunca tinha me perguntado isso.

- Não. Só sinto pelos que têm. E dar aulas é uma coisa boa, transmito o conhecimento que tenho e posso despertar os mesmos interesses que tive por Biologia nessas crianças.

- Uau... - Ela começa a bater palmas - Parabéns. Um verdadeiro herói. Há quanto tempo não vejo um professor que gosta mesmo do que faz. Meu último namorado... - Sua voz começa a falhar e ela tenta vir até mim, mas tomba no meio do caminho por não conseguir se manter de pé.

- Rebeca!

Chamo uma ambulância e levo o corpo molenga dela para o sofá. Fico ao seu lado acariciando sua mão e sua testa com um pano úmido até os médicos chegarem. Eles fazem alguns exames nela e me fazem algumas perguntas. Depois de olharem no ateliê ouço um comentário: "Isso com certeza é Rouge-Sombre". Rouge-Sombre é uma doença que está se espalhando por todo o mundo. Começou na França e pelo seu último estágio ser dar olhos vermelho escuro ao infectado, foi chamada popularmente de Rouge-Sombre. O primeiro estágio causa desmaios, vômitos e instabilidade emocional. Eu pesquiso bastante sobre essa doença, já que ninguém ainda sabe o que causa ou cura isso. Porém, o comentário se alterou em minha mente, com a mesma voz do médico consegui ouvir "Isso com certeza é com Dela". Dela? Dela quem? Rebeca não fez nada...

- Senhor... – Um médico me acorda do devaneio.

- Rabelo. Senhor Rabelo Campos. - Completo a frase dele.

- Sim. Senhor Rabelo, sua namorada vai ficar bem. Dê bastante líquidos quando ela acordar e comam bem. Talvez a falta de nutrientes no corpo dela tenha feito ela desmaiar, sinto muito pelo susto. - Ele dá um tapinha no meu ombro e todos os médicos saem da casa.

Tudo é uma grande mentira. Volto a ouvir a falar Dela, mas sem mais informações. Rebeca acorda depois de alguns minutos. Está desnorteada, perdida.

- Beca, está tudo bem?

- O que houve?

- Você desmaiou enquanto preparava o almoço, chamei a ambulância e eles disseram que foi apenas desnutrição. Você não está comendo de novo?

Rebeca tinha anorexia até alguns meses atrás. Flagrei-a no ato e fiz com que parasse com essas coisas, mas não me impressionaria se só por eu ter parado de perguntar ela voltasse.

- Eu estou sim, meine schatz. Não sei o que aconteceu... Sinto muito pelo susto.

Ela disse a verdade. Abraço seu corpo ainda mole e peço para irmos almoçar.

- Estou faminta.

Ela tenta andar, mas suas pernas não colaboram. O estágio dois da Rouge-Sombre é tirar a funcionalidade dos membros. Ela está assustada, mas não deixo isso passar.

- Vamos, pra quê medo? Talvez sejam só problemas na circulação.

- Você é professor de Biologia. O que você realmente acha que é isso?

Dessa vez ela me pegou, não quero falar a verdade.

- Ouvi os médicos dizerem que pode ser aquela doença nova, Rouge-Sombre. - Digo com esperanças de apanhar ou de ter que consolá-la.

- Rouge-Sombre? Dos olhos vermelhos? Achei que no Brasil não houvesse muitos casos.

- Não há. Foram confirmados apenas três por todo o país. É difícil saber se é mesmo Rouge-Sombre, a doença se camufla de outras em certo estágio.

- Sim... Eu li uma matéria sobre isso... Não é sobre essa doença que você quer fazer seu mestrado? - Ela diz animada.

- Era, mas... - Sou interrompido.

- Então! Posso ser sua cobaia! - Ela diz sorrindo.

- Eu não faria isso com você, Beca...

- E faria com quem? Com alguém morrendo? Quer esperar eu chegar nesse estágio pra isso? - Agora ela está séria. A instabilidade emocional.

"Por favor, não quero mais ser inútil", ouço aquela mentira se tornando verdade.

- Beca, você não é inútil. Olhe quantos quadros você pintou! - Digo girando na sala com os braços abertos, mostrando todas as obras-primas que estão penduradas nas paredes amarelas do cômodo. - Você é fantástica. Vivo dizendo que você foi o raio de sol nas trevas da minha vida, mas tenho certeza de que você é na vida de todo mundo. Conseguiu cativar até mesmo o Jacinto com seus trabalhos de artes. Por favor, ninguém é inútil. Tenho 26 anos, amanhã farei 27, e nunca, na minha vida inteira, vi alguém mais especial e importante que você. - Ela está corada. - Agora vou trazer o seu almoço aqui porque estou morrendo de fome. Com licença. - Digo ainda com uma voz animada e confiante que faz ela rir.

Almoçamos na sala assistindo TV e rindo bastante. Barbie e Polly aparecem brincando uma com a outra e pedindo os restos do frango. Beca tenta levantar para ir até elas que estão do outro lado da sala. Ela levanta uma perna com a ajuda das mãos, está conseguido manter o equilíbrio.

- Se eu fosse você, estaria escrevendo ou filmando isso. - Ela disse voltada pra mim enquanto, com a ajuda das mãos, levantava a outra perna.

Pego o bloco de notas do meu celular e começo a escrever: "A paciente Rebeca Kreuz com suspeita de Rouge-Sombre já estaria no segundo estágio da doença. Suas pernas não obedecem a seus comandos ou conseguem estabilidade para ficarem eretas, mas com força de vontade e com meios externos, Rebeca está andando." Tiro uma foto e anexo à nota, Beca sente-se posando. Para a foto ela segura uma de suas pernas no alto e finge que está chutando o ar, algo à moda antiga. Ela ri bastante da situação, ignorando o fato de possivelmente ter uma doença terminal. Finalmente ela chega a suas Yorkshires. Ela acaricia as duas, beija a cabeça delas e manda-as irem brincar lá fora.

- Vamos devolver o violão da Marceline? - Ela me oferece.

Aceito com a cabeça. Seguimos pelo jardim onde encontrei um papel roxo, totalmente em branco, sem nada escrito. Guardo no bolso para jogar no lixo mais tarde e não no jardim dos outros. A casa de Marceline já não mais aparentava ter saído de um dos livros de Stephen King, agora era algo mais voltado para um filme da Barbie. O jardim era mais florido que o da Rebeca, o que dava um contraste com a cor roxa da casa que parece ter sido pintada ontem. As janelas todas inteiras e uma campainha na porta.

- Não entendo... - Exclamei pouco depois de Rebeca tocar a campainha, mas as travas sendo destrancadas me assustaram.

- Você sabe que aqui é seguro, Marceline. - Rebeca disse para a garota de cabelos roxos que tinha me emprestado o violão antes. - Ninguém aqui nunca foi assaltado.

- Meu medo não são assaltantes. - Sua voz parecia mais doce ainda, mas seu olhar fuzilante direto para mim depois dessa frase acabou com minha ilusão. - Vieram devolver meu violão?

- Sim. - Diz Rebeca com um sorriso estampado na cara.

- Achei que iriam usar muito mais, por isso emprestei um dos meus melhores. Que desperdício para essa madeira e essas cordas... O que tocou nele? - Seus olhos azuis estavam vidrados em mim e suas mãos acariciavam a madeira preta do violão.

- Só "Let it Be", em homenagem a meu pai. Hoje faz quinze anos que ele morreu e essa era a música preferida dele... - Digo meio sem jeito, mesmo que Rebeca já tivesse pisado no me pé para eu parar de me lamentar.

- Homenagear alguém com uma música é a coisa mais linda que se pode fazer. Por que você não disse isso quando veio aqui pedir o violão? - "Porque você bateu a porta na minha cara" - Não importa, quer saber? Eu vou ligar pra uns amigos e pedir pra eles tocarem "Let it Be" hoje em homenagem a seu pai. Que horas ele morreu?

- Às 10 horas da manhã, mas não precisa...

- Claro que precisa...

- Daniel, Daniel Rabelo Campos, prazer.

- NO WAY! - Ela grita. - Você é filho da Eva Rabelo?

- Sou. Você conhece? - Pergunto, já sabendo a resposta.

- Você não se lembra? A gente ficava brincando juntos nos bastidores enquanto nossos pais se apresentavam no palco. Marceline Morvarid, não lembra?

Não ouço mentira alguma, mas não consigo me lembrar de nada.

- Claaaro! A gente brincava bastante nos bastidores. Era divertido pra caramba. - Minto.

- Você está mentindo. Não se lembra de mim... Também, quem iria lembrar-se de uma garota gorda e feia que ficava correndo atrás de você? - Ela se lamenta enquanto fecha a porta.

- Espera. Quer jantar lá em casa hoje? Teremos pizza e como amanhã é aniversário do Daniel nós vamos ficar assistindo filmes de terror até tarde. Vai ter alguns outros professores do colégio lá, mas se quiser pode aparecer e de fantasia, claro. - Rebeca oferece na maior inocência.

- Não vai dar. Farei um show hoje no Bar da Meia-noite na Avenida das Américas. Estou tentando conseguir alguma coisa lá há séculos, eles diziam que só contratavam músicos de verdade...

- Quanto estão pagando pra você tocar lá? - Pergunto.

- Pouco. Não me consideram uma boa musicista. Sou um fracas... - Antes que ela termine eu intervenho.

- Dou R$1.000,00 pra você se apresentar na casa da Rebeca hoje.

As duas abrem a boca. Algumas vezes Beca esquece que sou rico. Marceline para pra pensar um pouco.

- É mais que o triplo do que me ofereceram. - Comenta.

Quero me redimir com ela por não me lembrar de antigamente.

- Eu aceito. Eu levo meus instrumentos e meu equipamento. Posso tocar na garagem?

- Com certeza. - Diz Beca, quando na verdade ela quer dizer "Não te quero tocando música gótica na minha casa na festa do meu namorado" com um sorriso.

Voltamos pra casa de Rebeca e repito em voz alta o que ela quis dizer com aquele "com certeza". Ela ri.

- Você sempre sabe o que minhas frases querem dizer.

Conversamos sobre a Marceline tocar aqui pra minha festa - que eu nem sabia que iria ter - e ela aceitou. Passamos o resto da tarde terminando aquele quadro que ela iria me dar de aniversário surpresa.

- Como você vai chamar nossa obra-prima? - pergunto.

- Nunca dei nome a um quadro antes. São todos pra mim mesmo...

- Esse é especial. Você vai dá-lo pra mim, não vai? Precisa de um nome.

- Ok... - Ela analisa o quadro por alguns segundos e assina a obra. - Que tal "A Mente não Mente"?

- Por quê?

- Bom, porque a sua mente não mente sobre o que você quer: carinho e atenção do seu pai.

- Perfeito. - Parabenizo-a enquanto bato palmas. - Vamos tomar um banho?

Ela concorda com a cabeça. São 19h e os convidados chegarão a três horas. Tomamos um bom banho juntos e fomos por nossas fantasias apressados. O interfone estava tocando, não percebemos o tempo passando. De conde Drácula atendo o interfone. É a pizza e Alberto, o professor de Física, com Natália, a professora de Português e sua esposa. Eles já comeram as azeitonas de uma das pizzas quando finalmente chego para pagar o entregador. Eles são o casal Frank Stein. Eles me ajudam a levar as pizzas para dentro onde encontram Rebeca de princesa Ariel numa cadeira de rodas.

- Por que numa cadeira de rodas, Beca? - Pergunta Natália.

- Para mostrar que ela não pode andar na terra. - "Não consigo andar direito" é o que ela quer dizer.

- Achei que algo tinha ocorrido.

- Não, Nat, fica tranquila. Olha. - Beca fica de pé e da um passo pra frente e volta a sentar. - Estou perfeita.

Natália fica aliviada. Mais convidados. Boa parte dos meus amigos professores comparece, outra parte não gosta muito da Beca e talvez por isso tenham ignorado o convite que ela fez pelo grupo do Facebook. Até mesmo o outro professor de Biologia, Evandro, de 57 anos veio com a esposa que foi a antiga professora de Artes do colégio, Martha, ambos de múmias.

- Você convidou todo mundo?! - Grito a pergunto no ouvido de Beca para que ela ouça mesmo com a música alta da Marceline.

- Quase!

Passa da meia-noite e todos começam a me parabenizar. Beca, Martha e Márcia, a professora de Espanhol, me trazem um bolo de camadas. As velas em cima do bolo deveriam dizer minha nova idade, mas mostram "72", por todos me acharem um jovem novo. Todos riem bastante disso e eu não inverto as velas até apagá-las com meu último desejo. O mesmo de todos os anos que nunca é cumprido: "Eu só quero saber a verdade sobre aquele dia".

- E aí? O que pediu, Daniel? - Beca me pergunta.

- Se eu contar, nunca irá se realizar.

Ela se contenta com a resposta. Todos pegam um pedaço de bolo, alguns brigadeiros que Alberto e Giovani, o professor de Inglês, fizeram entre outros doces que estavam disponíveis para nos darem cáries. Era a hora da sessão de filmes de terror e ninguém se decidia. Marceline e eu demos os nossos votos para o único filme sem nenhum, "A Hora do Pesadelo", e Beca acabou sorteando o nome de algum professor/convidado para que votasse no primeiro filme. Venci o primeiro sorteio e Marceline o segundo. A Hora do Pesadelo 1 e 2. Todos foram obrigados a assistir. Viramos a noite com filmes de terror num retroprojetor na garagem. As mulheres gritavam e tampavam os olhos, Giovani e Alberto também, mas tentavam manter a masculinidade. Por fim chegou a hora dos falsos presentes, uma brincadeira que temos entre nós, professores. Deixamos várias caixas, sacolas ou qualquer tipo de embalagem em cima de uma mesa e sorteia-se alguém para escolher um, a pessoa abre e pode ficar com aquilo ou trocar com alguém que abriu antes dela. A diversão está nos itens que os professores compram. Alguns trouxeram sacolas a mais, assim Marceline também pôde participar.

- Alberto! - Sorteei o primeiro.

Ele escolheu uma sacola redonda que parecia conter uma bola de futebol, mas na verdade era uma bunda inflável.

- Martha! - Alberto sorteou.

Ela escolheu uma caixa grande, a maior que tinha na mesa. Apenas caixas e mais caixas dentro. No final era apenas um chaveiro em formato duvidoso. Foi assim sucessivamente, algumas coisas boas surgiam, caixas de chocolate, coisas de cozinha e bichinhos de pelúcia, mas geravam brigas que ninguém gostava de assistir. Na minha vez encontrei um desses bichinhos de pelúcia, um ursinho segurando um coração com as inscrições "Mim ama vuxê" que troquei pelo cocô falso que Beca conseguiu. Um "Que fofo" uníssono por parte das mulheres foi ouvido e um "Que bosta" por parte dos homens e muita risada, mas que se transformou num "Eu queria ter feito isso pra minha mulher/namorada". A última foi Marceline que conseguiu R$300,00 e um bilhete escrito "Isso é pelo stripp que você vai fazer". Ela sentiu-se ofendida pelo papel, mas ficou com o dinheiro. Não ouvi ninguém comentando nada sobre aquela sacola que ela escolheu.  Apenas perguntas "Quem foi o babaca?". Todo mundo foi embora por volta das 5h e Beca e eu limpamos um pouco da bagunça antes de ir pra cama.

- Esperto de a sua parte usar essa cadeira de rodas, mas você assustou muita gente.

- Acho que no fundo, todo mundo soube o que estava acontecendo.

Beca dormiu rápido, ela estava cansada, teve um dia difícil. Queria ter caído no sono tão fácil quanto ela, mas fiquei bastante tempo olhando para o teto, pensando em Marceline e no que ela disse quando peguei o violão emprestado. Lembrei-me de que não havia jogado aquele papel roxo no lixo e peguei-o do bolso da minha calça quando levantei para beber um copo d'água. Tirei a tampa do lixo ao lado da pia e aproximei o papel dele. "Ela te observa, Daniel", consegui ler no papel. Soltei-o no mesmo instante e ele se dissolveu na pia molhada. As inscrições ficaram gravadas no granito que cobre a pia. "ELA te observa, Daniel" era possível de ser lido com as partes mais escuras da pedra. Acho que estou enlouquecendo pelo sono e volto para a cama. Estou com as duas mãos debaixo da cabeça e num piscar de olhos vejo Marceline com os olhos vermelho escuro na cama como se estivesse escalando um penhasco. "Não conte a verdade, Daniel, ou ela saberá", ela sussurra antes da minha próxima piscada.

- Daniel, vá dormir, por favor, você está se mexendo muito. - Beca reclama. - Mais tarde você faz o que você tem pra fazer.

- Sinto muito, amor. Já estou indo.

Encolho-me debaixo dos lençóis não esperando acordar mais tarde.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...